31 julho 2010

GENOCÍDIO

Ao contrário de outros postes também dedicados a outras fotografias simbólicas, neste caso só a afixarei no fim, para melhor impacto e reflexão de quem lê. O tema, como se percebe pelo título é o genocídio, algo que preferimos atribuir a vontades dementes (acima, a fotografia de Pol Pot) e/ou a organizações complexas que podem recorrer a processos sofisticados de eliminação dos indesejáveis (abaixo, os fornos crematórios de Auschwitz).
Porém, a verdade crua é que os genocídios não podem ser bem sucedidos se não contarem com a colaboração pelo menos passiva e muitas vezes activa das sociedades onde têm lugar. A crueldade somos nós, como o demonstra bem a fotografia das centenas de catanas (quantas delas estarão sujas de sangue?...) apreendidas quando do genocídio no Ruanda em 1994, que não teve um responsável para inculpar nem grandes tecnologias para ser perpetrado…

30 julho 2010

ABSURDOS

A fotografia deste poste é uma das mais evidentes demonstrações como a sociedade norte-americana actual se rege (e arrasta as do resto do mundo a regerem-se…) por normas que se podem tornar totalmente absurdas. Percebe-se que a fotografia foi tirada durante uma banal viagem de avião onde o senhor da camisola cinzenta (ao centro) teria sido repreendido se tentasse fumar um cigarro e teria de ter deixado qualquer corta-unhas mais imaginativo ou frasco de after-shave de aspecto mais suspeito em terra…
Porém, permitem-lhe sentar-se assim, com o braço da cadeira profundamente enterrado no rego do seu rabo, apesar de ser óbvio o perigo em que poderá colocar todos os que consigo viajam no caso de ser necessário evacuá-lo rapidamente… Possivelmente, haverá uma qualquer cláusula que impedirá que ele seja discriminado como passageiro mas, naquele voo e naquela secção do avião, as hospedeiras bem se podiam ter dispensado de apresentar os tradicionais (e obrigatórios) procedimentos de segurança em casos de emergência…

29 julho 2010

VETERANOS E VETERANOS - AINDA A PROPÓSITO DAS MEDALHAS & BARRAS

Combinando as lembranças que me trouxeram as recordações de outras medalhas & barras, figura que usei num poste meu da semana passada e a referência que me fez o autor de um blogue para veteranos da Guerra da Guiné (intitulado Luís Graça & Camaradas da Guiné) já há mais de um mês atrás, gostaria de deixar aqui algumas reflexões sobre essa referência, moderando um assunto que o mencionado autor, Luís Graça, até pretendeu dar o pomposo nome de controvérsia.
Da minha parte considero que não há controvérsia alguma. Pior: considero impensável que Luís Glaça tenha tido a pretensão de passar por árbitro imparcial¹ dessa hipotética controvérsia. Em geral, tenho um grande respeito pelos veteranos das Guerras de África, mas a leitura daquele blogue ensinou-me a abrir algumas excepções, onde incluo por várias razões aquele que dá o nome ao blogue. Respeito reverencial guardo-o para veteranos que ostentaram condecorações & barras como as da imagem acima²

¹ Simplificadamente: parte importante daquilo que escrevi foi omitido. Foi por lapso (sic). vim a descobrir, mas o lapso ainda hoje se mantém...
² Da interpretação das referidas condecorações & barras conclui-se que o seu detentor fez cinco comissões de serviço durante o período das Guerras de África, sendo uma na Índia (1957-59), duas em Moçambique (1961-64 e 1968-70) e duas na Guiné (1965-67 e 1971-73).

COM ELEGÂNCIA E DISCRIÇÃO

Pedro Mexia foi nomeado com demasiado alarde Subdirector da Cinemateca Nacional em Março de 2008. Em Janeiro de 2009, Mexia substituiu o Director da instituição por motivos de saúde, antecipando aquilo que a lógica anunciava que viria a acontecer e que aconteceu daí a quatro meses – a morte do titular que, pelos vistos, nem o acumular dos anos tornava substituível no cargo: João Bénard da Costa. Pedro Mexia ocupou interinamente as funções durante onze meses até à nomeação de uma nova Directora em Dezembro de 2009: Maria João Seixas. Ora onze meses já são um prazo obsceno para deixar alguém a ocupar interinamente um cargo sem depois o confirmar. A mesma lógica que anunciava a morte de Bénard da Costa também antecipava a demissão de Pedro Mexia do cargo que ocupou e que teve lugar há uma semana atrás, uma saída digna, com discrição e sobriedade – invocando os motivos pessoais adequados para estas situações… - e sem o alarde excessivo e descabido da nomeação.

INTIMIDADES QUE EU NÃO MEREÇO

A propósito do primeiro comentário ao meu poste anterior, da autoria de alguém que escolheu a referência intimidades para se identificar, referência essa que por sua vez nos remete para blogues com os sugestivos nomes de Desejos Íntimos e Sensualidades e que de mim se despede, mandando-me vários beijos e identificando-se por Paula, embora eu não faça a mínima ideia de quem se trata, ocorreu-me trazer à conversa estes dois antigos cartazes militares dedicados à questão das doenças venéreas dos militares.
Escolhi dois cartazes característicos das duas abordagens distintas, diria mesmo antagónicas, para esse problema. O de cima representa a vertente moralizadora. Nele lê-se Os homens que sabem dizem não às prostitutas. Diga-se a propósito que o primeiro feito que tornou conhecido entre os soldados britânicos da Segunda Guerra Mundial o General Montgomery foi uma circular que ele redigiu em França no princípio de 1940 sobre os perigos temíveis das doenças venéreas e a importância militar da castidade
A outra abordagem era, obviamente, tentar combater o problema através da distribuição de preservativos e, como se pode ler no cartaz acima, promovendo o seu uso pelos soldados. "Cruzar os Dedos" não vai evitar as doenças venéreas – lê-se em cima – mas um profiláctico evita – conclui-se em baixo. Note-se contudo, apesar de toda a abertura, o cuidado excessivo (senão mesmo o pudor…) em designar o preservativo no cartaz por prophylaxis quando o seu nome vulgar em inglês é condom

