30 novembro 2009

E DEPOIS DO GELO POLAR DERRETER TODO?

O autor Chris Wayan procurou responder à pergunta supra, desenhando a superfície do planeta Terra se os contornos dos continentes reflectissem a subida do nível das águas do mar até ao degelo total causado pelo efeito de estufa, que será o equivalente aos cerca de 110 metros de água que os especialistas estimam hoje estar aprisionados nos gelos das calotes polares.
Assim, a parcela do planeta que não está coberta pelas águas diminuiu para ¼ do total. Mesmo assim, são 120 milhões de km² de terras emersas, menos 30 milhões do que na actualidade. Mas a grande incógnita será o regime climático vigente, pois ele é que será decisivo para definir quais serão as áreas temperadas e mais férteis do planeta: a Sibéria é uma hipótese séria…
… e outras hipóteses serão o Alaska e o Norte do Canadá. A Groenlândia conseguirá justificar finalmente o nome de baptismo, enquanto a Europa, agora um verdadeiro continente separado da Ásia, se verá transformada numa espécie de vasto arquipélago onde, entre muitas outras ilhas, finalmente fará sentido a designação da Jangada de Pedra de José Saramago.
Além de uma África que será de todos os continentes o menos alterado em relação à sua configuração actual, no outro Hemisfério, além de uma América do Sul e de uma Austrália que nos aparecem deformadas por enormes mares interiores onde antigamente havia grandes rios, aparece um novo continente habitável, a Antárctida.
Veja-se aqui outros mapas dessa hipotética Terra.

29 novembro 2009

«THE LARCH» ou NÃO HÁ CONÍFERAS INDÍGENAS DAS FILIPINAS

Asseguro que se trata apenas de uma coincidência o encadeamento de dois postes com títulos em inglês. O deste justifica-se pela evocação de um episódio da série Monty Phyton´s Flying Circus que tinha o título insólito – tipicamente no estilo Phyton – de Como Reconhecer Diferentes Tipos de Árvore de uma Grande Distância. E a primeira cena do episódio, como se pode observar no vídeo abaixo, é uma lição pedagógica – usando a pedagogia da época… – com a fotografia de uma árvore, acompanhada de uma voz imperativa (de John Cleese) identificando: – The Larch! Em português, fui descobrir, a árvore é uma conífera pouco conhecida entre nós, chama-se lariço, mas isso é o que menos importa.

O efeito cómico cria-se pela repetição. À medida que o episódio corre, como separador entre os sucessivos sketches, aparece uma nova lição que é sempre acompanhada da mesma fotografia da mesma árvore com as mesmas (não) explicações de John Cleese: – The Larch! Embora suponha que, ao contrário do lariço, elas não sejam empregues de forma deliberadamente humorística, as palavras eruditas com que Mário Crespo costuma enriquecer o discurso nas suas aparições televisivas têm um funcionamento muito semelhante. Há que primeiro a usar – como a palavra desassombro – para depois a repetir, de forma consolidada, em todas as formas imaginárias: desassombrado, desassombradamente, etc.
Li num blogue que Mário Crespo evoluíra entretanto para um novo vocábulo erudito do qual agora abusa com a mestria costumeira: judicatura. Ainda não dei por ele, talvez por não ouvir Mário Crespo com frequência. Mesmo assim devo ouvi-lo demais: ontem passei por um programa com ele, chamado Plano Inclinado, onde se criticava o nosso sistema de ensino, com a sua indignada concordância; mas dois dias antes, havia-o ouvido, no usufruto daquela excelente formação académica que se perdeu, a evocar Fernão de Magalhães e a situar a sua morte na Indonésia… Eu bem sei que os indonésios nunca foram gente de confiança, invadiram Timor-Leste e assim, mas os livros de História costumam culpar os filipinos pelo feito…

28 novembro 2009

SEVEN SWANS A SWIMMING

Há dias em que falta mesmo a inspiração, e em que tudo sai trocado, como acontece ao meu estimadíssimo Fozzie Bear (ver a minha imagem à direita...) numa versão dos Marretas da canção natalícia The Twelve Days of Christmas, música que já não vem a despropósito nos dias que correm. O que ele devia dizer quando chega a vez dele era seven swans a swimming mas, ou se esquece ou se engasga ou perde o tempo de entrada. Assim parece estar a acontecer também com os meus projectos de postes para hoje…– fica o vídeo com o fiasco de Fozzie mais a respectiva letra em substituição…

THE TWELVE DAYS OF CHRISTMAS

On the first day of Christmas,
my true love gave to me
A partridge in a pear tree.

On the second day of Christmas,
my true love gave to me
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the third day of Christmas,
my true love gave to me
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the fourth day of Christmas,
my true love gave to me
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the fifth day of Christmas,
my true love gave to me
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the sixth day of Christmas,
my true love gave to me
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the seventh day of Christmas,
my true love gave to me
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the eighth day of Christmas,
my true love gave to me
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the ninth day of Christmas,
my true love gave to me
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the tenth day of Christmas,
my true love gave to me
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the eleventh day of Christmas,
my true love gave to me
Eleven pipers piping,
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree.

