31 julho 2012

A HISTÓRIA DO PENTATLO MODERNO E DE UNS HERÓIS OLÍMPICOS DA MODALIDADE

  De entre todas as modalidades olímpicas, o pentatlo moderno é a única propositadamente criada para se disputar nuns Jogos Olímpicos. A sua admissão, que teve lugar nos jogos olímpicos de Estocolmo de 1912, há precisamente cem anos atrás, foi patrocinada poraquele que é considerado o fundador do olimpismo moderno, o próprio barão Pierre de Coubertin. E desmentindo em parte o perfil pacífico como ele costuma ser descrito, esta modalidade está evidentemente associada às artes militares pelas cinco disciplinas que envolve: o tiro, a esgrima, a equitação, a natação e corrida. Em conjunto, constituiriam a demonstração ideal do apuro físico de um jovem oficial subalterno. Aliás, durante as suas primeiras décadas, eles constituíram a esmagadora maioria dos atletas da modalidade. O norte-americano George Patton, futuro comandante de exército na Segunda Guerra Mundial, foi um deles em Estocolmo em 1912. Outro foi o britânico Brian Horrocks, comandante de um corpo de exército durante o mesmo conflito, doze anos depois em Paris 1924.
 Porém, apesar de a vermos como o fio condutor da intriga dum livro de BD de Ric Hochet como Os 5 Fantasmas (1970), a modalidade nunca gozou de grande popularidade. Os pentatletas têm que cumprir um percurso de obstáculos montando um cavalo sorteado, disputar uma competição de esgrima em que todos se enfrentam entre si, disputar uma prova de tiro, nadar e correr uma distância contra o cronómetro. Mas, como acontece nas provas combinadas, para cada evento, existe um outro nas modalidades de origem que é disputado por especialistas, com melhores resultados e um interesse superior. Essa falta de popularidade – menos assistências equivalem a menos interesse comercial – tem feito com que o comité olímpico internacional tenha sofrido ultimamente uma pressão fortíssima para que a modalidade venha a ser retirada do programa dos jogos. Mas o património histórico acumulado das competições olímpicas já disputadas contém histórias de uma riqueza humana que valerá a pena preservar, como a da equipa tunisina em Roma em 1960.
Quando da realização dos jogos olímpicos de Roma em 1960, a Tunísia era uma jovem nação que acabara de alcançar a independência (1956). Como representante de um continente africano ainda com poucos países independentes, o comité olímpico tunisino foi convidado a seleccionar uma equipa de pentatlo moderno, honra a que não se quis furtar, nomeando os jovens pentatletas Laktar Bouzhid, Habib ibn Azzabi e Ahmed Ennachi. A sua estreia na prova de equitação não terá sido auspiciosa: todos os três caíram dos seus cavalos e foram desqualificados com zero pontos. Quando da prova de esgrima – desporto que só um deles já praticara – correu a história que o especialista da equipa fora interceptado de máscara de esgrima posta quando se preparava para disputar o combate por um dos colegas... Por essa altura, já a equipa tunisina concentrara as atenções gerais… Quando a prova de tiro de um deles foi interrompida por receio dos jurados de serem alvejados ou quando um outro esteve em vias de se afogar na prova de natação já se tratava apenas da confirmação de uma reputação…     
Não surpreenderá saber que, no cômputo global e entre 58 concorrentes, Bouzhid, Azzabi e Ennachi vieram a terminar a prova nos 56º, 57º e 58º lugares

EU E O EQUADOR

O Equador em questão é o original, a linha geográfica imaginária e não o romance de Miguel Sousa Tavares. Vindo do baú e de um tempo em que os transportes à distância tinham um outro ritmo, aí está a minha certidão da primeira travessia do Equador. De notar a minha condição de português acentuadamente meridional: esta travessia inaugural foi feita no sentido do hemisfério Sul para o hemisfério Norte.  

