28 fevereiro 2011

MINISTROS QUE SE DEMITEM… E OUTROS QUE SE DEVIAM DEMITIR

Como em tudo na Vida, as carreiras políticas também precisam de sorte. Do género da que faltou a Michèle Alliot-Marie, antiga Ministra da Defesa (acima), do Interior, da Justiça e mais recentemente dos Negócios Estrangeiros da França. Quando ela resolveu passar estas últimas férias de Natal na Tunísia estava longe de suspeitar que o regime local estava fadado para se desmoronar poucas semanas depois… Depois, bem tentou emendar a mão, mas acaba por ter de se demitir, numa remodelação que envolveu também o afastamento do seu colega do Interior, Brice Hortefeux.
E, por falar em Ministérios do Interior, será que a narrativa deste episódio, com todo o fatalismo a ele inerente, depois da tristeza que foi a cena dos trocadilhos com as palavras ética e responsabilidade na Assembleia da República, não inspirará Rui Pereira, a escrever também uma carta transbordante de ética e responsabilidade, semelhante à de Michèle Alliot-Marie? Adenda do dia seguinte: Também o Ministro da Defesa alemão se demitiu depois de acusações de plágio na sua tese de doutoramento. Temos uma Europa repleta de homólogos de Rui Pereira que, ao contrário dele, não sabem jogar com as palavras ética e responsabilidade...

OS SÚBDITOS DE SUA MAJESTADE BRITÂNICA

É preciso ser-se britânico (com a sua propensão sociológica para acarinhar tudo o que é tradição) para que coexista uma revolução na moda com figurinos ultra-tradicionais. A fotografia acima data de 1968, foi tirada à entrada das tradicionais Corridas de Ascot que se disputam sempre no mês de Junho. Apesar da popularidade de então dos Beatles e de Mary Quant, continuava a haver quem fosse assistir às corridas (à direita) e quem ia assistir à entrada de quem fosse assistir às corridas…

Entretanto, na Europa continental, a França vivia-se a ressaca de Maio de 68, a Checoslováquia o pico da sua Primavera de Praga e em Portugal, falando especificamente de indumentárias tradicionais, havia uma grande maioria afirmando que a capa e batina cheiravam a mofo... É preciso uma perspectiva britânica para que, entre a iconografia da época, tenha ficado espaço para o vanguardismo da modelo Twiggy e o classicismo do Vingador John Steed – o actor Patrick MacNee.

27 fevereiro 2011

OS CUMPRIMENTOS ENTRE OS ALIADOS

As fotografias foram tiradas em circunstâncias semelhantes: representantes de um dos exércitos, vindo de Leste (do lado direito das duas fotografias) encontram-se com os seus aliados vindos de Ocidente, dando por terminadas as respectivas ofensivas. O exército do lado direito é o mesmo, o Exército Vermelho, e medeiam 67 meses entre as duas fotografias. A de cima foi tirada em Setembro de 1939 na Polónia, no início da Segunda Guerra Mundial e o aliado vindo de Ocidente é alemão, a de baixo (substancialmente mais conhecida...) foi tirada em Abril de 1945 na Alemanha no final desse mesmo conflito e o aliado passou a ser norte-americano. Para explicar o que aconteceu entretanto, para que tivesse havido essas trocas de parceiro, é que é precisa muita dialéctica