On the twelfth day of Christmas,
my true love gave to me
Twelve drummers drumming,
Eleven pipers piping,
Ten lords a-leaping,
Nine ladies dancing,
Eight maids a-milking,
Seven swans a-swimming,
Six geese a-laying,
Five golden rings,
Four calling birds,
Three French hens,
Two turtle doves,
And a partridge in a pear tree!

27 novembro 2009

E, ENTRETANTO, O QUE É QUE ESTEVE A OPOSIÇÃO A FAZER?...

O título deste poste é a pergunta que apetece imediatamente fazer quando alguém escreve: O QUE SÓ SE SABE DEPOIS DAS ELEIÇÕES E QUE SE DEVERIA TER SABIDO ANTES. E é pela pergunta ser tão demasiado óbvia que cada vez mais me sinto mais relutante a rebater - e a levar a sério... - aquilo que José Pacheco Pereira tem vindo a escrever e dizer sobre a actualidade política...
Olhando para a evolução do pensamento político actual sobre a dinâmica da alternância democrática, parece que já se passou daquele realismo de aceitar que ela acontece mais por demérito do governo do que por mérito da oposição, para o cinismo da constatação imediata, a de preconizar apenas persistência à oposição porque a alternância virá fatalmente a acontecer com a acumulação dos erros governamentais. Nem será preciso que a oposição se esforce por aí além, o que é preciso é que exista e se lamente. Embora por vezes tenha os seus fracassos... Recordemos que, no Verão de 2003 houve uma excepcional vaga de calor em toda a Europa durante o mês de Agosto. Lá de fora, especialmente de França, chegavam-nos os ecos de um enorme escândalo político, com serviços de saúde mal preparados para aquela emergência, tendo como consequência um número anormalmente elevado de mortes de idosos, presumivelmente devido às temperaturas anormalmente elevadas.
A oposição portuguesa, aproveitando aquela boleia, farejando a confusão e mesmo sendo Agosto, resolveu levar o problema ao Parlamento: - Bute aí! Lá chegados, foi um fiasco monumental, porque a táctica governamental foi a de pedir à oposição que sustentasse a acusação com os dados oficiais sobre as mortes adicionais que a vaga de calor estaria a provocar… Ninguém fizera os trabalhos de casa, não havia estudos científicos – estava tudo de férias... – e as bocas dos jornais não tinham qualquer sustentação… O relatório lá acabou por sair – em Abril de 2004! – e as conclusões até confirmavam a tese da oposição, a de que houvera mortes adicionais por causa do calor… Tarde demais! Por acaso, parte da oposição de então hoje é governo (PS) e os partidos que estavam no governo estão agora na oposição (PSD e PP), mas isso será irrelevante porque a preguiça dos partidos em ter gabinetes de estudo seus que sejam autónomos dos do aparelho do estado é transversal ao espectro partidário(*)
Eu não pretendo ensinar como se deve fazer oposição a um político experimentado como José Pacheco Pereira, aquele que passa – e não tem desmentido… – por ser o cérebro do PSD actual. Mas também tenho a minha ideia – e não propriamente inspirada no cérebro dele que prefiro usar o meu… – da forma como deve agir a oposição. E quando o filósofo que pensa pela oposição pensa a oposição da maneira que ele a tem descrito, então creio que algo estará muito mal na oposição... É que José Pacheco Pereira, falando pela oposição, não se pode vir queixar agora que o governo tenha escondido, em plena campanha eleitoral, as broncas da sua actuação, especificamente a situação financeira. Essas omissões são da natureza das lutas políticas e, por sua vez, teria sido o momento ideal para a oposição dar publicidade prévia – houvesse trabalho de casa feito… – aos péssimos indicadores macroeconómicos que Teixeira dos Santos agora vai largando como molares do seu queixal
Em vez disso, na campanha do PSD preferiu falar-se da asfixia democrática e, sobretudo, de como José Sócrates é mesmo um mau carácter. Foram opções de campanha com os resultados eleitorais conhecidos: desta vez o PSD teve mais 1.352 votos do que no tempo do Menino Guerreiro(**)... Agora a responsabilidade do que só se sabe depois das eleições e que se deveria ter sabido antes é também de quem definiu a estratégia do partido do autor dessa frase. Se se pressentia e sabia que a economia e as finanças estavam muito mal, então devia ter sido feito um esforço entre a plêiade de economistas do PSD para descrever o próximo apocalipse, numa espécie de discurso à Medina Carreira, mas em coral gregoriano… Até acontece que, na análise desses tópicos da macroeconomia, a concorrência dos organismos do estado tem estado entregue à pessoa de Vítor Constâncio, que não tem sido considerado propriamente um monumento, nem à responsabilidade, nem à credibilidade

(*) Assinale-se a excepção do PCP. Mas o PCP há muitos anos que não tem tido acesso aos meios do aparelho do estado.
(**) A votação subiu de 1.653.425 em 2005 para 1.654.777 votos este ano.