30 julho 2012

NÓS E A EUROPA

A fotografia é do famoso Henri Cartier-Bresson, foi tirada em Estremoz em 1955, e, com aquelas faces rústicas e expressões desconfiadas, quando em mãos apropriadas, servirá exemplarmente para nos vergastarmos uma vez mais pelo atraso congénito do Portugal salazarista em relação à Europa civilizada. Que civilização? Quatro anos depois, reencontramos o mesmo celebrado fotógrafo numa praia da cosmopolitíssima Saint-Tropez a escolher para tema um casal de namorados e um par de aves de criação debicando os restos deixados na areia pelos veraneantes. A sofisticação está à vista de todos porque a rapariga enverga um bikini, coisa que cá o Salazar não deixava…

29 julho 2012

COMO O «STAR CHILD» DE KUBRICK

Como uma das imagens mais emblemáticas e crípticas de 2001 Odisseia no Espaço (acima), mudar para um novo computador nos tempos que correm parece assemelhar-se cada vez mais a uma espécie de renascimento, um novo parto com todas as expectativas, dificuldades e traumas inerentes...

28 julho 2012

O MAIOR TRUQUE DE ILUSIONISMO DO MUNDO

 Ainda na ressaca da cerimónia da abertura dos Jogos Olímpicos de ontem, de que o momento maior é o acender da chama olímpica, ainda haverá muitos milhões por aí que se lembrarão da cerimónia de Barcelona em 1992 e considerarão o esquema então usado como o mais espectacular e engenhoso de sempre.
O último portador da tocha olímpica acenderia com ela a ponta de uma flecha para que um archeiro, com cuidada pontaria, a atirasse em arco para dentro do receptáculo da pira olímpica, inflamando-o. E foi mesmo isso que as pessoas pensaram que viram, graças a um cuidado plano da transmissão televisiva…  
Na realidade, o arqueiro estava instruído para fazer um tiro mais tenso, para que a flecha passasse acesa por cima da pira (abaixo) e para que o fogo incendiasse o gás libertado por ela. Se o número de assistentes servir de critério para definir a grandiosidade dos feitos, então este terá sido o maior truque de ilusionismo do Mundo…

O SUNIL

Apesar de já ter quase cinquenta anos, este anúncio acima ao detergente SUNIL mantém-se profeticamente actual, retratando uma realidade sociológica que era então novidade e incipiente: a dos casais com um filho único, tornado o centro da atenção da família. Hoje aquele modelo de família parece ter-se tornado na regra…

PAPEL SEM VALOR

Um dos aspectos que deu grande consistência à Aliança Franco-Russa (1892-1917) foi o fluxo de capitais com que a França financiou o Império russo enquanto ela durou. A Rússia precisava de capital estrangeiro e a França tinha-o em excesso. Exemplos documentais desses fluxos que serviam até para consolidar os interesses dos dois aliados são estas obrigações acima, remuneradas a 3% e emitidas em 1896 ou então, já depois da eclosão da Primeira Guerra Mundial, estes títulos de guerra que pagavam uns mais aliciante 5,5%, emitidos em 1916. Porém, pouco depois vieram as duas revoluções russas de 1917 com a famosa declaração dos bolcheviques em Dezembro desse ano que não honrariam os compromissos financeiros que tinha sido contraídos pelo governo imperial… 
Os lesados com a decisão não foram apenas os capitalistas e as instituições bancárias: Uma promoção ditada por razões políticas fizera com que, durante décadas, mais de um milhão e meio de particulares franceses houvesse subscrito títulos da dívida russa de diversas naturezas. Porém, apesar de intensas campanhas de imprensa em França clamando por indemnizações (abaixo, um jornal de Junho de 1927 a esse respeito) os soviéticos nunca se mostraram disponíveis para resolver a questão, com os títulos remetidos para um papel de antiguidade decorativa (acima). Foi só depois da dissolução da União Soviética, quando a Rússia quis entrar nos mercados, que esta e a França tentaram chegar a um acordo para indemnização dos 316.000 detentores de títulos russos ainda existentes (1998).  
Tratando-se de uma história do passado, a descrição destes investimentos em papel no estrangeiro que  perdem o seu valor é simultaneamente actual

27 julho 2012

PORQUE ELE É UM INGLÊS…

Como saudação aos Jogos Olímpicos de 2012 cuja cerimónia de abertura terá lugar hoje em Londres daqui por umas horas aprecie-se a fotografia acima (do suíço Hans Mauli) conjuntamente com a balada abaixo: For he is an Englishman.   

