30 abril 2012

O MAPA DA DERROTA

A 15 de Maio de 1973, numa reunião dos altos comandos militares da Guiné Portuguesa foi apresentado o mapa abaixo (copiado daqui), onde se mostravam as regiões da província ultramarina onde o inimigo (PAIGC) promovia acções de guerrilha. Tratava-se à época de um documento classificado, sinal de rigor e impermeabilidade àqueles retoques que a propaganda costuma acrescentar.
Para um poder colonial que, como qualquer outro, tem como tarefas primordiais a pacificação e a manutenção da segurança do território sobre o qual exerce autoridade, aquela mancha que cobria então cerca de 85% da província, em expansão depois de dez anos de conflito armado, pode ser compreendida hoje, apesar de algumas obtusidades, como a confissão gráfica da derrota portuguesa na Guiné.     

29 abril 2012

A APANHAR SOL…

 Na fotografia de cima, Robert Capa fotografou as empregadas das Galerias Lafayette no terraço das instalações daquele famoso armazém parisiense durante uma das raras greves da sua história em Junho de 1936. Na fotografia de baixo, a situação é muito menos dramática: Robert Doisneau limitou-se a fotografar este conjunto de cabeleireiras na esplanada de um anónimo café parisiense, durante a sua pausa do almoço (1966). Há 30 anos a separar estas duas fotografias, mas as fotografadas parecem ser sociologicamente as mesmas. Contudo, as condições laborais por que as primeiras se bateram para que as segundas delas usufruíssem parecem estar agora a desaparecer. Não só em Paris como em todo o mundo ocidental…

O MFA, A DINAMIZAÇÃO CULTURAL E A ACÇÃO CÍVICA

Regressemos a 1975, ao PREC e façamos a justaposição de dois cartazes do período eleitoral das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril. À esquerda, um dos do CDS, institucional e ainda muito sóbrio considerando os padrões daquilo que viriam a ser no futuro os cartazes de campanha. À direita, um dos do MFA (copiado daqui) que se afixava no quadro das suas campanhas de dinamização cultural e acção cívica. (leia-se a tarjeta inferior).

É impossível não reparar na semelhança simbólica, que é difícil de atribuir a uma coincidência. Aliás, outra coincidência é a cor dominante, a cor de laranja, por acaso precisamente a mesma do outro partido concorrente considerado reaccionário a par do CDS: o PPD. Tudo isso só não seria anacrónico se o MFA também fosse um concorrente às eleições. Só que não era e o pretexto formal por detrás da edição daqueles cartazes era o esclarecimento político do povo português.

A história registou que afinal ⅓ do povo português resolveu fazer o jogo da reacção e, por acaso, esses dois partidos formam hoje a maioria parlamentar que apoia o governo. É oportuno evocar estes episódios menores quando se assiste à cena armada por alguns antigos oficiais do MFA, feitos juízes do que será hoje a legitimidade democrática. É bonita a modéstia e que se lembrem das asneiras que se fizeram a coberto da sigla que dizem ainda hoje representar.