26 novembro 2009

UM GENERAL NA FRENTE DE COMBATE

Uma das maneiras pedagógicas de explicar as naturezas diferentes que os conflitos podem assumir e como eles têm vindo a mudar do passado, mesmo recente, para a actualidade, mesmo no aspecto militar, será através da história da Divisão Brunete e do seu general que morreu na frente de combate. A Divisão Brunete é uma grande unidade blindada do Exército espanhol e sempre foi considerada uma das suas unidades de elite. Foi assim baptizada em homenagem a uma Batalha da Guerra Civil de Espanha em Julho de 1937 que teve lugar na localidade do mesmo nome que fica nos arredores de Madrid. Os seus aquartelamentos principais ficam também nos arredores de Madrid.
O comando da Divisão era (e mantém-se) uma colocação tão prestigiada quanto cobiçada. E a escolha do oficial para o ocupar é também extremamente criteriosa. O Comandante da Divisão nos princípios da década de 1980 era um oficial com currículo, um dos raros membros da sua geração que ainda tinha participado como voluntário na Divisão Azul (acima), a unidade que havia combatido com os alemães na Frente Leste durante a Segunda Guerra Mundial. Os tempos é que haviam evoluído muito desde essa época e, para além do Exército Vermelho(*), a Espanha do General Víctor Lago Román (abaixo) possuía outros inimigos, mais activos, mas que operavam de maneira menos convencional.
Talvez por isso, o General havia decidido não lhes prestar a devida atenção cumprindo os procedimentos de segurança recomendados, que implicavam alterar os horários e os percursos das suas deslocações ou tornar mais discreta a viatura oficial em que se deslocava… Numa guerra convencional, contra um inimigo que se comportasse de uma forma simétrica, o poder de fogo dos 180 carros de combate que compunham a divisão às suas ordens tornariam o General num elemento militarmente muito importante, mas num engarrafamento de uma rua de Madrid, sem escolta, toda essa importância desaparecia…
A 4 de Novembro de 1982 o General Víctor Lago Román foi assassinado com uma rajada quando o seu carro estava bloqueado no meio de um dos tradicionais engarrafamentos matinais madrilenos por dois elementos da ETA armados de pistolas-metralhadoras e que se deslocavam de mota… Não era o enorme poder de fogo das peças de 120 mm dos carros de combate da Divisão Brunete no meio das ruas de Madrid (acima) que o teria protegido naquelas circunstâncias.

(*) Apesar de, nessa época, a Espanha ainda não fazer parte da NATO (aderiu a 30 de Maio de 1982).

25 novembro 2009

A EUROPA DE 1909

Olhando para um mapa que represente a Europa de há precisamente 100 anos atrás (no mapa acima) podemos observar como, especialmente a Leste, as fronteiras europeias eram então muito diferentes das que existem na actualidade. Havia muitos menos fronteiras e muito menos países independentes. Porque o mapa é alemão a Europa aparece-nos repleta de Reichs: Frankreich (França), Deutsches Reich (Império Alemão), Osmanisches Reich (Império Otomano - Turco), Russisches Reich (Império Russo)…

Mas muito mais interessante que o primeiro é um outro mapa alemão da Europa de há 100 anos atrás mas que, para além disso, data também daquela mesma altura (mais abaixo, há que clicar em cima para o ampliar), e que tem o bónus adicional de nos mostrar como é que os alemães, pelos pequenos pormenores, concebiam a Europa e o seu papel nela… Atentemos então no mapa que, para além das fronteiras de então, nos apresenta quais os idiomas predominantes nas diversas regiões europeias…

Metódico, como costumam ser os mapas alemães, escolheu-se uma cor de base para cada um dos grandes grupos matriciais de idiomas: os idiomas germânicos aparecem em tonalidades de vermelho, os românicos em tonalidades de azul ou cinzento e os eslavos em tonalidades de verde. O tom dominante no centro da Europa (também conhecido por Mitteleuropa) não nos deixa dúvidas... Também não deixa de ser interessante a pertinência da escolha de certos tons dentro de cada cor para a representação de certos idiomas...
Sendo o inglês também um idioma germânico, o tom que foi escolhido para o identificar é o mais diferenciado de todos os idiomas dessa família, ao contrário do que sucede com o neerlandês/flamengo, que, visualmente e atendendo à cor usada, mais parece uma versão um pouco diferenciada dos falares da Alemanha do Norte (niederdeutsche). Estava-se na época em que a Alemanha procurava uma projecção marítima que a rivalizasse com a britânica e onde a vocação atlântica desses povos era cortejada, sendo tratados como alemães marítimos.

Mais a Sul, nas regiões onde actualmente se situa a Áustria, apercebemo-nos que, na intenção dos cartógrafos, não passariam de habitantes de uma mesma gigantesca região natural, a Baviera (Bayern), como se não houvesse diferença entre os que tinham Viena por capital e os que a tinham em Munique. Entretanto, mais para Leste, a Hungria, Roménia ou Eslováquia também aparecem pontilhadas de locais onde ainda predominavam idiomas germânicos. Mas também havia regiões em que acontecia o contrário.