28 julho 2010

O BUFFET CHINÊS

Imaginem-se a passear por mais uma daquelas típicas localidades algarvias à beira-mar em hora próxima da do jantar quando uma chinesinha vos entrega um prospecto de um restaurante chinês. Dêem-lhe uma vista de olhos (abaixo) que o outro lado do prospecto não o mostro, que o dito restaurante não merece publicidade. Mas a ementa que abaixo se mostra – redigida em inglês e só em inglês… – é pretexto para algumas reflexões sobre o que nos propõem aqueles que querem dar de comer aos que nos visitam:
A começar por Soup of the day (sopa do dia), uma apresentação a sugerir-nos as reminiscências lusitanas da nossa sopinha; seguem-se Spare ribs (costeletas com pouca carne), uma designação que entrou recentemente no nosso quotidiano através dos restaurantes norte-americanos; em contrapartida, a opção seguinte, Chicken kebab, especialmente a segunda expressão (kebab - espetada) associamo-la às cozinhas do Médio Oriente; para, na opção seguinte (Fried chicken wings – Asas de frango fritas), regressarmos à interessante culinária norte-americana; quatro pratos mais abaixo a opção é indiana com Chicken curry (Caril de frango) a que se lhe segue uma mexicana, Chicken with chilli sauce (Frango com molho de chili)… O fim do prospecto é rematado com um desafio: EMPANTURRAI-VOS (ALL YOU CAN TO EAT). Não provei a comida. Não era preciso.

26 julho 2010

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS BUT WITHOUT ANY HELP AT ALL FROM JOE COCKER*


O vídeo acima é de uma canção dos Beatles With a Little Help from My Friends (Com Uma Pequena Ajuda Dos Meus Amigos), pertencente ao álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pepper) de 1967. Por curiosidade, refira-se que a canção (com 2:44 de duração) aparece em segundo lugar nesse álbum e musicalmente ligada à canção inicial, precisamente a que lhe dá o nome. Quanto ao vídeo abaixo é de uma versão dessa mesma canção cantada dois anos depois, no festival de Woodstock por Joe Cocker e tornou-se para mim no símbolo daquelas versões que não acrescentam nada à versão original a não ser tempo (a nova versão demora o dobro da original a ser cantada…) e uma pose excessiva e incompreensivelmente histriónica do intérprete

*Com uma pequena ajuda dos meus amigos mas sem ajuda nenhuma de Joe Cocker

24 julho 2010

ASNEIRA & BARRA

Nos países em que a discrição é de bom gosto, é comum que, em vez da prática da multiplicação das condecorações militares atulhando os peitos, se adicione uma barra à medalha no caso do condecorado receber a mesma distinção por mais do que uma vez (abaixo). Assim, em vez de se dizer que o militar recebeu duas medalhas militares, diz-se que ele possui a Medalha Militar & Barra. Todo este prelúdio destina-se a preparar-vos para que, depois da atribuição de um primeiro galardão já chegámos à fase das repetições entre as asneiras mais emblemáticas dos jornalistas mais mediáticos…

A culpa é da minha disponibilidade de férias e da consequente aquisição do Expresso, coisa que raramente faço. Ali, na página 8 na terceira coluna da notícia do topo, escreve-nos o aclamado e anteriormente distinguido jornalista Ricardo Costa, enviado da impresa a Angola: Pudera: o PIB da Guiné Equatorial já é superior ao da Itália, apesar de mais de metade da população viver com menos de um dólar por dia. Para os entendidos, perceber-se-á tão bem o que Ricardo Costa quereria dizer, como aquilo que ele confundiu, e pelos vistos ninguém na revisão do artigo se apercebeu a ponto de rectificar.

A verdade é que a Guiné-Equatorial é um país de quase 700 mil habitantes e a Itália um de 60 milhões. O PIB da Itália é cerca de 200 vezes maior que o da Guiné-Equatorial. Ao escrever que o PIB do pequeno país africano seria superior ao italiano, Ricardo Costa deveria querer referir-se à capitação do valor do PIB por habitante, um indicador completamente distinto, mas nem isso é verdade. O PIB per capita em Itália rondou (em 2009) os 35 mil dólares e o da Guiné-Equatorial os 15 mil… Costa já havia aqui sido distinguido por outra Asneira. Merece agora receber uma Barra

22 julho 2010

VOU ALI JÁ VENHO…

A pretexto da partida para férias, aproveitemos para nos rir de nós mesmos inserindo aqui um pequeno trecho de uma aventura d´O Pequeno Biniou de Dupa sobre esse tema (acima) para além do genial início d´As Férias do Sr. Hulot de Jacques Tati (abaixo).

21 julho 2010

PORQUE SE TRAVAM AS BATALHAS?

O quadro acima representa de forma figurativa algumas das maiores batalhas travadas na Europa nos dois séculos e meio que decorrem entre 1400 a 1650. Em abcissas, para a esquerda do eixo vertical central e a cor azul estão os efectivos dos exércitos vencedores de cada batalha, medidos pela referência situada no próprio eixo das abcissas em baixo. Para a direita daquele mesmo eixo central e em cor alaranjada estão os efectivos dos exércitos vencidos. Cada par de barras azul-alaranjado representa assim uma batalha de que o ano em que foi travada está assinalado do lado esquerdo do quadro e o seu nome no direito.

