31 julho 2009

DO DIREITO DE QUEM VOA AO DIREITO DE QUEM RECEBE

Há precisamente 40 anos, ao longo do ano de 1969, a moda do sequestro e desvio de aviões atingiu o seu zénite, com um total de 82 sequestros registados durante aquele ano – uma média de quase 7 por mês! Foi uma época onde também se batiam recordes, como o do candidato a pirata do ar mais novo de sempre: David Booth (acima) tinha então apenas 14 anos quando tentou desviar um DC-9 da Delta Airlines que se preparava para descolar do aeroporto de Cincinnati. Enfim um incidente suficientemente absurdo para nos fazer lembrar aquele famoso trecho do monólogo sobre o aborto de Ricardo Araújo Pereira: Vou ao cinema. Está esgotado? Então vou sequestrar um avião!...
Depois dessa época áurea, os procedimentos de segurança antes de um embarque foram-se tornando cada vez mais exigentes até se ter chegado aos actuais a que temos de nos submeter... Um frete! Quanto aos nossos direitos, quando embarcamos num voo comercial, parece que os perdemos todos, mesmo os mais elementares, como aquele que fala da presunção da inocência. Simplesmente parecem não existir: não há sorriso nem atestado de bom comportamento criminal passado por quem seja que nos faça evitar ter de passar por entre aquela maldita porta de metal (acima) e… mal de nós se ela desatar a apitar… Se assim for iremos ser apalpados, revistados, despidos, enfim, um sem número de torturas…
Bem podemos troçar de todos aqueles embirrantes procedimentos de segurança (acima) mas, de uma forma honesta e pragmática, há que reconhecer que, por detrás de todos eles existem justificações de ordem técnica e como objectivo para todos eles estará a prioridade da segurança de todos a bordo do avião. Ora esta verificação meticulosa de quem pretende viajar de avião não se distingue assim tanto das orientações científicas que estão associadas ao processo de qualificação dos potenciais dadores de sangue. Também neste segundo caso podemos troçar dos seus aspectos mais caricatos mas, global e substancialmente, há que reconhecer que se trata do melhor método para assegurar o melhor para a colectividade...
Depois de uma bolha noticiosa há uma semana atrás, que depressa rebentou em nada, este assunto dos critérios de doação de sangue vê-se transformado de novo, com a ajuda de uma entrevistaa questão do momento (sic), mas torna-se espantoso como aqueles que o abordam como activistas de causa conseguem argumentar tão abundantemente a seu respeito, ao mesmo tempo que evitam cuidadosamente aflorar sequer a essência científica do assunto que pretendem pôr em causa…

30 julho 2009

O(S) CABAZ(ES) DE NATAL

A propósito da muito criticada facilidade que existe actualmente para se ter acesso ao crédito bancário (veja-se a publicidade acima), ocorreu-me recordar os antigos Cabazes de Natal. É uma evocação duplamente despropositada, atrasada por um lado, porque o apogeu desse negócio terá sido há uns 40 anos atrás, e fora de época por outro, porque há que reconhecer que o pino do Verão não será a ocasião que mais associaremos à quadra natalícia, altura em que se consumia o referido Cabaz de Natal...

Mas note-se que havia que começar cedo a pensar no assunto do Natal. Se lermos com atenção a publicidade que naquela época se fazia ao produto (clique em cima da gravura abaixo para a ampliar), percebe-se melhor como a coisa funcionava. A partir de Março do Ano a que se reportava o Cabaz, começava-se a descontar antecipadamente uma prestação suave de 100$00 por mês, até se perfazerem em Dezembro as dez que totalizavam os 1.000$00, valor que a organização atribuía ao riquíssimo cabaz…

O cabaz era composto por whisky – espumante – vinho do porto – brandy – ...enfim, um sortido infindo de bebes e comes complementado por... – presente para senhora – presente para homem – brinquedo para menina – brinquedo para menino – um bom livro – surpresas de Natal. Logo na perspectiva financeira, para a empresa organizadora o negócio começava excelente. Ao contrário do que acontece com o crédito na actualidade, os clientes começavam a pagar antecipadamente aquilo que só viriam a consumir meses depois…
E o preço de 1.000$00 atribuído ao conjunto do cabaz estava claramente sobreavaliado, o que permitia à organização aceitar qualquer interessado em aderir ao programa em qualquer momento, mesmo em Dezembro, desde que se dispusesse a pagá-lo de uma vez só. Nem nesse último caso deveria perder dinheiro… Tudo isso permitia que houvesse um robusto orçamento publicitário, tanto na imprensa (acima) como na rádio, onde me lembro de um jingle nos Parodiantes de Lisboa: Não há Natal capaz… Sem o Cabaz… Sem o Cabaz…