Nas regiões mais orientais do Império Alemão, e maugrado as simpatias pró-germânicas dos desenhadores do mapa, pareceu-lhes impossível não reconhecer que existia ainda uma grande faixa em território prussiano em que o idioma dominante continuava a ser eslavo (polaco), mesmo quase um século depois da anexação à Prússia (1815). As fronteiras orientais da Alemanha que vieram a ser traçadas em 1919, depois da Primeira Guerra Mundial (mapa abaixo), respeitam as divisões linguísticas existentes à época.

Nota: Este é um poste prometido como resposta a um comentário do João Moutinho em Dreikasereck.

24 novembro 2009

HUMOR ANGOLANO

O saudoso Samora Machel de Moçambique é que ficou com a fama de participar nas anedotas mas é José Eduardo dos Santos, ao pedir uma Tolerância Zero no combate à corrupção em Angola, que fica com o proveito… como humorista, naquele estilo Buster Keaton de criar a piada sem nunca se rir…

BASSAS DA ÍNDIA

Bassas da Índia é um recife localizado no Canal de Moçambique, sensivelmente a meia distância entre este último país e a ilha de Madagáscar (veja-se a localização no mapa abaixo), embora pertença actualmente à França. Pelo nome contudo, percebe-se que se trata de uma corrupção do português, e que foram eles os primeiros europeus a localizarem aquele acidente geográfico, que foi aliás local de alguns naufrágios entre os seus galeões que faziam a ligação entre Portugal e a Índia.
O que torna Bassas da Índia uma acidente marítimo curioso é o facto de, para além de um recife, ser também um atol, ou seja uma formação geológica assente nas formações de coral que se constituíram à volta de um antigo cume vulcânico entretanto afundado. Com uma particularidade: parte dessa formação fica descoberta durante a baixa-mar mas fica totalmente submersa na preia-mar. Não há água doce, portanto não há flora nem fauna e assim a pseudo-ilha não é habitável.
Todavia, em épocas de glaciações anteriores, há 20.000 anos atrás, quando o nível dos Oceanos esteve algumas dezenas de metros mais abaixo do que hoje, Bassas da Índia já deve ter tido flora e fauna e quiçá, pode ter existido mesmo um pequeno lago de água doce – que actualmente é uma lagoa de água salgada com um máximo de 15 metros de profundidade – alimentado pelas chuvas no seu interior. Mas, de então para cá, com a subida do nível dos Oceanos, também o ecossistema de flora e fauna que se formara em Bassas da Índia se extinguiu.
A verdade, que tendemos a esquecer, é que, em qualquer época climática e geológica em que nos situemos, qualquer que seja o nível dos Oceanos, haverá sempre uma fronteira que separará os atóis que são habitáveis de outros que não o são. E é a componente de inevitabilidade dessa dinâmica climática e geológica – porque a natureza, além de os criar e equilibrar, também extermina ecossistemas… – que alguns dos fundamentalistas modernos do aquecimento global parecem frequentemente esquecer-se…

UMA VISÃO CELESTIAL DAS MANIFESTAÇÕES DE RUA

Já por aqui assinalei como, por vezes, aparecem notícias verdadeiramente importantes. Competiria a quem vive de notícias destacá-las e tornar essas notícias interessantes mas isso seria capaz de se tornar problemático porque embaraçaria retrospectivamente toda a própria classe. Já vão perceber porquê. Comecemos pelo vídeo abaixo, que agradeço vejam antes de continuar, de uma manifestação que data de 17 de Outubro passado, em Madrid, cujo objectivo era protestar contra a Lei do Aborto em vigor naquele país. Tratou-se de uma manifestação da direita paleolítica espanhola mas, para os aspectos coreográficos que me interessam realçar e abstraindo as palavras de ordem que no vídeo não se chegam a ouvir, bem podia ser uma manifestação da esquerda neolítica portuguesa.
É que está lá tudo o que costumamos ter na nossa SIC Notícias: desde as dezenas de organizações que convocaram a manifestação, às centenas de autocarros que terão trazido gente de todos os cantos do país, à menção ao partido político que a promove mas que prefere não aparecer, só através de alguns dos seus dirigentes a título individual, até à locutora que faz a narrativa em directo e que, depois destes dados elementares que a organização lhe forneceu de antemão, já não sabe o que há-de dizer mais, para além de se repetir… Descontada a causa, não sei como se chama o senhor de pull-over e microfone que aparece no vídeo, mas não será preciso esforço algum para imaginá-lo substituído pelos nossos conhecidíssimos Mário Nogueira ou Carvalho da Silva…
Mas o que esta manifestação em Espanha teve de inédito foi que, a par das tradicionais estimativas do número de manifestantes, se tenha dado o aparecimento de um instituto que conta, a partir de um método com certa base científica, o número de manifestantes a partir de fotografias de altitude. Será uma espécie de Pedro Magalhães e de CESOP das manifestações, portanto… E os resultados foram arrasadores para as estimativas pifométricas à moda do passado. Assim, para além dos favoráveis 2 milhões de manifestantes fornecidos pela organização e 1,2 milhões apontados pela governo madrileno e dos sóbrios 250 mil dados pela Polícia e 265.300 estimados pelo jornal El País, o tal instituto, designado apropriadamente por Lynce, contou somente 55.316 manifestantes
Enfim, supondo que nem tudo será igual dos dois lados da fronteira e quando se trata de partir para este tipo de exageros, os espanhóis são muito mais ousados que nós e não têm vergonha nenhuma na cara, este episódio, que é uma renovação do famoso (e bíblico) milagre da multiplicação dos pães dever-nos-ia servir de reflexão para a realidade que existirá realmente por detrás das grandes jornadas de luta em Portugal com os tradicionais números franchisados de 100, 120, 150 ou 200 mil manifestantes que costumam contestar a política deste governo... Ferreira Fernandes foi o único que abordou este assunto numa sua crónica no DN mas, como costuma acontecer no resto da comunicação social portuguesa, o silêncio à volta deste episódio, obviamente associado à manipulação da informação, tem sido ensurdecedor

