31 dezembro 2010

O ELECTRICISTA HONORÁRIO

Se a contribuição dos comunistas portugueses para o derrube do fascismo costuma ser sistematicamente sobrestimada, a sua contribuição para o humor na democracia que se lhe seguiu – à nossa maneira, não à deles – tem sido sistematicamente subestimada. E não me estou a referir ao protagonismo de Ricardo Araújo Pereira nos Gato Fedorento. Estou-me a referir a exemplos como o retirado do Acórdão 504/210 do Tribunal Constitucional, aquele que valida as candidaturas às próximas eleições presidenciais e que atribui a dupla ocupação de electricista e de funcionário de partido político ao seu candidato Francisco Lopes. Desconfio que, apesar de a primeira ser a profissão que consta da sua biografia no site da Assembleia da República, nas últimas dezenas de anos Francisco Lopes não terá arranjado uma tomada eléctrica que seja – com excepção de algumas que se houvessem avariado lá em casa…
Como acontecia nas monarquias de há 100 anos atrás, quando os príncipes e princesas recebiam patentes e comandos honorários de unidades militares, parece existir um faz-de-conta igualmente caricato entre os comunistas – só que nesse caso associado às referências e origens proletárias. Assim, da mesma forma honorária e no mesmo sítio onde Francisco Lopes é electricista, Jerónimo de Sousa tem por profissão afinador de máquinas. Para preservação da sacrossanta regra de ouro¹ da composição dos órgãos de direcção do partido deles, quem sabe se, um dia destes, o controverso Bernardino Soares aparece como jurista mas acumulando com o ofício de canalizador, ocupação que teria desempenhado durante umas férias escolares, enquanto a graciosa Rita Rato poderia acumular o cargo actual de funcionária do partido com o de operária têxtil, por ter estado uma vez meia hora numa linha de produção quando de uma visita de trabalho a uma fábrica do ramo…
¹ Orientação apontando para a existência de uma maioria operária nos organismos de direcção comunistas. Os operários são da categoria das descrições deste poste e a maioria é a menor possível: 50,000001%.

30 dezembro 2010

– E AGORA?

Nos idos tempos da tenebrosa noite fascista, havia um anúncio de televisão em que, perante a carroçaria amachucada de um carro batido, um dos intervenientes colocava a pergunta supra:
E agora?
Agora? Bate-chapas e tinta Robbialac! – era a resposta do outro, resposta essa que não tardou a entrar no léxico popular por sinónimo da resignação.

Bate-chapas até pode ser uma alcunha que assenta bem em José Manuel Coelho, considerado o estilo de protagonismo do deputado regional madeirense do PND cuja candidatura à Presidência da República foi ontem devidamente validada pelo Tribunal Constitucional, mas a trincha e a tinta Robbialac – leia-se a explicação colorida para aplicar em cima da bronca da sua evidente discriminação – compete agora ao poderoso bloco informativo das nossas três televisões que encerrou ontem o conjunto de debates televisivos entre os candidatos sem a sua presença, que é tão legítima em termos de critérios jornalísticos quanto foi a de qualquer dos outros cinco candidatos…
Embora já tenha um palpite sobre quais serão¹, aguardo interessado os desenvolvimentos desta questão, que é um teste prático e formal aos princípios de igualdade de oportunidades em que se costuma proclamar que se fundamenta a nossa democracia portuguesa... Afinal, não nos podemos esquecer que a civilizadíssima Suécia (uma referência comummente empregue nestas coisas de democracia) está representada no Parlamento Europeu por um deputado do Partido Pirata e que costumam ser as eleições percebidas de antemão como inúteis pela maioria do eleitorado as que atraem a concorrência destas candidaturas mais... folclóricas.

¹ Como já aconteceu em 2005 com Garcia Pereira, o assunto vai ser abafado na comunicação social e não acontecerá nada.