28 abril 2012

O ENVOLVIMENTO SUL-COREANO NA GUERRA DO VIETNAME

Disse-se num poste mais abaixo que a predominante da Guerra do Vietname é o seu aspecto de Guerra Civil de 30 anos (1945-1975). Um dos lados – o que veio a vencer – foi apoiado materialmente pela União Soviética e pela China, o outro foi (muito mais) apoiado em material e também em unidades de combate pela França e, posteriormente, pelos Estados Unidos. Porém, tornou-se uma constante da política externa norte-americana após 1945 não se meterem sozinhos nessas embrulhadas: procuram sempre trazer uns amigos e o caso da Guerra do Vietname não foi excepção.
O tempo pode ter feito esquecer que, ao lado dos norte-americanos, unidades militares de terceiros países estiveram envolvidos no conflito vietnamita conjuntamente com eles: australianos (acima, o desembarque de um destacamento deles num aeroporto), sul-coreanos e neozelandeses também enviaram unidades de combate para o Vietname, embora com uma participação muito inferior à dos protagonistas principais. O caso dos sul-coreanos é especial, porque a sua participação resultou mais da insistência dos próprios do que do interesse dos norte-americanos – ou dos sul-vietnamitas…      
O presidente sul-coreano de então, Park Chung-Hee (1917-79), registava a escalada na guerra no Vietname e apercebia-se que o crescente envolvimento militar dos Estados Unidos ali tinha como consequência directa o enfraquecimento do dispositivo militar que os mesmos Estados Unidos tinham deixado no seu próprio país, na sequência da Guerra da Coreia (1950-53). Enviar tropas sul-coreanas para o Vietname era prova do engajamento do seu país na luta anti-comunista mas também retirava argumentos aos norte-americanos para que eles retirassem as suas tropas da Coreia…      
O primeiro contingente de 140 militares sul-coreanos, onde se destacava um hospital de campanha, chegou ao Vietname ainda em Setembro de 1964. Seguiram-se alguns destacamentos adicionais de unidades não combatentes, de Engenharia e de Logística, que foram enviados a partir de Fevereiro de 1965 mas foi só depois de um pedido formal do presidente sul-vietnamita em Junho, que  em Setembro desse ano se assistiu ao envolvimento de unidades de combate sul-coreanas no conflito sul-vietnamita a divisão Tigre do exército e a divisão Dragão Azul dos fuzileiros.
 Ao longo do envolvimento, que se estendeu por 9 anos (1964-73), os efectivos sul-coreanos presentes no Vietname do Sul nunca terão ultrapassado simultaneamente os 47.000 soldados, mas a rotação natural das tropas fez com que, até Março de 1973, tivesse havido 313.000 militares sul-coreanos a cumprirem comissões de serviço no Vietname. No fim, 4.600 haviam morrido e 17.000 tinham sido feridos, mas os sul-coreanos costumam sempre confrontar esses números com os 41.000 guerrilheiros vietcongs e soldados norte-vietnamitas que reclamam ter abatido.
A zona de intervenção que ficou atribuída aos sul-coreanos localizava-se nas províncias litorais de Binh Dinh, Phu Yen e Khanh Hoa (assinaladas a verde no mapa acima), com uma população total rondando os 1,7 milhões de habitantes em 16.300 km². Mas é preciso ter em conta as condições específicas que limitavam as liberdades tácticas dos militares sul-coreanos: por um lado o respeito, pelo menos formal, pelas directivas das autoridades civis sul vietnamitas; por outro, o respeito, esse já real, pelas decisões das autoridades militares norte americanas que eram as que conduziam a guerra.
É tradicional que os parceiros menores de uma aliança militar se gostem de gabar da maneira distinta como fazem a guerra quando comparados com o aliado principal¹. Que os sul-coreanos se gabem disso não será surpresa. Para mais, quando nas trocas de galhardetes dos encontros entre generais aliados (acima) nunca será difícil encontrar referências rasgadamente elogiosas ao desempenho das tropas do parceiro. Porém, o desempenho das unidades sul-coreanas na sua actividade contra-subversiva na sua zona de intervenção foi, apesar de muito bem sucedida, bastante mais complexa...   
O soldado sul-coreano comum estava perfeitamente doutrinado (como provavelmente mais nenhum outro no Mundo...) para as circunstâncias envolventes de uma guerra civil que fora amplificada para uma confrontação global no quadro da Guerra-Fria: o mesmo acontecera 15 anos antes no seu próprio país. O inimigo comunista não era para ele uma abstracção, os elementos infiltrados também não e os sofrimentos da população civil do Vietname deviam-no deixar não solidário, mas perfeitamente indiferente – na sua própria família podiam-se ter desenrolado episódios muito semelhantes.
De início, os guerrilheiros vietcongs não se aperceberam dessa especificidade sul-coreana e adoptaram o mesmo tipo de guerrilha que praticavam com as tropas norte-americanas e do ARVN. A resposta dos sul-coreanos foi uma surpresa completa para eles pois aquele inimigo não mostrava quaisquer inibições em aniquilar totalmente as aldeias tidas como hostis. Durante os anos iniciais sucederam-se os massacres de aldeias inteiras: Go Dai e Tay Vinh (Fevereiro de 1966), Binh Tai e Dien Nien (Outubro de 1966), Binh Hoa (Dezembro de 1966), Ha My e Phong Nhi (Fevereiro de 1968).
Ao contrário do que acontecia com as opiniões públicas ocidentais, a da Coreia do Sul parecia manter-se impermeável à conduta sangrenta dos seus soldados no Vietname e eles pareciam poder continuar a ripostar indefinidamente da mesma forma sangrenta. E, como a superioridade militar no terreno pertencia às suas unidades, foram os norte-vietnamitas e os vietcongs a terem de recuar tacticamente, reduzindo a sua actividade militar naquelas três províncias a um mínimo de subsistência: afinal, pragmaticamente, a região representava apenas cerca de 10% do Vietname do Sul.
A actividade guerrilheira diminuiu até aos valores irrisórios quando comparada com as outras províncias do Vietname do Sul, os sul-coreanos foram cumprimentados pelos norte-americanos e tornaram-se temidos pelos vietnamitas dos dois lados. Porém, afirmar-se que os sul-coreanos terão ganho a sua guerra está errado, a começar pelo facto de uma guerra não se ganhar parcelarmente, mas este caso torna evidente que, numa guerra assimétrica, um exército convencional motivado, quando não perturbado na sua conduta pela sua própria opinião pública, é muito difícil de derrotar por um exército irregular.
¹ Os britânicos, por exemplo, estão sempre a fazê-lo em relação aos franceses, quando o tema é a Primeira Guerra Mundial e em relação aos norte-americanos quando se trata da Segunda.

