31 janeiro 2010

A PLASTICIDADE DOS FACTOS - A IMBECILIDADE DAS ANÁLISES

O dr. Cavaco ganhou sempre por pouco: tanto as maiorias do PSD, como a maioria presidencial. O melhor resultado foi a segunda maioria do PSD (0,6 por cento) e a maioria presidencial ficou pelos 0,4 por cento. Isto quer dizer que socialmente Portugal é um país de esquerda e também que, lá no fundo, não gosta muito da personagem.(…)
Foi assim que o dr. Valente começou a sua crónica de hoje no Público. E se, como ele repetidamente conclui nessas crónicas, o povo português é uma fraude, então ele é um perfeito filho do povo, porque é outra fraude. Veja-se o mapa acima, onde se comparam as vitórias por pouco do dr. Cavaco nas eleições mencionadas pelo dr. Valente e tirem-se as devidas conclusões...

As colunas azuis representam os resultados do dr. Cavaco enquanto as colunas a vermelho, usando a personalização do dr. Valente, são as dos resultados dos seus rivais directos em cada eleição, Constâncio, Sampaio e Alegre. Descrito como o fez, o dr. Valente eleva o gostar lá no fundo a um novo patamar de exigência da ordens dos 99,9%, como o demonstrado abaixo pelos norte-coreanos por Kim-Il-Sung por ocasião do seu funeral…

30 janeiro 2010

PARABÉNS A VOCÊ…

Hoje, na secção Pessoas do Público, e naquela rubrica dedicada a quem, entre os famosos, faz anos hoje, vem assinalado o 50º aniversário de Clara Pinto Correia, qualificando-a como escritora e investigadora. ?... Se nestes últimos tempos Clara Pinto Correia se tem notabilizado não terá sido em qualquer dos dois campos mencionados mas em outros muito diferentes, que ela não tem cessado de nos surpreender com os seus dotes multifacetados.
Assim, além de ter sido muito recentemente modelo fotográfico do marido como podemos observar acima – e não, com aquela expressão ela não se está a preparar para apagar as 50 velas, aquilo é outra coisa… ­– tinha tido oportunidade anteriormente de nos deixar uma impressão inesquecível nas danças de salão. Sim, porque se Adeus, Princesa (acima) é um bom livro de ficção, garanto-vos que, depois dela a ter dançado (abaixo), nunca mais consegui ouvir a Pérola Negra da mesma maneira…

POR “AMOR” A FREDERICO GUILHERME I

Já aqui tive oportunidade de falar a respeito de Frederico Guilherme I (1688-1740), Rei prussiano (1713-1740) e de uma pancada que ele tinha por homens altos para os recrutar para um regimento de elite do seu exército que era composto apenas por gigantes com mais de 1,80 metros. Só por este pormenor dá para perceber que estamos perante uma personagem castiça e que nada tinha dos olhos meigos que lhe deu quem o pintou no retrato acima. Muito pelo contrário, durante os 27 anos em que reinou em Berlim cedo os súbditos descobriram que o humor real era sujeito a variações bruscas, como o tempo...
Um exemplo, tirado do principio do seu reinado. Um dia, ao passear a pé por Potsdam e ao passar junto a um jogo da malha, o Rei emitiu um comentário aprovador e elogioso sobre o excelente exercício físico que aquele jogo constituía. O episódio tornou-se conhecido e, nos dias seguintes, o local foi-se enchendo de mais jogadores ansiosos de receberem o mesmo elogio real. Porém, da próxima vez em que Frederico Guilherme I por ali passou em passeio e nas mesmas circunstâncias, cerca de uma semana depois, a multidão de jogadores foi toda corrida à bengalada pelo Rei sob a acusação de serem todos uns inúteis!...
É evidente que episódios como o descrito não serviram para aproximar o monarca dos seus súbditos… Quando o Rei se passeava a pé criava-se uma espécie de vácuo à sua volta. E quando ele se apercebeu disso ficou furioso: – Por que motivo foges tu de mim dessa maneira? – perguntou certa vez a um súbdito que se distraíra ou atrasara... – Porque tenho medo! – ouviu. – Não é preciso temer-me, é preciso amar-me! – concluiu Frederico Guilherme I enquanto rapava da agora famosa bengala e incitava o desgraçado a amá-lo com o mesmo estilo de motivação que o usado recentemente por Ricardo Sá Pinto

Frederico Guilherme I da Prússia e Ricardo Sá Pinto serão, cada um à sua maneira, dois excessos de entusiasmo no exercício do poder hierárquico, mas suponho que convirá ter presente a evidência que o receio pelas chefias hierárquicas é um fenómeno natural…

29 janeiro 2010

QUEM VÊ CARAS…

Ele há o comerciante acima que, ao anunciar vender perfumes recém roubados, tenta criar uma relação de confiança com os clientes apesar do seu aspecto algo duvidoso, e ele há organizações como a BarclayCard que, depois das várias chamadas telefónicas que recebi, se virou agora para as mensagens na internet oferecendo agora uma máquina de café de brinde ao aderente, tal qual a (mensagem) que acabei de receber...

