31 dezembro 2012

ANA PAUKER

Embora proclamada na teoria, a igualdade dos géneros não marcou a história do marxismo-leninismo. Entre os grandes dirigentes históricos do movimento há pouquíssimos exemplos de mulheres a destacar: a alemã Rosa Luxemburgo (1871-1919), a espanhola Dolores Ibárruri (1895-1989) e a romena Ana Pauker (1893-1960)¹. Esta última, será talvez a menos conhecida das três, mas foi ela que a revista Time considerou a mulher mais poderosa de então quando publicou um extenso artigo a seu respeito (acima) em Setembro de 1948. Nas disputas internas entre duas facções, as dos comunistas que haviam permanecido na Roménia como prisioneiros políticos e as dos que se tinham exilado em Moscovo entre 1930 e 1944, Ana Pauker encabeçava a última, tida por mais conforme os desejos de Estaline. Foi uma ironia histórica que a última paranóia de Estaline assumisse um carácter vincadamente anti-semita e que Ana Pauker (de origem judaica) se tornasse uma vítima dela, tendo sido demitida dos cargos políticos e governamentais que ocupava (ministra dos Negócios Estrangeiros) em Maio de 1952. Presa em Fevereiro de 1953 só a morte de Estaline um mês depois a terá livrado de um destino mais do que previsível: um espectacular julgamento público onde confessaria tudo seguido de execução. Prisioneira desde então, teve a sorte de morrer na cama descalça, algo que não chegou a acontecer com Nicolae Ceaușescu
¹ Generosamente poder-se-ia acrescentar ainda o nome da russa Alexandra Kollontai (1872-1952) à lista. Mas serão sempre poucos exemplos entre muito mais de uma centena de nomes masculinos.

30 dezembro 2012

O PAÍS DOS SEIS HINOS NACIONAIS

Entre os três símbolos tradicionais da sua identidade, embora possam mudar de chefe de estado com alguma regularidade (o que aliás é considerado saudavelmente democrático... em regimes republicanos), os países tendem a ser extremamente conservadores quanto às suas bandeiras e hinos. Por isso, não deixa de ser interessante contar aqui a história de um país que se pode considerar relativamente jovem (cerca de 150 anos) e que já teve seis hinos ao longo da sua existência: a Roménia¹.

Os primórdios da formação da Roménia moderna são conhecidos mas torna-se controverso escolher uma data precisa para a sua constituição como país independente. Quando ainda não existia formalmente o reino da Roménia, o principado que o precedeu já dispunha desde 1862 de um hino intitulado a Marcha Triunfal, marcha essa para a qual não encontrei versão no You Tube.

O reino da Roménia foi constituído em 1881 com a coroação de Carol I e, apropriadamente, um hino novo foi criado em 1884, Trăiască Regele, uma apropriada exaltação monárquica porque o título traduz-se por um Viva o Rei. Embora a história da monarquia romena tenha sido anormalmente turbulenta², o hino manteve-se como um bastião até ao fim do regime monárquico em 1947.

Seguiu-se-lhe um hino que não durou muito tempo (1948-1953), naquele estilo puro e duro do bom velho estalinismo: Zdrobite cătuşe que se poderá traduzir por grilhetas esmagadas. Na verdade tudo parece esmagado: a melodia do hino é horrível, o ritmo martelado. Até o escudo da nova República Popular da Roménia, mais o seu tractor de três chaminés, é de um gosto duvidoso.

Será apenas uma coincidência, mas apropriada, que o ano da mudança do hino da Roménia tenha coincidido com o da morte de Estaline (1953). Nesta evolução, Te slăvim, Românie! (Glorificamos-te ó Roménia!), o  novo hino romeno parecia dar mais enfâse à identidade nacional. Repare-se como, em simultâneo, o escudo nacional sofreu também algumas transformações.

Em 1965 a República Popular transformara-se na República Socialista da Roménia sob a égide de Nicolae Ceaușescu que, numa penúltima ruptura do país com o passado, mudou em 1977 o hino nacional para um ainda mais neutro Trei culori (Três Cores), numa referência à bandeira, ainda ao socialismo e comunismo, mas desaparecendo as menções a soviéticos ou a Lenine.