26 fevereiro 2011

WIKILEAKS EM PORTUGAL

Graças ao Expresso, deparamo-nos em Portugal pela primeira vez com as consequências práticas da acção da Wikileaks. Como aconteceu com outros casos no estrangeiro (veja-se, por exemplo, este caso no Brasil), a fuga incide em comunicações sobre assuntos de Segurança e Defesa, assuntos que normalmente nunca andam nas primeiras páginas da atenção mediática mas a que, pelos vistos, os membros da diplomacia norte-americana dedicam uma substancial parte do seu tempo…
Não deixa de ser um paradoxo que, por terem sido obtidas clandestinamente, as informações, que muitas vezes não passam da opinião daquele cuja comunicação foi interceptada e divulgada, adquirem um prestígio acrescido e amplia-se assim a divulgação das opiniões dos membros do aparelho diplomático norte-americano, do país cujos interesses afinal, é objectivo central da Wikileaks lesar. Concretamente, vejamos o que é que possuem estas opiniões do ex-embaixador americano de novo?
Que não impera a meritocracia nas ascensões nas carreiras dos oficiais das Forças Armadas? Se imperasse, seria uma excepção entre as grandes instituições nacionais... Que, como Ministro, Nuno Severiano Teixeira foi um totó? A responsabilidade foi de quem o nomeou para aquele cargo. Que a aquisição dos submarinos foi feita por questões de orgulho? Em matéria de opinião, há quem a tenha pior, que a causa última da decisão foi a necessidade do então Ministro Paulo Portas financiar o seu partido…
Aliás, como se vê acima, quando se tratou de aparecer na fotografia, os submarinos até deram origem a alguns paradoxos¹… Em contrapartida, o embaixador, por ignorância, comenta sem conhecer o sistema de armamento dos submarinos portugueses e, por parcialidade, diz outro disparate enorme quando critica a opção portuguesa pelas fragatas holandesas da classe Karel Doorman em detrimento das americanas da classe Oliver Hazard Perry - estas eram impingidas (e rejeitadas…) pelo Mundo fora…
Finalmente, e com a mesma frontalidade como estão a ser expostas, vale a pena recordar que o autor de todas estas opiniões, Thomas F. Stephenson (acima), foi um Embaixador político – e não de carreira – que terá sido nomeado para este cargo secundário em Lisboa como forma de agradecimento da Administração Bush pela sua contribuição financeira para as suas eleições. É sabendo isso que se torna um pouco inconsequente lê-lo criticando Rui Machete pela sua gestão dos favores políticos

O que não é a mesma coisa que afirmar que ele não tinha razão…

¹ A fotografia foi tirada no dia do baptismo na Alemanha do Submarino Arpão onde se vê o Almirante Melo Gomes, então Chefe de Estado-Maior da Armada, ao lado de Maria de Jesus Barroso Soares, a madrinha da embarcação. São conhecidas as relações não muito cordiais entre a madrinha do submarino e o padrinho da encomenda dos submarinos, Paulo Portas.

O CLARINETE DE WOODY ALLEN

Até hoje, Woody Allen ganhou três Óscares na sua carreira: como Realizador de Annie Hall (1977) e como Argumentista de Annie Hall e de Hannah e as Suas Irmãs (1986). Para além disso, Woody Allen já foi nomeado candidato por outras 12 vezes como Argumentista, 5 vezes como Realizador e ainda uma vez como Actor. A partir de 1977 tornou-se uma espécie de rotina, tanto a candidatura (nas mais variadas categorias) dos filmes de Woody Allen aos óscares, como a sua conspícua ausência do glamour da Cerimónia da sua Atribuição...
A tradição começou em 1977, quando a imprensa soube – muito provavelmente através de alguém próximo do próprio Woody Allen, senão do próprio… – que ele preferira passar a noite da cerimónia a tocar clarinete com a sua banda de jazz num clube nova-iorquino, como era seu costume às segundas-feiras… Como as Cerimónias costumam ser às Segundas-Feiras, ficara estabelecida uma tradição. Na fotografia acima, aquele clarinete não será importante sem Woody Allen, mas também Woody Allen perde muito do seu charme sem o seu clarinete…

25 fevereiro 2011

OUTRA ESTANDARTIZAÇÃO DA BELEZA

Se aqui há uns meses publiquei aqui um poste a propósito de um certo padrão de beleza inspirado na fisionomia infantil de Brigitte Bardot e predominante durante a primeira metade da década de 1960…
…no caso deste poste o exemplo é outro padrão de beleza, aquele que lhe terá sucedido e dominado a segunda metade da década, agora oriundo do outro lado do Canal da Mancha e inspirado em Twiggy (n. 1949).
Embora a modelo britânica (na fotografia inicial), possa ser considerada um excesso, a roçar a anorexia (problema ainda hoje recorrente no mundo da moda), uma silhueta pouco acentuada como a sua…
…tornou-se a referência da beleza feminina. De cima para baixo, depois da já referida Twiggy, as actrizes Jacqueline Bisset (n. 1944), Jenny Agutter (n. 1952), Judy Geeson (n. 1948) e Susan George (n. 1950).