Ora tanta persistência merece ser devidamente recompensada com a nossa melhor atenção, atenção essa que há que dirigir especialmente para a taxa de juro (TAEG) que será aplicada a quem quiser financiar as suas compras recorrendo àquele magnífico cartão de crédito: 31,4%! Para uma comparação, sugiro que vejam quais as taxas de referência para a zona euro indicadas pelo Banco Central Europeu

NEM MAIS UM SOLDADO PARA AS COLÓNIAS!

Eu não vi, mas foi precisamente por muito pouca gente ter visto que a notícia me parece interessante, a do sucesso da realização de uma acção submetida ao lema Tropas portuguesas fora do Afeganistão!, promovida pela PAGAN¹, convocada para ter lugar ontem, 28 de Janeiro, Quinta-Feira, pelas 18h no Arco da Rua Augusta.

Segundo li por aí – que não na imprensa de hoje, que não lhe deu qualquer relevo – a acção não terá sido um sucesso por aí além, pois tornou-se um daqueles eventos em que os participantes (uns 20) quase se equivaleriam em número aos jornalistas encarregues de o cobrir. Ora suponho que estes fiascos também devam ser devidamente noticiados…

A propósito do fiasco, ocorreu-me um dichote politicamente incorrecto, directamente inspirado naqueles murais de parede de 1974 que clamavam: Nem mais um soldado para as colónias! e de que a acção de ontem terá sido uma espécie de sobrinha-neta. Só que ontem seria mais: Nem mais um manifestante para as acções pacifistas!
¹ Pelas aparências, tratar-se-á de mais uma organização de fachada do Bloco de Esquerda, tal como acontecia com os, subitamente aparecidos e desaparecidos, Verdes Eufémias.

28 janeiro 2010

AGORA PARA DUAS COISAS NÃO COMPLETAMENTE DIFERENTES…

O famoso …and now for something completely different... (…e agora para algo completamente diferente…) não foi uma frase inventada pelos Monty Phyton. Foi na BBC que a criaram para que quem fazia a locução pudesse fazer a ligação entre dois programas que não tivessem nada a ver um com o outro. Os Monty Phyton apenas a recuperaram e lhe deram a popularidade que se conhece… Ora este poste contem duas coisas diferentes, embora não sejam completamente diferentes. A ligá-las está o pormenor discreto do lettering, um estilo da letra futurista, que foi característico de um certo período dos inícios da década de setenta.
SEARCH foi uma série de TV que passou em Portugal na temporada 1973/74. Ainda me lembro que passava aos Sábados à noite. Os episódios eram uma combinação de espionagem com antecipação científica, porque havia um aparelhinho milagroso que tinha lá tudo miniaturizado, incluindo o contacto para um PC onde havia um Director de Operações e vários especialistas que iam ajudando os agentes no terreno (três) que, não por acaso, eram de uma insolência para com a hierarquia que parecia herdada do James Bond… Agora compare-se o estilo da letra do logotipo com o que é usado no maço de cigarros abaixo:
2002 CONTROL foi uma marca de cigarros lançada por essa mesma altura (1973). A mensagem publicitária que lhe estava associada também era de antecipação científica, com aquele 2002 Control estilizado no título e com a publicidade ao produto a destacar uns grãozinhos que, colocados à frente do filtro, reforçariam a suavidade do cigarro… Quando este era abanado, ouviam-se os grãozinhos... Para aquela época, tratar-se-ia de verdadeiros cigarros informatizados… Veio o 25 de Abril, e apesar duma daquelas piadas secas a propósito da revolução usando a marca 2002¹, as preferências evoluíram para o Português Suave sem filtro, marca que unia os intelectuais ao proletariado
¹ Qual a marca de cigarros que fumavam os oficiais do MFA? Some-se o dia da revolução (25), o ano da revolução (1974) e os seus três dirigentes (Spínola, Costa Gomes e Otelo) e obtém-se a resposta: 25+1974+3 = 2002. Aquela última explicação dos 3 dirigentes era muito forçada…