27 abril 2012

O DEPUTADO QUE SABIA AS RESPOSTAS, OS OUTROS… E O POLITÓLOGO

Ao redor das cerimónias da comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República, o jornalista Filipe Mendonça e a TVI fizeram uma reportagem onde se incluía uma praxe para os deputados mais jovens, um de cada partido: quem foi o último chefe do governo do Estado Novo e o primeiro depois do 25 de Abril? Como os autores da ideia esperariam, as (ausências de) respostas teriam sido as conformes se não fosse a surpresa do domínio do assunto que veio a ser demonstrado pelo deputado Michael Seufert do CDS-PP (acima) – sabia não apenas o nome dos dois titulares como era pedido mas também a distinção dos títulos das funções desempenhadas por ambos.
As restantes respostas dos seus colegas (acima, no sentido do curso dos ponteiros do relógio) variaram entre a resposta simples e honesta (mas falhada) de Rita Rato do PCP, à adopção por parte de Joana Barata Lopes do PSD duma atitude descontraída mas sistematicamente evasiva (não respondeu), à tentativa feita por Pedro Filipe Soares do BE em redireccionar a questão para as generalidades que redundou num clamoroso fracasso (acabou por trocar os nomes…) até ao ensaio patético de tentar assumir uma superioridade pedagógica em relação ao interlocutor (…em vez do teste de história que tenta fazer…) como tentou fazer por sua vez Rui Pedro Duarte do PS.
Terá sido a atitude sobranceira deste último que lhe valeu o posterior tratamento um pouco maldoso que a reportagem da TVI lhe deu? Se foi, subscrevo-o. De facto, nem será apenas o facto da formação académica do deputado ter sido em Ciência Política¹ que torna a sua ignorância menos aceitável. É que ele há falhas que, sendo criticáveis em quem seja deputado, são imperdoáveis em quem se pretende qualificar como politólogo profissional. Confira-se na ficha acima. Rui Pedro Duarte já devia ter entrado naquela casa desconfiando que politologia não é assumir ares de superioridade quando confrontado com perguntas inconvenientes. Deve ser outra coisa qualquer... 
    
¹ A deputada Rita Rato tem precisamente essa mesma formação.

A DESSINCRONIZAÇÃO DO «AGORA»

A hegemonia da televisão por cabo e a multiplicação da oferta de canais provocou um efeito colateral dos tempos modernos que mais se torna notado durante os jogos de futebol. Como o presente televisivo não é rigorosamente o mesmo em todos os canais, ouvem-se as celebrações efusivas dos golos pela vizinhança desencontradas por alguns segundos, ao ritmo do canal que os vizinhos estejam a seguir. Ontem aconteceu mais uma vez quando do golo do Sporting e não deixa de ser irónico que os que são informados mais precocemente são mesmo os ouvintes do velho transístor a pilhas… 