A democratização do crédito ao consumo acabou com estes negócios que, como se percebeu, não passavam de um abuso destinado a incautos e a ignorantes, pertencentes na sua maioria às camadas menos esclarecidas da população. E durante décadas não se ouviu falar de Cabazes de Natal. A designação ressuscitou recentemente mas os novos Cabazes do Natal destinam-se agora a um outro público-alvo, os socialmente preocupados, que o antigo público já pode oferecer-se o seu LCD comprado a crédito pelo Natal…

Agora são as ONG(*) benfazejas que se propõem vender Cabazes de Natal a preços justos (abaixo) cujas receitas revertem para si próprias. E se acima descrevi como funcionava o antigo negócio dos Cabazes de Natal este negócio moderno das ONG internacionais talvez seja comparável… Reflicta-se que, no tempo em que eram os pobres que compravam os Cabazes de Natal, havia umas meras dezenas dessas ONG no Mundo(**); hoje são dezenas de milhar e tornou-se um dos sectores de actividade mais dinâmicos das últimas décadas...
Contudo, nesses mais de 40 anos, o Mundo não parece ter-se tornado assim tão melhor com isso…

(*) - Organizações Não Governamentais
(**) - Em 1946 havia 41 ONG internacionais reconhecidas com estatuto consultivo junto da ONU. Em 2003 esse número multiplicara-se para 3.550. Hoje estima-se que haja cerca de 40.000 ONG internacionais em todo o Mundo...

29 julho 2009

VISÕES ESTRATÉGICAS…

Ricardo Salgado, o nosso gestor do BES, que gere um banco português e tende a ser considerado patriótico, considera a Ibéria essencial para o desenvolvimento de Portugal, a começar pela construção do TGV, o de Lisboa a Madrid supõe-se. Ao contrário, Nuno Amado, esse renegado que dirige o Banco Santander Totta em Portugal, essa verdadeira extensão do imperialismo castelhano, defende que deve haver uma análise cuidada aos grandes investimentos públicos, referindo-se, suponho, a esse mesmo TGV. Ora eu acho que devia ser ao contrário... Ou então eu não percebo nada de estratégia. Ou então a visão estratégica destes dois eminentes gestores de topo da nossa banca é igual à do dono do café da esquina: onde tilintar o dinheiro é que se fixa a tal de visão

CONSTRUÇÃO


Chico Buarque compôs em 1971 esta Construção, um poema cantado evocando o enorme êxodo interno que o Brasil estava então a atravessar, com os muitos milhões das regiões rurais brasileiras a partirem em busca de emprego – muitas vezes na construção civil, daí o título da canção – nas grandes metrópoles de São Paulo, do Rio de Janeiro ou de Belo Horizonte.
30 anos depois de ter sido composta, um desses migrantes, vindo de Pernambuco para São Paulo em 1952 tornou-se Presidente da República, mas isso não marcou o fim da história bem ao jeito dum daqueles filmes de Hollywood. Os migrantes e seus descendentes constituem a maioria da população das favelas, de um Brasil urbano mas paralelo – o filme é outro.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou p´ra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou p´ra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou p´ra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão p´ra comer, por esse chão p´ra dormir
A certidão p´ra nascer e a concessão p´ra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira p´ra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

28 julho 2009

POLITICAMENTE E NO BOM SENTIDO

O senhor Primeiro-Ministro quando se apresentou aqui disse que vinha também porque lhe diziam que os blogues diziam mal de si. O meu blogue, porventura, é dos que mais diz mal de si, mas no bom sentido, politicamente, não pessoalmente, tenho… tenho a estima que a democracia exige… e a frontalidade a alguém que… por motivos vários… ahhh… achamos que devemos criticar, que é o seu caso… e tanto mais com a autoridade – autoridade, enfim, relativa, não é? – que advém da circunstância de ter votado em si em 2005. (…)

O texto que se lê acima é a transcrição o mais fiel possível de uma parte dos considerandos que o autor do blogue Portugal dos Pequeninos fez antes de uma pergunta que ontem endereçou a José Sócrates. Tendo em consideração aquilo que temos podido ler-lhe ao longo dos anos sobre o mesmo José Sócrates, conjugado com a nomenclatura por ele acima inventada, tenho a dizer que considero João Gonçalves, politicamente e no bom sentido, um verme. Um verme que, ali se desfaz em mesuras e que noutras circunstâncias finge adoptar a cara severa do verme da gravura acima. Um verme, claro, com toda a estima e frontalidade que a situação exige...