27 janeiro 2010

SOBRE OS ESCÂNDALOS SEXUAIS DOS ANOS SESSENTA

Ao contrário do que se possa pensar, o Caso Ballet Rose português, que se tornou ainda mais conhecido depois de adaptado para uma série de televisão (acima), não é o Caso Ballet Rose original... O caso português data de 1967, mas já em 1959 um escândalo de contornos idênticos e o mesmo nome rebentara em França, envolvendo como figura mais destacada o presidente da Assembleia Nacional francesa de então, André Le Troquer de 75 anos. Como é costume nestes casos, havia outros implicados entre a alta sociedade parisiense e a idade das pupilas variava entre os 12 e os 18 anos (abaixo).
Em 1963, um outro escândalo sexual rebentou, mas no Reino Unido, envolvendo o ministro da Defesa, John Profumo, e uma call-girl então com 21 anos chamada Christine Keeler. O escândalo veio a receber o nome do ministro (Caso Profumo), mas a fotografia que o passou a simbolizar é uma (hoje famosa) de Christine (abaixo). Nessa época, anterior à globalização, havia conceitos que eram inerentes a uma cultura e que as outras desconheciam. Neste Caso Profumo a qualificação de Christine Keeler como call-girl era de tradução difícil. Na Wikipédia em português designam-na como corista
Em contrapartida, a expressão ballets rose não possuía uma tradução directa para o inglês. No artigo da Time da época sobre o escândalo em França (1960) a expressão nem sequer é usada, sendo substituída pelo título de The Little Cats (As Gatinhas)… Que se tivesse vindo a adoptar entre nós, sem quaisquer hesitações, a designação francesa no original para o caso que envolveu, entre outras figuras, a do ministro da Economia de então, José Correia de Oliveira (abaixo), é significativo da dependência que as nossas elites nacionais tinham naquele tempo da cultura que chegava de França…

26 janeiro 2010

OS MEMORANDOS DO EMBAIXADOR

As nossas conclusões sobre um determinado problema de política internacional não devem partir do pressuposto que os altos responsáveis políticos têm falta de informação. Normalmente, se houver um problema nesse aspecto é o oposto: têm informação a mais e têm hesitações sobre qual a decisão a tomar; ou então não as têm, mas não a podem tomar por razões que estão fora do âmbito da análise de quem o aconselha ou que nós desconhecemos; ou então, recusam-se simplesmente a acreditar nas informações que receberam – sabe-se que Estaline, por exemplo, estava perfeitamente informado que Hitler ia atacar a União Soviética em Junho de 1941…

Para quem ainda tivesse dúvidas que Obama estava devidamente informado sobre o quadro geral desanimador da situação afegã, suponho que as dissipará ao ler o conteúdo dos memorandos produzidos pelo embaixador norte-americano em Cabul (acima) e que foram ontem publicados pelo New York Times. O mais importante nestas ocasiões em que os jornais conseguem ter acesso a documentos desta confidencialidade é a especulação dos interesses que estarão por detrás daqueles que os tornaram públicos. Neste caso, parece plausível admitir que existem duas correntes de opinião distintas quanto à maneira de conduzir a questão afegã.

A fotografia do embaixador está certa e não foi tirada em nenhum baile de máscarasKarl W. Eikenberry é um general reformado e um veterano do Afeganistão depois de nele ter estado em duas comissões de serviço (2002-03 e 2005-07). Terá sido uma das primeiras nomeações de Obama (10 dias depois de tomar posse) e, embora raro, não se tratou de um gesto inédito, o de nomear um general experiente como embaixador para uma área turbulenta, considerando o precedente de John F. Kennedy e a sua nomeação de Maxwell D. Taylor, um veterano da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coreia, como embaixador no Vietname do Sul em 1964.

Mas o conteúdo dos telegramas divulgados tem mais a ver com a condução política da questão afegã do que com a militar, que neste momento está a cargo do general Stanley A. McChrystal. Datados do passado mês de Novembro de 2009, quando da discussão do possível aumento dos contingentes de norte-americanos e da NATO no Afeganistão (que veio a ser aprovado), a panorâmica geral da situação que se pode extrair do conteúdo desses telegramas é a de um problema extremamente complexo, cujo factor crítico para a sua resolução nem sequer passa pela sua vertente militar. Claro que também nesse aspecto, se identificam vários problemas:

No exército, as altas taxas de atrito e as baixas taxas de recrutamento entre os pashtuns do Sul são preocupantes. (...) Só para manter os efectivos actuais serão necessárias dezenas de milhares de recrutas novos por ano para suprir as perdas por atrito e as baixas em combate. (...) O Paquistão continuará a ser a maior fonte de instabilidade no Afeganistão enquanto houver os santuários do outro lado da fronteira. (...) Até que o problema dos santuários seja devidamente encarado, os ganhos resultantes de enviar forças adicionais podem tornar-se sempre passageiros.

Mas parece agora reconhecer-se privada (e publicamente) que a questão nuclear é política e centra-se na inadequação de Hamid Karzai, o homem em quem os americanos têm confiado para dirigir o Afeganistão de há quase oito anos para cá. E o conteúdo dos memorandos agora tornados públicos torna a situação muito desconfortável (é o mínimo que se pode dizer) para todos: para Eikenberry, o autor, para Obama, o destinatário, e para Karzai, o tópico da conversa.

O presidente Karzai não é um parceiro estratégico adequado. A estratégia de contra-subversão proposta pressupõe que haja uma liderança política afegã que seja capaz de assumir as suas responsabilidades e de exercer a sua soberania na prossecução do nosso objectivo – um Afeganistão seguro, pacífico, e que seja minimamente auto-suficiente contra a acção dos grupos terroristas transnacionais.