AS ESTRELAS DA INFORMAÇÃO

Não pode ter sido só a mim que me ocorreu fazer a associação entre esta transferência de Judite Sousa e José Alberto Carvalho da RTP para a TVI e a pressão que a emissora do estado estará a sofrer para reduzir os ordenados mais elevados dos seus quadros, incluindo nomeadamente os daqueles dois, pois não? É que, se a associação estiver correcta: Óptimo!
É sempre bom que haja destas movimentações onde se podem vir a pôr em causa as valias intrínsecas das nossas estrelas da informação televisiva. E acho ainda melhor, já que aqui já escrevi a minha opinião sobre os méritos de qualquer dos dois jornalistas, que o custo eventual quanto ao erro destas contratações não venha a ser suportado pelo erário público…

24 fevereiro 2011

SOBRECARGA

Houve um terramoto na Nova Zelândia. Terão morrido centenas de pessoas. E há manifestações contestando os regimes no poder no Bahrein, na Líbia e no Yemen. Mas também há limites para a distribuição das simpatias e compaixões do público com tantos assuntos quentes no noticiário internacional. Por isso, tornou-se essencial seleccionar e optou-se pela Líbia cujo dirigente é o mais conhecido, mais exótico e mais mau – e assim o mais propenso a ser detestado, que é afinal aquilo de que o público gosta: enredos com bons e maus. Por fim, há ainda as consequências, como é o caso do aumento do preço do petróleo, por exemplo…

Em suma, está-se num tal estado de sobrecarga informativa que até se deixou passar o 23 de Fevereiro e os 30 anos decorridos sobre a tentativa de Golpe de Estado em Espanha (1981) sem que a efeméride tivesse sido trabalhada devidamente. Só que, convém recordar como, ao contrário do jornalismo, a verdadeira importância histórica dos assuntos não se compacta às páginas ou ao horário disponível nos órgãos de informação. Para mais quando o importante por vezes é até a sua ausência, como será o caso da inexistência de notícias revolucionárias após as Revoluções que abalaram recentemente a Tunísia e o Egipto

23 fevereiro 2011

«STOVEPIPING»? (2)

Como descrevi nas notas do poste abaixo, a palavra stovepiping serve para descrever várias formas de distorcer as informações que se distribuem sem as apresentar no contexto adequado. Acima, num vídeo da Associated Press, podemos ver uma Base Militar (Aérea, se atendermos aos mísseis AA SA-2 Guideline das imagens) localizada em Tobruk que terá sido abandonada pela sua guarnição. Porém, quando se consulta uma fotografia de satélite do Google feita anteriormente sobre aquela mesma região (na ligação a fotografia pode ser ainda mais ampliada do que a escala usada abaixo), apercebemo-nos que a Base Aérea já não parece estar operacional há muito - comparem-se aquelas imagens com as do porto e da cidade. No vídeo, estaremos a ver mesmo imagens de uma Base Militar em Tobruk? Haverá então mais do que uma Base Aérea em Tobruk? E se a guarnição abandonou a Base, porque não preferiram recolher então imagens com as casernas abandonadas?...

«STOVEPIPING»? (1)

Como Gaddafi, também Donald Rumsfeld é um daqueles maus que não se costuma dar facilmente por vencido. Recentemente, publicou um livro de memórias (Known and Unknown, acima) e nas suas aparições televisivas para o promover o ex-Secretário da Defesa mostra o quão coriáceo é, socorrendo-se de todas as artimanhas argumentativas para tentar refutar as acusações que sobre si caem, parecendo que ainda quer reescrever uma fase não particularmente brilhante da história recente dos Estados Unidos.

Numa dessas entrevistas com Andrea Mitchell na MSNBC (que infelizmente não posso transferir para o blogue e há que ver neste link) Rumsfeld chega a um extremo de se passar por desentendido, ao fingir que desconhece o significado da palavra stovepiping¹ (aos 6:50). A reacção de Andrea Mitchell é de genuína indignação, demonstrando a sua incredibilidade pelo excesso de ingenuidade de que o entrevistado quer mostrar. Aqui fica, para que Judite Sousa aprenda em que circunstâncias é que o entrevistador deve ser assertivo

¹ Embora stovepipe seja literalmente a palavra em inglês que designa a chaminé de um fogão de sala, a palavra stovepiping aplicada ao contexto das informações, como foi o caso na entrevista e é uma acusação recorrente à Administração Bush, serve para descrever várias formas de distorcer as informações sem as apresentar no contexto adequado. No poste seguinte, a propósito da situação na Líbia, darei aquilo que pode ser um exemplo concreto.