OS VÍDEOS SEPARADORES DA NBA

Num processo de popularização entre as audiências europeias dos jogos da liga norte-americana profissional de basquetebol (NBA), nos finais da década de 80, princípios da de 90, a RTP2 começou a transmiti-los aos Sábados à tarde.
Por serem concebidos precisamente para o espectáculo, eram sempre jogos tão emotivos quanto espectaculares e que superavam quaisquer partidas de basquetebol que os telespectadores europeus estivessem habituadas a assistir.
Dada a dimensão do campo de jogo, obrigatoriamente coberto, a assistência útil de um jogo de basquetebol está limitada a umas 5.000 pessoas, pouco mais. Daí a importância que tem de ser atribuída à transmissão televisiva do encontro.
Nesse aspecto, aquilo que era dado ver aos telespectadores europeus era irrepreensível: nem por um momento o programa perdia ritmo, apesar do basquetebol ser um jogo muito propenso a frequentes interrupções de jogo.
Aí, inseriam-se vídeos de 30 segundos, onde estrelas facilmente identificáveis pelo telespectador como Kirk Douglas, Chevy Chase, Anthony Quinn ou Plácido Domingo promoviam o basquetebol descrevendo-o como fantástico e que o adoravam
Passados estes vinte anos, mais do que as estrelas da época (Magic Johnson, Michael Jordan, Larry Bird ou Pat Ewing), o que melhor recordo são alguns destes magníficos separadores que apareciam durante essas interrupções de jogo…

29 dezembro 2010

O EFEITO STREISAND

Em finais de 2002, um casal, Gabrielle e Kenneth Adelman, resolveu criar um site com as fotografias tiradas – ela pilotando o helicóptero, ele fotografando – à orla costeira californiana documentando o processo de erosão que aquela costa está a sofrer, fenómeno a que não era indiferente alguns edifícios construídos muito próximos das arribas da costa. Entre o conjunto de fotografias postadas, em número que ultrapassava as 10.000, incluíam-se esses edifícios, um dos quais era a residência da actriz Barbara Streisand (acima). Quando um dos membros do seu entourage se apercebeu disso em 2003, a actriz processou os Adelman em 50 milhões de dólares invocando legislação anti-paparazzi destinada a proteger a sua privacidade.

O processo judicial correu pessimamente para Barbara Streisand. O juiz que proferiu a sentença chegou a questionar a razoabilidade do processo levantado por ela, tendo em conta a discrição e o enquadramento da fotografia que contestava quando em contraste com reportagens fotográficas em que a actriz expusera deliberadamente a sua privacidade doméstica e obrigando-a a pagar até as custas judiciais dos Adelman. Mas a notoriedade do caso, a que fez com que o nome da actriz baptizasse um Efeito foi outra: antes do processo, ninguém conhecia o site dos Adelman; com ele centenas de milhares de pessoas foram visitá-lo, a famosa fotografia (1 entre 10.000) foi publicada na imprensa e o assunto foi amplamente discutido nos media...

Agora, através deste episódio da Ensitel, o Efeito Streisand manifesta-se em Portugal. Já se escreveu e disse praticamente tudo o que haveria para dizer sobre o assunto, embora me pareça que persiste alguma confusão em identificar o cerne da questão: a intimação dos advogados para que a autora do blogue apagasse os postes que escrevera a respeito do incidente do telemóvel estragado. Como aconteceu com a acção judicial de Streisand, é o excesso, no caso de querer calar até os resmungos de quem obteve uma decisão judicial desfavorável, que acaba por parecer ameaçador para a comunidade de utilizadores e que faz recair sobre a Ensitel o opróbrio de passar por uma organização tão medíocre quanto intolerante.