No entanto, Karzai continua a descartar as responsabilidades de um poder soberano, sejam as da defesa, do governo ou do desenvolvimento. Ele e a maioria do seu círculo não querem que os Estados Unidos partam e ficam muito felizes por nos ver investir ainda mais. Eles assumem que nós cobiçamos o seu território para que façamos a guerra sem fim 'contra o terror' e que precisamos de bases militares aqui para uso contra os países vizinhos.

Mas o problema parece consistir em encontrar quem o substitua com vantagem...

Para além de Karzai, não há uma classe política dominante que contribua para fornecer uma identidade nacional abrangente que transcenda as filiações locais e que se mostre um parceiro de confiança.

Num país que já conheceu dois outros homens fortes errados (Babrak Karmal e Mohammed Nadjibullah, que foram escolhidos pelos soviéticos na década de 1980) e com uma potência que também já escolheu vários homens fortes errados (como Nguyen Van Thieu no Vietname do Sul ou Ahmed Chalabi no Iraque, para citar só dois), só pode parecer paradoxal e quase anedótico que, nesta altura dos acontecimentos, a questão afegã se possa ainda pôr na simplicidade de encontrar o homem forte certo para a situação…

O PASSADO EM FORMA IDÍLICA

Ainda a propósito do livro Caderno de Memórias Coloniais, das contestações violentas que o livro recebeu e dos bilhetes-postais animados (acima) que costumam matar as saudades dos nostálgicos do Ultramar que contestarão o livro, vale a pena comparar com um outro bilhete-postal animado (abaixo), este da Metrópole, também datado de uma época equivalente (1973). A música do clip (Tourada) até é desbragadamente crítica do regime (nada à moda da época…), mas será que se pode argumentar que as imagens que a acompanham serão uma síntese representativa daquele Portugal no ocaso do marcelismo? Não.
Para além disso, vale a pena questionar como que é que qualquer daqueles dois bilhetes-postais animados poderão contribuir para a explicação da actualidade, quando depois de terem sido filmados se intercalaram acontecimentos marcantes de ruptura com o passado como foram as independências no Ultramar e o 25 de Abril na Metrópole. Assim como a Praça do Marquês de Pombal e a Avenida dos Aliados que nos são mostrados no clip da Tourada nada têm nada a ver com a actualidade, também as vistas de Lourenço Marques do vídeo original serão ficções de uma época em que nem sequer foi assim…
Para ver e compreender o Moçambique moderno creio que é preferível recorrer a programas recente de televisão (como o de cima) onde intervém um cantor de ragga atestado de si mesmo a proferir várias afirmações assertivas, algumas das quais são chocantemente pouco solidárias - como a que manda os contestatários ir viver para a Guiné-Bissau… Para a nossa visão patriarcal em que achávamos que haveria uma solidariedade inata entre todos os PALOPs as palavras são chocantes… Mas a poesia actual é cantada por pessoas como MC Roger e não por João Maria Tudela e a letra não tem nada a ver com acácias…

25 janeiro 2010

RECORDANDO A BULGÁRIA SOCIALISTA

Havia uma velha anedota na Bulgária, um daqueles países socialistas do Leste onde se vivia muito bem sob o regime socialista (foi uma chatice que tais paraísos tivessem acabado em 1989…), em que um comunista novato perguntava a um camarada veterano se ele alguma vez se havia desviado da linha do partido; a resposta foi obviamente negativa, ele jamais se desviara da linha do partido, acrescentando depois com uma piscadela de olho, ele desviara-se sempre com a linha do partido…
Ainda hoje, a Bulgária continua a ser um país curioso... Naquele tempo, a sua localização geográfica era como que simétrica à nossa, mas no outro Bloco, dentro da Europa dividida da Guerra-Fria (mapa acima). A dimensão geográfica e demográfica dos dois países era muito próxima: 111.000 km² e 8 milhões de habitantes de búlgaros para os nossos 92.000 km² e 10 milhões. Dava-se até a coincidência dos dois países usarem como cores dominantes nas suas bandeiras nacionais o vermelho e o verde.
Se, entre nós, António de Oliveira Salazar dominara a política portuguesa durante 36 anos (1932-1968), na Bulgária fora Todor Hristov Jivkov (abaixo) a aproximar-se daquela marca com os seus 35 anos (1954-1989) à frente do Partido Comunista Búlgaro e do país. Porém, as vicissitudes que haviam transformado Salazar de líder fascista antes da Segunda Guerra Mundial para defensor do Ocidente depois dela em nada se comparam com a muito mais complexa evolução dialéctica da carreira de Jivkov...
Jivkov chegou ao topo da hierarquia reputado como um duro da linha estalinista (1954), para se adaptar às novas correntes anti-estalinistas do XX Congresso do PCUS (1956), para namorar com o maoismo (1958), para reverter tudo em 1962 com a cisão sino-soviética e adaptar-se aos novos tempos de Brejnev (1966) e anular experiências que se haviam tornado demasiado arrojadas como a conhecida por socialismo de mercado, que se tornou herética quando se pôs fim à Primavera de Praga em 1968…
Da década de 1970 em diante nenhum regime socialista era considerado mais indefectível do soviético do que o búlgaro (acima). E, numa operação tão canhestra quanto o assassinato em Espanha de Humberto Delgado pela PIDE em 1965, também os serviços secretos búlgaros (DS) ganharam uma grande notoriedade internacional quando assassinaram em 1978 o dissidente búlgaro Georgi Markov (abaixo) em Londres através de um dispositivo instalado num chapéu-de-chuva que disparava projecteis envenenados.
A enumeração de acontecimentos análogos poder-se-ia suceder. Mas seria apenas para reforçar a imagem de regimes de dois países que se contavam entre os menos evoluídos dos respectivos blocos a que pertenciam. Contudo, com a vantagem dos 15 anos de antecedência na implantação da verdadeira democracia (1974-1989) e dos 20 anos de antecedência na adesão à União Europeia (1986-2007), na actualidade, a grande maioria dos indicadores de qualidade de vida são favoráveis aos portugueses¹.
Com estas semelhanças dos antigos regimes, o que é perfeitamente absurdo é como pode haver ainda em Portugal quem obtusa e disparatadamente defenda que as melhorias nos indicadores de qualidade de vida que se registaram na Bulgária de 1954 para 1989 sob Jivkov se possam dever às extraordinárias conquistas e avanços civilizacionais só permitidos pelo socialismo enquanto as melhorias verificadas em Portugal entre 1932 para 1968 sob Salazar, serão as consequências nefastas do fascismo

