30 junho 2010

A SAUDAÇÃO MANIPULADA

No poste que publiquei ontem, ao falar de saudações e da forma como a saudação nazi se assemelhava à olímpica e como hoje é difícil distingui-las, lembrei-me de uma famosa fotografia tirada em Outubro de 1938 na Checoslováquia (acima) e que se costuma usar para ilustrar a expansão do nazismo para os países limítrofes antes do começo da Segunda Guerra Mundial (veja-se a fotografia usada em três sítios distintos). Nela, uma mulher de aspecto rural chora convulsivamente agarrada a um lenço enquanto faz a saudação nazi, depreendendo-se que a contragosto...

A manipulação das imagens para efeitos de propaganda nunca foi um exclusivo de uma ideologia ou facção política. E os exemplos de manipulação que nos são verdadeiramente desconfortáveis são aqueles manipulados pelo nosso lado contra os outros. Descubra-se assim que a fotografia acima é afinal o pormenor de um instantâneo (abaixo), onde se podem ver outras mulheres também em saudação e percebendo-se, pelas expressões entusiasmadas das segundas, que a emoção que pode estar a provocar o choro da mulher pode não ser aquela que deduzíramos da fotografia truncada…

29 junho 2010

CASOS EM QUE NÃO PÔDE HAVER “ERROS DE ARBITRAGEM” E AINDA OUTROS ERROS

Há que reconhecer que as cerimónias grandiosas dos Jogos Olímpicos modernos foram uma criação da extraordinária máquina de propaganda da Alemanha nazi quando os organizou em Berlim em 1936. Montados e encenados com um detalhe que nunca se vira até então, apenas ficou de fora da organização do espectáculo aquilo que não podia ser controlado: o desfecho das competições de algumas modalidades olímpicas onde, pelas suas próprias características, será mínima a influência dos erros de arbitragem para a classificação final¹. Um dos casos flagrantes disso são as competições de atletismo!
É assim que aparece esta conhecida fotografia simbólica da cerimónia protocolar dos primeiros classificados da competição de salto em comprimento, com o norte-americano Jesse Owens em primeiro lugar, ladeado pelo alemão Luz Long e pelo japonês Naoto Tajima. No meio de todos aqueles braços levantados, onde a saudação nazi se confundia com a saudação olímpica, os responsáveis da delegação norte-americana terão decidido demarcar-se de conotações incómodas, induzindo os seus atletas a saudarem com uma continência, uma ironia no caso de Owens que não cumprira qualquer serviço militar…
Conquistando quatro medalhas de ouro, Jesse Owens foi o Herói do Estádio dessas Olimpíadas de 1936 para grande aborrecimento de Adolf Hitler. Sabe-se isso pelos seus desabafos privados para quem com ele privava (Albert Speer) mas não pelas suas atitudes em público. O resto da história que acompanha a lenda, incluindo a famosa recusa em felicitar Owens é forjada. Hitler deixou de felicitar qualquer atleta depois do primeiro dia de provas, quando o Comité Olímpico lhe chamou a atenção que, como anfitrião, ou felicitava todos os atletas vencedores (e não apenas os alemães), ou então não felicitava nenhum…

Quanto ao comportamento dos berlinenses, alheios a essas subtilezas protocolares, Jesse Owens veio mais tarde a reconhecer que fora ali que recebera as maiores aclamações da sua carreira (acima). E, especificamente quanto ao comportamento de Adolf Hitler, foi o próprio desprezado a defendê-lo das críticas quando escreveu que ao passar perto da sua tribuna no estádio fora Hitler que se levantara e tomara a iniciativa de o saudar, saudação a que depois ele correspondera: Hitler não mostrou desprezo por mim – foi FDR (Franklin D. Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos) que mostrou desprezo por mim.
Owens colocara o dedo na ferida que, quanto à prática social de racismo, os Estados Unidos não tinham moral para dar lições a ninguém. Roosevelt nem um telegrama lhe enviou. Quando se organizou uma parada (acima) e uma recepção em sua homenagem no Hotel Waldorf-Astoria de Nova Iorque – e ao contrário dos hotéis de Berlim onde estivera – o homenageado teve que apanhar o elevador dos criados... Mesmo numa cidade que se considerava cosmopolita um negro com quatro medalhas olímpicas de ouro era em primeiro lugar um negro. Com um futuro muito pouco promissor à sua frente (abaixo)...
¹ Em contrapartida, uma das meias-finais do torneio de futebol, onde o Peru vencera a Áustria por 4-2 (após prolongamento) foi repetida, alegando a organização que houvera uma invasão de campo que lesara a equipa austríaca. Dadas as circunstâncias (Berlim, 1936, jogo contra a Áustria), ainda hoje é inexplicável onde é que os peruanos poderão ter conseguido mobilizar essa multidão de apoiantes que invadiu o campo…