26 julho 2012

A NÃO-BATALHA DE VALMY

Rendendo-me incondicionalmente ao meu modismo favorito da colecção de dichotes em voga neste Verão de 2012, permitam-me evocar a Batalha de Valmy (Setembro de 1792) tal qual ela costuma ser apresentada canonicamente: tratou-se da primeira grande vitória dos exércitos revolucionários franceses na defesa do seu país após a Revolução de 1789 e perante a ameaça dos exércitos das monarquias europeias que queriam derrubar o governo revolucionário e reinstalar Luís XVI como monarca absoluto. Foi, acima de tudo, uma vitória da nova classe de soldados-cidadãos que, com uma outra motivação, lutavam em liberdade pela sua pátria e não por profissão pelos interesses do rei. 
 As consequências políticas do Recontro de Valmy foram como se tudo aquilo tivesse acontecido… mas a verdade é que Valmy não aconteceu assim. Valmy é uma aldeia ignorada de um planalto ventoso (daí a presença do moinho que se tornou num ex-libris da batalha, como se aprecia no quadro inicial) situado a cerca de uns 50 km. a Oeste da cidade-fortaleza de Verdun (mapa acima). No mês anterior (Agosto), os invasores prussianos haviam dali desalojado os franceses. O comando francês terá escolhido a posição de Valmy por dar uma vantagem táctica à sua artilharia na sua disposição de ameaçar as linhas de reabastecimento do inimigo e assim forçar um embate com o exército prussiano.

Apesar de haver estimativas muito díspares, provavelmente os exércitos equivaler-se-iam em efectivos quando do embate. Mais importante é que, entre os franceses, as unidades de cidadãos voluntários que viriam a entrar na lenda pela sua interpretação de canções revolucionárias (como a de cima) durante a batalha, eram uma pequena minoria. Aliás, nem foi preciso que a infantaria mostrasse outras virtudes que não as vocais, porque o recontro se tranformou num duelo de artilharias, comprovado pela percentagem ínfima de baixas dos dois lados: menos de 1% dos efectivos engajados. Os prussianos, considerados o melhor exército da época, retiraram e só isso veio logo a tornar-se na Vitória francesa!
Donde se conclui que, na Guerra, é mais importante a perspectiva colectiva do que terá acontecido do que aquilo que de facto aconteceu...

Nota: o quadro inicial intitula-se A Batalha de Valmy, data de 1826 e foi pintado por Horace Vernet (1789-1863).

...BOM TRABALHO


Em noite de outsourcing, e depois de uma crítica feroz, junto um apontamento elogioso por intermédio desta entrevista dada recentemente por José Pacheco Pereira ao Canal Q. Repare-se como o entrevistador intervém apenas por uma dúzia de vezes ao longo dos 26 minutos de duração da entrevista, dando ao entrevistado os minutos necessários para sustentar e desenvolver as suas ideias. Disto já não se vê muito em televisão...

25 julho 2012

OBRAS MAGNAS DE QUEM CEGOU AO ENVELHECER

Há quem defenda que o lendário Homero era cego. Certo é que John Milton (1608-1674) cegou antes de escrever algumas das suas poesias mais famosas, assim como aconteceu o mesmo com Jorge Luís Borges (1899-1986). Dá-se por socialmente adquirido que algo que seja composto por um autor enquanto ancião depois de cegar é algo que tem sempre mais sainete do que as suas obras anteriores. Feita esta introdução incaracterística passemos a outra coisa que não é nada comum  a este blogue: recomendar uma leitura de um poste da vizinhança. Intitula-se ele É a Falta de Cultura, tem por tema a vaidade e o excesso dela (vaidade, não a cultura…) em Clara Ferreira Alves (daí a fotografia inicial...) e vale mesmo a pena lê-lo até ao fim.