¹ No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2009, Portugal está no 34º lugar mundial com 0,909 enquanto a Bulgária aparece só no 61º com 0,840.

24 janeiro 2010

O DILEMA CANÓNICO DE UM SUMO DE LARANJA PARA DESJEJUAR

Embora tenha sido o patriarca de uma dinastia repleta de gente interessantíssima¹, a pessoa do Senhor² Filipe de Orleães (1640-1701), o único irmão de Luís XIV, não ficou para a história de França associada a uma faceta muito simpática. O maior memorialista daquele tempo descreve-o como um homem pequeno com um ventre saliente que se passeava em sapatos de tacões excessivos, carregado de bijutaria e perfumado como se fosse uma cortesã. Mais do que a de homossexual – a lista dos seus favoritos é extensa – a imagem mais marcante com que ficaremos dele será a de uma bichona...

Para além da aparência, também a atitude geral de Filipe não era de molde a despertar muitas simpatias. A sua disponibilidade para servir o Estado, que seu irmão corporizou na sua pessoa numa declaração famosa³, não ia muito para além do cumprimento da complexa etiqueta da Corte. Em cada refeição que tomasse com o Rei, por exemplo, Filipe tinha que ficar de pé no início e estender protocolarmente o guardanapo ao irmão, para que este recompensasse a cortesia com um Meu querido irmão, comei, pois, comigo! e só depois disso é que o Duque se podia sentar à mesa real…
Filipe tinha um entendimento igualmente protocolar da devoção religiosa. Nunca faltava a uma missa e cumpria todos os jejuns canónicos, embora o seu comportamento privado fosse o que se imagina. Ficou famoso um diálogo dele com um padre corajoso – foi pelo episódio que me lembrei dele esta manhã ao pequeno-almoço. Ao perguntar-lhe se cometeria uma falta grave contra o jejum bebendo o sumo duma laranja, ouviu a resposta: Valia mais comer um boi inteiro desde que se vivesse como cristão!...

¹ Filipe II, o Regente, que governou a França entre 1715 e 1723, durante a menoridade de Luís XV. Luís Filipe II, também conhecido pela designação republicana de Filipe Igualdade, que votou favoravelmente a condenação de Luís XVI ao patíbulo em 1792 mas morreu da mesma forma menos de um ano depois. Luís Filipe III, que veio a ser, como Luís Filipe I, Rei dos Franceses entre 1830 e 1848.
² Monsieur no original, título que era conferido em França ao irmão mais velho do rei, que lhe sucederia no caso dele morrer sem descendência.
³ L'État c'est moi (O Estado sou eu)

23 janeiro 2010

BANANAS


Se a história da relação despótica dos Estados Unidos com os seus vizinhos do Sul precisasse de uma banda sonora, então eu escolheria Quiero La Noche (acima), com o arranjo que lhe foi feito para a apresentação do filme Bananas (1971) de Woody Allen. Paradoxalmente, o compositor da canção é um judeu nova-iorquino, tal como Allen: Marvin Hamlisch. Note-se que, para que se perceba o contraste irónico entre a lírica amorosa da canção e o som dos tiros que marcam o ritmo, é necessário compreender castelhano, o que não seria assim tão frequente em 1971 entre o americano médio…
Aliás, podemos encontrar algumas décadas depois uma outra situação (acima) em que um outro americano (este passava por evoluído…) também se ri de algo que lhe é dito em castelhano mas também sem perceber patavina do que lhe estão a dizer… Felizmente para as audiências nativas, e apesar de se passar parcialmente num país imaginário da América Latina (San Marcos) as restantes piadas do filme não precisam que se saiba castelhano, e algumas delas são até bem visuais, como a cena – que se tornou um clássico – do transeunte espontâneo que se põe a dar indicações a quem está a estacionar o carro.