28 junho 2010

A MÃO DA FIFA

A fotografia acima foi tirada durante um jogo dos quartos de final do Mundial de 1986 no México, opondo a Argentina à Inglaterra. Mostra o momento preciso em que Diego Maradona, incapaz de conseguir saltar mais alto, se socorre da mão para marcar um golo irregular à vista de centenas de milhões de telespectadores... mas não do árbitro, um senhor tunisino chamado Ali Bin Nasser. A intensa rivalidade entre os dois países (que haviam travado a Guerra das Malvinas quatro anos antes) e a projecção da imprensa do país lesado adicionaram publicidade ao incidente, que se terá tornado possivelmente, mais do que o resto, num dos episódio mais recordados de todo o torneio. E vale a pena recordar que foi já há vinte e quatro anos!...
Ora quando as notícias mais interessantes dos dois jogos de ontem do Mundial 2010 foram dois colossais erros de arbitragem, um em cada jogo, é caso para perguntar se, passados estes 24 anos, terá sido alguma vez preocupação sincera dos responsáveis da FIFA durante esse período evitar que os episódios escabrosos como o da fotografia inicial se repetissem. Ou então, usando as expressões dos nossos comentadores especializados, se alguma vez lhe interessou preservar a verdade desportiva… No formato em que está colocada creio que a pergunta já contém a resposta: é evidente que não! Na trilogia do futebol moderno (desporto – espectáculo – negócio) as preocupações primordiais da FIFA são obviamente outras.
É preciso bastante mais do que a inércia ou o conservadorismo extremo para se poder explicar este comportamento da FIFA em tentar evitar que se repitam destas fraudes. A verdade é que o organismo que tutela o futebol mundial não pretende compartilhar democraticamente as decisões do que acontece em campo com aquilo que vêem as centenas de milhões de adeptos em casa. Em caso destes erros escabrosos, imolam-se os árbitros. Mas, enquanto se mantiver este status quo viscoso, torna-se sempre mais fácil ajustar o desfecho dos eventos às conveniências do negócio, já que na FIFA sempre se preferiu que, apesar da tal verdade desportiva, se possa evitar que alguma selecção menor possa chegar às finais do Campeonato…

27 junho 2010

ERIC, A ENGUIA

A fotografia acima foi tirada na partida de uma das eliminatórias da prova de 100 metros livres masculinos de natação dos Jogos Olímpicos de Sidney em 2000. Para a grande maioria dos observadores, ignorantes das subtilezas técnicas da modalidade, será mais por instinto que se reconhece que haverá algo de errado com a fotografia. Por um lado, o estilo do nadador: teso como uma tábua de engomar, prepara-se para dar um doloroso chapão quando entrar na água. Por outro lado, parece estar a competir sozinho…

A eliminatória contava inicialmente com a participação de dois outros nadadores, um do Níger e outro do Tajiquistão, que foram eliminados por terem efectuado falsas partidas. Isso não impediu que se tivesse dado a hipótese a Eric Moussambani, um nadador de 22 anos vindo da Guiné Equatorial, a hipótese de se qualificar para a final, numa das provas mais memoráveis daqueles Jogos Olímpicos. É que depois do chapão da partida, notavam-se as suas dificuldades ao nadar e, nos metros finais, até a de se manter à tona de água…
O tempo que demorou a percorrer a distância foi mais do dobro da maioria dos outros nadadores em competição: 1:52,72 – à sua maneira, foi outro record olímpico... Recebeu uma das maiores ovações do dia e o interesse imediato da comunicação social de todo o Mundo. Descobriu-se que Eric, que entretanto recebera o cognome irónico de a enguia, só aprendera a nadar oito meses antes e que se estreara numa piscina de 50 metros naquela prova – a dos seus treinos era a de um hotel com apenas 20 metros…