A Revolução de 1989, a deposição e execução de Ceaușescu, veio pôr fim ao regime comunista. Sintoma da instabilidade simbólica da nação romena, uma das imagens marcantes da revolução são as bandeiras esburacadas com o escudo nacional removido (abaixo). O hino nacional adoptado desde aí e que ainda hoje vigora intitula-se Deșteaptă-te, române! (Desperta romeno!).
¹ Para comparação, Portugal teve apenas dois hinos nacionais desde 1834.
² Carol II abdicou do trono no seu filho Miguel I (1927), para depois o destronar (1930), voltando a abdicar posteriormente (1940), novamente em Miguel.

29 dezembro 2012

OS GRANDES E OS MAIORES

Se Balsemão tem a reputação de ser tão grande na comunicação social portuguesa que quase não se a consegue manipular sem a sua conivência, esta fotografia acima relativiza um pouco essa pretensa grandeza, mostrando-o cordial mas deferente para com um Ricardo Salgado que sobranceiro e um palmo acima lhe aperta a mão sem sequer o encarar. Levando a ironia ao paradoxo, a dita fotografia foi retirada de um artigo do próprio Expresso de 2010 que os descreve em legenda como juntos pela sustentabilidade. Juntos, mas não certamente em pé de igualdade, que o banqueiro é que ajudará ao sustento do  segundo...
 
Emblema perfeito dessa magnificência, Ricardo Salgado prepara-se abaixo para embarcar para o Brasil, para a próxima passagem de ano, deixando para trás algumas recentes acusações de operações de evasão de capitais que vieram a ser posteriormente legalizadas quando a probabilidade dessas operações serem descobertas se tornou numa quase-certezaMagnificente, mas tão chico-esperto como os demais concidadãos, o gesto até se tornaria menos inaceitável se Ricardo Salgado, fazendo pela vida dele, não se pusesse a pregar moral, criticando outros por fazerem precisamente o mesmo pelas suas…
Adenda: Se se aceitar que 99,9% dos portugueses se evadiriam ao pagamento de impostos  na situação de Ricardo Salgado, como argumentam aqueles que defendem a sua atitude, fica-se a saber por outro lado que 96,2% deles não o irão copiar na opção de como passar o ano...  

28 dezembro 2012

A INFÂNCIA

De autor russo desconhecido, a força desta fotografia repousa na expressão da criança que confiantemente se deixa rodopiar agarrada pelos tornozelos. A mim e, suponho que a quase todos, chega a dar-nos a inveja de voltar a ser assim, de regresso àqueles tempos em que éramos tão confiantes naqueles em quem podíamos confiar.

27 dezembro 2012

CAFÉ 5 ESTRELAS

Ainda a pretexto do café, mas agora do embalado, vale a pena especular em como diferirão as atitudes para com os aldrabões desconhecidos como Artur Baptista da Silva e para aqueles que todos reconhecem da televisão, como José Castelo Branco, agora tornado (mais uma vez) notícia por ter sido caçado a roubar uma embalagem de café de um supermercado dos subúrbios. Azar da sua popularidade, ao ladrão de nada adianta desmentir o episódio porque terá havido dezenas de testemunhas… Estou para ver quanto durará (se houver…) o período de nojo até ao seu regresso às televisões. E estou para ver quem se insurge com esse regresso. Ou será que a moralidade, o civismo e a decência só têm importância quando se prestaram a ser armas de arremesso político? Há uma parte do país em que é sempre carnaval, ninguém leva a mal?

CAFÉ, BOSS?

Subindo o Mississípi é um álbum das aventuras de Lucky Luke da autoria da dupla Morris (desenho) e Goscinny (argumento). A história é sobre uma corrida entre dois daqueles barcos a vapor fluviais típicos mas o que ainda hoje mais me diverte nela é a sua galeria de personagens secundárias.
Há uma dupla que vale a pena destacar: trata-se de Ned, que é apresentado na própria história como o melhor e o mais mentiroso de todos os pilotos do Mississípi e Sam, o seu servidor de café, apresentado por Ned como o melhor da sua categoria do Mississípi e do Missúri, os dois juntos!
A dupla não tem um papel decisivo na acção, mas a personalidade de Ned, nomeadamente as histórias que ele vai contando a Lucky Luke, o papel deferente mas lúcido de Sam, fazem lembrar outras duplas literárias também desiguais de que o caso mais notável será Don Quixote e Sancho Pança.
Neste caso, de uma psicologia necessariamente mais simples do que a da famosa parelha de Cervantes, Sam notabiliza-se por estar sempre a oferecer café a Ned depois deste contar mais uma das suas histórias mirabolantes. Para o fim da aventura, a oferta do café – Café, Boss? – já se tornou um código de patranha.
Já houve mais do que uma ocasião em que numa situação em que alguém se alargava em considerações excessivas sobre determinado assunto me senti tentado a oferecer-lhe um cafezinho, ainda mais quando eu sabia haver na assistência quem percebesse qual era o simbolismo da oferta
Descobri neste mundo dos blogues e de grandes egos vários casos merecedores da cortesia, mas não tenho a certeza se todos os virtuais destinatários seriam tão inofensivos quanto o velho Ned, que não passava de um piloto do Mississípi que contava aquelas histórias para se fazer interessante...