A título de exemplo, a batalha mais antiga do quadro foi a de Azincourt, travada em 1415 e ganha por 6.000 ingleses contra 20.000 franceses. Como aconteceu nesse caso e como se vê pelo resto do quadro nem sempre é o maior exército o vencedor da batalha. Porém, a imagem de conjunto das batalhas do quadro aponta-nos para um razoável equilíbrio entre os efectivos dos beligerantes. O que é lógico. Já li vezes demasiados comentários a batalhas feitos posteriormente que esquecem uma evidência: quando as duas partes se engajam na batalha é porque ambas têm esperanças razoáveis de vencer o confronto que se inicia…

POSTES À GANDA RODOLFO!!!

O sketch abaixo desenvolve uma situação que é tão cómica quanto paradoxal, paradoxo que depois acaba por não ser devidamente explicado: quem foi que convenceu o Rodolfo (Ricardo Araújo Pereira) que ele tinha sempre uma resposta à altura? E mais bizarro ainda: como é que os admiradores do Rodolfo se convenceram que as suas respostas eram assim tão boas? Como se pode ver no sketch pelo olhar progressivamente mais desdenhoso de José Diogo Quintela, é só através de uma entreajuda cúmplice e exuberante entre o protagonista Rodolfo e a sua claque de apoio que a parelha parece estar a dominar o ambiente, situação absurda que se prolonga até à frase final de Tiago Dores: - Eh Pá! Foste Massacrado!...

Em suma, percebe-se que o Rodolfo é um imbecil mas que tem os seus admiradores que serão tão, ou provavelmente ainda mais, imbecis do que ele. E, como se deduzirá do sketch, possuí-los, a esses admiradores dinâmicos de baixo QI, parece ser algo muito importante na actualidade, também aqui na blogosfera. Porque um bom poste de reacção a um outro precisará de um certo aconchego de comentários reconfortantes que isso sempre impressiona o próprio e a audiência. Os comentários equivalem-se em substância aos Pan!, Tumba!, Pumba! e outras onomatopeias que ouvimos a Tiago Dores em apoio do seu inteligente amigo mas isso é o menos... Só por isso vale a pena dar a postes como estes a classificação de postes À Ganda Rodolfo!!!…

20 julho 2010

VLADIMIR KANE ULIANOV

Datada de uma época próxima da fotografia anterior, mas orientada para o outro lado, para o palco e para a vanguarda das vanguardas da classe operária soviética, esta outra mostra-nos o Secretário-Geral do Partido Comunista Soviético de então, Leonid Brejnev, a discursar diante da expressão perscrutadora de um gigantesco Lenine (qual Big Brother!), num cenário de palco que parece ter-se ido inspirar deliberadamente ao filme Citizen Kane (abaixo)…

UNANIMIDADE DEMOCRÁTICA

Datada de meados da década de sessenta, esta fotografia é um exemplo perfeito da unanimidade democrática, que foi uma das conquistas infelizmente perdidas da sociedade soviética. Se se tratasse de um outro regime, as expressões fechadas e a floresta de cartões levantados sem qualquer excepção à vista seriam verdadeiras expressões de repressão sobre os representantes do povo trabalhador. Mas tratando-se da União Soviética, não. Esta unanimidade é o resultado de um aprofundado trabalho preparatório de esclarecimento junto dos camaradas delegados…

19 julho 2010

A VERDADEIRA PUTA

Os meses que medeiam entre Agosto de 1944 e o fim da Segunda Guerra Mundial foram também o tempo de um feroz acerto de contas entre franceses – um processo sórdido como uma verdadeira Guerra Civil! As imagens mais simbólicas – mas enganadoras... – desse período costumam ser as das namoradas dos ocupantes alemães a serem submetidas à humilhação de lhes raparem o cabelo por colaboracionismo (acima) – a colaboração na horizontal, como então foi ironicamente baptizada.
Porém, a História ensina-nos que uma multidão nunca teve quaisquer convicções, apenas aquele instinto primitivo de se juntar aos vencedores. Porque a ter existido uma puta então ela foi a esmagadora maioria da sociedade francesa. Basta compararmos a recepção (acima) que foi granjeada pela cidade de Nancy ao Marechal Pétain em Maio de 1944 (um mês antes do desembarque do Dia D) com a propiciada pela mesma cidade ao seu rival, o General de Gaulle (abaixo) quatro meses depois…

18 julho 2010

FOTOGRAFIAS DO PASSADO LONGÍNQUO QUE SE TORNARAM SIGNIFICATIVAS NO PASSADO RECENTE

São coincidências e curiosidades as fotografias em que aparecem reunidos os sucessivos dirigentes de um partido político.
Na primeira, datada de 1989, podemos ver reunidos todos os sucessores (até à actualidade) de Vítor Constâncio no cargo de Secretário-Geral do PS. Da esquerda para a direita: Ferro Rodrigues, José Sócrates (a puxar de um cigarro…), António Guterres (ainda de bigode...) e Jorge Sampaio. Reconhece-se ainda na segunda fila Jorge Lacão (a participar no que parece ser uma intrigalhada…) e, ainda mais longe, Armando Vara e também aquele que foi outra eterna esperança para ocupar esse mesmo cargo de Secretário-Geral do PS, Jaime Gama.
Numa fotografia muito mais institucional e canónica, tirada provavelmente no princípio dos anos noventa durante um comício ou na Festa do Avante e em plano ligeiramente inferior ao dos fotografados conforme a ortodoxia estética, vemos Carlos Carvalhas, já então prometido para sucessor (e ao lado) de Álvaro Cunhal, enquanto num plano ligeiramente mais recuado aparece o sucessor dos dois, Jerónimo de Sousa.
Conseguir uma fotografia equivalente para o PSD é que será impossível tal a rotação e diversidade dos titulares do cargo de Presidente do PSD depois de Cavaco Silva. Em substituição, fica esta fotografia dos anos dourados do cavaquismo onde se pode identificar, da esquerda para a direita, Mendes Bota, ??, Dias Loureiro (a propósito, que é feito dele e do assunto BPN?...), Fernando Nogueira, Cavaco Silva e Eurico de Melo. Na fila de trás reconhecem-se ainda Luís Filipe Menezes e, um pouco mais distante, Durão Barroso. Ficam a faltar Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Santana Lopes, Luís Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, e para os ter juntado a todos casualmente numa fotografia teria sido mesmo preciso que Jesus Cristo tivesse descido à Terra...