28 dezembro 2010

O INCIDENTE NAVAL DO MAR NEGRO DE FEVEREIRO DE 1988

Já aqui me referi num poste dedicado ao Mar Negro às suas peculiaridades geográficas que fazem com que a Rússia, tendo de ceder os direitos de trânsito para o Mediterrâneo à Turquia (através de Istambul e do Estreito do Bósforo – veja-se o mapa acima), nem por isso deixa de ser sempre muito ciosa sobre quem essa sua rival permite a entrada no Mar Negro, um Mar que ela considera como uma espécie de clube privado reservado aos países ribeirinhos, que durante o período da Guerra-Fria eram aliás todos seus aliados – com excepção dessa mesma aborrecida Turquia, que pertencia à NATO
USS Yorktown tornou-se um nome de respeito na História da marinha de guerra norte-americana depois de um porta-aviões com esse nome ter participado nas duas primeiras batalhas aeronavais da Guerra do Pacífico tendo sido afundado após a segunda mas só depois da missão cumprida (Midway). Em 1988, esse nome respeitável fora atribuído a um Cruzador (acima) estacionado em águas mediterrânicas (Sexta Esquadra) que fora incumbido de encabeçar uma Força Tarefa norte-americana que, penetrando no Mar Negro (com a obrigatória permissão turca), tinha por missão principal chatear os russos.
Chateava-se os russos, exercendo o designado direito de passagem inocente (aqui, artº 17) - ao ser protagonizado por um navio de guerra, seria tudo menos inocente… - atravessando as águas territoriais soviéticas, um direito que se englobava no quadro mais vasto da liberdade de circulação marítima, expressa num dos artigos da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982 (acima). Nem de propósito, reforçando a hipocrisia da atitude norte-americana, os Estados Unidos não haviam ratificado (e ainda hoje não o fizeram…) essa Convenção de que se aproveitavam para invocar alguns artigos.
Desde a sua entrada no Mar Negro que os soviéticos adivinhavam as intenções norte-americanas e quando o Cruzador Yorktown pretendeu entrar inocentemente em águas territoriais soviéticas a Fragata Bezzavetny (acima), que fazia parte das unidades navais encarregues de marcar as suas rivais, colocou-se ao seu lado tentando bloquear-lhe o rumo, produzindo imagens espectaculares (veja-se o vídeo abaixo, filmado a partir da perspectiva do Yorktown) de duas unidades navais hostis navegando perigosamente próximas e acabando com a Fragata soviética a abalroar o Cruzador norte-americano.
Como de costume, as imagens do outro lado eram muito diferentes (abaixo) e nela se vê uma pequena Fragata soviética (à direita), qual David, a desafiar corajosamente o Golias (Cruzador) norte-americano, muito maior. O episódio é considerado o último incidente militar da Guerra-Fria e está hoje completamente esquecido. Para terminar, tirar-se-á uma conclusão que não deixa de ser significativa quanto às razões das duas partes com o facto de não ter encontrado na Internet qualquer página em inglês onde, como aqui fiz, se analisasse este incidente com algum detalhe, ao contrário do que acontece com esta página em russo

27 dezembro 2010

DESCULPEM, SABEM ONDE FICA A ESLOVÁQUIA?

Começo por esclarecer que a resposta ao título se pode ir encontrar a um poste que publiquei a respeito da História daquele país durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, o meu interesse sobre ele não chegará ao ponto de conhecer de cor a composição do seu elenco governamental, nomeadamente quem é o titular da pasta das finanças (Ivan Mikloš na fotografia acima) e muito menos o que o senhor possa pensar da situação financeira de alguns dos seus parceiros europeus como Portugal e a Grécia.

Em tese, no jornalismo costuma ser mais importante quem emite a opinião do que a opinião propriamente dita, porque entre os milhões deste planeta se arranja sempre um pateta para emitir a opinião mais estapafúrdia. Mas já descobri que nem sempre é assim, e que, quando se torna conveniente, há ideias que prevalecem e que são amplamente publicitadas, a dificuldade está em encontrar quem lhes dê voz. Por exemplo, a ideia que os países da Europa meridional representam uma perturbação para a harmonia da zona Euro.

Afinados por esse diapasão, já tivemos a opinião de um ministro sueco, depois foi de um comissário finlandês e agora foi do tal ministro eslovaco e a todos eles foi concedida uma notoriedade mediática como se se tratasse da opinião do próprio Barack Obama¹! Deixando de parte o pormenor importante do rating de Portugal só recentemente ter descido ao nível do da Eslováquia, será que a nossa Informação daria o mesmo destaque mediático ao que Giorgos Papakonstantinou² (abaixo) possa pensar das finanças eslovacas?
¹ E quando, quase simultaneamente, Angela Merkel, por exemplo, diz-se "impressionada" com as reformas em Portugal e Espanha.
² Giorgos Papakonstantinou é o ministro das finanças grego e, assim como o seu homólogo eslovaco mostra ter opiniões sobre as finanças do seu país, ele tê-las-á talvez também sobre as finanças eslovacas…