26 dezembro 2012

O MOMENTO POLÍTICO E O TRADICIONAL RESPEITO PELAS INSTITUIÇÕES

Não pretendo comentar o conteúdo do discurso de Natal do primeiro-ministro. Não assisti. Como nesta fotografia tirada numa praia num dia nublado, ele há momentos em que nos apercebemos que o aparato está todo montado e, só por isso, se tira mais disfruto de fazer como o cão… A prenda é para o primeiro-ministro e os meus votos de continuação de Boas Festas para todos os outros que passem por aqui!

25 dezembro 2012

A TARDE DE CINEMA


Para os meus típicos dias de Natal de antanho era indispensável a tarde de cinema televisiva passando um velho filme a preto e branco num televisor correspondente - i.e., a preto e branco. Com um musical como o de cima, em que o protagonista (Eddie Cantor, conhecido por Olhos de Banjo) transitava fluidamente do diálogo para o canto (If You Knew Susie Like I Know Susie), como se a atitude de se desatar a cantar para os interlocutores se tratasse de uma atitude banal...

24 dezembro 2012

«ARTHUR’S THEME (BEST THAT YOU CAN DO)»


Esta canção de título complexo foi um hit de 1981 e é uma singela homenagem ao homem do momento: Artur Baptista da Silva, o homem que, conforme se sugere no título, fez o melhor que pôde e que se foi saindo muito bem até que… Mas o melhor Artur no género burlão continua a ser outro: Artur Virgílio Alves dos Reis. Separados por 87 anos, pode dizer-se que em comum os dois Artures busc(av)am soluções imaginativas para crises que afect(av)am as finanças públicas numa época em que a confiança dos cidadãos nas suas instituições está(va) muito abalada. Depois essa confiança só terá piorado...