O CASO DREYFUS DESTA LEGISLATURA

UM JANTAR EM FAMÍLIA
– Sobretudo não falemos do Caso Dreyfus!...
…falaram.

Em 1898, um célebre cartoonista francês (Caran d´Ache) publicou o seu mais famoso cartoon que se refere ao Caso Dreyfus. No desenho de cima, o patriarca de uma distinta família burguesa reunida à volta da mesa dá início ao jantar estabelecendo como regra que não se fale do Caso que então apaixonava as opiniões de França. No desenho de baixo, a lacónica legenda, por baixo de uma enorme bagunça a que nem escapam os animais domésticos, informa-nos que a regra não foi respeitada…
A figura do Capitão Alfred Dreyfus, o homem que foi capaz de apaixonar assim a França é uma desilusão (acima). Dreyfus era um alsaciano oriundo de uma família de origem judia e bastante próspera que, por patriotismo, preferiu continuar francesa depois da anexação da sua região de origem pela Alemanha em 1871. Trata-se de um Curriculum predestinado a causar hostilidades e antipatias surdas por todos os lugares onde Alfred (o mais novo de sete irmãos) viesse a ser colocado ao longo da carreira.
Mas não é propriamente dos detalhes do próprio Caso Dreyfus, entretanto esquecidos, que quero aqui tratar, mas do radicalismo das duas facções em que a sociedade francesa se fracturou depois da publicação da famosa carta aberta Eu Acuso! de Émile Zola (Janeiro de 1898). Foram manifestações de um radicalismo que me fazem lembrar muito do que por aí vi escrito aquando da guerra entre Ministério e Professores e que descobri que continua a desencadear reacções apaixonadas e também jantares de família estragados.
Assim como se teria esperado do topo da hierarquia dos militares franceses uma justiça equitativa que absolvesse Dreyfus (que não houve), também seria de esperar que a hierarquia profissional dentro da classe dos professores portugueses produzisse outras figuras para além da de Mário Nogueira... O resto, num caso e noutro, perde-se no meio do bruaá político para que as duas classes naquelas circunstâncias diferentes se viram arrastadas, em processos que nada as favoreceram aos olhos da opinião pública…
Talvez já o fosse e só agora o resto da sociedade se aperceba dela assim, mas a verdade é que, ao dar a voz dominante aos defensores empenhados da mediocridade satisfeita em vigor, a classe dos professores proletarizou-se no mau sentido. Tanto é assim, que me surpreendi a pensar que, não fossem os comunistas portugueses tão conservadores e faria todo o sentido que, para o Século XXI, eles podiam actualizar o seu símbolo, juntando à foice, ao martelo (um e outro já em desuso) e à estrela, a esferográfica BIC…

27 julho 2009

AS NOVAS TECNOLOGIAS E OS NOVOS CONFLITOS ESTRATÉGICOS

Enquanto José Sócrates continua a cansar-nos mais o seu Magalhães, no PSD parece que também há quem aposte em novas tecnologias para responder aos novos desafios de campanha. Até se pode especular que, com o tiroteio e abate do Zeppelin ontem no Chão da Lagoa, haverá quem diga que se inaugurou uma nova dimensão estratégica na política portuguesa (ou apenas madeirense?): o conflito político nos ares...
Recorde-se que, embora tradicionalmente terrestres, já se haviam registado diversas operações políticas de cariz naval, algumas famosas como o mergulho no Tejo do então candidato municipal Marcelo Rebelo de Sousa. Contudo, ao contrário do que aconteceu ontem sobre a Madeira, não há registo de que no PS se tenham lembrado(*) de mandar para a água um cardume de piranhas para atacar as partes tenras do nadador…
(*) Possivelmente, foi antes de José Lello

A HISTÓRIA DE LENINEGRADO EM CONTINUAÇÃO

(Este poste é a resposta a um pedido desta caixa de comentários)
Considerado o seu valor simbólico como cidade-mártir e resistente por 900 dias às investidas do nazismo, imediatamente depois do fim da Segunda Guerra Mundial um conjunto impressionante de recursos foi afecto à reconstrução de Leninegrado. Uma das realizações mais significativas foi a abertura de Museu evocativo do Cerco a que a cidade estivera sujeita.