LÍBIA E OS «ESPECIALISTAS»

Há coisa de um ano e meio li com muito interesse este livro acima, sobre a História da Líbia, um tópico que vi raramente ser abordado, especialmente com a profundidade com que ali era feito. Com essa leitura aprendi, entre outras coisas, que ao contrário de muitos outros dirigentes árabes de países produtores de petróleo, Gaddafi não é venal, o que explicará uma boa parte da péssima imagem que ele possui no exterior, fomentada pelas petrolíferas que ele acabou por despojar da maioria dos direitos que possuíam. Aprendi também que Gaddafi é excêntrico, de uma excentricidade de fazer lembrar as histórias dos imperadores romanos loucos, mas que essa excentricidade não quer dizer que ele transija quando o assunto é o do exercício do poder. Como acontecia, por exemplo, com Mao Zedong na China, também Gaddafi prefere deixar a gestão dos assuntos correntes a outros, mas reter o poder efectivo.
Como se pode ler na página 258 do livro acima (a tradução é minha): Uma característica marcada do regime de Gaddafi, são as remodelações ministeriais, a forma preferida de evitar que qualquer competidor político potencial alicerce uma base de poder alternativa à sua. As remodelações são frequentes mas, surpreendentemente, envolvem quase sempre os mesmos protagonistas. De acordo com uma estimativa, durante os primeiros 30 anos do regime (i.e. entre 1969 e 1999), pelo Comité Geral Popular (o equivalente ao governo) passaram somente 112 pessoas, um número excepcionalmente baixo tendo em conta que muitos ocuparam os seus cargos por períodos não superiores a um ou dois anos. A maioria desses ministros são tecnocratas, da geração de Gaddafi, que parecem contentar-se em serem peões desta rotação de cadeiras. O sistema faz com que Gaddafi paire sobre a política do quotidiano (…)

Mas o objectivo deste poste não é exibir o conteúdo do livro sobre a Líbia que li. É, sobretudo, o de manifestar a minha total surpresa quando subitamente, declarada a Revolução na Líbia, leio tanto a imprensa escrita quanto os blogues e me descubro rodeado de especialistas, profundos conhecedores tanto da personalidade de Gaddafi como da realidade líbia. Pelos vistos, ando a malbaratar o dinheiro adquirindo livros sobre temas que considerava remotos… Para não me arrepender depois, não haverá por aí algum especialista que me faça poupar antecipadamente, agora que me decidi a estudá-la, aquilo que vou ter de gastar numa História da Argentina?...

22 fevereiro 2011

ALRAIGO, O PORTA-AVIÕES IMPROVÁVEL

O Alraigo (acima) era um cargueiro porta-contentores espanhol com 3.600 toneladas de deslocamento construído em 1977 num dos estaleiros da Cantábria. Numa época em que o transporte marítimo caminhava, por causa da redução de custos, para o gigantismo dos navios, unidades mais pequenas como o Alraigo sobreviviam operando em nichos de mercado, fosse ele o transporte (discreto) de armamento para países não recomendáveis (eram os casos, à época, da África do Sul e da Nicarágua) ou então realizando fretes de médio curso entre países ribeirinhos do Mediterrâneo ou entre a Espanha continental e o arquipélago das Canárias.
É precisamente a realizar um destes últimos fretes que vamos encontrar o Alraigo a 6 de Junho de 1983, ao largo da costa portuguesa, vindo do Norte de Espanha em direcção a Sul, tendo como destino Tenerife nas Canárias. Simultaneamente e nas mesmas águas (portuguesas), estava a realizar-se um Exercício da NATO, envolvendo forças navais de vários países membros da organização. Entre as unidades navais mais importantes a participar no Exercício contava-se o porta-aviões britânico HMS Illustrious. O poder aeronaval britânico tinha acabado de sair muito prestigiado após a sua vitória na Guerra das Malvinas, que se travara um ano antes.
E os caças Harrier de descolagem curta ou vertical (V/STOL) haviam-se tornado na imagem mediática (acima) desse prestígio. A nossa história começa quando uma dupla desses aparelhos descolou do Illustrious para uma patrulha do Exercício em busca do inimigo, a sério, com o rádio e o radar desligados. O elemento júnior da dupla era o Alferes Ian Watson de 25 anos que ainda não acabara o seu período de formação em Harrier. Chegados à zona de busca a dupla separou-se. Ao regressar ao local de reencontro Watson não encontrou nem líder nem navio. Segundo o seu depoimento posterior, nem rádio, radar ou sistemas de navegação funcionavam.
Com o combustível a diminuir e sabendo-se junto à costa portuguesa, região de tráfego marítimo significativo, Watson dirigiu-se para lá para, na eventualidade do combustível não chegar para atingir a costa portuguesa, se poder ejectar junto a um navio mercante que pudesse assinalar a sua localização. A 12 milhas da costa e com alguns minutos de voo ainda disponíveis encontrou o Alraigo mas o seu rádio continuava sem funcionar. Ao ver o navio coberto de contentores, dispostos naquilo que podia passar por uma plataforma precária, Watson decidiu arriscar e, depois de assinalar a sua presença ao navio, aterrou o Harrier em cima dos contentores!
Alguma aselhice se combinou com tanta perícia e o Harrier (avaliado em vários milhões) desabou em cima de uma carrinha de distribuição (avaliada nuns milhares) encomendada por uma florista de Tenerife, amachucando-a. Implacavelmente, que a popularidade da Royal Navy nunca foi muito alta em Espanha, o capitão e o armador do Alraigo recusaram-se a modificar a sua rota por causa daquele incidente. Se os britânicos os quisessem então que fossem buscar o piloto e o avião a Tenerife dali por quatro dias! E assim foi, tendo as autoridades britânicas sido ainda obrigadas a compensá-los em 570 mil libras por danos e incómodos…