O AUSTROFASCISMO

Hoje, completam-se precisamente 78 anos (25 de Julho de 1934) que os nazis austríacos desencadearam um golpe de estado. Um punhado de militantes nazis envergando fardas militares irromperam pela chancelaria quase sem oposição assassinando o chanceler austríaco Engelbert Dolfuss (acima). Segundo a descrição da TIME de então (abaixo), os assassinos alvejaram-no no pescoço e deixaram-no depois morrer da hemorragia, recusando-lhe primeira assistência médica e depois assistência religiosa. Contudo, o golpe de estado veio a fracassar.
Dolfuss tornou-se uma das mais precoces e proeminentes vítimas do nazismo mas isso não faz dele um democrata. Em 1934, a classificação dos autoritarismos de direita não tinha a limpidez de hoje - em que tudo é fascismo. O pequeno (153 cm) Dolfuss considerava-se pertencente a uma direita autoritária, dura, porém civilizada, semelhante ao Estado Novo de Salazar, regime de onde copiara o corporativismo para a Constituição de 1934 e pessoa que a si muito se assemelhava, pelas suas origens rurais e pela sua formação católica num seminário.
Entre os outros parceiros ideológicos que Dolfuss considerava decentes contava-se a Itália fascista e o muito mais histriónico Mussolini, mas esses, mais do que a apreciação, eram também uma necessidade para servirem de contrapoder ao desprezível regime nazi que alcançara o poder na Alemanha em 1933. É que, para Dolfuss, o regime do seu ex-compatriota Hitler equiparava-se ao de Stalin na União Soviética. Em 1934 havia uma guerra sem mercê entre aqueles dois blocos da direita autoritária austríaca. Dolfuss veio a ser uma das suas vítimas.
Aproveite-se a efeméride para registar o detalhe esquecido de que houve mais do que um fascismo e que eles se chegaram a defrontar de forma muito violenta...

24 julho 2012

A «ARMAÇÃO» DO «MIURA» ESPANHOL

Espalhados pela paisagem espanhola, os touros da Osborne tornaram-se silhuetas tão familiares quanto até simbólicas do país. A perspectiva do italiano Marco Paoluzzo na fotografia acima é, porém, diferente da comum e adequada aos tempos que correm, quando o governo espanhol continua a insistir em que não haverá resgate para a sua economia: é uma fotografia por detrás, realçando a armação que sustenta a estrutura do Miura, aquela que não se vê quando visto na paisagem em contraste com o horizonte…

COMENTÁRIOS A UMA «NÃO-NOTÍCIA»

Há que reconhecer que a notícia de que a classificação do crédito da Alemanha atribuída pela Moody's está em risco é, como se diz agora, uma não-notícia. Em primeiro lugar por ser oriunda de França, parte interessada e sempre propensa a colocar os boches em má figura. Em segundo lugar, por não noticiar qualquer facto concreto, apenas uma intenção. Todavia, sabe-se como os noticiários - sobretudo no Verão... - se fazem com as não-notícias. Esta alerta-nos não apenas para os efeitos de contágio da situação periclitante das dívidas soberanas dos vários países europeus como também indicia que cada país da União continuará a desenvolver planos de salvação e de contingência próprios. Uma Alegria como a Ode abaixo, portanto...

23 julho 2012

TRÊS «TAKES» DE DAVID LYNCH

De costume, estamos habituados a que David Lynch nos apareça como protagonista, mas do outro lado das lentes.
Aqui contudo, trata-se de três perspectivas fotográficas de si, à frente delas, por três fotógrafos diferentes.
As perspectivas de (de cima para baixo), Christopher Wahl, Richard Dumas e Ellen von Unwerth.

O PRIMEIRO DIA

A princípio é simples, anda-se sozinho,
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida:
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida:
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida:
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida:
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré-cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida:
…. . . ……. … .. ….. .. … ….!
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

22 julho 2012

PLATITUDES DE UMA ENTREVISTADORA IMBECIL

Fui um leitor do Expresso durante suficientes anos para não estar à espera de ali conseguir ler reflexões profundas. Porém, o abandono do hábito ter-me-á tornado menos tolerante aos disparates que ali leio quando ocasionalmente lá retorno. Esta frase acima que aparece em título, proferida pelo Dr. José Epifânio da Franca passaria por ser uma daquelas platitudes de entrevista, não fosse a entrevistadora (Margarida Fiúza) a ter repescado para a destacar, ocasião onde se exige que ela contenha alguma substância.