Que a Lynce venha para cá contar um por um a próxima multidão que vai ser arrastada pelo Mário Nogueira…

23 novembro 2009

E SE, DE REPENTE… OS COMUNISTAS SE PROPUSEREM FAZER REFORMAS… ISSO É DIALÉCTICA MARXISTA-LENINISTA!

Às vezes, é através dos pequenos detalhes que nos ocorrem que nos apercebemos como o capitalismo internacional triunfou na grande batalha ideológica do Século XX. Tomemos as recordações de uma campanha publicitária à escala mundial que teve lugar há uns 25 a 30 anos atrás. O produto era um desodorizante feminino chamado Impulse (haverá com certeza quem se lembra dele…) e a mensagem do anúncio consistia na frase: - E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer flores… isso é Impulse!
A situação de mostrar, em plena década de 1980, um homem compelido a oferecer um bouquet de flores a uma mulher desconhecida apenas por causa da fragrância de um spray desodorizante era perfeitamente inverosímil mas há que reconhecer que a mensagem tinha potência! Tanta, que me lembrei dela, quando há dias estava a ler alguns pormenores que acompanharam a desagregação acelerada do regime da República Democrática Alemã em Outubro e Novembro de 1989, imediatamente antes da Queda do Muro.
Assim, a 4 de Novembro, a menos de uma semana do Fim, um alto responsável do SED(*) ainda escrevia, a respeito das concessões possíveis em resposta à onda crescente dos protestos: O pedido para eleições livres pode, em princípio, ser concedido dado que corresponde aos princípios básicos da nossa Constituição Socialista, mas desde que isso não sirva de pretexto para a formação do pluralismo partidário burguês… Exigências para que seja abolido o papel dirigente do SED(*) são totalmente inaceitáveis(**).
Descodificando: até poderia vir a haver eleições livres desde que não fossem livres… Foi ao ler mais um exemplo desta inesgotável capacidade dos comunistas adulterarem os conceitos por detrás das palavras até ao limite do absurdo que me levou a imaginar como será apenas por pudor ideológico que se impede que lhes aplique uma versão parafraseada do famoso slogan publicitário do Impulse: - E se, de repente, os comunistas se propuserem fazer reformas… isso é dialéctica Marxista-Leninista!(*) SED: Sozialistische Einheitspartei Deutschlands. À letra, Partido Socialista Unificado da Alemanha. De facto, Partido Comunista Alemão, organização responsável pelo regime que vigorou na Alemanha de Leste entre 1949 e 1989.
(**) Anatomy of a Dictatorship: Inside the GDR 1949-1989, p.261.

22 novembro 2009

O DREIKAISERECK

Por me ter aqui referido há pouco tempo a um ponto geográfico da Europa que faz a fronteira entre três idiomas, creio ser oportuno mencionar um outro, que outrora – entre 1871 e 1918 – fazia a fronteira política entre os três grandes Impérios continentais e que por isso era conhecido por dreikaisereck: literalmente, o canto dos três imperadores. Mais acima, podemos localizá-lo (assinalado a vermelho) num mapa da Europa com as fronteiras de 1914. Abaixo, podemos ver qual era o seu aspecto, num postal com uma fotografia colorida e retocada como era prática corrente fazer com os destinos turísticos populares dos inícios do Século XX.
A margem que se vê do lado esquerdo é da Alemanha e a do lado direito pertence à Áustria-Hungria enquanto as terras do triângulo central antes da confluência dos dois rios são da Polónia, que estava então integrada no Império Russo. Como o postal é alemão é o seu imperador Guilherme II que aparece ao centro, ladeado pelo austríaco Francisco José (à direita) e pelo tsar Nicolau II. Com a alteração das fronteiras depois das duas Guerras Mundiais, o dreikaisereck localiza-se actualmente bem no interior da Polónia. A fotografia actual (abaixo) demonstra que o local perdeu nestes últimos 100 anos todo o interesse turístico…