Para preservar a qualidade dos Jogos, os regulamentos olímpicos procuram estabelecer padrões mínimos de competição tentando evitar que se verifiquem situações do género. Porém, essas normas chocam com outras, mais ecuménicas, aquelas que procuram facilitar o acesso às competições aos atletas dos países mais desfavorecidos, como é o caso da Guiné Equatorial. Afinal, poderá parecer cruel, mas vale reflectir sobre o que Eric, a enguia, fez pela notoriedade do seu país, mesmo à custa de quase se ter afogado…

26 junho 2010

MISSISSIPPI EM CHAMAS

O episódio teve lugar no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos durante o Verão de 1964. E as chamas do título são uma referência aos incêndios ateados pelos membros do Ku Klux Klan (acima) nas igrejas das congregações negras onde os activistas dos direitos cívicos haviam realizado previamente sessões incentivando os negros a registarem-se como eleitores. Pelo menos 20 igrejas haviam sido incendiadas quando outro incidente mais grave fez concentrar a atenção dos Estados Unidos em Neshoba, Mississippi.
A 21 de Junho, a organização que patrocinava aquelas sessões anunciou publicamente o desaparecimento súbito de três dos seus jovens activistas (acima e da esquerda para a direita: Andrew Goodman de 20 anos, James Chaney de 21 e Michael Schwerner, de 24), que haviam saído para inspeccionar os destroços duma das igrejas incendiadas no condado de Neshoba. Sabia-se que a polícia local os havia detido por umas horas mas que acabara por os libertar, tendo-se perdido o seu rasto depois disso.
Noutros tempos, um desaparecimento destes poderia ter sido considerado um incidente menor e passar desapercebido. Mas naquelas circunstâncias, no quadro da luta dos negros pelos Direitos Cívicos (acima Martin Luther King), conjugado com o facto de dois dos desaparecidos serem de origem nova-iorquina, o incidente acabou por vir a receber uma atenção mediática inusitada, a que não faltou a ressonância da clivagem entre o Norte e o Sul que havia provocado a Guerra Civil (1861-1865) precisamente cem anos antes.
Foi a pressão mediática que levou a administração federal a afectar à investigação os meios e a atenção que as autoridades estaduais e locais – do Mississippi e de Neshoba – não pareciam dispostas a dedicar. Durante seis semanas as peripécias da investigação desenvolvida pelo FBI, nomeadamente a descoberta da carcaça ardida do automóvel que transportava os activistas (acima), foram notícia nacional, até à descoberta do paradeiro dos cadáveres, enterrados num açude a uns meros 10 km a Sudoeste da capital do condado
…e depois disso percebeu-se a razão principal para a ineficácia das investigações das autoridades locais: o próprio xerife de Neshoba e o seu adjunto também estavam directamente envolvidos nos acontecimentos que haviam conduzido ao assassinato! Concretamente, o adjunto libertara os activistas conduzindo-os à emboscada onde haviam sido mortos. Politicamente, a causa dos negros ganhara imensos pontos: em 2 de Julho, o Presidente Lyndon Johnson (também ele Sulista, do Texas) assinara a Lei dos Direitos Cívicos.
A outra batalha – a da condenação dos responsáveis pelos assassinatos – não teve um desfecho tão claro. O julgamento de 18 réus arrastou-se até 1967 e os recursos às sentenças até 1970. Quanto à atitude dos principais envolvidos durante as audiências era a insolência da fotografia acima, o adjunto Price ao lado do xerife Rainey mascando tabaco. Detestáveis! A longo prazo a causa racista estava perdida. Em 1988 Hollywood produziu um filme sobre os acontecimentos (abaixo) e eles eram considerados irrecuperavelmente maus