Os britânicos só tiveram de esperar 4 meses para se desforrar: em Outubro desse mesmo ano, a pretexto de uma dívida de 2.500 dólares que ficara por pagar em terra, o barco ficou apresado uma semana em Londres… Quanto a Ian Watson, continuou a sua carreira militar onde acumulou mais 2.000 horas de voo em Harrier antes de ser promovido para o F/A-18 Hornet, onde realizou outras 900 horas adicionais antes de passar à reserva em 1996. O relatório do incidente, tornado público em 2007, atribui a responsabilidade do mesmo à inexperiência de Watson, a quem o nomeou para aquela missão e a deficiências no equipamento.

21 fevereiro 2011

PERSPECTIVA LIMIANA PARA O DERBY DESTA NOITE

A PAZ DIALÉCTICA

Entre as grandes realizações do socialismo científico contou-se a virtude de substituir em metade do Mundo a simbologia da paz. O ramo de oliveira¹ transportado pelo bico da pomba branca, herdado dos gregos da Antiguidade, foi substituído por um canhão (como se fosse um bico…) de um blindado. E a estrela que, para os cristãos, anuncia o local do nascimento de Cristo, viu-se substituída pela sua equivalente do internacionalismo proletário.
Na fotografia acima, tirada durante uma pacífica parada militar em Moscovo vêm-se todos esses componentes: a Estrela de cinco pontas, a Paz pronunciada em cinco línguas e os indispensáveis Blindados encarregados de a distribuir pelo Mundo socialista. É uma pena que nos locais de distribuição da paz, como em Praga no Verão de 1968, aparecessem elementos reaccionários e anti-pacíficos a resistirem a esses gestos de tanta boa vontade
¹ Contrariamente a uma interpretação muito e mal difundida, o verdadeiro símbolo da paz é o ramo de oliveira que a pomba transporta no bico e não a pomba propriamente dita.

20 fevereiro 2011

«POR UNA CABEZA»

A fotografia acima – Al Pacino e Gabrielle Anwar – assinala um dos momentos mais memoráveis do filme Perfume de Mulher (Scent of a Woman – 1992), o da dança do tango.

Também em A Verdade da Mentira (True Lies – 1994), Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis terminam o filme dançando um tango, que é precisamente o mesmo tango…

Intitula-se Por una Cabeza, esse tango que terá sido promovido à categoria d´O Tango de Hollywood, abaixo cantado pelo seu imortal criador Carlos Gardel em Tango Bar – 1935.

Refira-se que, apesar de tanta paixão romântica contida nas notas, a cabeça do título se refere às vitórias tangenciais das corridas de cavalos e o tema é a paixão, mas pelas apostas…

O ÚLTIMO OLHAR DE UM PROMITENTE PRESIDENTE

A esmagadora maioria das Histórias no condicional, aquelas que se baseiam naquilo que poderia-ter-acontecido-SE (mas onde o SE não aconteceu…), são uma pura perda de tempo. Porém, há acontecimentos em que facilmente se reconhece que, não fossem eles, a evolução da História provavelmente teria sido diferente da que foi. Um daqueles casos que considero mais flagrantes do período da segunda metade do Século XX é o da candidatura à presidência dos Estados Unidos de Robert. F. Kennedy (1925-1968).
A hipótese da sua candidatura sempre pairou no ar. Como se pode ver acima, a revista Life em Novembro de 1966 (ainda a dois anos da data das eleições) já a levantava. E Kennedy sentiu-se com hipóteses sérias de vencer depois do Presidente Lyndon Johnson ter anunciado em Março de 1968 que não se recandidataria (abaixo). Porém, teria que concorrer para a nomeação por fora, contra o aparelho do Partido Democrático (que apoiava o Vice Presidente Humphrey) e disputar as eleições primárias em cada Estado.