17 julho 2010

AUTO-RETRATOS DO JORNALISMO PORTUGUÊS

Em música:

Em pintura:

...uma classe indiscutivelmente muito acima do resto do país!

TV NOSTALGIA – 50

A série policial Cagney & Lacey, aparecida na nossa televisão em meados da década de oitenta, destacou-se pela novidade do género das protagonistas (acima). Rompendo com a tradição do estilo, a acção centrava-se numa dupla feminina de detectives da polícia de Nova Iorque, Christine Cagney e Mary Beth Lacey, as actrizes Sharon Gless e Tyne Daly, respectivamente. Confesso não me lembrar de nenhum episódio particular da série, mas vale a pena evocar uma reaparição da dupla como convidadas num show britânico há uns três anos atrás. Numa daquelas partidas que é mais simples ver no vídeo abaixo do que descrevê-la, Sharon Gless, tem uma frase lapidar para definir aqueles momentos de embaraço e aflição: - Eu nem me lembro de ter comido aquilo!...

16 julho 2010

NUMA SEMANA…

Em jornalismo o intervalo de uma semana parece ser uma eternidade. Nesse intervalo pode realizar-se uma reunião, Carlos Queiroz pode ser confirmado no seu cargo de seleccionador nacional e deixa de ter rendimento noticioso fomentar por agora mais encrencas entre ele e Gilberto Madaíl. E no mesmo intervalo de tempo, o jornal Sol pode tentar deslocar a questão dos insultos públicos que Carlos Queiroz lhe endereçou e ao seu jornalista Pedro Prostes da Fonseca na semana passada para o pormenor dele ter ou não usado noutro contexto as expressões que o jornal lhe atribuiu durante a entrevista. Falta ver é quem se deixa enrolar com a (des)conversa...

Uma semana dá para tentar esquecer o óbvio: é a citação da frase da notícia da primeira página da edição da semana passada que está em questão (abaixo). Nesta semana o Sol dedica a sua última página a tentar dar uma volta (de 360º) ao assunto: o jornal continua a recusar-se a disponibilizar a transcrição literal da gravação da conversa do jornalista com Carlos Queiroz sonegando-nos a capacidade de podermos julgar por nós se a citação que o jornal fez das afirmações de Carlos Queiroz¹ era adequada ou era abusiva, como este último reclamava. Ao menos a justificação para não o fazer continua a ser o mesmo disparate, semana pós semana...
¹ Como se vê pela imagem acima a frase “Tendo em conta a estrutura amadora da Federação, as coisas correram muito bem à Selecção” está entre aspas, o que é a regra para uma citação em discurso directo.

OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM

A primeira vez que vi Os Cavalos Também Se Abatem (They Shoot Horses, Don't They? - 1969) foi na televisão. Foi um dos primeiros filmes a ser transmitido em que aparecia aquela indicação de reserva no canto superior direito do ecrã. Não me lembro se o sinal já era um sinal parecido com o actual. Garanto é que não era vermelho porque a televisão ainda era a preto e branco… E lembro-me que as cenas mais cruas do filme eram constituídas pelo episódio recorrente do abate do cavalo ferido que um dos protagonistas (Michael Sarrazin) presenciara na juventude. Mas, mais do que fisicamente, trata-se de um filme violento psicologicamente.

A história é a de uma maratona de dança que tem lugar num dos anos mais negros da Grande Depressão. O prémio final é de 1.500 dólares para o par vencedor – o que resistir mais – e a miséria faz os concorrentes disporem-se a tudo para os conquistar. Mas o resultado do concurso é irrelevante para a história – o filme acaba sem que se saiba quem venceu. O que é omnipresente é a falta de esperança que levou a que, no fim, a protagonista (Jane Fonda) se faça abater como um cavalo acidentado. Quando o vi, na década de 70, os anos do apogeu do Welfare State, o enredo parecia uma reflexão de alerta sobre um passado a não repetir.

Mais de 40 anos depois da sua estreia, tenho muitas dúvidas se o filme ainda continua a cumprir essa missão…

15 julho 2010

CONTESTAÇÃO NA CULTURA

As variadas contestações aos critérios de selecção dos destinatários dos financiamentos oriundos do Ministério da Cultura têm tanto de recorrentes quanto de entediantes. Fazem-me sempre lembrar uma famosa cena (acima) do filme Tootsie (1982) em que o actor Michael Dorsey (Dustin Hoffman) confronta o seu agente George Fields (Sydney Pollack). A vantagem da cena sobre a nossa realidade repetida é que ela tem ritmo, piada e, sobretudo, Michael Dorsey está disposto a arriscar o seu próprio dinheiro para produzir a peça...