FRASE LAPIDAR 2

Esta frase lapidar completa hoje precisamente 47 anos e, apesar de ter sido então proferida por uma criança com dois, contém uma faceta de actualidade tremenda, tanto maior quanto depois destes dispositivos das redes sociais, como o facebook, nos transformaram a todos em mestres em não deixar escapar datas de aniversário alheias sem por isso nos tornarem mais generosos com o próximo…

LOCAIS REMOTOS – 3 (ATOL JOHNSTON)

Situado a uns 1.200 quilómetros a sudoeste das ilhas Havai, o pequeno atol Johnston, perdido no meio do Oceano Pacífico (acima), ganhou uma importância estratégica com o advento da aviação. Como aconteceu durante a década de 1930 com outras pequenas referências geográficas como os atóis de Wake ou Midway, os norte-americanos ali construíram uma base aérea que ganhou importância crucial durante as fases iniciais da Guerra do Pacífico (1941-1945) que os opôs aos japoneses.
Finda essa Guerra, no quadro da Guerra-Fria que quase imediatamente se lhe seguiu, os norte-americanos aproveitaram as infra-estruturas existentes e até as ampliaram (acima observe-se como a ilha principal se expandiu artificialmente de 19 hectares em 1942 para 241 hectares em 1964) para, aproveitando o isolamento geográfico dos atóis, ali se dedicarem a pesquisas militares ultra-secretas – no campo dos ensaios nucleares, no dos voos aeroespaciais e no da associação entre aqueles dois (ogivas nucleares).
Funcionando de uma forma que se assemelharia muito à da nossa conhecida Base das Lajes nos Açores, a Base de Johnston no seu apogeu era dominada pela pista principal com 2,7 quilómetros de extensão e operada por um conjunto de 1.300 pessoas (entre pessoal civil e militar) que eram para ali destacadas em comissões de serviço que, apesar do conforto relativo (ver abaixo) eram muito solitárias: ao contrário do que acontece com a Terceira, o pequeno atol Johnston nunca foi habitado.
O fim da Guerra-Fria e a redução do dispositivo militar norte-americano levaram ao seu encerramento em 2004. A pista foi desactivada (é o significado do enorme X amarelo que se vê pintado no chão numa das fotografias abaixo) e os edifícios foram demolidos para que a ilha se viesse a transformar num refúgio para a vida selvagem, o que tem vindo a acontecer. Esta só será uma história com final feliz, se as necessidades militares não se reimpuserem: o atol permanece sob a jurisdição da Força Aérea...
(As duas últimas imagens são montagens de fotografias obtidas aqui).

26 dezembro 2010

25 dezembro 2010

O «SPETSNAZ»...

A melhor tradução do russo para o português do conceito (que não da palavra) Spetsnaz (Cпецназ em círilico) será Comando: um soldado de uma unidade de elite altamente especializada e preparada. Tanto a unidade militar como os membros que a constituem são referências de eficiência. Será por isso um Spetsnaz aquilo que o russo que se vê abaixo estará a emular quando posa com aquele ar desafiador e uma AK-74 em cada braço para a fotografia. Atente-se porém ao pormenor do aconchego das suas botas especiais que hoje é dia de Natal e faz frio lá fora – então na Rússia nem se fala…

MANHÃ DE NATAL

Tea for Two, Art Tatum

24 dezembro 2010

AMAR, AMAR PERDIDAMENTE!

A expressão acima é do famoso soneto de Florbela Espanca mas suponho que se aplicará que nem uma luva a Édith Piaf. Abaixo um jogo de fotografias suas com alguns dos seus amores entremeado de algumas das suas mais famosas interpretações (por ordem cronológica) cujo tema predominante é precisamente o Amor.