20 novembro 2009

O MISTÉRIO DE MIRANDA

Quando as crianças ainda iam a pé para a escola, era frequente escolherem uma pedra – sílex, de preferência, para que fizesse faísca – que raspavam ao longo das paredes e muros do percurso. No final do trajecto as pedras ficavam com um aspecto muito parecido com o da fotografia abaixo, fortemente desbastadas dos lados que haviam sido submetidos ao atrito com as paredes. Só que esta fotografia não é de nenhuma pedra, mas sim de um satélite natural de Úrano, baptizado com o nome de Miranda…
Com cerca de 470 km de diâmetro médio, Miranda é o menor dos cinco grandes satélites de Úrano (abaixo) e a área de toda a sua superfície é apenas ligeiramente maior do que a do Afeganistão. Foi descoberto em 1948, mas quando foi fotografado de perto pela primeira vez, quando da passagem da sonda Voyager 2 pelas proximidades de Úrano em Janeiro de 1986, ninguém havia concebido teoria nenhuma sobre a formação de satélites que se enquadrasse com as formações que se observavam
Foi mais um caso, frequentíssimo em astronomia, em que as observações precederam as teorias. A explicação mais imediata, justificando as bizarras formações geológicas que se observavam, com desníveis escarpados (abaixo) de pelo menos uns 5 km de altura(*), foi que um corpo celeste, antepassado de Miranda, fora percutido por outro de grandes dimensões e se desagregara em grandes blocos. Depois, estes haviam-se tornado a reunir pela acção da gravidade, mantendo contudo as cicatrizes do acontecimento…
A outra explicação, posterior e mais ponderada, atribui a uma actividade geológica intensa as bizarras formações geológicas que podemos observar na superfície de Miranda. Contudo, para explicar tal actividade e dadas as dimensões reduzidas do satélite, teriam sido precisas temperaturas internas muito superiores às actuais, que fossem geradas por forças de maré (a atracção e repulsão criada pela presença de Úrano) que não as exercidas actualmente dada a órbita de Miranda… Um mistério.

(*) À escala da Terra isso corresponderia a uma escarpa com um desnível de 135 km, 17 vezes a altitude do Evereste…

19 novembro 2009

«COHÉRENCE MANQUANTE»

São dois vídeos com duas jogadas de futebol muito idênticas, em que os dois golos são precedidos de uma falta claríssima do atacante que joga a bola com a mão. E nas duas, o golo foi validado porque os árbitros não a viram. O jogo de cima teve lugar há dezanove anos, o de baixo foi ontem. Mas a razão para os ter juntado aqui é o idioma em que são comentados, o francês, em que, mesmo para quem não o compreenda, é perceptível a mudança do tom indignado dos comentários no vídeo acima - era a equipa francesa a lesada - para o tom muito mais moderado nos do de baixo – foi a selecção francesa a beneficiada… Conclusão: no resto do Mundo, tanto como cá, futebol não tem moral…

DA LENDA DE EL-REI D. SEBASTIÃO À MORTE CONFIRMADA DE LUÍS II DA HUNGRIA

O vídeo acima, infelizmente truncado, contém a metade inicial de uma canção intitulada A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111 que data da segunda metade da década de 60, muito anos antes destes vídeos assim mais ousados se chamarem telediscos ou, muito menos, videoclips… Mesmo truncado, preserva aquilo que é o seu aspecto mais marcante, o efeito inicial que é criado pelo som dos instrumentos antigos usados no começo da melodia. O ambiente transporta-nos de imediato para uma época histórica longínqua e só então o vocalista (José Cid) começa a cantar. A versão integral da canção pode ouvir-se aqui.
Significativamente, atendendo precisamente à época, a letra original – que começava por Fugiu de Alcácer Quibir, El-Rei D. Sebastião… – foi alterada devido à censura – para um neutro Depois de Alcácer Quibir… – que aquilo eram tempos de monarcas que não tinham defeitos, em que não ficaria nada bem dizer-se que o Desejado tivesse fugido da peleja. Porém, os antecedentes históricos já haviam mostrado que, contra infiéis, a participação de monarcas em grandes batalhas convencionais era um daqueles desportos radicais que lhes podia correr mal, como já acontecera com Luís II da Hungria, em Mohács em 1526, contra os otomanos…
Apesar da distância geográfica e temporal de 52 anos que separaram estas duas batalhas travadas por duas potências da cristandade contra o Islão, existem vários elementos de semelhança nos dois acontecimentos e nas suas consequências que vale a pena recordar. Sebastião I de Portugal tinha por ocasião da batalha de Alcácer Quibir 24 anos e Luís II da Hungria 20 anos em Mohács. Ambos morreram em consequência delas. Nenhum dos monarcas possuía descendentes legítimos à data da morte. Por causa disso, os seus reinos vieram a ser absorvidos pela expansão centrípeta pan-europeia representada pela habilidade matrimonial dos Habsburgos…