- Michael, importas-te de esperar lá fora? Estou a falar com a Costa (Costa Oeste dos Estados Unidos, provavelmente a Califórnia).
- Esta também é uma costa, George. Nova Iorque também fica numa Costa (Leste).
- Jesus! Sy?... Sy?... Olha o que fizeste. Margaret?... Margaret?... Tenta apanhá-lo outra vez que a chamada caiu. O que é que aconteceu, Michael?
- Terry Bishop vai fazer o
Iceman Cometh, não é? Tu não me disseste que ias ver se me conseguias esse papel? Estou enganado? Não ias ver se eu conseguia uma audição? Não és o meu agente?...
- Stuart Pressman queria um nome, Michael.
- Ah, e então Terry Bishop é um nome…
- Não, não, Michael Dorsey é que é um nome. Quando se quer sarilhos, Michael Dorsey é um nome.
Michael faz tenção de sair.
- Espera aí, espera aí. Vamos lá a recomeçar a conversa outra vez do princípio. Terry Bishop entrava numa telenovela. Milhões de pessoas viam-no diariamente. É conhecido.
- E isso qualifica-o para arruinar Iceman Cometh quando eu sou não sei quantas vezes melhor que ele e até já fiz aquele papel em Minneapolis?
- Se o produtor queria um nome foi opção dele. Eu sei que isto te vai deixar triste, Michael, mas há uma data de gente que anda neste negócio para ganhar dinheiro.
- Disseste isso como se fosse para me atingir, George. Eu também estou nesta actividade para fazer dinheiro.
- Ah é?!
- Sim!
- O «Teatro de Harlem para Cegos»? «Strindberg no Parque»? O «Workshop Popular de Siracusa»?
- Ok, espera aí. Eu representei nove peças em oito meses em Siracusa. Acontece que consegui críticas elogiosas dos críticos nova-iorquinos, o que até nem era a minha preocupação principal.
- Claro que não. Deus te proíba de perderes essa tua atitude de fiasco cultural.
- É o que achas que eu sou, George? Um fiasco?
- Não me vou deixar arrastar para esse tipo de conversa. Não vou.
- Ok. Mandei-te uma peça de um amigo meu para tu leres que tinha um papel espectacular para mim. Leste-a?
- Por que raio é que me mandaste aquela peça do teu amigo em que interpretarias o papel principal? Sou o teu agente, não sou a tua mãe. Não é suposto arranjar peças para tu brilhares – é suposto arranjar-te ofertas de emprego. É isso que eu faço.
- Ofertas de emprego? Quem é que te contou essa, algum agente lírico? Aquilo é uma coisa de qualidade. E eu podia ser extraordinário a representar aquele papel.
- Michael, ninguém vai produzir aquela peça.
- Porquê?
- Porque é deprimente, para começar. Porque ninguém quer produzir uma peça a respeito de um casal que se voltou a instalar em Love Canal.
- Mas aquilo aconteceu mesmo.
- E QUEM É QUE SE RALA COM ISSO?! Ninguém está disposto a pagar 20 dólares para ver outros a viver na vizinhança de detritos químicos. Para isso podem ir logo ali a Nova Jérsia.
- Está bem, não quero discutir isso. Sou eu que vou arranjar os 8.000 dólares para produzir a peça e estou disponível para entrar em tudo o que me possas arranjar. Tudo! Até faço anúncios de televisão para cães. Faço dobragens para a rádio...
- Michael, não te consigo fazer isso.
- Porque não?
- Porque ninguém te quer contratar.
- Isso não é verdade. Sabes que eu me empenho até aos limites para que o meu trabalho saia bem. Sabes bem que sim.
- E entretanto consegues dar cabo da paciência de todos os outros que lá estão. Estive quatro semanas para te conseguir arranjar um papel numa peça, chegas lá e arranjas logo uma confusão por causa de Tolstoi, que não pode andar enquanto morre, ou andar e falar ao mesmo tempo ou cantar e…
- Isso foi há dois anos atrás e aquele gajo é um idiota.
- Reconhece uma evidência, Michael, tu arranjas discussões com toda a gente. Tens uma das piores reputações nesta cidade, Michael. Ninguém te quer contratar.
- Estás a dizer que ninguém em Nova Iorque quer trabalhar comigo?
- Não, não, estás a ser modesto… também ninguém de Hollywood quer trabalhar contigo. Nem num anúncio de televisão te consigo encaixar. Era para fazeres um tomate durante 30 segundos – demoraram mais meio-dia de filmagens suplementares porque tu não te querias sentar.
- Claro. Não tinha lógica.
- TU ERAS UM TOMATE! UM TOMATE NÃO TEM LÓGICA! UM TOMATE NEM TEM DE SE MEXER!
- FOI O QUE EU LHES DISSE! Se não se mexe, como é que ele se pode sentar George? Eu era um tomate: sexy, sumarento e apetitoso. Ninguém interpreta vegetais como eu! Uma vez fui fazer uma soirée de vegetais. Fiz o melhor tomate, o melhor pepino… até fiz uma salada de endívias que arrasou os críticos!
- Michael! Estou a tentar manter-me calmo. Tu… tu és um actor maravilhoso.
- Obrigado.
- Mas és demasiado conflituoso. Tenta tratar-te.
- Ok. Obrigado. Vou arranjar os 8.000 dólares e produzir a peça do Jeff.
-
Michael. Não vais conseguir arranjar 25 cêntimos! Ninguém te vai contratar.
- Ah é?...

14 julho 2010

A EXPRESSÃO DO DOUTOR GOEBBELS

De entre os membros daquela clique restrita que, rodeando Adolf Hitler depois da sua chegada ao poder em Março de 1933, dominaram praticamente todos os aspectos da Alemanha durante os 12 anos do nazismo, Joseph Goebbels (1897-1945) será um dos poucos casos de um desses dignitários – conjuntamente com Albert Speer – a quem os próprios inimigos reconheceram um valor próprio para além do possuído pela sua condição de cortesão próximo do Führer. De cabelo e olhos escuros, relativamente baixo (1,65) e coxeando da perna direita, Goebbels não podia estar mais longe fisicamente do modelo ariano da sua máquina de propaganda…
Intelectualmente porém, Goebbels, que se doutorara em 1921 pela Universidade de Heidelberga mas depois falhara profissionalmente como escritor e como jornalista, era alguém temido tanto por inimigos como por rivais. A fotografia abaixo, foi tirada em Genebra, sede da Sociedade das Nações (SdN), em Setembro de 1933, seis meses depois dos nazis terem chegado ao poder. O discurso que Goebbels ali proferiu era conciliador e intitulava-se Um Apelo às Nações. Mas a expressão de Goebbels no instantâneo abaixo parece-nos agora muito mais genuína sobre o que o Mundo poderia vir a esperar da sua Alemanha no futuro…