26 abril 2012

OS VILÕES DA GUERRA DO VIETNAME

 Ao contrário daquilo que costuma ser percebido comummente, o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietname foi apenas uma questão parcial do famoso conflito. A Guerra do Vietname foi mais extensa e profunda do que esse envolvimento. Tratou-se fundamentalmente de uma guerra civil travada com aquela tremenda crueldade que apenas tais conflitos internos costumam conter.
 As fotografias mais famosas e mais cruéis desse conflito – como, de resto, já aqui havia assinalado neste blogue – até nem costumam ser protagonizadas por norte-americanos – não porque eles não tenham cometido também atrocidades, mas porque seriam decerto muito mais cuidadosos a autorizar a divulgação de imagens do que aquilo que acontecia com os sul-vietnamitas do ARVN.
 As fotografias que aqui aparecem são de interrogatórios de prisioneiros ou então o emprego desapiedado de prisioneiros como batedores para garantir que os trilhos estariam desminados. Publicadas nos Estados Unidos, elas transmitiam à opinião pública local uma imagem negativa dos aliados sul-vietnamitas, numa época em que se acumulavam os pedidos para a retirada do Vietname.
 A imagem da guerra que estava a chegar aos norte-americanos nesses anos seria extensa e intensa, mas não deixava por isso de ser parcial. Depois da Ofensiva do Tet, quando os norte-vietnamitas chegaram a conquistar a cidade de Hué para depois a perderem, não existem fotografias famosas que mostrassem os massacres de civis por eles perpetrados durante o período da sua ocupação.
 Os norte-vietnamitas chegaram ao fim da guerra em 1975 não apenas como vencedores, mas também como uma imagem falsamente impoluta da forma como se haviam conduzido nela, pelo menos do ponto de vista ocidental. Foi só através do primeiro grande filme de sucesso dedicado à Guerra do Vietname (O Caçador – 1978) que esse mito da rectidão norte-vietnamita veio a ser posto em causa.
Nem se trata só da famigerada cena da roleta russa onde os norte-vietnamitas obrigavam os prisioneiros a jogar (acima). Na cena imediatamente anterior, há um soldado do NVA que joga uma granada para um abrigo de civis e metralha uma mãe com um bebé que dele tenta escapar, uma cena possivelmente inspirada num massacre real que teve lugar em Dak Son em Dezembro de 1967.

Refira-se que, quando O Caçador foi apresentado no Festival de Berlim de 1979, a delegação soviética resolveu abandonar o certame devido à forma como o filme retratava o povo do Vietname, arrastando consigo alemães orientais, búlgaros, checos, cubanos e polacos. Parece uma devoção religiosa mariana esta, a de pretender que os vencedores no Vietname haviam vencido, mas sem mácula
            

25 abril 2012

CAIRO

Josef Hoflehner é um fotógrafo austríaco cuja selecção dos temas que escolhe para fotografar tenho por demasiado convencional. Mas abro francamente uma excepção para esta fotografia acima, quando preferiu retratar uma linha de horizonte pontilhada de prédios, o smog e um descomunal engarrafamento para retratar o Cairo. Menos turístico que as Pirâmides de Gizé, a verdade é que quase todos os visitantes da cidade costumam ficar tão ou mais impressionados pelo carácter caótico do tráfego automóvel local, com regras de trânsito muito próprias…

A VOZ DO POVO: DESDE OS «DAZIBAOS» ÀS CAIXAS DE COMENTÁRIOS DOS ARTIGOS DE JORNAL «ON-LINE»