A delimitação implícita entre sector privado e público que se deveria extrair da mencionada frase só tem sentido depois de uma definição concreta (e obrigatoriamente ideológica...) daquilo que o seu autor entenderá por fazer bem. Para ir buscar um exemplo prosaico que as pessoas entendam, fazer bem num hospital privado pode ser transferir a idosa acamada para um hospital público para que a conta de exploração da empresa hospitalar continue positiva e num hospital público poderá ser receber essa mesma velhinha e tentar mantê-la viva…

HISTORIADORES DE IDEOLOGIAS TOTALITÁRIAS

 É uma coincidência irónica este falecimento de Pedro Ramos de Almeida que surge praticamente encadeado no de José Hermano Saraiva. Mesmo não tendo a absoluta certeza da autoria, tenho fundadas suspeitas que o recém-falecido seja mesmo o autor de uma extensa História do Colonialismo Português em África de que exibo acima a capa do segundo volume. Sendo-me muito útil à época em que foi publicada (finais dos anos 70), a História não chega a ser bem uma história porque se limita a ser uma compilação cronológica dos factos e elementos estatísticos seleccionados pelo autor para corroborar a sua tese e descrever um colonialismo que qualifica tão medíocre em resultados quanto miserável em meios - o que se revela uma tese interessante.
Mas, o que recordo como mais marcante (mas também mais caricato) daquela esquecida obra é a adição crescente de elementos que nada têm a ver substantivamente com aspectos do colonialismo português, apenas e só com as cores ideológicas (assumidas) do autor. Para dar um só exemplo, na entrada referente a Portugal continental para o ano de 1950 (3º vol. p. 286) e naquilo que respeitaria às relações da metrópole com as colónias, um facto considerado relevante pelo autor é a morte na prisão do militante comunista Militão Ribeiro. A redacção dada por Ramos de Almeida, que se pode ler acima, mais a mensagem escrita com a tinta do seu próprio sangue, nada perderá em comparação com as conhecidas sagas televisivas contadas por José Hermano Saraiva...   
Como de costume, vê-se aqui o fascismo e o comunismo a irmanarem-se simétricos, como se estivessem nos dois lados de um mesmo espelho, num estilo igual de distorção da História. Próximas no estilo, as mortes encadeadas de José Hermano Saraiva e Pedro Ramos de Almeida só se distinguirão pela abissal diferença de notoriedade entre si. De uma certa forma, ocorre-me dizer que parece repetir-se aquilo que aconteceu no concurso Os Grandes Portugueses há uns anos atrás, quando Salazar ganhou o concurso a Cunhal com uma ampla margem graças (também) às vantagens comunicativas da apresentação de Jaime Nogueira Pinto sobre a de Odete Santos. Parece ser sina que os fascistas se revelem melhores comunicadores do que os comunistas...

21 julho 2012

«SOMETHING IN THE AIR»


Regressando nostalgicamente a esse Verão de 1969, e enquanto Neill Armstrong se passeava pela Lua (poste anterior), cá por baixo uma banda ad-hoc denominada Thunderclap Newton tocava apropriadamente Something in the Air. É um daqueles títulos consensuais o que considera haver qualquer coisa no ar. Parece haver sempre qualquer coisa no ar, hoje como há 43 anos atrás...

EFEMÉRIDE – OS PRIMEIROS PASSOS NA LUA (20 PARA 21 JULHO 1969)


Há precisamente 43 anos a noite foi comprida para aqueles que se dispuseram a ficar a ver em directo pela televisão a primeira caminhada do homem na Lua, numa transmissão que se prolongou até de madrugada.
Eu não fui dos que fiquei acordado para presenciar a histórica ocasião, mas, como se pode apreciar, o mundo das crianças também foi afectado pelo feito – hoje designá-lo-íamos por evento… – de Neill Armstrong.