13 julho 2010

OS PALPITES E AS VERDADEIRAS SOLUÇÕES

Parece genético que em Portugal confundamos uma vaga ideia para uma solução com a solução propriamente dita. É por isso que frequentemente nos dão respostas como o seu assunto está a ser tratado como se isso fosse o sinónimo de o seu assunto foi resolvido. Ora esse conceito de tratamento só tem sentido quando se aplica às receitas dos médicos quando eles nos receitam medicamentos que nos aliviam dos sintomas das doenças que depois é o nosso próprio organismo a encarregar-se de curar. Na maioria das vezes, felizmente, a solução do problema de saúde está em nós e não no médico.

As soluções, para o serem, têm que ser sérias, justas, exequíveis e aplicáveis na prática (vale a pena ler a tira de BD acima, clicar em cima dela para a ampliar). E na actividade política, competiria aos jornalistas fazerem esse escrutínio. Por exemplo, se um político se propuser que se revendam os novos submarinos sem os empregar, é indispensável que nos esclareça por quanto e a quem os está a pensar vender… Não se trata apenas da inventiva ideia de os vender. A solução é descobrir o comprador e negociar e vender os submarinos, assumindo o prejuízo de centenas de milhões de euros que custaria essa operação.

Quando um ex-ministro das finanças de há 25 anos atrás, afirma garbosamente que a sua solução passaria pela redução dos vencimentos dos funcionários públicos com um corte na banda dos 15, 20, 30% -- 15% sem dúvida, 20% provavelmente e esclarecendo que era A cru. Sem explicar nada. Ou melhor, explicando que ou é assim ou não é. Não querem, então não se faz, é imperativo que os jornalistas o questionem com que maioria parlamentar estará ele a contar para que se aprove tal medida na AR. Ou então com que unidades militares estará a contar para dar um golpe de estado…

OS BRANCOS POBRES DA ÁFRICA DO SUL

O tema da fotografia acima é banal: vêem-se membros de uma qualquer organização de auxílio alimentar a distribuir um cabaz com produtos essenciais a pessoas necessitadas. O que a torna mais rara é o facto do distribuidor ser africano e o beneficiário ser caucasiano. Costuma ser ao contrário. E o facto da fotografia ter sido tirada na África do Sul…
Durante as décadas do apartheid e mesmo depois da sua abolição, por causa dos imperativos da propaganda política, a comunidade dos brancos pobres foi completamente apagada do panorama sul-africano. É verdade que, em média, os sul-africanos de ascendência europeia viviam e ainda vivem muito melhor que os seus compatriotas de outras ascendências.
O que não invalida que, em termos de distribuição de riqueza, as duas comunidades brancas, especialmente a dos bóeres, sempre tivessem sido (e hoje são-no ainda mais) transversais à sociedade sul-africana: há pobres e ricos. Há quem estime que cerca de 10% das comunidades brancas (ou seja 450 mil dos 4,5 milhões) vivam actualmente na situação de pobreza.
Por muito poucos que fossem, sempre terá havido brancos pobres na África do Sul. Claro que ao regime do apartheid convinha apoiá-los socialmente ao mesmo tempo que os escondia por razões óbvias. E aos que lutavam contra o regime do apartheid não convinha confundir a nitidez cristalina da sua mensagem mencionando enjeitados do sistema que não o deviam ser...
Certamente que o fim do apartheid será uma das explicações para esta degradação dos brancos pobres na escala social sul-africana. Mas outra explicação tão importante quanto essa está associada à globalização que também ali arrasou com o meio de subsistência tradicional de uma fracção importante da comunidade bóer: as suas explorações agrícolas.

12 julho 2010

QUEM É ESTÚPIDO NÃO SABE SER IRÓNICO


O gesto do deputado Ricardo Rodrigues ao roubar os dois gravadores é indesculpável (acima). Já se devia ter demitido há muito. Porém, atente-se como ele foi repetidamente provocado, com a insistência das perguntas que os jornalistas lhe estavam a colocar sobre um processo sobre pedofilia de há sete anos atrás em que (sic), nada fora provado, ele não fora arguido em nada, e tudo se resumia a uma questão (sic) de boatos sobre pedofilia nos Açores. Nada disso desculpa o que fez na altura nem, tão pouco o enredo inverosímil que criou posteriormente.
O jornalista Pedro Prostes da Fonseca parece ter forjado uma entrevista de que o seu jornal (o Sol) aproveitou uma hipotética frase polémica para título de capa (acima). O entrevistado, Carlos Queiroz, beneficiando do interesse da restante comunicação social e da sua projecção mediática, reagiu chamando-lhe tudo: vigarista, aldrabão, desonesto e execrável. Com a sua honra em jogo suponho que jornal e jornalista poderiam e deveriam ter reagido desmentindo Queiroz factualmente com as gravações áudio que diziam ter em seu poder. Não o fizeram...