18 novembro 2009

A VÉNIA DE OBAMA

Entre os fait-divers que costumam rodear mediaticamente Barack Obama, há alguns casos, raros, que se tornam interessantes por aquilo que nos mostram da América retrógrada. É o que acontece com a controvérsia a respeito da vénia feita por ele quando cumprimentava o Imperador Akihito do Japão (fotografia acima). Na origem, como seria de esperar, está aquela comunicação social próxima das teses agressivas que levaram George W. Bush e, com ele, a imagem dos Estados Unidos aos píncaros da glória mundial: a Fox News é um excelente exemplo disso.
E os heróis dessa comunicação social são pessoas que já foram muito importantes e/ou muito influentes e que agora, mesmo mandando muitas bocas…, não são: Dick Cheney, William Kristol, Bill Bennett. Ao olhar para a fotografia e pensando nos comentários por eles emitidos, percebe-se que, mais do que a ideologia, há uma grande dose de ignorância misturada com grosseria quando criticam Obama por ter adoptado um costume alheio. É que Akihito, ao saudar com um aperto a mão (que não é um costume japonês), está, de forma cortês, a adoptar precisamente a mesma atitude que Obama…

São estes pequenos episódios que nos servem para recordarmos porque é que a Adminsitração Bush não deixou quaisquer saudades…

A(S) GUERRA(S) DO FUTEBOL (A DE 1969)

Antes de se saber qual será o resultado do jogo de hoje entre Portugal e a Bósnia, e as consequências imprevisíveis para a paz e segurança na Europa que os quatro jogos de apuramento que hoje se disputam poderão provocar (Bósnia – Portugal, França – Irlanda, Eslovénia – Rússia e Ucrânia – Grécia), para não falar já do que poderá acontecer à África do Norte na sequência do Argélia – Egipto a disputar em Cartum, no Sudão, lembrei-me de evocar um acontecimento de há 40 anos atrás, que ficou conhecido como a Guerra do Futebol ou a Guerra das 100 Horas, uma guerra travada entre as Honduras e El Salvador, um conflito militar a sério que teve por pretexto próximo, precisamente como aqui, uma eliminatória de apuramento para um Campeonato Mundial de Futebol – no caso o de 1970, que se iria disputar no México.
A história aparente do conflito começa a 8 de Junho de 1969 quando, em partida disputada em Tegucigalpa, capital das Honduras, a selecção local ganhou à de El Salvador por 1-0. Na véspera, os hondurenhos haviam montado um comité à volta do hotel onde a comitiva salvadorenha se havia alojado, que passou a noite a fazer barulho impedindo os visitantes de descansarem. Uma semana depois, os salvadorenhos, feitos agora anfitriões retribuíram, com mais alguns requintes de maldade, incendiando, por exemplo, 150 carros de hondurenhos que haviam vindo ver o jogo a Salvador. Nesta segunda mão El Salvador veio a ganhar por 3-0 e foi preciso um jogo desempate, que se disputou em campo neutro a 27 de Junho na cidade do México onde a selecção de El Salvador veio a ganhar após prolongamento por 3-2.
Mas, no dia anterior ao jogo, que contou com a assistência de 5.000 polícias mexicanos, já o governo salvadorenho havia rompido as relações diplomáticas com o seu homólogo hondurenho e, de gesto ameaçador em gesto ameaçador de parte a parte, em 14 de Julho os dois países estavam envolvidos numa Guerra que tinha por causa mais profunda o contraste social entre os dois países vizinhos da América Central, onde em El Salvador havia gente de mais para terra de menos (uma densidade média de 154 habitantes por km²) ao invés da situação nas Honduras (com 18 habitantes por km²), onde sobrava terra e havia uma comunidade imigrante salvadorenha crescente. Quanto ao conflito propriamente dito, El Salvador, com um exército mais poderoso, assumiu a ofensiva e invadiu as Honduras, mas as operações acabaram por durar apenas 4 dias.
Para além dos três milhares de mortos, na sua grande maioria civis e hondurenhos, a 2 de Agosto de 1969, através dos ofícios dos intermediários da OEA (Organização dos Estados Americanos), o exército salvadorenho regressara às suas posições originais na fronteira, enquanto o governo hondurenho se preparava para expulsar as centenas de milhares de imigrantes ilegais salvadorenhos do seu território, acicatando as tensões sociais que estariam por detrás da Guerra Civil salvadorenha que se desencadearia dali por dez anos. Mas, esclarecendo o que normalmente mais interessa aos verdadeiros adeptos do desporto, depois destes jogos de apuramento, El Salvador veio a participar no Campeonato Mundial de 1970, perdendo os três jogos que disputou sem marcar sequer um golo: 0-3 contra a Bélgica, 0-4 contra o México e 0-2 contra a União Soviética…