25 junho 2010

A TRAGÉDIA DA SOYUZ 11

Durante a corrida espacial, os Estados Unidos tiveram o seu acidente espacial com o voo da Apollo 13. Um interruptor não se desligou como previsto, ocasionando uma explosão que danificou irremediavelmente um dos dois tanques de oxigénio da nave (como se pode observar acima). Apesar dos danos e dos objectivos do voo terem sido cancelados, tudo acabou bem quando os três astronautas norte-americanos (Lovell, Haise e Swigert) regressaram sãos e salvos à Terra a 17 de Abril de 1970. Vinte e cinco anos depois, Hollywood fez do episódio um filme em estilo de epopeia dramática.
O voo da Soyuz 11 soviética não foi uma epopeia, mas uma tragédia. Realizado entre 6 e 30 de Junho de 1971, pouco mais de um ano depois do da Apollo 13, e ao contrário desse, o dos soviéticos foi um voo em que tudo estaria a correr sem incidentes graves até ao dia do regresso à Terra, em que tudo acabou por correr muito mal. Quem viu o filme sobre a Apollo 13, pode encontrar semelhanças em alguns aspectos associados ao voo da Soyuz 11. Nos dois casos, houve questões médicas – rubéola entre os americanos, tuberculose entre os soviéticos – que levaram a alterações nas equipas de voo.
Assim como na equipa americana houve o impacto da substituição à última da hora de Mattingly por Swigert, na soviética, o processo de constituição da equipa de reserva agora promovida para a missão¹ também poderia ter sido mais reflectido, ao escolherem um Comandante (Dobrovolski, acima ao centro) que era novato a ser coadjuvado por um cosmonauta experiente (Volkov, à direita, que já voara na Soyuz 7), num meio onde a questão da antiguidade é muito valorizada. O terceiro membro da tripulação e engenheiro de voo (Patsayev, à esquerda) também seria um estreante no espaço.
Mas, mais uma vez como na Apollo 13, não foi o factor humano mas sim o material o responsável pelo desencadear dos acontecimentos que conduziram ao desastre. Durante as manobras de reentrada na atmosfera, ainda a 168 km de altitude, abriu-se prematuramente uma válvula que se destinava a equilibrar a pressão atmosférica da cabine quando ela se encontrasse próxima da superfície. Os cosmonautas teriam tido 20 a 30 segundos de lucidez para reagir antes que a pressão na cabine descesse para níveis que os fizeram desmaiar e depois morrer. Em menos de dois minutos a pressão desceu para zero.
As equipas em terra não se terão apercebido do que acontecera. Estranharam o súbito silêncio rádio mas a operação de reentrada – que se processa automaticamente – já se iniciara e a manobra em si inclui um período de silêncio rádio. Veio a ser a equipa de recuperação que encontrou os três cosmonautas já definitivamente mortos apesar das tentativas de reanimação que encetaram (abaixo). Deduziu-se depois, pelos hematomas que apresentava na mão, que Patsayev ainda havia tentado selar manualmente a válvula defeituosa antes de desmaiar. Ao contrário da outra, esta história não teve um final feliz.
¹ Ao contrário das norte-americanas, as equipas soviéticas funcionavam em bloco. No caso, as suspeitas de tuberculose que incidiam sobre Kubasov fizeram com que a sua equipa (Leonov, Kubasov e Kolodin) fosse integralmente substituída pela equipa de reserva (Dobrovolski, Volkov e Patsayev).

24 junho 2010

C´ERA UNA VOLTA IL PORTOGALLO

Ainda a propósito de inícios de filmes, permitam-me falar de um outro filme, com um início muito interessante (ver mais abaixo), embora sem atingir a categoria de Os Amigos de Alex. A um ritmo, pausados um dos diálogos que ali tem lugar inicialmente é o seguinte:
Charles Bronson (o Bom): - E o Frank?
Jack Elam (um dos Maus): - O Frank mandou-nos a nós os três.
Charles Bronson: - Trouxeram um cavalo para mim?
Jack Elam: - Bem… parece que nós… (sorriso maldoso) nos falta um cavalo.
Charles Bronson (abanando negativamente a cabeça): - Trouxeram foi dois a mais.
Nestes Western Spaghetti sempre admirei os heróis que mantinham, mais do que o sangue-frio, a capacidade de se manterem espirituosos até nos momentos em que se preparavam para arriscar a vida. Este diálogo só podia ter tido lugar num desses filmes, onde o que motivava as personagens ou era a cupidez (e os Maus eram desesperadamente maus) ou a vendetta (e o Bom era marginalmente menos mau que os outros).
A política portuguesa nunca teve argumentos muito elaborados mas os dos últimos tempos têm mostrado que quem os procura escrever terá descido a um patamar de sofisticação idêntico aos dos argumentistas dos Western Spaghetti com os seus Maus, que são irrecuperavelmente maus e motivados por maus instintos, e os Bons, os tais que são marginalmente menos maus que os outros, que afinal parecem agir também só por vendetta
Esta última fotografia é apenas uma curiosidade, mostrando o elenco principal e o realizador de Era Uma Vez no Oeste: da esquerda para a direita, Henry Fonda, Claudia Cardinale, Sergio Leone, Charles Bronson e Jason Robarts.