A TERRA DA RAINHA ELIZABETH

Neste mapa antigo da Antárctida, copiado de um Atlas da década de 1950, ainda se podem reconhecer as reivindicações territoriais de potências e países adjacentes que dividem o continente como de uma pizza se tratasse (para o ampliar clicar em cima). Há parcelas de território que parecem perfeitamente organizadas (note-se como a fatia francesa se intromete entre duas fatias australianas maiores). Noutros casos, não estão. Fazendo lembrar, a propósito desta quadra natalícia, as disputas por certas zonas do bolo-rei que tivessem uma cobertura mais apetecível, também no caso havia sobreposições: a península que se destaca da massa continental aparece reivindicada simultaneamente por argentinos, britânicos e chilenos.
E depois há a identidade dos reivindicantes: compreende-se o interesse da Argentina, da Austrália, do Chile ou da Nova Zelândia, todos países do hemisfério Sul adjacentes à Antárctida (embora, pela mesma lógica, se estranhe a ausência da África do Sul). O do Reino Unido e da França (e também o da Alemanha do III Reich até 1945 – veja-se o mapa acima) já é explicável apenas pela lógica de potências com interesses globais. O da Noruega será o mais difícil de explicar, país situado do outro lado do Mundo, mas os direitos históricos comprovam-se pelo feito da expedição de Roald Amundsen, a primeira a atingir o Pólo Sul em Dezembro de 1911 (abaixo). Mas mais importantes serão as ausências: a dos Estados Unidos e da União Soviética.
Motivos diferentes haviam feito com que as duas superpotências tivessem ficado de fora da corrida para a Antárctida (uma corrida mais documental do que a sua antecessora para África) que se gerou depois de 1911. Encontrando-se na mesma situação, mesmo nos tempos mais quentes da Guerra-Fria, os dois países foram aliados no propósito de neutralizar as consequências políticas das reivindicações territoriais acima. Foi para isso que foi assinado em Washington em Dezembro de 1959 o Tratado da Antárctida, suspendendo as pretensões dos países envolvidos pelo período em que o Tratado vigorasse, promovendo a liberdade de exploração científica do continente, se possível em regime de cooperação internacional.
O Tratado, originalmente destinado a vigorar até 1991, foi prorrogado pelos signatários nesse ano até 2041. Actualmente haverá cerca de 30 países a operar umas 70 estações científicas por toda a Antárctida. A população residente variará entre um mínimo de 1.000 no Inverno até um máximo de 4.000 no Verão – que é agora, em Dezembro. Não será por acaso que os britânicos tenham escolhido a ocasião em que se celebra o seu jubileu de diamante (60 anos de reinado) para anunciar o baptismo de um território de 437.000 km² (5 vezes o tamanho de Portugal continental) da Antárctida com o nome da sua soberana – a Terra da Rainha Elizabeth (abaixo). Com 86 anos, é improvável que a rainha visite a Terra que agora recebeu o seu nome…
A questão é outra. Por detrás do status quo cooperante do Tratado trava-se uma feroz guerra toponómica. Não foi por acaso que acima escolhi a expressão neutra a península. Ela tem 4 nomes: Terra de San Martin, dado pelos argentinos, Terra de Graham, pelos britânicos, Terra de O’Higgins, pelos chilenos, e Península de Palmer, pelos norte-americanos. Estima-se que haja 3.000 outros locais com o mesmo problema. Na Antárctida totalmente desabitada, a toponímia pode ser um simulacro de exercício de soberania. Mas a ausência (ou pelo menos escassez) importante agora é a de topónimos em mandarim... O gesto britânico (e o protesto argentino) podem ser prenúncios de que o Tratado terá de ser profundamente revisto e talvez antes de 2041…

23 dezembro 2012

«YOU CAN CALL ME AL»


Ainda a propósito de desempenhos ministeriais este governo tornou-se atípico ao fugir à tradição de serem os ministros independentes, desguarnecidos da cobertura dos partidos, a enfardar as piores críticas nos media. Álvaro Santos Pereira foi um exemplo que começou por aí, a pretexto do famoso episódio da forma de tratamento, seguindo-se o da pastelaria típica, mas tem vindo a ganhar uma simpatia progressiva de sectores seleccionados ao mostrar que tem ideias e que, ao contrário do seu colega da Defesa criticado abaixo, sabe promovê-las junto dos intervenientes, explicá-las à opinião pública e defendê-las junto de quem se opõe à sua implementação. E nos tempos difíceis actuais, torna-se um elogio referir que um ministro se sabe fazer respeitar, deixem para lá a forma do tratamento...

INFANTILIDADES

Embora seja o segundo ministro mais velho do elenco governativo, o actual ministro da Defesa José Pedro Aguiar Branco consegue surpreender-nos pela simplicidade infantil de algumas das suas atitudes. Hoje, tentou persuadir-nos quão doloroso mas importante foi ter poupado uns milhares de euros não se deslocando neste Natal para junto dos militares destacados em operações no estrangeiro ao mesmo tempo que noutra notícia se relata que, perante pressões da presidência e de colegas de governo, decidiu esquecer um relatório que encomendara a 25 personalidades destacadas da sociedade portuguesa, seleccionadas sob sua responsabilidade, e que lhe haviam entregado o documento já há mais de dois meses. Na mesma onda juvenil e simples, apetece sugerir para 2013 uma poupança de uns milhões de euros: retira-se o contingente militar do Afeganistão e vai para lá ele, Aguiar Branco, ajudar a governar o país. Ou então não: se o Karzai fizer pressões para o recusar... regresse-se às origens.