17 novembro 2009

O PICO DAS TRÊS LÍNGUAS

Na fronteira que a sudeste a Suíça faz com a Itália encontra-se um pico de 2.843 metros de altitude (assinalado no mapa acima) que tem a particularidade de ser o ponto de intercepção das fronteiras linguísticas de três idiomas europeus: o alemão, o italiano e o romanche. Chama-se, utilizando a menos conhecida das três, apesar de se tratar da quarta língua oficial da Suíça, o Piz de las trais Linguas (leia-se a placa abaixo).
Como dará para deduzir, trata-se de um idioma neo-latino que é falado por apenas 0,9% da população suíça, embora os seus falantes se concentrem no Cantão dos Grisões, onde constituem quase ⅓ da população. Como acontece nas regiões compartimentadas, existem vários dialectos distintos e, como acontece com os idiomas neo-latinos, o seu vocabulário (compare-se neste quadro) tem bastantes semelhanças com o português.
Porém, como aconteceu com outras línguas europeias (na Península Ibérica, o caso mais conhecido é o do basco), o romanche também falhou a transição de idioma rural para a sofisticação de idioma urbano a partir do Século XIX, acompanhando a industrialização e a urbanização que transformaram a Europa. Quando o fez já era demasiado tarde e os mapas acima marcam a diminuição da influência do romanche (a grená) de 1860 para 2000.

16 novembro 2009

O MOSAICO PAQUISTANÊS

Nas análises que se fazem acerca do problema afegão e da contribuição paquistanesa para a sua solução, apercebo-me de quanto quem analisa não costuma ter consciência das fragilidades paquistanesas, limitando-se a repetir o lugar comum que quase nada se fez e faz do lado paquistanês da fronteira contra os guerrilheiros talibans porque é do próprio interesse dos militares paquistaneses que nada se faça contra eles.
A recente sucessão de atentados no Paquistão, alguns deles visando especificamente instalações dos serviços de informações do exército paquistanês (ISI), reputadamente os tais que, na versão dos analistas, davam a tal cobertura aos talibans, parecem tirar as dúvidas à ideia que aqui tinha adiantado: até aqui e para o exterior, os militares preferiram camuflar por duplicidade aquilo que não passava afinal de impotência…
E se essa constatação é importante numa perspectiva internacional é crucial do ponto de vista interno. Nas crónicas internacionais, costumam apontar-se vários estados falhados: a Somália, a Libéria, Serra Leoa. E depois há outros que, pela sua dimensão e pelos problemas que resultariam do seu desaparecimento é melhor não se apontarem: a Birmânia é um deles, a Indonésia provavelmente outro e o Paquistão é-o definitivamente.
Já se passaram 62 anos desde a constituição do Paquistão, o Estado dos Muçulmanos da Índia, e o exército paquistanês continua mais poderoso que nunca para defender esse Estado das hipotéticas ameaças do grande vizinho de maioria hindu mas, na sua essência, o conjunto das regiões que formaram o Paquistão não parecem ter progredido grandemente para a constituição daquilo se costuma designar por consciência nacional
Pior, parece ter ficado para os militares a responsabilidade dessa constituição mas, ao contrário, da Birmânia, onde há um núcleo demograficamente maioritário de birmaneses, e ao contrário da União Indiana onde, não havendo possibilidades que se constitua esse bloco maioritário, o poder tem de ser exercido por coligações de grupos de geometria variável, no Paquistão a disputa obriga-se a ter de assentar entre sindis e punjabis.
Em contrapartida, há outros grandes grupos étnico-linguísticos paquistaneses, que mantêm laços de parentesco próximos com as populações do outro lado das fronteiras com o Irão e com o Afeganistão, como acontece com os baluches e os pashtuns que, por razões históricas e por vontade dos próprios ou alheias, nunca terão participado significativamente na definição das políticas paquistanesas. Essa parece ser a essência do conflito actual.
Estes dois últimos grupos (ver o mapa mais abaixo e a sua distribuição respectiva) de há muito – desde o tempo colonial – estabeleceram uma espécie de modus vivendi tácito com os outros grupos, assente no respeito pelas respectivas áreas de influência. Instados pelos norte-americanos a desmascarar o bluff, os poderes de Islamabad defrontam-se agora com uma guerra de contra-subversão que é ao mesmo tempo civil e colonial.
Nunca tendo estado verdadeiramente unido, o Paquistão corre agora o sério risco de precipitar a desagregação. Por curiosidade e para evidenciar quanto o Paquistão ainda é, de uma certa forma, um verdadeiro mosaico de povos, utilizei para separador dos parágrafos deste poste uma bandeira de sete dos estados principescos que em 1947 se haviam fundido para virem a fazer parte da nova nação. Também estão assinalados a cores no mapa final.
Assim, de cima apra baixo, temos sucessivamente as bandeiras dos antigos estados de Bahawalpur com 45.900 km² (assinalado a laranja), de Dir, com 5.300 km² (a vermelho), de Kalat, com 30.000 km² (a verde-claro), de Khairpur, com 15.800 km² (a amarelo vivo), de Kharan, com 48.000 km² (a azul-claro), de Las Bela, com 18.300 km² (a grená) e de Swat, com 8.200 km², (a azul-escuro).