23 junho 2010

AS TRÊS GERAÇÕES DO DECLÍNIO BRITÂNICO

Quis o destino que Jorge VI (1895-1952), Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda e Imperador da Índia (acima), tivesse morrido prematuramente com apenas 56 anos de idade¹. Apesar da extraordinária importância dos acontecimentos que tiveram lugar durante o seu breve reinado de 15 anos, nomeadamente a Segunda Guerra Mundial de onde o seu país e os seus domínios saíram como vencedores, Jorge VI reinou sobre um Império que já se encontrava num processo de decadência inexorável.
Por exemplo, o racionamento, que vigorara durante a Guerra (1939-45), mantivera-se e até se agravara depois dela terminar. O do pão, por exemplo, teve que ser instituído entre 1946 e 1948. Quando Jorge VI faleceu subitamente em Fevereiro de 1952, quase sete anos depois dos dias de alegria da Vitória de 1945, havia escassez e o comércio de carne e de açúcar ainda era racionado. A imagem do Reino Unido da fase final do reinado de Jorge VI é uma imagem de um país estóico, contido, cinzento, parecendo sempre envolto em nevoeiro.
A fotografia abaixo sintetiza os aspectos acima citados. Tirada por ocasião do funeral de Jorge VI, podemos ver por detrás dos véus e da esquerda para a direita a nova Rainha, Elizabeth II, a sua avó e mãe do monarca falecido, a Rainha Mary, e a sua mãe, a recém-viúva, a Rainha Elizabeth. À vista, o ambiente geral é soturno e o luto coaduna-se com o estado do país: estóico e contido. Através da presença das três gerações, depois do apogeu e da perda dos primeiros pedaços do Império como a Irlanda ou a Índia, subentende-se o declínio.
¹ Em contraste, o seu irmão mais velho e predecessor, Eduardo VIII (1894-1972), veio a morrer vinte anos depois dele, com quase 78 anos de idade.

22 junho 2010

OS MERCEDES QUE SE CHAMAM ASSIM POR CAUSA DA MERCEDES QUE AFINAL NÃO SE CHAMAVA ASSIM

Há uma história, relativamente pouco conhecida, associada às origens da marca Mercedes-Benz e que pretende explicar a razão pela qual a marca ficou com aquele nome: foi um empresário e diplomata austro-húngaro de origem judaica chamado Emil Jellinek que, por volta de 1900, terá sugerido ao então fabricante automóvel DMG (Daimler Motoren Gesellschaft) que desse a denominação comercial de Mercedes a uma das suas viaturas, em alusão ao nome da sua própria filha Mercedes. A viatura assim baptizada tornou-se um sucesso comercial. Mais tarde, quando em 1926 a DMG se veio a fundir com a Benz & Cie, o prestígio da gama Mercedes já era suficientemente grande para que a designação comercial das viaturas da nova construtora (a Daimler-Benz) fosse preservada como Mercedes-Benz.

A história é engraçada mas, quem a conhece, não costuma saber quanto ela está retocada, qual artigo de jornal ou argumento de filme de Hollywood. Emil Jellinek era o concessionário da DMG em Nice, na Côte d´Azur francesa, local de concentração dos ricos, potenciais clientes de automóveis. Em 1900, Jellinek respondia por 25% das vendas da marca – 36 automóveis! – e as suas sugestões tinham uma grande importância na sede em Estugarda. Quanto à sua famosa filha Mercedes… afinal não se chamava Mercedes. Chamava-se Adriana Manuela Ramona Jellinek (abaixo) e passara a usar esse nome de alcunha (qual Lili ou Cinha…) em alusão, numa daquelas atitudes tão chiques quanto possidónias das socialites, a uma verdadeira Mercedes, María de las Mercedes de Borbón y Habsburgo-Lorena, Infanta de Espanha.