Yves Montand (1944)
Hymne à l'amour (1949)
Marcel Cerdan (1947)
Les amants d'un jour (1956) Georges Moustaki (1958)
La foule (1957) Théo Sarapo (1962)
Non, je ne regrette rien (1960)

23 dezembro 2010

O CASO DO CORREIO DE LIÃO

Num dos álbuns iniciais das aventuras de Astérix (5º), naquele em que ele dá uma Volta à Gália (1963), aparece no canto inferior esquerdo da sua vigésima prancha (acima), um postilhão romano amarrado, depois de assaltado pelos dois heróis gauleses, a fazer uma referência enigmática ao facto de ainda não se ter dito tudo sobre o Caso do Correio de Lugdunum - a designação antiga da cidade de Lião (abaixo). Ora o Caso do Correio de Lião é um caso criminal célebre do período da primeira República francesa (1796), mas cuja celebridade permaneceu confinada à própria França. Sintomático disso, a única entrada que a ele se refere na Wikipedia está escrita em francês
O Caso começou em finais de Abril de 1796 (inícios do Floreal do Ano IV segundo o calendário republicano francês). A mala-posta que partira de Paris para Lião levando consigo os meios de pagamento para os contingentes do exército francês postados no Sul de França sob o comando de Napoleão Bonaparte foi assaltada durante a noite. O postilhão e o seu ajudante foram assassinados, o dinheiro (alguns milhões, quase todo sob a forma de uma espécie de notas de banco designadas por assinados – abaixo) desaparecera assim como o único passageiro que embarcara na mala-posta e mais um dos seus cavalos, o que indiciava que se trataria de um cúmplice dos assaltantes.
As investigações decorreram fluidas e conduziram os investigadores a um albergue dos arredores de Paris onde, no dia do crime, quatro cavaleiros se haviam feito notar por terem querido pagar as suas despesas com os tais assinados para grande irritação do estalajadeiro que, como o resto da população, preferia os pagamentos feitos em metal sonante (abaixo um Luís de ouro). O episódio conduziu à detenção de um suspeito na posse de um espólio equivalente a um quinto do saque mas, sob a pressão dos acontecimentos, o processo acabou por ser aberto em princípios de Agosto, sem que houvesse tempo para investigar devidamente qual fora a composição do bando.
Aquela celeridade acabou por provocar um erro judiciário trágico, quando se condenou à morte e se executou um dos réus chamado Joseph Lesurques que, apesar de ter sido devidamente identificado por várias testemunhas por ser louro, tanto os depoimentos dos seus supostos cúmplices durante o julgamento como os acontecimentos que se seguiram vieram a inocentar. Como seria de esperar, o aparelho judicial francês blindou-se quando à revisão do caso e à assunção desse erro... Este Caso e Lesurques tornaram-se depois numa bandeira pela abolição da pena de morte em França, pena essa que ainda estava em vigor quando A Volta à Gália foi desenhada¹
¹ Nesse ano de 1963, o Tenente-Coronel Jean-Marie Bastien-Thiry (1927-1963) foi condenado à morte e fuzilado por ter organizado um atentado contra o Presidente de Gaulle.