20 julho 2012

TRIESTE, O NACIONALISMO E O CAPITALISMO

Trieste é uma cidade portuária na costa adriática. A sua localização geográfica fez dela o porto natural para todos os vastos territórios das várias Coroas dos Habsburgos (acima). Isso fazia com que, no quadro do Império Austro-Húngaro, Trieste fosse a sua quarta maior cidade – depois das metrópoles de Viena (alemã), Budapeste (húngara) e Praga (checa).
Embora de composição cosmopolita, a maioria da população de Trieste era, porém, italiana, uma nacionalidade que possuía uma pátria alternativa desde a unificação de Itália em 1861. A complicar mais a situação, Trento situava-se numa zona de fronteira entre as populações que empregam línguas latinas (a Ocidente) e as que usam idiomas eslavos (a Oriente).
No fim da Primeira Guerra Mundial (1918), o Império Austro-Húngaro desagregou-se e Trieste foi anexada pela Itália para grande júbilo dos triestinos de cultura italiana. Nos 35 anos seguintes as fronteiras sofreram várias modificações (abaixo). Entre 1947 e 1954 Trieste chegou a ser um Estado Livre. O traçado fronteiriço actual só ficou definido em 1954.
Porém, tornando-se italiana, Trieste perdeu todo aquele hinterland económico do centro da Europa que fora a origem da sua prosperidade. Surpreendente pela ideologia liberal em voga nos dias que correm, aqui o nacionalismo prevaleceu sobre o capitalismo, embora a cidade tenha pago isso com a sua decadência: a sua população actual é inferior à de há cem anos (abaixo).           

ANGOLA, EM DEMOCRACIA 44 ANOS DEPOIS DO JUGO COLONIAL

  À primeira vista nada haverá em comum entre a fotografia acima e a circular que podemos ler abaixo, escrita há menos de um mês. Depois, reflectindo, chega-se à conclusão que poderão existir algumas coincidências, apesar dos 44 anos que as separam. Trata-se de Angola e da organização de manifestações de apoio presidenciais. Mais, acredito que é muito provável que em 1968 tenham existido circulares idênticas à que vemos abaixo para incentivar a comparência da população estudantil que vemos na fotografia acima agitando as bandeirinhas. Outra diferença de pormenor: as bandeirinhas serão diferentes, embora eu tenha a certeza que também as haverá em profusão por ocasião da próxima visita de José Eduardo dos Santos ao Dondo. Mas a grande diferença é que o presidente de cima era fascista e colonialista enquanto o presidente que é referido na circular abaixo, bem… digamos que organiza bem as eleições, e que tende a ganhá-las com resultados semelhantes aos do regime do presidente de cima, mas, no computo global, a comunidade internacional até gosta dele.

19 julho 2012

«LE DÉLUGE APRÈS DANNY LE ROUGE»*

  Já aqui demonstrei o pouco respeito que os acontecimentos de Maio de 68 me merecem. Mas, foram tantas as vezes que trocei deles (e dos nostálgicos que os veneram) que nunca terei chegado a desmontar factualmente a inocuidade das suas consequências. Verificar, por exemplo, o que terá pensado a maioria dos franceses à época dessa epopeia que ainda hoje faz estremecer intelectuais como Medeiros Ferreira, Villaverde Cabral ou outros da mesma geração. Consultem-se os resultados eleitorais das eleições que tiveram lugar logo no mês seguinte aos incidentes, em 23 e 30 de Junho de 1968.
Afinal (e isso é raramente referido), o tempo de antena e as páginas de papel que foram concedidos incondicionalmente à geração da imaginação ao poder (acima) durante o mês de Maio, tiveram foi o condão de assustar uma parcela apreciavel dos seus compatriotas. A maioria de 293 deputados de direita (para 194 deputados de esquerda) que saíra das anteriores eleições de Março de 1967 foi ampliada para uma distribuição esmagadora de 396 deputados de direita (+103) para apenas 91 de esquerda. O período revolucionário foi giro, mas parece-me inequívoco que as urnas mandaram a malta ir ganhar juízo

* O DILÚVIO DEPOIS DE DANNY O VERMELHO (Daniel Cohen-Bendit, um dos líderes do Maio de 68 que aparece na fotografia inicial)

18 julho 2012

O COMBATENTE

As baixas registadas no fim de uma grande guerra possuem um adicional de desperdício irónico que se acrescenta à tragédia que é sempre a perda de uma vida. Este soldado norte-americano foi alvejado em Coblença, na Alemanha, em Março de 1945, apenas algumas semanas antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Não se pode excluir que, quem o fotografou, tenha encenado a forma como tombou. Mas, a acontecer, trata-se de uma excelente encenação, com um soldado morto, capacete caído, agarrado ao seu BAR e a uma granada defensiva MK2, como se fosse um antigo guerreiro medieval no seu túmulo, apetrechado para a sua viagem para o Além… 

OS BOMBISTAS SUICIDAS «BONS» E OS BOMBISTAS SUICIDAS «MAUS»