 Lenine estava a marimbar-se para o que o povo pensava. E para a sua voz. Para isso, a classe operária precisava de uma vanguarda esclarecida (o Partido) que daria voz ao que o proletariado devia pensar. Já Mao Zedong era mais cínico. Com a Campanha das Cem Flores, incentivou a expressão da multiplicidade de escolas de pensamento para posteriormente identificar e prender os seus autores. Sendo importante a expressão popular, Mao organizou uma sua voz do povo mais uníssona, protagonizada originalmente pelos estudantes que entretanto viraram guardas vermelhos e que vieram a ter um enorme relevo no período da Revolução Cultural. Voz do povo tornou-se assim uma expressão identificativa do léxico maoista, como se comprova pelo exemplo do título do jornal oficial da UDP (acima) em 1975.
 Refira-se que os suportes mais castiços dessas vozes do povo nem sequer eram os jornais mas antes os dazibao (adoptando a sua designação original chinesa), jornais pintados afixados à parede expressando aparentemente as opiniões pessoais  - alinhadas! - dos autores (acima). O próprio Mao, cujo pensamento se tornara omnipresente nesses anos à conta do famoso Livro Vermelho, escreveu o seu próprio dazibao a 5 de Agosto de 1966 exigindo aos revolucionários que bombardeassem o Quartel-General (que, na sua opinião, estaria infiltrado…). Documentos afixados, expressando as  sempre ortodoxas opiniões do povo, tornaram-se de rigor entre as organizações maoistas. Depressa chegada à Europa, a prática tornou-se tão chique que a vemos a ser adoptada em Paris durante o Maio de 1968 (abaixo).
 Mas, no geral e na Europa, regresse-se ao exemplo português, as ditas vozes do povo, mesmo sendo ele evocado amiúde (abaixo, vê-se um mural naquele mesmo estilo dazibao atribuindo a esse mesmo povo a libertação do secretário-geral do MRPP!), revelaram-se de um formalismo exagerado, desmentindo tanto a espontaneidade quanto a sua origem popular. Paradoxalmente, foi na própria China, com a permissão da afixação num local de Pequim que veio a ser denominado por Muro da Democracia, que se veio a criar uma última oportunidade para uma expressão directa da voz do povo na forma de dazibaos, durante o período conhecido por Primavera de Pequim (1978-79). Foi um período curto, rapidamente encerrado quando começaram os pedidos de democratização do regime.    
 Sem querer ser exaustiva, esta é apenas uma pequena história da expressão das vozes do povo através dos meios que tinha à sua disposição. Hoje, o povo dispõe finalmente das condições técnicas para exprimir a sua verdadeira voz sem repressão nem intermediação – mas também sem responsabilização… E o povo faz ouvir a sua voz através das caixas de comentários dos artigos dos jornais on-line. Já se tornou tradição que uma dessas caixas não estará devidamente preenchida se ali não houver ninguém (de preferência anónimo) que, mesmo que o faça completamente a despropósito com o conteúdo do artigo, proclame uma bojarda populista primária no estilo: no tempo do Salazar é que era! Mas o verdadeiro conteúdo popular é-lhe acrescentado pelas várias trocas de insultos que se lhe seguem…

Tratar-se-á certamente da expressão das genuínas lutas de classes do Século XXI... 

24 abril 2012

NÃO SERÁ POSSÍVEL TRIBUTAR A TOLICE?

Nunca me canso de me surpreender com a capacidade demonstrada pela equipa que rodeia Madonna para conseguir tornar notícia aquilo que não passa de uma banalidade. No campo do entretenimento, a mulher não canta particularmente bem, não sabe representar, não é, nem nunca foi, bonita nem graciosa e contudo, volta e meia, eles lá conseguem arranjar uns pretextos à sua roda para mais uma aparição mediática. Agora é uma fotografia da senhora em pelota (acima) de há uns 20 anos atrás – que vai ser leiloada e que haverá alguém que irá dar muito dinheiro por ela – fotografia…

Para quem ainda não saiba, imagens da Madonna descascada são uma banalidade: há 20 anos editou-se um livro de fotografias suas – a grande maioria envergando um guarda-roupa inspirado na avó Eva… – de que alegadamente se terá vendido um milhão de exemplares. O estilo do conjunto das fotografias – o fotógrafo foi Steven Meisel – era mais a puxar ao ostensivo (aprecie-se o exemplo abaixo) quando não mesmo badalhoco (como aqui) e devia muito pouca à suavidade e subtileza estética. Quando se lêem os elogios que a leiloeira faz ao produto, apetece rir…      

23 abril 2012

AS COUVES E A ESTRELA DE CINEMA

Numa anónima banca de legumes de Calcutá, a maior cidade de Bengala (uma das maiores da Índia), um punhado de couves coexiste, naquele sincretismo de que os indianos guardam ciosamente o segredo, com a fotografia de uma das maiores estrelas da indústria cinematográfica local, conhecida por Bollywood. Ainda mais sincrético, a estrela, Shah Rukh Khan, é de ascendência muçulmana¹ num país que é maioritariamente hindu (num subcontinente onde a religião parece ser um importante factor político), e a publicidade que o acompanha está escrita no alfabeto latino em vez do alfabeto bengali local. A fotografia é de Fred Canonge.