Quanto à equipa dirigente que havia dirigido Leninegrado de uma forma forçosamente autónoma durante quase três anos (1941-44), Estaline, desconfiado como sempre, chamara-a, a pretexto do seu sucesso, para Moscovo, para junto de si. Zhdanov era considerado em 1946 como uma das principais figuras secundárias do estado soviético logo a seguir a Estaline.
Kuznetsov viera de Leninegrado com Zhdanov e substituíra Beria à frente do KGB. O economista Voznesensky tornara-se a vedeta em ascensão nos órgãos de planificação da reconstrução económica da União Soviética no pós-guerra. Enquanto isso, o prestígio de Zhdanov era usado para dar consistência a uma nova doutrina para as artes, condenando os excessivos formalismos burgueses.

Toda essa ascensão do clã de Leninegrado veio a desmoronar-se em 1948, minada pelos rivais de Zhdanov, como Malenkov e Beria, que não deixaram de intrigar contra ele junto de Estaline. Na Primavera desse ano, o filho de Zhdanov, Yuri foi publicamente criticado por graves erros ideológicos. Mas não era difícil descobrir quem se pretendia atingir com aquelas críticas…
Já em plena fase descendente, em Agosto de 1948, Zhdanov morreu na sequência de um enfarte cardíaco. Mas, como consta do refrão da Balada da Rita de Sérgio Godinho(*), esse foi o que acabou de maca, porque os outros – Kuznetsov, Voznesensky, Popkov, Lazutin, Rodionov – foram os que acabaram ainda mais deitados(**), o coveiro que o diga

Nos finais de 1950 a organização local do Partido Comunista da União Soviética em Leninegrado fora devidamente purgada e cerca de 200 militantes destacados haviam sido presos ou exilados. Em paralelo, talvez para que as pessoas usufruíssem de ainda mais amplas liberdades democráticas, o Museu evocativo do Cerco (abaixo) foi encerrado. Só veio a ser reaberto 40 anos depois…
(*)
Andei com homens de faca, põe-te em guarda
Vivi com homens safados, põe-te em guarda
Morei com homens de briga, põe-te em guarda
Uns acabaram de maca
E outros ´inda mais deitados
O coveiro que o diga...
(**) - Mortos a tiro, neste caso fuzilados.

26 julho 2009

O MALHEIRO NEM TOMA BANHO…


Vale a pena ouvir este delicioso trecho com os comentários genuínos (não censurados) da equipa de reportagem da SIC sobre aquilo que se estava então a passar no relvado do estádio da Luz. É nestes episódios que se percebem as vantagens de haver a circulação de informação propiciada pela internet e, mesmo que os indignáveis se indignem com os excessos daquela linguagem, há que recordá-los que, se o Malheiro não toma banho, já há quase cem anos havia quem acusasse, com grande gáudio, o Dantas de cheirar mal da boca...

Adenda de 27 de Julho: É recorrente mas não deixa de me maravilhar continuamente a reviravolta de comportamento que qualquer órgão de informação regista quando é ele que passa a ser o objecto da notícia. Neste caso, a SIC que tem, orgulhosamente, dezenas, senão mesmo mais de uma centena, de vídeos seus a vogar pelo YouTube, desencadeou uma sanha persecutória para retirar de lá precisamente o que inicia este poste. Para além das razões oficiais invocadas, não sei se as verdadeiras razões para o fazer serão o tamanho da língua de Jorge Baptista, o odor corporal de João Malheiro ou o espectáculo para imbecis que decorre no centro do relvado.

