30 junho 2009

A COMPOSIÇÃO DA PANELA DE MISTURA NORTE-AMERICANA

A simples expressão panela de mistura, em português, não terá grande impacto para quem a ouvir, sem lhe prestar maior atenção, mas a sua tradução para inglês (melting pot) tem-no, para quem já a ouviu. Trata-se de um ícone da formação dos Estados Unidos, que estabelece que terá sido a contribuição plural (isto até parece um slogan do Louçã!...) das várias componentes étnicas da imigração e dos povos originais da América do Norte que se se fundiram para criar a cultura norte-americana.
Assim tão clara e idilicamente definida na teoria, só muito raramente se encontram estudos ou estimativas quantitativas de qual seria a proporção das contribuições de cada uma das etnias para o resultado final da população norte-americana actual. É o caso (raro) do gráfico acima, cujo original pertence ao Statiscal Abstract of the United States, publicado no ano do censo de 1980, e onde aparecem dados que, se analisados seriamente do ponto de vista demográfico, não podem fazer qualquer sentido (1).
Como é cada vez mais frequente que um norte-americano tenha ascendentes de várias proveniências e como os resultados da classificação resultaram de questionários, onde os interrogados indicaram a sua ascendência, a distribuição tendeu a inflacionar as etnias com mais valia social (britânica ou irlandesa ou alemã) em detrimento das que são subvalorizados (a africana, a índia nativa ou a mexicana). Não fosse ela a dizê-lo, por exemplo, e ninguém adivinharia que Kim Bassinger (acima) tinha uma avó Cherokee
Mas foi aquele censo de 1980 nos Estados Unidos o primeiro a destapar a tampa de uma outra panela, ao inserir pela primeira vez a questão de saber se o inquirido era ou possuía ascendência hispânica ou latina. O resultado, ao atingir os 6,5% da população, foi uma surpresa. Afinal, os casos de estrelas de cinema que preferiram anglicizar os seus nomes como Rita Hayworth (acima, chamava-se Margarita Cansino) ou como Martin Sheen (o seu verdadeiro nome é Ramón Estévez) eram apenas a ponta visível de um enorme iceberg.
Progressivamente, a partir daquele primeiro recenseamento de 1980, os norte-americanos de ascendência hispânica, que até têm ascendências diversas, sendo as mais numerosas a mexicana, a porto-riquenha e a cubana, começaram a assumir essa sua condição, e actualmente, graças a isso, ao crescimento demográfico maior que a média e à imigração constituem já cerca de 15% da população dos Estados Unidos (45 milhões). A tal panela de mistura, pelo menos no que diz respeito ao idioma e à cultura já não é única…
A seguir a escrever Choque de Civilizações (1996) sobre a ordem mundial, Samuel P. Huntington voltou-se para o seu próprio país e escreveu Quem Somos Nós? (2004), precisamente a respeito do impacto do peso crescente dos hispânicos na evolução da identidade nacional norte-americana. Apesar do subtítulo O Grande Debate da América as questões que o livro levanta parecem ser por demais incómodas para fazer dele o sucesso editorial que foi o seu antecessor. Já se passaram cinco anos e ainda não houve Grande Debate
… a não ser que se chame isso à publicidade ao facto de que Obama ter nomeado a primeira hispânica para o cargo de Juíza do Supremo Tribunal de Justiça. Nesse mundo de espectáculo e de faz-de-conta parece que tudo continua como dantes, como podemos ver numa série como CSI Miami, uma cidade que continha já em 2000 uma ampla maioria (⅔ ) de população de origem hispânica, mas onde o tenente Horatio Caine (David Caruso) consegue viver todas as suas aventuras, arranhando muito de quando em vez o idioma castelhano(2)

(1) Como a conclusão, que se pode extrair daquele gráfico, que em 1980 haveria nos Estados Unidos 40 milhões de pessoas de ascendência predominantemente irlandesa contra apenas 8 milhões de ascendência predominantemente mexicana.
(2) É irónico que a banda sonora de introdução da série seja uma composição dos The Who intitulada Won´t Get Fooled Again (Não serei novamente enganado). No aspecto sociológico da Miami que ali é retratada, pelo que ficou descrito acima, o espectador é repetidamente enganado a cada episódio que passa.