22 janeiro 2010

NEM TUDO O QUE SE PASSA, PASSA NA TSF…

A notícia TSF tem o título Ferreira Leite recusa-se a falar da situação interna do PSD, mas a versão rádio da mesma notícia inclui apenas o trecho em que se ouve a reacção da visada. O que não se ouve – por esquecimento, decerto… – é o teor das perguntas que haviam sido previamente colocadas pelos jornalistas e que estariam relacionadas, esmagadoramente, com a eventual opinião dela sobre o acontecimento fundamental de ontem, o lançamento do livro de Pedro Passos Coelho e a presença nessa cerimónia de José Pedro Aguiar-Branco… Com esta explicação talvez a reacção de Manuela Ferreira Leite fique melhor enquadrada... E podendo não se gostar da pessoa, tem de se gostar ainda menos de omissões como estas…

– EU ACHO…

Ontem, durante o lançamento de um livro (acima), em que fiquei com muito boa impressão do editor, do apresentador e da autora (e com interesse pelo livro...), seguiu-se o tradicional período destinado a perguntas por parte da assistência que, como também parece ser tradicional, rapidamente descambou das perguntas para as opiniões sobre o tema do livro.

Opiniões variadas e de qualidade variada. Por momentos, o livro e a autora, o pretexto para a reunião, pareceram desaparecer sob o peso do carácter polémico do tema abordado: a descolonização e os aspectos com ela relacionados. Mas a apresentação – que durou cerca de 2 horas! – lá acabou por ter um happy end, com a autora a conseguir (tornar a) falar do seu livro…

Pelos vistos e apesar do aparecimento dos blogues, continua a haver imensas pessoas espalhadas por aí com imensa necessidade de serem escutadas e com falta de auditório que têm de aproveitar estas ocasiões em que o pretexto é irem escutar outras para, abusadamente, se compensarem…

21 janeiro 2010

A OPERAÇÃO RHODES DE HÁ 40 ANOS ATRÁS

Serão poucos os que, perante os mapas, reparam nas pequenas ilhas que existem a Norte do Mar Vermelho, junto à Península do Sinai, à entrada dos golfos do Suez e de Acaba. Não foi assim há muito tempo que aquelas paragens se contavam entre os locais mais quentes de todo o Globo, um maná noticioso (depois do bíblico que alimentou a tribo de Moisés) para as agências noticiosas à conta do conflito entre egípcios e israelitas.
Hoje, esses tempos parecem estar esquecidos, e a ilha principal, que se chama Shadwan (está assinalada na fotografia mais acima), tornou-se conhecida por causa das paisagens subaquáticas das águas que a rodeiam, que são uma verdadeira referência mundial para os praticantes de mergulho, não só por causa da limpidez das águas, da fauna e da flora, mas também por causa das estruturas de antigos navios que ali naufragaram (abaixo).
A maioria dos cascos que ali jazem são de pacíficos navios comerciais que terminaram bruscamente as suas viagens por causa de erros de navegação – as águas a Oeste da ilha Shadwan estão perigosamente cheias de recifes traiçoeiros. Mas há precisamente 40 anos, a 22 de Janeiro de 1970, a ilha viu-se subitamente transposta para a frente de combate da chamada Guerra de Desgaste (1967-70) que então era travada por egípcios e israelitas.
Os segundos haviam ocupado a Península do Sinai (pertencente aos primeiros) durante a Guerra dos Seis Dias (acima), conflito que se converteu depois na referida Guerra de Desgaste. Uma das questões relevantes nessa nova fase era o reforço do equipamento militar dos dois adversários, numa espécie de corrida aos armamentos, fornecidos por cada uma das superpotências. Os Estados Unidos auxiliavam Israel e a União Soviética o Egipto.
A preocupação principal dos israelitas era a manutenção da mesma superioridade aérea que lhe dera a vitória em 1967. Todos os equipamentos que os soviéticos forneciam aos egípcios que a pudessem desafiar eram objecto do seu particular interesse. E quando precisavam de saber mais, roubavam-nos. Unidades de operações especiais atacavam furtivamente, para desmontar os equipamentos e levá-los para Israel para estudo.
A primeira operação com esse objectivo, baptizada de Operação Rooster, teve lugar em 26 e 27 de Dezembro de 1969, quando se deu o roubo de um sistema de radar P-12 de origem soviética como o da fotografia acima. A segunda terá ido a Operação Rhodes, a tal que teve lugar na ilha de Shadwan a 22 de Janeiro de 1970. Até hoje, a única fonte a confirmar a operação foram os porta-vozes israelitas através de um comunicado…
Passados 40 anos ainda permanece um denso nevoeiro à volta daquilo que terá acontecido. Foram duas unidades de elite do exército israelita, o Sayeret Matkal (emblema acima) e o Shayetet 13 (naval), que atacaram as instalações militares e a guarnição da ilha, onde se contava um radar que monitorizava as movimentações israelitas. Não se sabe quais seriam os objectivos da operação. Mas de certeza que não tinham nada a ver com mergulho subaquático