25 julho 2009

UMA HISTÓRIA DENTRO DE UMA GRANDE HISTÓRIA COM VÁRIAS PEQUENAS HISTÓRIAS LÁ DENTRO

Ainda a propósito da enorme epopeia que foi a vitória dos soviéticos contra os alemães na Frente Leste durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu-me a oportunidade de aqui contar, naturalmente de uma forma muito reduzida, a história do Cerco de Leninegrado, um cerco a que os alemães submeteram deliberadamente a cidade durante quase 900 dias (mapa abaixo), com a intenção confessa de a vergar pela fome, nunca de a capturar.
A História do Cerco de Leninegrado é uma história que, para efeitos de propaganda, teria um conteúdo tão ou ainda mais épico quanto a muito mais conhecida história da Batalha de Estalinegrado, tanto mais que incluiria todos aqueles pequenos episódios de heroísmo do cidadão comum(*), ao contrário do puro embate militar que ocorreu em Estalinegrado, cidade de onde a população civil fora previamente evacuada.
Mas, por se tratar de Leninegrado, a grande rival de Moscovo, há muitas partes da história do seu cerco que precisaram de ser retocadas. Leninegrado, então chamada Petrogrado, é que fora o local da Revolução de Outubro de 1917 que levara os bolcheviques ao poder. Mas estes decidiram transferir a capital da União para Moscovo em 1918 e começaram a partir daí a pagar o preço dessa decisão com a antipatia dos seus cidadãos.
A partir da década de 1920, a mais cosmopolita, desenvolvida, sofisticada e rebaptizada Leninegrado (1924) assumiu-se como uma espécie de sede da oposição ao poder central (tanto quanto se pode ser oposição com tanta democracia e liberdade…). A cidade era a base de poder de Grigori Zinoviev (1883-1936, acima), um dos rivais de Estaline para a sucessão de Lenine. Zinoviev veio a ser substituído por Sergei Kirov (1886-1934, abaixo).
Kirov foi assassinado em circunstâncias misteriosas em 1934, sendo o acontecimento o detonador das célebres purgas que devastaram o aparelho do Partido Comunista durante os cinco anos seguintes. Alega-se que Estaline estaria implicado no assassinato de Kirov em quem ele veria um potencial rival(**). O seu sucessor a dirigir Leninegrado, Andrei Zhdanov (1896-1948, abaixo), pertencia já à nova geração bolchevique, fiel à Estaline.
Se o lugar de Zhdanov nunca pareceu invejável, tornou-se ainda menos em Setembro de 1941, quando a cidade se viu cercada pelos exércitos alemães (abaixo), dispostos a levar os seu habitantes à inanição. Como estava a acontecer por toda a União Soviética a falta de preparação das autoridades para as contingências da Guerra revelou-se: as reservas alimentares da cidade, concentradas todas num só local, foram o primeiro alvo da aviação alemã
Mas, apesar de cercada, Leninegrado não estava isolada do resto da União Soviética e podia ser reabastecida através de um complicado e acidentado circuito logístico que atravessava o Lago Ladoga, cujas costas ainda eram parcialmente controladas pelos soviéticos (mapa abaixo). Embora as prioridades logísticas fossem naturalmente as militares, o grande problema da cidade desde o princípio foi o abastecimento alimentar.
No primeiro Inverno do cerco, o de 1941-42, o racionamento para cada habitante não qualificado de Leninegrado – dependentes e trabalhadores não fabris – chegou a baixar para os 125 gramas de pão diários. Enquanto isso, o circuito logístico pelo Lago Ladoga (que entretanto gelara) passou a ser feito em camiões (abaixo). Mesmo assim, tomando em atenção as prioridades militares, o volume de tráfego continuava a ser insuficiente...
Na cidade cercada, tanto a morte como os mortos, a maioria dos quais devido à inanição, tornaram-se uma fatalidade e uma banalidade (abaixo). Com aquele seu particular gosto pelas estatísticas as autoridades soviéticas registaram 96.694 mortes no mês de Janeiro e 96.072 no de Fevereiro de 1942. Mas, com a sociedade abeirando-se de um colapso, certamente que nem todos os óbitos eram devidamente reportados.
Algo que afectou perniciosamente a moral dos cidadãos foi a percepção de haver um tratamento injustamente preferencial dado aos quadros do Partido ou da Administração ou aos membros dos serviços de segurança (KGB), àquilo que várias décadas mais tarde veio a ser designado pelo nome colectivo de Nomenklatura… Mas refira-se que esta censura popular nunca incidiu sobre os militares, mais bem abastecidos que a população.
O cerco veio a ser levantado a 27 de Janeiro de 1944 tendo durado precisamente 872 dias. Contudo, a situação alimentar da cidade, mercê de um aperfeiçoamento contínuo dos circuitos logísticos e da produção própria de alimentos nunca mais voltou a ser tão desesperada como no primeiro Inverno. Mas dentro desta história com um final, apesar de tudo, feliz, vale a pena contar ainda outra, menor, que começa em Dezembro de 1941.
Em 24 de Dezembro foram descobertos vários panfletos contestatários escritos à mão numa das estações ferroviárias de Leninegrado. Quem os escrevera intitulava-se O Rebelde: Cidadãos abaixo um regime que nos deixa a morrer à fome. Estamos a ser roubados por canalhas que nos enganam, que guardam a comida e nos deixam passar fome. Devemos agir. Exijamos mais pão às autoridades distritais. Abaixo estes líderes!
No seguimento do incidente o KGB colocou a estação sob vigilância e começou a patrulhar os arredores. Entretanto, a escrita de 18.000 ferroviários foi comparada com a dos panfletos. Não se encontrou nada. Dali a nove meses uma carta anónima endereçada a Zhdanov queixando-se da distribuição de comida foi interceptada. A letra era a do Rebelde. Da identificação das especificidades do envelope resultou que mais 1.023 autores de cartas e suas famílias fossem interrogadas pelo KGB. Não encontraram o Rebelde.
O Rebelde continuou mandando cartas e o KGB investigando pistas que podiam levar a ele: foi a escrita de 13.000 habitantes de dois distritos da cidade, foram 27.860 registos militares, foi a escrita de 5.732 empregados de algumas fábricas seleccionadas, até que, em 12 de Dezembro de 1943, a mês e meio do fim do cerco, chegaram a um operário metalúrgico de 50 anos chamado Sergei Luzhkov que, confrontado, confessou ser o Rebelde. Agira sozinho.
Como escreveria o António Vilarigues: Pensem nisto. Constate-se a dimensão dos recursos que, numa cidade sitiada e esfomeada, foram dedicados à investigação das actividades de alguém cuja actividade sediciosa não passava de escrever panfletos contestatários e mandar cartas insolentes aos responsáveis políticos. Não concebo explicações entre o filosófico e o rebuscado nem jogos de semântica para que aquilo se assemelhe sequer a democracia ou a liberdade...
(*) Que os britânicos usaram com os bombardeamentos (a blitz) das suas cidades, por exemplo.
(**) Nunca se encontraram provas que suportassem essa alegação. No entanto, existem-nas a comprovar o incómodo que a popularidade de Kirov causava em Estaline.