Quase emparceiradas, duas notícias da actualidade dão-nos conta de dois ataques bombistas perpetrados por um suicida - cada um o seu, evidentemente... Sinal do como já nos teremos acostumado a este fenómeno até há dez anos inexplicável, mas também de um omnipresente cinismo na forma de o noticiar, as notícias fazem de um dos suicidas dos bons enquanto o outro é, como acontecia tradicionalmente até aqui, dos maus. Este último atacou um autocarro de inocentes turistas israelitas acabados de chegar à Bulgária, os pobres; o outro, porém, explodiu-se em Damasco na Síria e fez uma Razia no Aparelho de Segurança Sírio… é bem feito!

MÁRIO SOARES E OS SEUS «ESTUDOS» DA MATÉRIA

Não é fácil mobilizar três mil médicos, mas mobilizaram-se, disseram o que tinham a dizer e fizeram-no não por interesse próprio, mas para defender o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Estas palavras foram atribuídas a Mário Soares pelo Diário Económico (com a Lusa), numa intervenção caracterizada por inusitados momentos de modéstia quando o venerando ex-presidente da República rejeitou ser um sábio que está aqui a dizer que é assim ou assado. Eu sou um homem político, sei o que quero e para onde vou, sempre soube, mas não tenho nem posso saber de tudo. Estou totalmente de acordo com estas últimas afirmações mas gostaria de acrescentar que sempre seria conveniente que ele desse mostras de algum estudo prévio do assunto quando fizesse afirmações tão categóricas em público. É que, havendo 42.000 médicos registados em Portugal (2010), mobilizar apenas 3.000 para esta última greve tê-la-ia tornado num fiasco inesquecível… Por respeito à sua provecta idade, ainda se permite a Soares esconder-se por detrás de afirmações desculpabilizantes como as pessoas e a cidadania contam muito mais do que os números e o dinheiro, mas o que é que é feito da qualidade jornalística que deveria fazer a triagem de tais erros?...

17 julho 2012

REFLEXÕES SOBRE O VALOR SOCIAL DO RIDÍCULO


Em Março passado, um antigo jogador de futebol regressou do anonimato ao protagonizar uma apresentação de uma candidatura à presidência de um clube de futebol. O vídeo (acima) com Paulo Futre e a história do chinês para o Sporting era de um ridículo… fantástico, para empregar a sua palavra luso-catelhana favorita. Porém, pobres ingénuos os que tememos pela reputação e desmoralização do desgraçado: aquilo foi apenas um momento fundador que catapultou Futre para o estrelato de aparições televisivas e inesperados contratos publicitários (abaixo).

Trata-se da mesma sociedade onde alguns pretendem agora demitir, pela força do ridículo, o dito dr. Miguel Relvas… Porém, e como se comprova acima, contrariamente ao que diz o ditado, o ridículo não mata, e, como diz um outro ditado, o que não mata engorda… Aliás, à volta da contestação a Relvas também já apareceram os seus episódios ridículos, como a convocatória da manifestação de protesto respondida por milhares, mas onde apenas meia centena compareceu, assim ao jeito do refrão dos Deolinda: Vão sem mim, que eu vou lá ter

Para que não haja equívocos: sou de opinião que, por outras razões que não as das qualificações académicas (nomeadamente o facto de ter sido apanhado a mentir ao Parlamento), Miguel Relvas já se devia ter demitido. E, já agora, também acharia piada a vê-lo com o Rui Unas e os Gato Fedorento a fazer anúncios do MEO…

16 julho 2012

A LOUCURA SEGUNDO STANLEY KUBRICK

Para mim, nenhum cineasta terá conseguido descrever cinematograficamente a loucura no seu estado puro como Stanley Kubrick. Também é verdade que, para o conseguir, precisou de actores de eleição. Acima é a cena mais conhecida, a de The Shining (1980), protagonizada por Jack Nicholson a perseguir a mulher e o seu famosíssimo Heeere's Johnny! – classificado em 68º lugar entre as 100 mais famosas citações do cinema norte-americano. Abaixo é a cena de Full Metal Jacket (1987) em que Vincent D’Onofrio faz o papel do recruta bronco que acabou de flipar completamente. O único vídeo que encontrei no You Tube está dobrado em polaco mas, tributo à qualidade da cena, pouco se parece perder do seu impacto por causa disso…