20 janeiro 2010

SOBRE O AFEGANISTÃO, SOBRE ONCOLOGIA E SOBRE KARZAI

Quando se dá relevo ao facto de um recente relatório da ONU ter estimado que os subornos no Afeganistão representarão cerca de ¼ do PIB, o que há de novo é a publicidade que é dada ao facto. Deverá haver dúzias de estudos anteriores, onde se extraíram conclusões muito semelhantes, desde os classificados, que foram produzidos pelos serviços de informações, aos de acesso público, da autoria das agências mundiais. Parece, com esta notícia, que finalmente se tornou adequado reconhecer o que qualquer estratega de café já descobriu há muito tempo: - Aquilo no Afeganistão transformou-se cá num fiasco!...
Convém, contudo, moderar um pouco a hipocrisia desta manobra mediática destinada a auditórios de países ricos. Por exemplo, o jornal Público – insuspeito de adicionar valor às notícias que lhe impigem lá de fora ­– põe em título: “Cancro da corrupção” espalha-se no Afeganistão. Ora quase todos nós pensamos que conhecemos suficientemente bem aquelas sociedades para suspeitarmos que nelas a corrupção é um parasita que se dá suficientemente bem para não precisar de as matar como o cancro o faz... O problema e a causa real para tanta indignação será outra e, como de costume, de origem política…
Há tropas combatentes norte-americanas no Afeganistão desde Outubro de 2001, já lá vão 8 anos. Para comparação, nos mesmos 8 anos, houve outras tropas combatentes norte-americanas que chegaram (Março de 1965) e abandonaram (Agosto de 1973) o Vietname… Creio que a pergunta importante, tanto num caso como noutro, será: o que elas estiveram e estão lá a fazer? Por que causa é que estiveram e estão a lutar? A manobra política que, num caso e noutro, deveria ser a essência da intervenção norte-americana, a construção de um regime político que enquadrasse uma sociedade viável, revelou-se um fiasco…
Não vale a pena culpar agora o desempenho dos militares porque as realidades políticas são implacáveis e 8 anos foi demasiado tempo para se ter perdido a fazer asneiras e para continuar a apostar em projectos que se vieram a revelar fracassos como terá sido o caso de Hamid Karzai (acima). Uma notícia como esta, saída cirurgicamente poucos dias antes da realização de uma cimeira dos países doadores ao Afeganistão (28 de Janeiro), dá todo o aspecto de preparar o terreno para que se verifique uma inflexão substancial quanto à política ali prosseguida pelas potências ocupantes – a começar pela dos Estados Unidos…

19 janeiro 2010

O CENTRALISMO ESPIRITUAL

O senhor da fotografia acima chama-se José Inácio Munilla Aguirre, é um bispo espanhol e é uma das jovens revelações da hierarquia eclesiástica daquele país. Quando foi sagrado bispo em 2006 ainda não havia completado 45 anos, o que fazia dele o mais jovem bispo de Espanha até àquela data. Tem a reputação de pertencer teologicamente à corrente ultra-conservadora e de, apesar de ser de origem basca, não comungar dos sentimentos de simpatia pelo nacionalismo basco que são prevalecentes entre o clero daquela origem.

Mas a história deste poste começa no momento (há cerca de uns dois meses) em que o Papa Bento XVI promoveu Don José Munilla de bispo da pequena diocese de Palência (com umas 180.000 pessoas) para a de San Sebastian (com quase 700.000), de onde, aliás, ele é originário. E o pormenor engraçado a que quero dar destaque é o de assistirmos a verdadeiros anacronismos em organizações anacrónicas: houve um abaixo-assinado, subscrito por 85 prelados da diocese (77% do total), pronunciando-se contra aquela nomeação
Mais de um milénio antes de Lenine ter inventado a expressão do centralismo democrático, já a Igreja havia implementado esse mesmo princípio do exercício inequívoco da autoridade de cima para baixo, mas sem esses fingimentos cenográficos e nem se dando ao trabalho de lhe dar um nome, que a habilidade semântica de então destinava-se a outros fins. Centralismo espiritual foi uma invenção minha, que a oposição que se desencadeou na diocese, até pode ser analisada como um problema típico das organizações comunistas:

O que importará a opinião de uns meros 85 clérigos (militantes) dos 110 que compõem a diocese (Organização Regional) quanto à pessoa do responsável que foi superiormente escolhido para os dirigir? A Conferência Episcopal (Comissão Política do Comité Central) é que tem de possuir a visão correcta e abrangente do problema. A Igreja (o Partido) não pode vogar ao sabor dos caprichos de alguns irmãos (camaradas) que estão a colocar os seus problemas pessoais antes do objectivo maior da evangelização (Revolução)…
Mais a sério… Por detrás de uma oposição que se mostra tão estranhamente mediática numa organização em que estes enfrentamentos costumam ser discretos, pode ver-se nitidamente aqui a questão da oposição entre o nacionalismo basco versus outro centralismo, o castelhano - é que a sugestão do nome do nomeado veio de Madrid… Quanto a Don José Munilla, e regressando à nomenclatura do marxismo-leninismo, ele está a mostrar ter uma abordagem verdadeiramente dialéctica ao problema das resistências que tem de enfrentar...

18 janeiro 2010

LOCAIS REMOTOS – 2 (ILHAS KERGUELEN)

Quando Júlio Verne escreveu em 1874 A Ilha Misteriosa, localizou-a no Sul do Pacífico e numa latitude (as suas coordenadas eram 34° 57′ S, 150° 30′ W) em que fosse plausível a existência de um clima temperado com um ritmo de estações que fossem muito semelhantes às da Europa (onde residiam a esmagadora maioria dos seus leitores) ou da América do Norte (de onde eram oriundos os heróis da aventura). O exotismo dava-se porque, devido ao hemisfério, o Verão era em Janeiro, e o Inverno em Julho.
Para que a ilha (mapa acima) pudesse ter permanecido desconhecida até então, estava afastada das rotas marítimas praticadas, para que pudesse ter a variedade geológica, de fauna e flora que Verne lhe atribuía, apesar da pequenez (250 km²), o autor fazia dela o afloramento de um antigo continente entretanto submerso e para resolver o problema do destino político da ilha numa época de um imperialismo galopante que disputava todos os palmos de terra do Mundo, destruía-a no fim, através de uma erupção explosiva.
As Ilhas Kerguelen são o que mais se assemelhará a essa ilha misteriosa produzida pela imaginação de Júlio Verne. E, por coincidência, as ilhas até têm a mesma nacionalidade do imaginativo autor das histórias de antecipação. E pouca gente terá ouvido falar delas porque estão localizadas muito longe de todas as rotas marítimas tradicionais, só tendo sido descobertas em 1772, pelo navegador/aventureiro que lhes veio a dar o nome, Yves de Kerguelen, um corsário em tempos de guerra, mas descobridor nos tempos livres…
Contudo, as Kerguelen não se situam no Oceano Pacífico mas sim no Índico e a uma latitude 15º mais a Sul do que aquela que Verne concebera para a sua ilha misteriosa (49° 20′ S, 69° 20′ E). O seu clima é mais agreste do que o imaginado por Verne, embora com a mesma variação de temperaturas pouco significativa: temperaturas de Verão (Janeiro) rondando os 11ºC de Máxima e de Inverno (Julho) os 0ºC de mínima. É pouco atractivo para um local que se situa a mais de 3.000 km de terras habitadas (Austrália ou África)...
Em contrapartida, as Kerguelen são muito mais extensas. Com 7.215 km² de área total, a sua ilha principal (Grande Terre), com 6.675 km² (92% do total), tem uma dimensão que é equivalente à do Distrito de Santarém (e muito maior do que qualquer das ilhas dos Açores ou Madeira), embora as suas origens vulcânicas – idênticas às da ilha de Verne – lhe dêem um relevo acidentadíssimo: o ponto mais alto da ilha situa-se a 1.850 m de altitude (abaixo), pouco menos do que a Torre na Serra da Estrela (1.993 m).
Contudo, a riqueza geológica, mineral, da flora e da fauna em nada se compara com a que Verne havia concebido para a sua ilha. Naquelas paragens, a cobertura vegetal é a que se assemelha à da tundra e, estando tão afastada dos outros continentes, muito do que lá existe em termos de fauna resulta da acção voluntária e involuntária do homem: ratos, coelhos, gatos, renas, trutas, além dos expectáveis pinguins e aves marinhas. O mesmo se passa em relação à flora, onde se contam apenas 32 espécies indígenas (abaixo, a couve local).
Como as histórias da Atlântida, nada se assemelhará tanto como as Kerguelen àquilo que serão os restos de um antigo continente agora submerso (veja-se a fotografia abaixo). Emergindo das planícies abissais, as Kerguelen constituem a região mais elevada e emersa de um gigantesco planalto submerso entre 1 a 2 km de profundidade que foi constituído há 110 milhões de anos e que constituiu então um microcontinente antes de se afundar há 20 milhões de anos. Mais outra região que se tornará mais aprazível com o aquecimento global…