29 junho 2009

POSAR PARA A FOTOGRAFIA

A cerimónia que teve lugar em 13 de Setembro de 1993 em frente à Casa Branca em Washington ficou perpetuada para o futuro pela fotografia imediatamente abaixo, onde se vê o Primeiro-Ministro israelita à esquerda, Itzhak Rabin (1922-1995) a cumprimentar o Presidente da OLP (1), Yasser Arafat (1929-2004), à direita, sob o abraço virtual de mediador de Bill Clinton (1946- ), o Presidente dos Estados Unidos.
Contudo, a imagem teria sido muito mais simbólica e genuína se a fotografia escolhida para assinalar aquela cerimónia tivesse sido substituída pela que aparece abaixo, onde é evidente, através da leitura da linguagem corporal, a dimensão do cepticismo de Ytzhak Rabin quanto à concretização na prática dos Acordos de Oslo cuja assinatura se estava então a formalizar naquele momento...
As convicções profundas de Rabin tornam-se ainda mais evidentes neste breve vídeo da cerimónia que dura apenas uns 15 segundos, onde o Primeiro-Ministro parece dissociar-se fisicamente do cumprimento que é depois trocado entre Yasser Arafat e o Ministro dos Negócios Estrangeiros israelita Shimon Peres (1923- ), enquanto parece dizer qualquer coisa a advertir este último…
Para os mais distraídos quanto à realidade internacional, refira-se que a História mais do que justificou o cepticismo então demonstrado por Itzhak Rabin. É verdade que Bill Clinton teve naquela tarde o seu grande momento televisivo como Mediador dos conflitos internacionais, mas passados quase 16 anos sobre a cerimónia tudo parece continuar na mesma no Médio Oriente.

28 junho 2009

ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES – 1

Ao invés do título do famoso livro de Samuel P. Huntington, o vídeo acima é uma verdadeira associação de civilizações, onde a Orquestra Sinfónica Nacional da China, dirigida por um maestro britânico (Daniel Harding), interpreta uma famosa peça musical inspirada em melodias do folclore espanhol (Capricho Espanhol), que foi composta em 1887 por um compositor russo (Nikolai Rimsky-Korsakov).

27 junho 2009

O IMPÉRIO COLONIAL DINAMARQUÊS

Talvez por causa da correcção política que se costuma associar aos povos escandinavos, o povo colonizador mais esquecido de todos os que a Europa conta será, com muita probabilidade, o dinamarquês. A verdade é que, ao longo da sua História, a Dinamarca chegou a possuir colónias em quatro continentes (Europa, África, Ásia e América) e ainda hoje a Gronelândia e as Ilhas Faroe, embora gozando de uma ampla autonomia interna, são dependências da Dinamarca.
Como acontece também com as duas regiões autónomas portuguesas no Atlântico, Açores e Madeira, as Ilhas Faroe e a Gronelândia foram, conjuntamente com a Islândia, as primeiras regiões de colonização, ainda durante a Idade Média, e também as que permaneceram ligadas à metrópole depois do fim do Império. Contudo, a comparação não é linear, porque a colonização nas terras do Norte do Atlântico foi realizada também por noruegueses, escoceses e irlandeses.
As relações entre metrópole e dependências não têm assim as características de proximidade e, sobretudo, de exclusividade, como aquelas que vigoram entre Portugal, a Madeira e os Açores. Ainda recentemente, a Rainha da Dinamarca, quando em visita à Gronelândia, apareceu vestida com o fato tradicional daquela região (acima). Apesar do teor dos discursos de Alberto João Jardim, ainda não parece necessário que o casal Cavaco Silva faça o mesmo com o trajo madeirense…
Mas os dinamarqueses foram muito mais longe do que o Atlântico. O local mais distante onde se instalaram foi a Índia, onde fundaram uma feitoria em 1620 em Tranquebar, na Costa do Coromandel, no actual estado indiano de Tamil Nadu. Em 1675 fundaram uma outra no estado de Bengala, próxima de Calcutá. Em 1755 reivindicaram as insalubres Ilhas Nicobar, no Golfo de Bengala. Em 1845, o conjunto foi vendido aos britânicos, já hegemónicos no subcontinente.
Outro dos locais em que os dinamarqueses se instalaram foram as costas do Golfo da Guiné, nas paragens correspondentes ao Gana actual, onde os dinamarqueses conquistaram e reforçaram, ou edificaram de raiz, vários fortes e feitorias desde 1658 até se retirarem da região em 1850. O propósito das feitorias era, principalmente, o comércio de escravos para as Américas e, com a abolição da escravatura e a extinção do tráfico, os dinamarqueses venderam-nas aos britânicos.
Nas Caraíbas, os dinamarqueses ocuparam em 1673 algumas das Ilhas Virgens que ficaram a ser conhecidas pelas Ilhas Virgens Dinamarquesas. As ilhas eram o destino principal dos escravos que eram comprados no Golfo da Guiné, para trabalharem nas plantações de açúcar. A abolição da escravatura (1848) tornou-as economicamente desinteressantes. Também foram vendidas em 1917 mas, sinal dos tempos, os compradores dessa vez foram os Estados Unidos (*).
Quanto às possessões europeias, em 1874 a Dinamarca concedeu a autonomia à Islândia e em 1918, através da Assinatura de um Acto de União, a Islândia ascendeu à soberania plena em que compartilhava o monarca com a Dinamarca. Ao tornar-se uma República em 1944, a Islândia rompeu os últimos vínculos que a ligavam à Dinamarca. Depois da Guerra, as autonomias concedidas às Ilhas Faroe e à Gronelândia parecem encaminhá-las num percurso semelhante.