Em 5 de Junho de 1968 Kennedy venceu uma dessas eleições primárias no importante Estado da Califórnia, embora ele ainda se encontrasse em segundo lugar na contagem de delegados (400 contra 550 de Humphrey) para a Convenção de Chicago em finais de Agosto que iria finalmente nomear o candidato democrático às eleições de Novembro daquele ano. O ambiente, porém, era de extrema satisfação (abaixo), continuava-se a acreditar que a popularidade de Bobby e dos Kennedy conseguiria superar as máquinas eleitorais rivais.
Foi alguns minutos depois da fotografia acima ter sido tirada que Kennedy foi atingido com três tiros – um dos quais, o fatal, o atingiu na cabeça. Há outra fotografia mais famosa do momento, mas prefiro a que inseri abaixo, de Boris Yaro. Supostamente, Bobby terá perguntado se estavam todos bem, mas a sua expressão da fotografia diz-nos outra coisa: vê-se ali um misto de incredibilidade com o que lhe acabara de acontecer com o medo das consequências… Apesar de uma operação neurocirúrgica, Bobby morreu 26 horas depois…
Na Convenção do Partido Democrático de Chicago, em finais de Agosto, os delegados apresentaram-se mais divididos que nunca, sendo o cerne da divisão a questão do engajamento norte-americano na Guerra do Vietname. O Vice-Presidente Hubert Humphrey, endossado por Lyndon Johnson e engajado à política prosseguida até então, ganhou a nomeação. Humphrey veio a perder depois as eleições presidenciais por cerca de 500 mil votos (0,7%) para Richard Nixon, que se tornou no 37º Presidente dos Estados Unidos…

19 fevereiro 2011

…AINDA OUTROS QUADROS EM ESTILO DE FOTOGRAFIA

Por se tratarem normalmente de obras encomendadas, Norman Rockwell não gozaria de uma grande liberdade de escolha quanto aos temas que pintava. Mesmo assim, é possível reconhecer-lhe alguns padrões temáticos da sua predilecção, como se pode ver no caso destas duas pinturas (acima e abaixo), aspectos recreativos da vida, destacando a forma como são encaradas numa perspectiva infantil ou juvenil.
Não por coincidência, Norman Rockwell começou a sua carreira ilustrando capas para Boy´s Life, a revista do Escotismo dos Estados Unidos¹. Se no exemplo mais acima, a nossa atenção se pode dispersar pelos diferentes atitudes dos membros da família (e do cão...) à ida e à volta do fim-de-semana, no que se segue a estrela solitária é o herói corajoso que se atreveu a subir à prancha mais elevada da piscina…

Vale a pena recordar como aquele mesmo tema veio a ser recuperado com uma cenografia muito parecida, bastantes anos mais tarde, pelo actor britânico Rowan Atkinson, aquando de uma visita atribulada de Mr. Bean à piscina (acima). Mas, mesmo sem perder essa perspectiva mais infantil/juvenil, já no fim da vida, mais liberto e consagrado, Rockwell pôde tornar os temas dos seus quadros muito mais sérios.
Negro in the Suburbs² (acima) e The Problem We All Live With³ (abaixo) são quadros que elegeram um tema quente da década de 1960 dos Estados Unidos: o da integração racial. Os momentos são os da recepção a uma família negra que acabou de se mudar para o bairro e a recepção hostil (vejam-se as paredes) que a filha da família sofre para frequentar a escola local – é ela o centro do quadro e não a escolta que a acompanha…
¹ Registe-se a coincidência de Hergé (1907-1983), o autor belga do famoso Tintin, também ter começado a sua carreira trabalhando para um jornal dedicado ao Escotismo: Le Boy-Scout belge.
² Negros nos subúrbios e ³ O Problema com que todos vivemos.