24 julho 2009

TODOS OS FACTOS HISTÓRICOS RELEVANTES A QUE TEMOS DIREITO

Sabe-se que a edição on-line do Público não disponibiliza o acesso aos artigos de opinião, a não ser aos assinantes. Contudo, como o autor do artigo a que me quero referir (António Vilarigues) é também autor do blogue O Castendo, talvez haja a oportunidade de ler naquele o seu artigo completo. Merece. Intitula-se O espectro continua a andar por aí e creio que pretende ser também uma recordação oportuna de alguns factos históricos. Os do período da ascensão dos totalitarismos nos anos trinta e da Segunda Guerra Mundial, vistos evidentemente da perspectiva de um comunista.
É uma descrição da época tão natural quanto os jardins de Versailles (acima) se parecem com a natureza. Há os factos úteis e os outros, os que se podam. Por exemplo, no antetítulo do artigo pode ler-se que foram os comunistas que tiveram o triste privilégio de inaugurar os campos de concentração hitlerianos. Verdade. Esquecido ficará o facto de, por essa mesma altura, foram outros comunistas, purgados por camaradas seus, que tiveram o triste privilégio de inaugurar muitos campos de concentração estalinistas. Veio-se até a descobrir que houve muito mais comunistas nestes últimos. Ironias… Assim como os nazis apelavam no cartaz acima para uma cruzada anti-bolchevique com uma linguagem reminiscente à da eucaristia cristã (eles dão o seu sangue) também do lado oposto e numa certa simetria, António Vilarigues parece não conseguir resistir à metáfora do sangue na conclusão do seu artigo: Não fosse o sangue derramado pelos comunistas e seus aliados na luta pela liberdade e pela democracia e o mundo tal como o conhecemos não existiria. E remata: Pensem nisto. Eu procuro não só pensar mas nunca me esquecer que os comunistas nunca lutaram pela liberdade e pela democracia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos lutaram contra os alemães e contra o projecto totalitário de Adolf Hitler mas recordemo-nos que este último não lhes deixou qualquer opção quando os atacou a 22 de Junho de 1941. Aliás, se algo podemos concluir da vontade da liderança comunista soviética protagonizada por Stalin, a intenção até aí teria sido a de não confrontar os nazis e a expansão germânica, como se percebe pela assinatura do famoso Pacto Germano-Soviético (acima), um outro facto histórico que é cuidadosamente podado do jardim das narrativas históricas comunistas.
Um outro aspecto distinto do das ideologias são as questões técnicas e militares que estão associadas à Segunda Guerra Mundial. Ao facto da Frente Leste ter sido de longe a Frente de combate mais importante daquele conflito. Ao facto do Exército Vermelho ter aguentado a ampla maioria do potencial combativo dos alemães durante a maior parte do mesmo. Aos sofrimentos impares de muitos dos povos da União Soviética. Agora considerar essa epopeia, a Grande Guerra Patriótica como é designada, como uma luta pela liberdade e pela democracia parece-me bem mais do que um excesso de semântica…
Os exemplos da Hungria em 1956, da Checoslováquia em 1968 (acima) ou da Polónia em 1981 mostraram-nos o real significado das mais amplas liberdades democráticas. Dizia-se dos aristocratas reaccionários que regressaram a França depois da Restauração de Luís XVIII em 1814, que não haviam esquecido nada do que haviam aprendido até 1789 e não haviam aprendido nada depois daí. Um texto como este de António Vilarigues deixou-me, como ele nos queria, a pensar: tal como os aristocratas, especulo se ele não terá esquecido nada do que aconteceu até 1989 e não terá aprendido nada a partir daí…