EFEMÉRIDE – O LANÇAMENTO DA APOLLO 11 (16 JULHO 1969)

Esta fotografia foi tirada há precisamente 43 anos, quando da partida da missão Apollo 11. Ao contrário dos planos clássicos de conjunto que haviam sido privilegiados até aí, onde se transmitia uma imagem da grandiosidade e da potência do foguetão Saturno V, houve na NASA quem optasse por instalar uma câmara automática na rampa de lançamento para a activar quando do lançamento, transmitindo uma outra imagem, mais frágil mas mais íntima, por causa do destaque dado ao Módulo de Comando no topo do foguetão, onde viajavam os três astronautas que iriam até à Lua. A fotografia recolhida ganhou em humanidade o que perdeu em rigor geométrico, com o foguetão a entortar-se, por causa do plano de colocação da câmara fotográfica…  

15 julho 2012

O MONITOR

Apesar dos seus 103 anos, Manuel de Oliveira não pára. Depois de ter estado recentemente em Guimarães para dirigir mais uma curta-metragem sua para a Capital Europeia da Cultura, parece ter aproveitado este seu recente internamento nos Serviços de Cuidados Intensivos do Hospital de Vila Nova de Gaia para, antes de ter alta, realizar mais uma curta-metragem, apropriadamente intitulada O Monitor, de que se pode apreciar um pequeno trecho no vídeo acima, onde se reconhece o estilo inconfundível do célebre realizador. Infelizmente, a peça - uma fábula sobre a vida e a morte - já não irá estar pronta a tempo para ser apresentada no próximo Festival de Veneza, que terá lugar em Setembro, onde, de todo o modo, a obra de Oliveira já estará representada através do seu último filme intitulado O Gebo e a Sombra.

14 julho 2012

(JUST LIKE) STARTING OVER

Ainda a pretexto da criação da décima comissão parlamentar de inquérito ao acidente aéreo de Camarate a 4 de Dezembro de 1980, ocorreu-me que John Lennon morreu (esse indiscutivelmente...) assassinado uns escassos quatro dias depois (a 8 de Dezembro). Por causa da sua morte, um disco de Lennon que passara até aí desapercebido subiu por aí acima nos tops de vendas e tornou-se num enorme sucesso comercial. A música principal chamava-se  (apropriada e premonitoriamente, se atendermos às circunstâncias...) (Just Like) Starting Over... 

SENSO COMUM E SENSO POLÍTICO

Quando a maioria dos membros de uma assembleia representativa do povo português decidem constituir uma décima comissão para averiguar mais uma vez os mesmos factos de um acontecimento ocorrido há quase trinta e dois anos trata-se de uma estultícia democrática. Quando essa maioria é esmagadora (PSD + CDS + PCP + BE) e a minoria esmagada (PS) nem a assume, abstendo-se, a estultícia passa a ser consensual, de regime. É nesses momentos que se devia dar relevo aos deputados que usam o senso comum em falta e não o senso político que abunda por aquelas bandas. Foi o caso do deputado socialista Jorge Fão (acima) que resolveu usar o tal senso comum e votar contra, justificando, a constituição de tal fantochada. Mostra evidente que atitudes destas são raras e que perturbam o regular funcionamento das instituições é que a TSF (que nisto de estultícias é outra instituição...) ao noticiar a dissidência trocou o nome próprio ao deputado, designando-o por João Fão, que até rima e tudo...   

13 julho 2012

SEXTA FEIRA 13

Isto não é apenas mais uma Sexta-Feira 13: depois das de Janeiro e de Abril, com a de hoje já vamos na terceira Sexta-Feira 13 deste ano de 2012, um fenómeno tão raro que o último tinha acontecido em 1984, na anterior intervenção do FMI, e só se voltará a repetir em 2040. O ministro das Finanças em 1984 chamava-se Ernani Lopes, o da actualidade é Vítor Gaspar. Quanto ao nome do ministro de 2040, só posso antecipar que o sacana que nos irá salvar de mais uma das nossas crises cíclicas já nasceu e anda por aí com ar severo, muito possivelmente a acabar um doutoramento em finanças...