22 dezembro 2010

O CASO GOETZ

Bernhard Goetz (acima, n. 1947) é um nova-iorquino que se tornou conhecido e que emprestou o seu nome a um Caso famoso quando, em Dezembro de 1984, reagiu a um ataque de quatro assaltantes na carruagem de metropolitano onde viajava, sacando e disparando uma arma ilegal que transportava consigo, ferindo-os a todos, um dos quais de forma permanente – ficou paraplégico. O Caso Goetz desencadeou na época uma controvérsia enorme nos Estados Unidos à volta da incapacidade do Estado em assegurar a segurança dos seus cidadãos, da possibilidade destes o fazerem autonomamente e dos limites legais como o podiam fazer.
Veio-se a saber, no seu julgamento, que Goetz já havia sido assaltado no metropolitano três anos antes, episódio donde saíra ferido com estilhaços de uma vitrina para onde fora atirado. Depois disso, Goetz solicitara uma licença de porte de arma que lhe fora negada. O ambiente de insegurança que se vivia no metropolitano nova-iorquino à época era estarrecedor: havia uma média de 38 participações de crimes diariamente. E os cadastros criminais que qualquer dos quatro baleados possuía – afro-americanos com 18 e 19 anos residentes nos bairros degradados do Bronx – davam uma indicação forte que o incidente não se tratara de um trágico engano.
O episódio veio parar às primeiras páginas dos jornais (acima), que baptizaram o autor do tiroteio de O Vigilante do Metropolitano. Torna-se tão lógico quanto paradoxal que, quando o aparelho do Estado é assim confrontado com as suas insuficiências (no caso, a de providenciar segurança no metro), sente-se obrigado a reagir com uma eficácia que provavelmente teria evitado o problema inicial: Goetz veio a ser detido oito dias depois do tiroteio. Por essa altura já a opinião pública se dividira em relação ao incidente em favor da atitude de Goetz ou condenando-a por excessiva. A primeira facção mostrou-se muito melhor organizada.
Um dos aspectos que favorecia a causa de Goetz aos olhos da opinião pública era a sua imagem frágil com os seus óculos de aros finos de metal e um aspecto de presa para os predadores dos subterrâneos que o nova-iorquino típico aprendera a reconhecer… A fotografia acima, retirada de um jornal da época e sem o exprimir, acaba por induzir o leitor a imaginar como seria a desvantagem de Goetz perante os seus assaltantes e a justiça da sua reacção. Paradoxalmente, o afro-americano entroncado que ali aparece é um aliado seu, pertencente aos Guardian Angels, uma organização não-lucrativa que faz a segurança nos metropolitanos…

21 dezembro 2010

AEROPLANO!

Ainda em evocação a Leslie Nielsen e lembrando a sua participação como protagonista na paródia das paródias aos filmes-catástrofe com Aeroplano! (1980), vejam-se duas das mais memoráveis cenas do filme, a primeira quando o único passageiro habilitado a pilotar o avião em catástrofe descobre que os dois pilotos estão incapazes de o fazer e se trava o (memorável) diálogo mais abaixo:
…both pilots? (…os dois pilotos?)
Can you fly this plane and land it? (Consegue pilotar este avião e aterrá-lo?)
Surely you can't be serious!? (Decerto que não está a falar a sério!?)
I am serious and don't call me Shirley! (Estou a falar a sério e não me chame Shirley!¹)

Enquanto esta primeira cena consta da lista dos 100 diálogos mais famosos da história de Hollywood, a segunda é a minha favorita. Nela aparece uma passageira que, perante a situação de catástrofe eminente, é acometida de um súbito e exuberante ataque de pânico que é depois refreado violentamente por uma das hospedeiras a que se seguem uma meia dúzia de passageiros que se oferecem generosamente para a substituir…

Além de ter piada, a cena é sobretudo uma lição de vida. Perdi a conta ao número de vezes em que, em outras situações de tensão, vi os intervenientes mais contidos aproveitarem o menor pretexto que pudessem disfarçar de atitude construtiva para descarregarem, da mesma forma generosa, os seus nervos em cima dos que se mostravam mais expansivos quanto aos seus receios…

¹ A piada não se pode traduzir porque resulta da confusão existente entre a quase homofonia em inglês entre surely (decerto) e Shirley (nome próprio feminino), nome que Leslie Nielsen interpreta como um insulto à sua pessoa.

20 dezembro 2010

OS «TRAQUES» DE LESLIE NIELSEN

Numa homenagem atrasada ao actor Leslie Nielsen que faleceu recentemente a 28 de Novembro passado aos 84 anos, incluo aqui dois vídeos seus, relacionados com um tema que ele cuidadosamente cultivava, tanto na imagem pública como na privacidade: os traques.

O vídeo acima é de uma das suas mais inesquecíveis cenas da comédia Onde é que pára a Polícia? em que os seus traques perturbam uma conferência de imprensa e o vídeo abaixo de uma aparição sua num programa matinal de TV onde acontece o mesmo – aparentemente a sério...

Em jeito de evocação, Priscilla Presley que com ele contracenou nos três filmes da série Onde é que pára a Polícia? recordou que a primeira vez que encontrou Leslie ele a cumprimentou accionando uma dessa maquineta de traques que trazia escondida consigo a que dera o nome de whoopee cushion.