¹ E será facilmente reconhecido como tal pelos seus admiradores dado que Khan é um apelido exclusivamente muçulmano.

OS PASSOS DO PASSOS

Adequando-me ao ritmo da crise, alterei o cabeçalho do Herdeiro de Aécio incluindo agora a sugestão que ajustemos o comprimento dos nossos passos para poupar no desgaste do sapatos
Passo a passo, percebe-se que as promessas prometidas pelo Passos se processam apenas a passo. Porém, apesar dessa posposição, a passo e passo, há outros passos que, não sendo promessas passadas, são-nos passadas pacientemente pelo Vítor Gaspar e aceites penosamente perante a passividade e a permissividade da nossa sociedade. Parece um péssimo prenúncio. Por isso, a espaços, ainda há quem se expresse possesso, pese o peso desse protesto (ideológico), já ter passado do prazo. Prosseguindo-se este processo, ampliam-se as possibilidades para o desaparecimento da paz social presente. Perceberá o Passos o que se prepara?

22 abril 2012

TEMPOS DE POUPANÇA

Em tempo de crise multiplicam-se os artigos de jornal popularizando algumas medidas úteis de poupança. O assunto é muito sério mas o primarismo de algumas medidas que por vezes são sugeridas, como se os leitores fossem uns verdadeiros imbecis, recorda-me uma utilíssima sugestão de primeira página que li no The Daily Star, um jornal apadrinhado por Lucky Luke numa das suas aventuras: Para que os vossos sapatos durem mais, dêem passos maiores (acima).

PRESIDENCIAIS 2011

Hoje, dia de eleições presidenciais em França, onde as sondagens mostram que existe a hipótese séria do presidente em exercício não ser reconduzido, torna-se dia oportuno para desapaixonadamente relembrar a composição do elenco que se apresentou às nossas eleições presidenciais no ano passado (acima). Olhado à distância, se ali houver uma alternativa séria à recondução de Cavaco Silva, vou ali e já volto

A prática parece ter demonstrado quanto este género de eleições intercalares (1991, 2001, 2011) se tornaram numa pantomina em que o ocupante de Belém não chega a ser verdadeiramente desafiado. Aliás, já Cavaco Silva fizera precisamente o mesmo em 2001, quando se dispensara de enfrentar de novo um presidente com uma conduta tão pouco arrebatadora quanto Jorge Sampaio – a merecer o justo cognome de o Apelante.

Portugal terá muitas prioridades nos tempos que correm mas, se a disposição é para rever a Constituição, que tal conferir um pouco mais de dignidade a todas as eleições presidenciais, não deixando o titular do cargo recandidatar-se? Mesmo que, para contrabalançar essa alteração, ela se faça à custa de um ligeiro prolongamento da duração do mandato presidencial – de 5 para 7 anos, como, de resto, já aconteceu.  

21 abril 2012

AMIGOS


O Facebook terá causado uma evolução tal na palavra amigo (do latim: amicu), que julgo justificar-se um aprofundado estudo etimológico para explicar este novo sentido mais abrangente (a ilustrar a proposta, achei oportuno inserir acima a apresentação da série televisiva norte-americana Friends). Mesmo sendo um utilizador negligente da coisa feicebuquiana, ela hoje informa-me que, na semana que agora entra, tenho cinco aniversários de amigos, para os ajudar a comemorá-los: Como, se eu não conheço nem me correspondo com nenhum dos tais amigos?…

20 abril 2012

NOVA IORQUE DEBAIXO DE FOGO


O poste começa por uma fotografia real tirada em Nova Iorque em 11 de Setembro de 2001 e onde aparece em evidência o Empire State Building, que fora o maior edifício da cidade entre 1931 e 1972 – e que voltou a sê-lo depois daquele dia… Já as fotografias seguintes são montagens, realizadas durante o apogeu da Guerra-Fria, nas décadas de 1950 e 60 e resultam da montagem da fotografia de duas detonações nucleares sobre o horizonte dos arranha-céus nova-iorquinos – onde, para referência, se consegue sempre identificar a inconfundível silhueta do mesmo Empire State Building.   