18 fevereiro 2011

QUADROS EM ESTILO DE FOTOGRAFIA

É frequente surpreendermo-nos com as pinturas do norte-americano Norman Rockwell (1894-1978). Trata-se de um estilo facilmente reconhecível, em que o autor procura reproduzir os temas que escolhe empregando uma precisão verdadeiramente fotográfica, escolhendo o momento como se de um instantâneo se tratasse. Um quadro de Rockwell parece quase sempre uma fotografia pintada. E, na verdade, é provável muitos terão sido assim inspirados.
Porém, Norman Rockwell tinha um talento inato para apurar a comicidade visual dos instantes que pintava. E, tal qual um bom autor de BD, sabia como contar uma boa história em algumas imagens (acima, Rumors and Gossip). Adquiriu uma grande popularidade quando algumas das suas obras apareceram como ilustrações de capas de revistas de grande circulação. Mas o circuito da crítica sempre o menosprezou, rebaixando-o à categoria menor de ilustrador.
Uns vinte anos depois da sua morte, a renovação do circuito da crítica teve que fazer o que era evidente: reconhecer os méritos da obra de Rockwell que o mesmo circuito outrora qualificara de kitsch. Em 2006, um dos seus quadros (acima, Breaking Home Ties), que fora valorizado pela Sotheby´s em 4 a 6 milhões de dólares, acabou vendido em leilão pelo triplo desse valor (15,4 milhões). Uma desforra tardia sobre um ambiente que Rockwell tão bem parodiou…

17 fevereiro 2011

AS CONTESTAÇÕES POPULARES CHEGARAM À LÍBIA

Porque assinalei previamente como a propagação da revolta no mundo árabe a parecia evitar, é importante assinalar a chegada das contestações populares àquele país. E destacar três aspectos importantes. Em primeiro lugar, há o facto das manifestações iniciais terem tido lugar, não na capital, Trípoli, mas em Bengasi, que é a segunda maior cidade líbia e a mais importante da Cirenaica (veja-se o mapa acima). A contestação ao regime parece ter assumido também um cariz regional - o que normalmente as enfraquece. Em segundo lugar, constata-se que o regime de Gaddafi parece ter tido tempo de montar um plano de reacção a estas contingências, atirando para a rua os seus manifestantes e bloqueando as notícias contrárias recorrendo ao monopólio informativo de que dispõe localmente. Em terceiro e último lugar, adicione-se (abaixo) um gráfico – embora esteja um pouco desactualizado (2006) - com os principais clientes do petróleo líbio, para antecipar qual o comportamento de alguns países – incluindo o nosso – em relação aos acontecimentos...
Agora quanto às hipóteses que o desfecho destas contestações sejam idênticas às tunisinas e às egípcias, tenho imensas dúvidas...

UM CENÁRIO DE FILME DE ANTECIPAÇÃO

Os filmes cuja acção se passa no futuro colocam sempre o problema dos cenários exteriores. Os produtores mais abonados podem construi-los (como em Demolition Man) mas os outros têm que se aproveitar daquilo que há (como em Fahrenheit 451). O local da fotografia acima, tirada por Pierre Wayser algures nos arredores de Paris, prestar-se-ia a um excelente cenário para um filme desse género. Apenas um pormenor parece estragar essa excelência: a vegetação que aparece anarquicamente crescida por todo o lado, o que desmentiria a imagem dessas sociedades do futuro que se apresentam quase sempre como impecavelmente organizadas…

16 fevereiro 2011

A RECESSÃO ECONÓMICA

É interessante que o anúncio feito pelo Governador do Banco de Portugal Carlos Costa (acima) a um jornal da especialidade (Diário Económico), anunciando que se pode dizer que estamos em recessão, possa se tornar assim tão importante. É-o por uma questão de credibilidade dos agentes políticos: para os da oposição já lá estamos há muito tempo, mas costuma ser sempre assim, não é novidade, para os do governo nunca vamos lá chegar e isso é que é pior, considerada a situação financeira que Portugal está a atravessar.

O processo da formação de preços nos mercados internacionais desenvolveu certas regras que, por muito absurdas que sejam, há que respeitar. Por exemplo, e creio que já usei aqui esse exemplo, quando uma empresa multinacional atravessa um período difícil e vê a cotação das suas acções descer, tem que anunciar um plano de reestruturação onde tem de despedir milhares de trabalhadores. A maioria das vezes não despede o número que se anunciou, mas é o número anunciado que mostra a seriedade da reestruturação.

Quando os países atravessam dificuldades financeiras, como está a acontecer agora connosco, o equivalente à mise-en-scene acima é o rigor das medidas de austeridade, expresso em indicadores económicos deprimentes – contracções da economia, aumento das taxas de desemprego – complementado – é desejável – com imagens televisivas de perturbações sociais. Lembremos o caso grego, cuja economia se contraiu 4,5% em 2010. Só que no nosso caso, parece que José Sócrates e o seu governo não gostarão de fazer más figuras...