19 dezembro 2010

DA HORA DE DEITAR AOS CUIDADOS DO QUANDO E COMO SE FAZ XIXI

Desde o vídeo acima, que foi transmitido pela RTP faz quase 40 anos, até ao vídeo dos patinhos (abaixo), muito mais recente, gerações sucessivas de portugueses conviveram com um vídeo animado diário alertando-os para a conveniência de se deitarem cedo.

São vídeos que se pretendem pedagógicos e, pelo estilo e pelos temas, podem ser observados como um reflexo das sociedades que os criam. Por isso mesmo, vale a pena comparar os nossos dois vídeos acima com dois outros, japoneses, dirigidos à mesma faixa etária.

Nesses vídeos, também transmitidos em horário nobre, a pedagogia dirige-se às atitudes que as crianças deverão tomar quando pretenderem satisfazer as suas necessidades fisiológicas, algo que, na cultura japonesa, assume uma importância primordial...

FRASE LAPIDAR 1

Valupi, Aspirina B, aqui.

18 dezembro 2010

OS «PEÕES» DA REPRESSÃO E TERROR

Continuando a procurar evitar que se Apague a Memória!, recordo aqui esta fotografia da altura do 25 de Abril, um agente da PIDE de mãos na nuca e em cuecas onde, especificava a notícia que a acompanhava, escondera uma arma, descoberta depois de submetido à revista corporal.
Mas essa Memória também deve servir para evocar outras fotografias que foram obtidas em circunstâncias semelhantes à anterior, como esta sequência que se segue, tirada em Outubro de 1956, por ocasião da Revolta que eclodiu em Budapeste contra a interferência soviética.
Os prisioneiros que ali se vêem de mãos erguidas são guardas da AVH (Államvédelmi Hatóság - a polícia política do regime socialista húngaro), capturados durante os combates iniciais que colocaram a cidade sob controlo dos simpatizantes das reformas de Imre Nagy.
O encadeamento das fotografias e a evolução das expressões conta uma história tão cruel quanto irónica, pois as vítimas não passavam de peões ao serviço de um regime e de uma ideologia que sempre proclamou a necessidade circunstancial da existência de violências revolucionárias
Mas, como a História comprova repetidamente, as ditaduras irmanam-se mais pelas práticas do que pelas retóricas. Depois da Revolta ter sido esmagada pelos soviéticos, as fotografias foram usadas como prova no julgamento de Imre Nagy que se concluiu com a sua condenação à morte...
É perante exemplos destes, que se torna decoroso que aqueles que se pretendem passar pelos detentores da preservação da nossa Memória se congratulem e se moderem nos tons excessivamente avermelhados com que pretendem reviver certas fases do nosso passado...

17 dezembro 2010

SEDES DE REPRESSÃO E TERROR

Assim como a António Maria Cardoso (acima, uma placa toponímica dessa rua lisboeta) se tornou durante quase 40 anos em Portugal numa referência perifrástica à PIDE
…por causa do seu edifício-sede se situar naquela rua (acima, uma fotografia do edíficio nos princípio do Século XX e abaixo outra do mesmo edifício um século depois),…
… também o nome de Lubyanka (Лубянская em russo) foi simultaneamente o nome de uma das maiores praças moscovitas e também a referência implícita ao KGB.
Concebido originalmente para ser a sede de uma Companhia de Seguros (acima), o edifício albergou depois a sede do KGB, que constituía uma apólice de seguro do regime soviético.
Com o aumento da importância do KGB, em meados do Século XX o edifício veio a aumentar a sua volumetria, expandindo-se para a rua adjacente como se nota pela fotografia aérea acima.
Mas foi a estátua do fundador da organização, Feliks Dzherzinsky, no centro da praça que recebeu o seu nome (acima), que se tornou no símbolo vísivel da instituição para os soviéticos.
É premente que Não Apaguem a Memória! Também que entre nós nunca se tornou necessário derrubar nenhuma estátua de Agostinho Lourenço, o primeiro director da PIDE