(*) Actualmente são conhecidas pelas Ilhas Virgens americanas para as distinguir das vizinhas Ilhas Virgens britânicas.

26 junho 2009

OS REMANESCENTES DO CANADÁ FRANCÊS

Entre as várias possessões que a França continua a ter espalhadas pelo Mundo, sobreviventes do frenesim descolonizador da segunda metade do Século XX que já terá passado de moda, conta-se um pequeno arquipélago na América do Norte, situado ao largo da Terra Nova, denominado Saint Pierre e Miquelon (abaixo).
O arquipélago tem uma área total de 242 km², e é formado primordialmente por três grandes ilhas, Saint Pierre (26 km²), Miquelon (115 km²) e Langlade (91 km²), com a curiosidade destas duas últimas estarem ligadas desde o Século XVIII por um cordão arenoso denominado La Dune. A população há muito que estabilizou em volta dos 6.000 habitantes (*).
O descobridor das ilhas foi o português José Alvares Fagundes, que as baptizou em 21 de Outubro de 1520, com uma religiosidade excessiva e uma certa falta de imaginação, de Ilhas das Onze Mil Virgens, não porque julgasse que as lá houvesse (as ilhas eram originalmente desabitadas) mas porque era a festa religiosa que se celebrava nesse dia.
Mais tarde, em 1536, o navegador francês Jacques Cartier tê-las-á rebaptizado e reivindicado a sua posse para a França, mas foi só em 1604 que se criou a primeira povoação permanente. O clima não ajuda. Apesar dos portos não gelarem no Inverno é corrente atingirem-se temperaturas da ordem dos 15 a 20º C negativos.
A população é de origem europeia, uma mistura de ancestrais das regiões da Normandia, da Bretanha e do País Basco, uma ascendência que é reconhecida na bandeira local (abaixo). E, para quase todos os outros efeitos que não os políticos, as ilhas fazem parte do Canadá, cujas costas (as da Terranova) estão situadas a uns escassos 25 km.
Quando do reconhecimento da conquista do enorme Canadá francês pelos britânicos em 1763 (Tratado de Paris), as ilhas regressaram paradoxalmente à posse da França, que as havia cedido anteriormente ao Reino Unido em 1713, com o Tratado de Utrecht. Perdidas as ambições continentais, as ilhas tornaram-se o entreposto da França na região da pesca do bacalhau.
A importância das ilhas permanece sendo fundamentalmente essa. Na Guerra das Pescas, tem havido vários diferendos – o último foi resolvido em 1992 – entre o Canadá e a França quanto aos direitos de pesca naquelas águas que o primeiro quer naturalmente hegemonizar e que a segunda contesta invocando os direitos das águas territoriais das suas ilhas.