Que o clã dos jornalistas na blogosfera se incendiasse com o primeiro episódio não me surpreendeu. Que o mesmo clã se calasse comprometidamente (com excepções) quando do segundo também não. Que o exemplar de clã por mim escolhido para exemplificar a falta de coerência e o corporativismo da classe reagisse à nomeação que dele fizera, também disso haveria uma probabilidade alta. Mas que este o fizesse acusando-me de falta de lógica escudando-se numa espécie de referência a Descartes é que me pareceu um disparate…

Só quem quiser mesmo embarcar naquele estilo superficial à Pedro Correia é que aceitará aquela evocação descabida à (falta de) lógica cartesiana. Eu teria preferido que ele o tivesse lido (ao Discurso de Descartes) e, no caso pior de o ter já feito, tivesse compreendido alguma coisa daquilo que lá está escrito. Para não escrever asneiras. Sob pena de me fazer arrepender de o ter sobrevalorizado como exemplar mediano da classe (de mediana, medida estatística de tendência central) quando porventura o deveria ter classificado de exemplar medíocre (em valor absoluto).
Porque, quanto à lógica da frase que utiliza no poste, querendo parafrasear espirituosamente Descartes (sou insultado, logo tenho falta de ética), ela é de uma estupidez inqualificável. Nem como ironia presta. Como diria o físico Wolfgang Pauli (acima), nem sequer chega a estar errada em termos de lógica. A ironia é uma forma superior de humor e é triste vê-la assim maltratada. Não o escrevo como insulto, apenas como constatação. Lamentavelmente para Pedro Correia, é uma insuficiência sua que não muda com a temperatura, a pressão ou as estações do ano...
Adenda: Já imaginaram o meu embaraço se a pessoa que acima apodei de estúpida tivesse compreendido a razão de a ter qualificado como tal? É que lhe teria de pedir justificadíssimas desculpas públicas pelo meu erro. Mas não, apenas se indignou, que é o melhor que os jornalistas sabem fazer nos tempos que correm, indignarem-se com os insultos que recebem, independentemente da causa que desencadeou o insulto… À despedida, o estúpido que ficou sem perceber porque o é, usou Eça de Queiroz que também serve para citações de prestígio mas é de emprego menos ameaçador que René Descartes que escreveu sobre filosofia, lógica, matemática e geometria.

O FESTIVAL DA OVOVISÃO

Em 1967, com 275.000 aparelhos receptores registados em Portugal (legais), a televisão já se tornara num meio suficientemente popular para a usar em campanhas publicitárias de sensibilização destinadas ao público feminino das donas de casa. No exemplo, retirado daqui, promoviam-se os ovos sujeitos a inspecção sanitária prévia (carimbados) em substituição aos da produção tradicional. O tema escolhido para a campanha também se tornara muito popular junto do segmento-alvo com a expansão da televisão: o Festival da Eurovisão. O filme publicitário era uma paródia descarada à canção e à intérprete que vencera a edição daquele ano, a britânica Sandie Shaw que aparecera em palco descalça (repare-se que a galinha também se descalça…) para ultraje da audiência mais conservadora.
 

11 julho 2010

O ÁUGURE

Por vezes, é pelas pequenas coisas que percebemos o que evoluímos em milénios. Se os áugures, os adivinhos da Antiguidade Clássica se especializavam em interpretar para nós, a partir do comportamento dos animais (o voo das aves, por exemplo) aquilo que o futuro nos reservava, o que o Século XXI nos mostra é que continuamos precisamente com as mesmas necessidades que nos desvendem o futuro, independentemente do rigor do método usado. O que mudou, sinal de modernidade que não de inteligência, foi que passámos a dispensar o intermediário. O áugure é agora o próprio bicho: no caso, Paulo, o Polvo (abaixo), aquele que tem adivinhado os resultados de todos os jogos do Campeonato do Mundo de futebol...

10 julho 2010

PRONÚNCIA DE ONDE?

Gostaria que prestassem atenção às imagens do vídeo acima (ou então deste, muito idêntico). Se a canção se intitula Pronúncia do Norte, as imagens que se sucedem são exclusivamente da cidade do Porto, como se, na opinião dos autores dos vídeos, o Porto e o Norte não passassem da mesma coisa... Como se Isabel Silvestre (a vocalista, conjuntamente com Rui Reininho, que por sinal é originária da Beira) tivesse uma pronúncia tipicamente tripeira… Não deixa de ser irónico que, sendo uma das acusações dos paladinos nortenhos a do comportamento sobranceiro dos lisboetas em relação ao resto do país, o que acaba por resultar dos vídeos é uma atitude equivalente dos portuenses em relação ao resto da Grande Região em que se inserem...

É VIGARISTA, É DESONESTO, É ALDRABÃO E É EXECRÁVEL

Pelo menos uma coisa se pode concluir até agora no encadeamento de afirmações e desmentidos envolvendo o jornalista Pedro Prostes da Fonseca e a entrevista que lhe terá dado o seleccionador nacional Carlos Queiroz: é que este último, que tanto tem sido criticado pelas suas excessivas cautelas defensivas em campo, optou desta vez por passar ao ataque, ao ataque pessoal mesmo, ao chamar publicamente ao jornalista todos os insultos que são toleráveis de passar em rádio sem que o decoro os obrigasse a apagar (abaixo): vigarista, desonesto, aldrabão e execrável.

A reacção aos insultos, depois do jornalista brandir ameaçadoramente a gravação da entrevista, limitou-se à reafirmação da versão original, como se o jornal e o seu director não possuissem uma credibilidade equivalente à de uma daquelas ciganas velhas que lêem a sina... Mas o mais significativo é que o jornal afinal optou pela não divulgação do tal registo áudio invocando que se tratava de uma conversa entre jornalista e fonte... Trata-se de uma explicação tão inventiva quanto uma famosa acção directa invocada por um deputado do PS quando roubou dois gravadores há dois meses atrás...


A reacção típica do hiperactivo clã jornalístico da blogosfera aos dois incidentes é que não podia ter sido mais distinta... Escolhendo aquele que considero o exemplo exemplarmente mediano da classe que, a pretexto da acção directa, até se dispôs a perorar sobre a ética na política, seria de esperar que ele se dispusesse a desenvolver um pouco mais aquilo que já escreveu quando o tema é a (falta de) ética dos seus colegas de profissão... É que a argumentação da atitude de invocar a protecção das fontes para proteger uma fonte que tão obviamente não quer ser protegida é também dos anais da novílingua jornalística...