Enquanto a primeira é de uma Bomba A de potência semelhante à Fat-Man que explodiu sobre Nagasáqui, a segunda montagem (abaixo) mostra-nos a comparação com o efeito de uma Bomba H, cerca de 700 vezes mais potente, o núcleo da sua explosão a formar uma bola de fogo com cinco quilómetros de diâmetro – toda a fotografia! Conhecendo-se os efeitos físicos e sociológicos causados pelos acontecimentos do 11 de Setembro, apercebemo-nos com este encadeamento e estas montagens, que nem sequer concebemos quais as consequências da utilização de uma arma nuclear por terroristas…       

19 abril 2012

«LES PETITES FEMMES DE PIGALLE»

Há fotografias que pedem tanto uma música de fundo específica que o nosso cérebro nos chega a pregar a partida de a começar a tocar enquanto as observamos. Foi o que me aconteceu ao ver algumas destas fotografias que o sueco Christer Strömholm (1918-2002) tirou às prostitutas (e travestis...) parisienses durante as décadas de 1950 e 1960.

Em rigor, as fotografias têm por paisagem dominante a Place Blanche, famosa por nela se localizar o famoso cabaré Moulin Rouge (fotografia inicial), enquanto a música de Serge Lama se refere à adjacente Place Pigalle (ambas zonas de prostituição). Mas a semelhança do espírito descomprometido das imagens e da música cria uma simbiose interessante.



O «CENTRO» DEMOGRÁFICO DOS ESTADOS UNIDOS

Desde o seu nascimento que, por imperativos políticos, os Estados Unidos se obrigaram à realização de censos periódicos. No legislativo da nova nação, juntamente com o Senado, em que cada estado era representado pelo mesmo número de senadores, havia a Câmara de Representantes, onde o princípio que prevalecia era o da proporcionalidade, calculada a partir da população de cada estado¹. Por causa do crescimento daquela, fixou estabelecido que a cada dez anos se procederia a um novo censo da população, para que se recalculasse o número de representantes a que cada estado teria direito.
Por isso, os dados demográficos norte-americanos são mais antigos e sistemáticos do que os seus congéneres europeus. O primeiro censo ali realizado data de 1790, um ano apenas depois da Revolução Francesa, e sucedem-se cada decénio, sem falha. Os geógrafos norte-americanos criaram também um conceito engraçado que não vi aplicado em mais nenhum país: o do centro demográfico. Assumindo que toda a população pesava o mesmo, calcula-se aquele que seria o ponto geográfico dum mapa plano imaginário dos Estados Unidos em que se estaria geometricamente em equilíbrio à data da realização do censo.

Mas, mais do que a sua localização desse centro, torna-se mais engraçado observar a evolução da sua localização ao longo de cada censo (mapa abaixo). É uma forma geográfica de acompanhar a História dos Estados Unidos. Nos últimos 220 anos esse centro imaginário deslocou-se quase 2.000 km para Oeste. Mas foi só a partir da segunda metade do Século XX que começou a inflectir francamente para Sul. Aliás, na primeira metade desse Século, a concentração industrial nas cidades do Norte fez com que a localização do centro demográfico não se tenha alterado significativamente nos cinquenta anos de 1890 a 1940.
Registe-se ainda como o impacto da inclusão dos estados do Alasca (1958) e do Hawai (1959) não foi significativo para a evolução do centro de 1950 para 1960, apesar de qualquer daqueles dois estados estarem geograficamente afastados do resto dos Estados Unidos. Se se mantiver a tendência destes últimos decénios, o centro demográfico dos Estados Unidos continuará a deslocar-se para Oeste Sudoeste (WSW), saindo do Missouri para se instalar no Oklahoma. Uns Estados Unidos onde, cada vez mais, a do Pacífico já não é a outra costa e não é embaraçoso – antes uma vantagem – saber falar castelhano…

¹ Note-se, à margem do assunto principal, como este critério favorecia os eleitores dos estados do Sul, onde a população de escravos não votava, mas influenciava o número dos seus representantes.

18 abril 2012

ELIZABETH II REGINA

A fotografia acima é de Patrick Lichfield (o quinto conde do mesmo nome) e nela podemos apreciar uma Elizabeth de Windsor como não a costumamos ver, encostada à balaustrada do seu iate, descontraída, a bordejar o plebeu no entusiasmo que demonstra por algo que não se percebe o que seja. Por muito republicanas que sejam as nossas convicções, devemos ser democratas o suficiente para conceder aos reis o direito de ter dias assim…ou às vezes não.