21 junho 2010

FOTOGRAFIAS QUE A GUERRA-FRIA PREFERIA REALÇAR

Construído entre 1914 e 1922 (acima), o Memorial dedicado a Abraão Lincoln tornou-se um dos monumentos simbólicos da capital norte-americana Washington DC, e também um local de passagem quase obrigatória para os dirigentes estrangeiros que estejam de visita à cidade para se encontrarem com o Presidente dos Estados Unidos.
Observe-se neste poste como, entre as fotografias mais famosas ali tiradas, se contam as dos dirigentes dos principais países rivais dos Estados Unidos durante a fase da Guerra-Fria. Ora, mais do que o fundador Washington, Lincoln será o presidente norte-americano que melhor veio a corporizar a ideologia norte americana.
A coincidência temática das fotografias dos minúsculos Nikita Khrushchev (é dele a careca luzidia da fotografia mais acima), Fidel Castro (imediatamente acima) e Deng Xiaoping (abaixo), todos diante da imponência da grandiosa estátua ou das afamadas palavras de Lincoln, não foi arte casual. É uma mensagem ideológica descarada.

20 junho 2010

O MISTÉRIO DO PRIMEIRO-MINISTRO DESAPARECIDO

Como os portugueses sabem por experiência própria, quando os Primeiros-Ministros morrem acidentalmente em funções, o episódio tende a tornar-se num apreciadíssimo fruto para as especulações. O de Camarate (abaixo), além do inquérito oficial, rendeu seis ou sete Comissões Parlamentares de Inquérito, que chegaram a conclusões opostas. Imagina-se o que aconteceria se o Primeiro-Ministro tivesse desaparecido?...
No Domingo, 17 de Dezembro de 1967, um dia de Verão no Hemisfério Sul, o Primeiro-Ministro australiano Harold Holt de 59 anos, que era um praticante entusiasmado de natação e mergulho (abaixo), desapareceu subitamente da vista dos acompanhantes numa praia de Melbourne… Apesar da maior busca efectuada até então pela Marinha e pela Força Aérea australianas, o corpo de Holt jamais veio a ser encontrado…
Oficialmente, dois dias depois do desaparecimento o Primeiro-Ministro foi declarado morto e realizou-se uma cerimónia oficial religiosa a 22 de Dezembro em substituição do funeral. Apareceram algumas teorias engraçadas, a mais imaginativa de todas, a de que Harold Holt fora raptado por um submarino chinês… Agora, se o caso se tivesse dado na nossa Costa da Caparica, já imaginaram quantas Comissões Parlamentares teria havido?...

19 junho 2010

FOTOGRAFIAS QUE A GUERRA FRIA PREFERIA ESQUECER

Aquilo que faz Leonid Brejnev abraçar de forma tão esfusiante o actor Chuck Connors durante a sua visita de Junho de 1973 aos Estados Unidos foi uma série de TV intitulada The Rifleman, uma das raras séries de origem ocidental a ser transmitida na União Soviética e de que o Secretário-Geral do PCUS era um fã entusiasmado. É difícil distinguir qual o aspecto mais engraçado do inesperado instantâneo: se o embevecimento de Brejnev, se o constrangimento do enorme (1,97 m!) Connors. Porém, nem para a máquina de propaganda do Ocidente conviria mostrar ao seu auditório esses gostos tão prosaicos, esse verdadeiro rosto humano do dirigente soviético, nem à máquina de propaganda do Leste conviria mostrar ao seu essa fraqueza do seu dirigente máximo, essa sua predilecção por essas séries televisivas de conteúdo ideológico tão suspeito.

18 junho 2010

PERTO DA PERFEIÇÃO


Os filmes nunca devem ter muito mais do que as duas a quatro personagens importantes que costumam ter. No caso da história exigir mais do que essas quatro personagens e se elas forem introduzidas a um ritmo normal, corre-se o risco de que o espectador perca o fio à história, baralhando-se com a identificação de personagens importantes; ou então, para evitar que isso aconteça, é preciso alterar o ritmo dos acontecimentos para que a apresentação dessas personagens seja mais progressiva, o que aumentará a duração do filme. Nunca houve, nem haverá uma solução fácil para o problema.

Contudo, o início de Os Amigos de Alex (The Big Chill 1983) será, dos casos que conheço, aquele que mais se aproxima da sua solução perfeita. A habilidade do realizador, aproveitando muito bem o genérico (acima) e o primeiro acontecimento da história (o funeral de Alex, abaixo), permitiu-lhe descrever ali de forma vincada os traços fundamentais das personalidades das sete personagens importantes da história. São 10 a 15 minutos mágicos, com pormenores como, por exemplo, a diferença subtil entre as reacções de Glenn Close (sonhadora) e de Jeff Goldblum aos primeiros acordes de You can't always get what you want (abaixo, no início).