22 dezembro 2012

FANTASMAS DE NATAIS PASSADOS

Inspirado pelo famoso conto de Charles Dickens, deixem-me levar os leitores deste blogue (certamente mais generosos que Ebenezer Scrooge…) a um fantasma de um Natal passado. Foi há precisamente 73 anos, a 22 de Dezembro que 1939 que saiu no Evening Standard (jornal londrino que ainda hoje se publica) a caricatura acima, juntando Hitler e Estaline a uma lareira, trocando presentes, dividindo esferas de influência. Os dois ainda haveriam de passar mais outro Natal amistoso (o de 1940) até que as referências natalícias aos soviéticos redigidas em língua inglesa mudassem de tom e passassem a ser de solidariedade na luta contra o inimigo comum, como é o caso do exemplo do cartaz abaixo. É um episódio repetidamente esquecido que a União Soviética, no decurso da Segunda Guerra Mundial, entrou por um lado e saiu por outro.

O BAILE


Quando aqui afixei ontem a versão disco de J’Attendrai ficou-me a impressão que, para além daquela de Dalida, já ouvira uma outra versão ainda mais superlativa. E ei-la acima, repuxada de um escaninho da memória, na abertura de O Baile. O Baile é um filme de 1983 que descreve os 50/60 anos precedentes da História da França, a partir da história de um salão de baile e de quem – sempre a mesma vintena de actores em papéis distintos – o frequentava. Ao longo das quase duas horas de duração do filme não existe qualquer diálogo. É nesse enquadramento musical que o J’Attendrai (Esperarei) serve de suporte à apresentação das damas; com a entrada dos cavalheiros passa-se a ouvir o sucesso musical de Gilbert Bécaud Et Maintenant (Onde a letra começa por: E agora? Que farei?) entremeado de passagens do Bolero. O vídeo acima contém apenas os primeiros 10 minutos d'O Baile – que chegam e sobram para mostrar a abertura do filme. Mas está disponível uma versão integral no Youtube para quem se entusiasme com ela.

21 dezembro 2012

«J’ATTENDRAI»


Este dia 21 de Dezembro de 2012 flui tão banal que me ia esquecendo quanto merece ser saudado por uma antiga canção francesa intitulada J’attendrai (esperarei). A espera é evidentemente pelo anunciado Fim do Mundo de acordo com a cronologia Maia. Mas de tão anunciado – já aqui o mencionara no Herdeiro de Aécio a 11 de Novembro de 2009! – prefiro a exuberância, a voz rouca e a pronúncia internacional da versão disco de Dalida dos anos 70 em vez da original, doce, de Rina Ketty nos anos 30. É só uma questão de esperar. Não tanto quanto a letra da canção promete, mas apenas até ao fim deste dia que será o último.
 
J'attendrai
Le jour et la nuit, j'attendrai toujours
Ton retour
J'attendrai
Car l'oiseau qui s'enfuit vient chercher l'oubli
Dans son nid
Le temps passe et court
En battant tristement
Dans mon cœur si lourd
Et pourtant, j'attendrai
Ton retour

J'attendrai
Le jour et la nuit, j'attendrai toujours
Ton retour
J'attendrai
Car l'oiseau qui s'enfuit vient chercher l'oubli
Dans son nid
Le temps passe et court
En battant tristement
Dans mon cœur si lourd
Et pourtant, j'attendrai
Ton retour

Le vent m'apporte
Des bruits lointains
Et dans ma porte
J'écoute en vain
Hélas, plus rien
Plus rien ne vient
J'attendrai
Le jour et la nuit, j'attendrai toujours
Ton retour

J'attendrai
Car l'oiseau qui s'enfuit vient chercher l'oubli
Dans son nid
Le temps passe et court
En battant tristement
Dans mon cœur si lourd
Et pourtant, j'attendrai
Ton retour
Et pourtant, j'attendrai
Ton retour

Le temps passe et court
En battant tristement
Dans mon cœur si lourd
Et pourtant, j'attendrai
Adenda: Entretanto alguém me enviou o programa das festas. O mínimo que se pode dizer é que as coisas estão um bocadinho atrasadas...

A DIALÉCTICA DOS ANTICONGELANTES

Anticongelantes são aqueles compostos químicos que se misturam com os líquidos para que a temperatura de solidificação destes se torne significativamente mais baixa. Num país setentrional como a União Soviética revel(av)am-se indispensáveis para o funcionamento de quase toda a maquinaria por causa das baixíssimas temperaturas no Inverno. A questão dialéctica que se pôs aos sucessores de Lenine é que os anticongelantes são álcoois, não só aquele que conhecemos, designamos e bebemos como tal, o etanol, como ainda outros, perigosos porque se assemelham ao anterior mas são tóxicos quando ingeridos, casos do metanol ou do etilenoglicol. O aviso pintado que se lê neste antigo quartel desactivado na Sibéria é uma recordação desse problema de saúde pública que o (quase) socialismo não chegou a resolver, lembrando aos militares enregelados ali destacados que os anticongelantes (АНТИФРИЗ – que se lê antifriz) são venenosos.