Será talvez por isso que continuamos a ouvir boas notícias a respeito da prestação económica de Portugal – como as exportações subiram 15% em 2010 ou como as receitas fiscais subiram 15% no passado mês de Janeiro – enquanto os organismos encarregues do crédito público travam batalhas quotidianas pela contenção das taxas de juro a que ele está a ser conseguido. Será que a condução da mensagem governamental, pensada em função da audiência doméstica, não estará a tornar-se financeiramente perniciosa para o Estado?

O anúncio hoje feito, no estilo mais suave possível de discordância com a mensagem oficial, pelo Governador do Banco de Portugal na sua entrevista ao Diário Económico parece indicar que ele pensará assim. Por exemplo, que é contraproducente destacar o crescimento das receitas fiscais em Janeiro para depois se ficar à espera há mais de uma semana dos resultados da execução orçamental – aquilo que é verdadeiramente importante… Prova da importância das declarações de Carlos Costa é que alguém já foi mobilizado para as desmentir.

«VICIOUS»


Lou Reed, Vicious (1972)
Algumas definições de Vicious segundo o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. Vicious: Vicioso, imoral, perverso, depravado, rancoroso, vingativo, mau, arisco, indócil, traiçoeiro, perigoso, defeituoso, incorrecto, imperfeito. Depois da promessa da Moção de Censura, bem podia José Sócrates qualificar com quase todos aqueles epítetos Francisco Louçã... antes de lhe agradecer à socapa.

15 fevereiro 2011

ALGUMAS FOTOGRAFIAS DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA

Embora tivesse atingido um clímax ao longo do ano de 1975, a descolonização portuguesa durou de Dezembro de 1961 até Dezembro de 1999. Seleccionei para este poste oito fotografias que dispus cronologicamente, cada uma respeitante a um dos territórios que estiveram sob tutela portuguesa e que dela se desligaram durante esses 38 anos.
A descolonização portuguesa começou... contrariada. A primeira fotografia, data de 19 de Dezembro de 1961 e é de uma cerimónia de uma rendição militar, a do General Vassalo e Silva (ao centro, sentado), o Governador e Comandante-Chefe do contingente militar encarregado de uma defesa desesperada do Estado Português da Índia.
Continuou contrariada. A fotografia seguinte, datada de 24 de Setembro de 1973, peca pela ausência das autoridades portuguesas na cerimónia da proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau realizada algures (note-se o ambiente camuflado que rodeia a cerimónia…) em território guineense (...), ao arrepio das autoridades coloniais.
Depois veio o 25 de Abril de 1974 e o reconhecimento das colónias à autodeterminação. Mas nem mesmo a solidariedade ideológica podia apagar o azedume que as guerras de libertação haviam criado. Em Moçambique, a 25 de Junho de 1975, a presença do 1º Ministro português Vasco Gonçalves é abafada pelo enorme retrato de Samora Machel.
Pormenores significativos podem distinguir aqueles territórios onde houve luta armada e onde não a houve. Ao içar a nova bandeira de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975, note-se como as Forças Armadas Revolucionárias do novo país continuam, apesar do epíteto, armadas com a mesma espingarda automática G-3 do período colonial…
Países insulares, povoados depois da chegada dos portugueses como o caso anterior e o de São Tomé e Príncipe, vêm-se quase na obrigatoriedade de renegar esse seu passado colonial para a cerimónia de independência (12 de Julho de 1975), apeando a estátua do descobridor português Pêro Escobar, para depois não terem ninguém por quem o substituir
Totalmente ao contrário do que acontecera na Guiné, a cerimónia culminante da descolonização de Angola, a 10 de Novembro de 1975, foi no Salão Nobre do Palácio do Governo em Luanda, mas só contou com a presença dos portugueses. O Alto-Comissário Leonel Cardoso atirou, como se fosse confetti, uma soberania popular que estava a ser disputada pelas armas
Mais complicado ainda, sem portugueses, sem timorenses e sem cerimónia, é o episódio que assinala a descolonização portuguesa em Timor, a 7 de Dezembro de 1975. Perante o que lhe parecia um vácuo de poder e com a anuência norte-americana, as tropas indonésias invadiram-no. Seguir-se-iam mais 24 anos de colonialismo, mas indonésio.
Tão cheio de incidentes, esta gesta descolonizadora de Portugal merecia ser rematada com uma cerimónia adequada, preparada de antemão com pompa e circunstância, para o último (e menor) território do outrora extenso Império Colonial. Aconteceu com Macau a 20 de Dezembro de 1999, quando da sua transferência para a administração chinesa.