17 junho 2010

A IMPORTÂNCIA DE ENGELS PARA A EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO MARXISTA-LENINISTA

Em 1959, naquilo que poderá ser classificado pelos ideólogos como uma provocação capitalista, a reputada Casa Christian Dior de alta-costura de Paris solicitou (e recebeu) autorização para fazer uma sessão de fotografias pública com os seus modelos em Moscovo. Aqui se mostram os resultados dessa passagem de modelos de há 50 anos.
A atenção dos fotógrafos concentrou-se, em vez dos vestidos, nos múltiplos contrastes e nas expressões dos transeuntes, o que proporcionou fotografias muito interessantes, muitas delas tiradas no GUM, o famoso Centro Comercial na Praça Vermelha, que reabrira com essas funções apenas em 1953, depois de ter estado 25 anos fechado.
Também a União Soviética sob Nikita Khrushchev, parecia ter entrado numa época em que se reabrira para se expor em competição com o Ocidente. Estava a ganhar a corrida espacial e Khrushchev prometia que em breve a produção socialista ultrapassaria a dos países capitalistas, mas estas fotografias parecem contradizê-lo com elegância…
Alguns anos depois (1964) Khrushchev seria discretamente afastado e a União Soviética voltaria a fechar-se. Lembrei-me destas fotografias a propósito de uma outra, actual, que bem merece o título de Socialismo Moderno (abaixo). Foi tirada na China, o maior país socialista do Mundo e herdeiro de Mao Zedong, o grande rival ideológico de Khrushchev…
Voltando o título, perguntará o leitor: o que tem Engels a ver com isto tudo? Nada, a não ser que Engels possui a barba mais bem arranjada da história do marxismo-leninismo teórico… Se quiserem uma resposta mais a sério, sugiro-lhes então que peçam a um militante comunista uma explicação simples (1 minuto!) sobre o pensamento teórico de Engels…
Engels é o segundo a contar da esquerda, depois de Marx, precedendo Lenin e Stalin...

16 junho 2010

SOBRE A CLASSE MÉDIA BRASILEIRA

Relembro ou apresento duas conhecidas séries de televisão que tiveram por tema central a classe média brasileira. Uma chamava-se Sai de Baixo (1996-2002), cujo elenco aparece (compreensivelmente...) na fotografia de cima; a outra Os Normais (2001-2003), em que a acção se centrava à volta de um casal típico da classe (abaixo). Ambas passaram em Portugal, embora com sucessos distintos. Qualquer das séries retrata a mesma classe social, embora com regionalismos a que só os próprios brasileiros seriam sensíveis: paulistana a primeira, carioca a segunda. Porém, os estilos de humor distintos davam a entender como as duas haviam sido concebidas a pensar em audiências diferentes.
Enquanto o humor de Sai de Baixo é essencialmente primário, o de Os Normais pretende ser, não só mais sofisticado¹, como, a espaços, sexualmente picante. Concretamente, e para quem tenha visto as séries, é a diferença que vai das inseguranças de Vani (Fernanda Torres) em Os Normais comparadas com as inanidades de Magda (Marisa Orth) em Sai de Baixo. A primeira série é uma caricatura apelando a uma certa cumplicidade com a própria classe social que é caricaturada, enquanto a segunda, de traços mais grossos e ridículos, destina-se a fazer rir a classe socialmente abaixo da retratada. O humor de Sai de Baixo torna-se mais exportável e a série teve muito mais sucesso em Portugal.
Mas o meu favoritismo vai todo para Os Normais onde há momentos na série em que se conseguem equilíbrios que considero memoráveis. Os primeiros minutos do vídeo abaixo são um exemplo disso: o casal Vani e Rui (Fernanda Torres/Luiz Fernando Guimarães) estão na sauna, compostamente vestidos de toalha, quando se lhes vem juntar a sua amiga Patrícia (Graziella Moretto), um exemplar da bomba loura burra que Vani toma por uma ameaça e que aparece na cabine totalmente nua… Não vale a pena contar o resto, mas chamo a atenção para o cuidado com que as cenas foram trabalhadas para que se mantenham num registo humorístico estrito evitando o pornográfico… apesar da amiga ser periquituda.
¹ O que não impede que algumas piadas também estejam assinaladas... Só que, em vez das tradicionais gargalhadas off, ouve-se um efeito sonoro.