20 dezembro 2012

COMO PEIXES DE AQUÁRIO

Hoje, o banco suíço UBS tornou-se novamente notícia ao ser condenado ao pagamento de 1 500 milhões de dólares pela manipulação da Libor (uma taxa de referência bancária) em seu favor. Não foi há muito tempo (precisamente a 29 de Outubro) que eu havia dedicado aqui no Herdeiro um pequeno poste a essa mesma instituição (as imagens são precisamente as mesmas) a propósito de uma propagandeada redução de 10 000 postos de trabalho que até provocara uma valorização bolsista das suas acções. A notícia de hoje é mais sóbria, não nos esclarece qual o impacto deste anúncio público da multa na cotação da acções - suponho que não terá sido muito positivo... Mas o que não me cessa de me surpreender é esta falta de memória - quais peixinhos do aquário¹ - do jornalismo dito especializado que não consegue integrar notícias sobre a mesma instituição se apartadas de uns 50 dias. Será pelo perigo que o leitor, justapondo as notícias e chegando ao número de 150 000 dólares por cabeça, conclua que vão 10 000 pessoas para a rua por causa das falcatruas de uma meia centena de responsáveis? Os braços da UBS são tão longos que chegam até Portugal ou isto é só incompetência pura?   
¹ Alegadamente, os peixinhos de aquário têm uma memória reduzidíssima, de alguns segundos. Será por isso que podem ficar confinados sem se sentirem aprisionados.  

A FALHA TECTÓNICA

Poderemos descobrir muitas semelhanças entre Marcelo Rebelo de Sousa e José Pacheco Pereira. Têm quase a mesma idade (há apenas 25 dias de diferença entre as respectivas datas de nascimento!), cultivam o mesmo estilo de perfil intelectual e individualista, há mais de 20 anos que militam no mesmo partido onde ambos geram uma ampla dose de anticorpos (embora por causas diferentes, nunca haverá no PSD marcelistas nem pachequistas) e têm uma enorme dificuldade em esconder egos intermináveis. E ambos são estrelas mediáticas que se têm mantido consistentemente nesse desgastante firmamento – embora para audiências distintas. Mas há uma passagem da recente biografia de Marcelo Rebelo de Sousa escrita por Vítor Matos que evidencia a fenda de uma profundidade geológica que os separa:
 
Escreve-se sobre as candidaturas antes das autárquicas de 1997. (…) Sem se pronunciar, o líder do PSD (Marcelo Rebelo de Sousa) tentava prolongar a agonia do ex-presidente do Sporting (Pedro Santana Lopes), a pensar que, com tantas hipóteses em cima da mesa, acabaria por não escolher nenhuma. «Até que o Pacheco Pereira, com aquela falta de sentido político que sempre o caracteriza, decidiu estragar tudo, e decide vetá-lo para Sintra. Foi uma asneira monumental», diz Marcelo. O líder da distrital de Lisboa impediu que um dos seus ódios de estimação concorresse a uma eleição onde era difícil vencer. Na perspectiva de Marcelo, era fazer de Santana uma vítima e atirá-lo para uma Câmara mais fácil. Foi o que aconteceu.(...)
In Marcelo Rebelo de Sousa de Vítor Matos (p. 550)
 
A passagem tem o requinte de conter uma citação em discurso directo expondo a obtusidade em que Marcelo Rebelo de Sousa tem José Pacheco Pereira. É difícil ultrapassar a acusação que um político se caracteriza por uma permanente falta de sentido político. Porém, ao contrário de muitos dos outros rivais/inimigos de Marcelo Rebelo de Sousa, deduz-se que José Pacheco Pereira não tem quaisquer complexos de índole intelectual em relação a ele e à sua tão propalada inteligência. Para ele, terá sido com frontalidade, por um entendimento da ética diverso do de Marcelo que não se dispôs a armadilhar a candidatura de Pedro Santana Lopes por Sintra. Mais, é muito provável que José Pacheco Pereira manifeste um desprezo incomensurável por tal tipo de manobras. Há uma falha tectónica a separar aquelas duas vedetas mediáticas.