09 julho 2010

MY SHARONA

MULTIDÕES À BEIRA MAR

Haverá várias fotografias (a original terá sido tirada em Coney Island nos Estados Unidos em 1940), com o mesmo tema da de cima, em que se vê uma densa multidão à beira-mar na praia. Impressionam porque confirmam que, mais do que restrita à questão das relações laborais, a questão da massificação tornou-se um fenómeno cultural e as pessoas tendem a adquirir os mesmos gostos e a passar os seus tempos de ócio da mesma maneira. Aliás, no final de tarde do próximo Domingo, à frente de um televisor assistindo à final do Campeonato do Mundo de futebol, mais uma vez isso tornar-se-á a confirmar…

Há uma outra fotografia famosa em que o tema é também uma multidão à beira-mar num dia de Verão (abaixo). Só que esta outra multidão não está ali propriamente em lazer, trata-se de refugiados albaneses a chegarem a Itália. Estava-se em 1991, o Muro de Berlim caíra, e alguns milhares de habitantes do paraíso albanês haviam sequestrado o navio para emigrarem para Itália, reatando as rotas marítimas seculares do Sul do Mar Adriático que a Guerra-Fria bloqueara. As imagens daquela e doutras fugas iriam acabar de vez com a militância dos comunistas ingénuos. Ficava a restar a dos comunistas devotos

08 julho 2010

A MORTE, O FUNERAL E A SUCESSÃO DE ESTALINE

Iossif Vissarionovich Djugashvíli morreu nos princípios de Março de 1953 com 74 anos. Como acontece em qualquer estado totalitário, a morte de Estaline desencadeou as maiores manifestações de consternação e pesar e um grande funeral, como se pode observar no vídeo abaixo, onde não falta aquele pormenor do cortesão mais ambicioso que aproveita uma aberta para ajudar ao transporte do caixão, tarefa que estava protocolarmente reservada a uma elite selecta…

Numa sociedade tão reservada, estratificada e formal como a sociedade soviética, a disposição dos cortesãos nas cerimónias importantes (como era o caso deste funeral de estado) que nos podia informar sobre qual seria a correlação de forças – é deliciosa esta expressão clássica do jargão comunista!... – dentro da cúpula dirigente do aparelho. Tentar antecipar quem seria o sucessor de Estaline passava por identificar quem seguia atrás do seu caixão (abaixo).
Na primeira fila e de mais longe para mais perto da objectiva do fotógrafo pode-se identificar Vyacheslav Molotov, Nikolai Bulganin, Lazar Kaganovich, Kliment Voroshilov, Georgy Malenkov, Zhou Enlai (realce-se o destaque que foi concedido ao dirigente chinês...), Lavrenty Beria e Nikita Khrushchev. O penúltimo foi fuzilado. Foi o último a ficar com a herança, conseguindo afastar os restantes mas sem os ter executado, uma vitória política que fora até então inédita na União Soviética…

07 julho 2010

UMA HISTÓRIA SIMPLIFICADA DO ESTATORREACTOR APLICADO À AVIAÇÃO

Comecemos por uma pequena explicação de engenharia. A força que impele os aviões equipados de reactores resulta da projecção violenta do escape dos gases em sentido contrário (para trás). Mas, para saírem com velocidade suficiente, os gases que resultam da combustão do carburante devem ser comprimidos numa câmara própria utilizando-se um compressor e de uma turbina (gráfico acima). Embora mais evoluída, esta mecânica é paradoxalmente mais simples de explicar que a do motor a hélice que a precedeu.
A explicação do funcionamento do estatorreactor é ainda mais simples. Aí, não há compressor nem turbina (acima). É o efeito da velocidade de passagem do ar que cria a compressão dos gases, algo que só acontece a partir dos 500 km/h. Que este princípio tenha sido descoberto pelo francês René Lorin em 1908, no ano anterior a Louis Blériot ter atravessado a Mancha de avião, e quando as mais velozes aeronaves atingiam os 65 km/h, apenas nos maravilha quanto à capacidade de antecipação do seu trabalho teórico.
Passaram-se 40 anos antes de um avião-protótipo equipado com o motor idealizado por René Lorin e concretizado por um seu continuador, René Leduc, ter voado pela primeira vez. Como o estatorreactor só começava a funcionar a partir dos 500 km/h era preciso lançar o avião (baptizado de Leduc 010) às costas de um avião transportador (acima). Estava-se em 1949, dois anos depois do Bell X-1 norte-americano ultrapassar Mach-1 a 1.300 km/h, mas Leduc previa que o seu protótipo conseguisse atingir os 2000 km/h…
Porém, imbatível em velocidade, qualquer avião equipado de estatorreactor teria que solucionar a forma como atinge a velocidade inicial para o activar. No 1500 Griffon II (acima) os franceses colocaram dois motores: um reactor clássico e um estatorreactor, daí o nome do protótipo, Grifo, como o animal mitológico que era metade águia e metade leão. O protótipo bateu recordes de velocidade (2330 km/h – Mach 2,19) em 1958, mas a essas velocidades outro problema se veio a colocar: o da resistência dos materiais ao calor…
A solução técnica consistiria em substituir o aço por outras ligas (como o titânio), o que tornaria astronómicos os custos de produção da nova aeronave. Só os Estados Unidos é que tinham condições financeiras para continuar a desenvolver um programa tão caro. E a solução encontrada foi a criação de um motor misto combinando os dois sistemas de funcionamento (o Pratt & Whitney J58 - acima) para equipar um avião de reconhecimento (o SR-71 - abaixo), capaz de ultrapassar Mach 3 e atingir os 3500 km/h.
No total, apenas 32 SR-71 foram construídos, dos quais 12 (37,5%) perderam-se em acidentes durante os 32 anos (1966-1998) em que o avião esteve no activo...