DOS BENEFÍCIOS E MALEFÍCIOS DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA

Os Monty Phyton (acima) são originários da nata intelectual académica britânica: dois deles formaram-se em Oxford (Michael Palin e Terry Jones, sentados) e os outros três em Cambridge (Eric Idle, John Cleese e Graham Chapman, de pé). Mas não é linear que eles considerem que essas origens os tenham ajudado na sua carreira. Segundo uma citação atribuída a Idle (à esquerda), este nunca havia descoberto as vantagens de uma educação clássica como aquela que é fornecida por qualquer daquelas duas prestigiadas universidades até à popularização do Trivial Pursuit (abaixo) no final dos anos 80…
Embora o Trivial Pursuit seja um jogo de um potencial suficiente para que um poste lhe seja inteiramente dedicado (a ele voltarei no futuro...), o que agora gostaria de transmitir é minha sensação de êxtase que será idêntica à que imagino terá assolado Eric Idle quando ouviu as perguntas triviais do jogo. E a causa próxima para isso foi uma notícia de jornal, saída em vários jornais diários, que justifica semestres inteiros de Gestão Financeira, ao recorrer, por causa do conteúdo de um Relatório do Tribunal de Contas, a conceitos tão sofisticados quanto o da Taxa Interna de Rentabilidade (TIR)...
Daqueles conhecimentos académicos parecidos com os que Eric Idle só deu uso ao fim de muito tempo, creio que a TIR era a taxa que igualava o Valor Actualizado Líquido (VAL) de um projecto a zero, e que ela só se podia calcular por aproximações dado que a fórmula de cálculo do VAL (acima) é um polinómio de grau N sendo esse N o número de anos considerados para a avaliação do projecto. Fico é com dúvidas que a Universidade onde aprendi todas essas coisas complicadas (abaixo) possa ter o mesmo prestígio e classicismo que a de Cambridge outrora deu a Eric Idle…
E porquê? Porque não consegui perceber as explicações contidas em algumas das notícias... Umas remetem para lucros de exercícios passados, quando a TIR se aplica à avaliação dos projectos para o futuro e outras mencionam uma coisa chamada Taxa Interna de rentabilidade accionista que eu não conheço. O que vale, é que estando o tal Relatório associado a mais um dos bons negócios da Mota & Engil com o Estado, sempre posso disfarçar com uma bonita citação clássica, parafraseando Fernando Pessoa: E mais do que isto, é Jorge Coelho, que não percebia nada de finanças, nem consta que tivesse biblioteca…
…e que, como o Jesus Cristo dos versos originais, também tem a reputação de fazer milagres dispensando a educação clássica.

ENA! E?...

Hora a hora, a SIC Notícias (e, imagino, as suas concorrentes noticiosas) informam-me repetidamente que Oliveira e Costa já está em casa com uma daquelas pulseiras. Começou a época da palhaçada noticiosa...