19 dezembro 2012

O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO

Foi o acaso que me fez chegar a esta fotografia que de imediato classifiquei entre as melhores para simbolizar o PREC. Tirada em Fevereiro de 1975 perto do Largo do Saldanha em Lisboa por uma equipa de fotógrafos holandeses vindos à procura de uma Portugal revolucionário e, se calhar, com o proletariado nas ruas, vai encontrá-lo, a esse proletariado, encarnado no miúdo que as circunstâncias haviam tornado já engraxador ou no cauteleiro perneta, ambos desinteressados do apelo pichado no tapume pela organização da classe trabalhadora. Não se chega a perceber qual o partido que promove o apelo (pela linguagem, haverá mais do que uma meia dúzia de suspeitos!) mas, pela reacção dos presentes, fica a sensação que os autores da pintura não virão dos mesmos meios que os elementos da classe que ali labutam, desorganizadamente, que isto das nossas esquerdas sempre se caracterizou mais pela retórica do que pela solidariedade para com as classes pelas quais diz lutar e pretender organizar. Não fosse isso assim, e o populismo de figuras tão pouco recomendáveis como Isaltino de Morais não vingaria nos bairros pobres e/ou não haveria tanto receio das declarações destrambelhadas de pessoas como Isabel Jonet.

18 dezembro 2012

«ÇA SENT SI BON LA FRANCE!»


Uma tradução mais interpretativa do que literal do título desta canção interpretada por Maurice Chevalier (que atrás mencionei) será : ‘Tá-se tão bem em França! A letra, que insiro abaixo mas que desta vez não traduzo (que me desculpem), fala de alguém que regressa ao país de comboio, que se maravilha com tudo o que vê e vive e que mostra pretender voltar à sua vida de antes da (Segunda) Guerra (Mundial). Estava-se em 1941 e subentendia-se que o regressado fosse um ex-prisioneiro de guerra, um dos milhões capturados na derrota de Junho do ano anterior e que era libertado agora pelos alemães devido à política de cooperação do governo de Vichy, encabeçado pelo Marechal Pétain. Por toda a França a palavra de ordem dada aos franceses era para se portarem bem e essa atitude incluía mesmo – pelo menos até 22 de Junho de 1941… – os comunistas, cujas instruções vindas de Moscovo iam no sentido de não provocarem atritos que perturbassem a aliança firmada entre Hitler e Estaline… Como se sabe, a uns e a outros, a todos de nada lhes adiantou portarem-se bem...

 Quand on a roulé sur la terre entière,
On meurt d'envie de retour dans le train
Le nez au carreau d'ouvrir la portière,
Et d'embrasser tout comme du bon pain.

Ce vieux clocher dans le soleil couchant
Ça sent si bon la France !
Ces grands blés mûrs emplis de fleurs des champs,
Ça sent si bon la France !
Ce jardinet où l'on voit "Chien méchant"
Ça sent si bon la France !
A chaque gare un murmure,
En passant vous saisit :
"Paris direct, en voiture"
Oh ça sent bon le pays !

On arrive enfin, fini le voyage.
Un vieux copain vient vous sauter au cou.
Il a l'air heureux, on l'est davantage,
Car en sortant tout vous en fiche un coup.

Le long des rues ces refrains de chez nous,
Ça sent si bon la France !
Sur un trottoir ce clochard aux yeux doux,
Ça sent si bon la France !
Ces gens qui passent en dehors des clous,
Ça sent si bon la France !
Les moineaux qui vous effleurent,
La gouaille des titis,
"Paris Midi,
Dernière heure."
Oh ça sent bon le pays !

Et tout doucement, la vie recommence,
On s'était promis de tout avaler.
Mais les rêves bleus, les projets immenses,
Pour quelques jours on les laisse filer.

Cette brunette aux yeux de paradis,
Oh ça sent si bon la France !
Le PMU qui ferme avant midi "Oh là, oh là là !"
Ça sent si bon la France !
Le petit bar où l'on vous fait crédit.
Oh ça sent si bon la France !
C'est samedi faut plus s'en faire, repos jusqu'à lundi !
Belote et re-, dix de der.
Ça sent bon le pays !

Quel pays ?
Mais ça sent bon notre pays, mais oui !

EM HONRA DE UMA CERTA «INVESTIGAÇÃO» ACADÉMICA

Só por preguiça não vos posso dizer qual a edição do meu Marketing Management de Philip Kotler. Foi um daqueles livros que se teve de ler e que, ao contrário d’Os Maias, nem está particularmente bem escrito. Está arrumado/esquecido na arrecadação. Mas parece-me continuar a ser uma daquelas bíblias académicas que são incontornáveis para quem estuda o mundo da gestão empresarial: vai na sua 14ª Edição! O seu autor Philip Kotler ter-se-á transformado num guru do Marketing e, mesmo aos 81 anos, deve continuar a dar as suas conferências Mundo fora, embora não me consta que tenha um programa de televisão semanal só para si, onde uma jornalista dedicada como Judite Sousa lhe faz perguntas para o indignar como acontece com Medina Carreira, que tem precisamente a mesma idade – mas menos relevo académico…
O contributo teórico de Kotler, que recordo sem precisar de ir à arrecadação, é a sistematização das questões associadas com a Gestão Comercial através da uma fácil mnemónica de 4 Ps: produto, preço, distribuição (place em inglês) e promoção. Depois, ao longo da minha vida profissional apanhei com vários seminários dedicados à actividade comercial e, como era praxe ir ao assunto, apercebi-me que ele evoluiu como certas receitas culinárias. Cada mestre cuca retocava a designação de um dos Ps e/ou então juntava-lhe outro novo e nos finais da década de 1990 a coisa já andava pelos 6 e 7 Ps (acima) sem qualquer enriquecimento substantivo dos fundamentos conceptuais originais de Kotler. O preâmbulo é longo, mas preciso de me justificar porque vou fazer algo semelhante com um gráfico sobre mercados do Doutor Jean-Paul Rodrigue.
Jean-Paul Rodrigue tem 45 anos, lecciona na Universidade Hofstra e adquiriu uma certa notoriedade como autor de um gráfico onde identifica as fases do ciclo de uma daquelas bolhas especulativas típicas (acima). O gráfico é muito imaginativo: tem uma armadilha para ursos e uma outra para touros e culmina num paradigma! O que não concordo é com a forma abrupta e pouco explicada como se encerra o ciclo, qual quarta-feira de cinzas de um qualquer carnaval. Vai daí, como os outros que distorciam e aumentavam os Ps originais de Kotler, também eu me dediquei a expandir e explicitar abaixo um pouco mais o gráfico original de Rodrigue a partir da experiência portuguesa. Peço desculpa por não traduzir as expressões para português mas a investigação científica séria faz-se em inglês. Esclarecendo: o Gaspar é este e a troika é esta.
Esquemas e gráficos podem ser ampliados clicando-lhes em cima.

17 dezembro 2012

ATROPELAMENTOS À ESQUINA

Há 43 anos e a cor a separar estas duas fotografias sobre um mesmo tema: um atropelamento fatal de uma mulher numa esquina qualquer de uma cidade anónima. Mas a grande diferença entre elas vai para o estilo e a escolha do protagonista que é o acompanhante choroso na fotografia mais antiga e a vítima propriamente dita na mais recente. É a distância que medeia entre uma fotografia sobre a morte e a fotografia da morte.  A primeira suponho que será de Weegee, a segunda é de Enrique Metinides. 

POR ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS ou AS «PEQUENAS» INCAPACIDADES DOS SUPER-HERÓIS

A pretexto de uma notícia anunciando o leilão do Batmobile original (acima, a viatura oficial de Batman, o super-herói), associando-a a quem se vê obrigado a leiloar tudo e  mais um par de botas para (alegadamente¹) cumprir o Memorando (o Estado português ou seja, nós) e conjugando essas duas ideias na figura de alguém que nos fora apresentado também como outro super-herói, o Vítor Gaspar (que, este sim, vinha endireitar as finanças!), chegamos à fotografia abaixo que, neste raciocínio encadeado, só pode receber um título: derrapagem orçamental… A de Novembro (da qual ainda nada se sabe...) deve ter sido causada por esta chuvinha que tem caído.

¹ Há reformas expressamente consagradas no Memorando (como a da reorganização administrativa) que este governo já assumiu despudoradamente que não são para se cumprirem.