(*) Em 1887 tinha 5.900 habitantes, em 1999 eram 6.300. Actualmente são 6.100.

25 junho 2009

UMA QUESTÃO DE TERMINOLOGIA

A página das notícias de sociedade costuma ser a mais estúpida de todo o jornal. E Deus sabe como os jornais costumam publicar notícias estúpidas… A de hoje do Público não desmerece essa tradição ao dar o devido destaque a um facto crucial. A notícia intitula-se: Sarah Jessica Parker voltou a ser mãe. Os pormenores do desenvolvimento da notícia são que – pormenor enternecedor... – nasceram duas gémeas mas que – pormenor menos enternecedor... – essas gémeas foram afinal paridas por uma mãe de aluguer…
Percebe-se perfeitamente como para Sarah Jessica Parker, que já vai nos 44 anos e precisa de mostrar um corpinho escorreito como instrumento de trabalho (acima), reviver a experiência de mais uma maternidade seria um enorme contratempo. Mas convém mostrar moderação na terminologia das notícias que o seu porta-voz fornece à imprensa. Pelo menos logo após o nascimento, o estatuto de mãe de um recém-nascido assentará primordialmente na mulher que o pôs no Mundo, ou não será assim?...

24 junho 2009

UMA RECAPITULAÇÃO DOS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS IRANIANAS

Foi só depois da a abolição da monarquia em 1979 (abolida num referendo realizado em 31 de Março de 1979) que se criou a posição de Presidente no Irão. Apesar de parecer uma figura grada do Estado Islâmico, legitimada pelo voto popular, os acontecimentos associados aos dois primeiros ocupantes do cargo mostraram que a realidade política iraniana e os seus intervenientes não ligavam nada a essas bagatelas do que, entre nós ocidentais, seria interpretado como a expressão da vontade popular.
Assim, o primeiro presidente iraniano foi (acima) Abol Hassan Bani-Sadr (n. 1933), eleito em 25 de Janeiro de 1980 com uma maioria esmagadora de 78,9% dos votos populares. Votos esses que, mesmo se tiverem sido legítimos, de nada lhe valeram quando entrou em choque com o o Ayatollah Khomeini (1902-1989), que era o verdadeiro líder do Irão: foi deposto pelo Parlamento iraniano (Majlis) em 21 de Junho de 1981 numa votação de 177 votos a favor contra 1... Bani-Sadr havia-se exilado em Paris e marcaram-se novas eleições.
A 24 de Julho de 1981, a maioria de votos populares que elegeram Mohammad Ali Rajai (acima, 1933-1981) foi ainda mais impressionante que a anterior: 88,1%. O mandato de Ali Rajai também foi encurtado por quem não se impressionava com tais manifestações de apoio popular, embora tivesse exprimido essa indiferença de uma maneira um pouco distinta da do Ayatollah Khomeini: foi através de uma pasta armadilhada com uma bomba que foi plantada na Sala de Reuniões presidencial, matando-o a 30 de Agosto de 1981…
Tornando-se uma profissão de desgaste rápido, impunha-se que o próximo presidente fosse eleito ainda com mais apoio popular. De facto, Ali Khamenei (acima, n. 1939), foi eleito em 2 de Outubro de 1981 com 96% dos votos! Uma quase unanimidade! Depois, as coisas acalmaram e Khamenei foi reeleito em 16 de Agosto de 1985 com apenas 85,6% dos votos. Datam destes tempos de acalmia, o período em que o actual candidato contestatário, Hussein Mousavi (a última fotografia do poste, n.1941) era Primeiro-Ministro.
Mousavi terá sido um dos sacrificados na transição que se verificou em 1989. Khamenei não se podia recandidatar e nas eleições presidenciais de 28 de Julho desse ano o vencedor foi Hashemi Rafsanjani (acima, n.1934) com uns imponentes 94,5% dos votos. Nas eleições seguintes, que tiveram lugar em 13 de Junho de 1993, foi a primeira vez que os resultados eleitorais assumiram leves contornos de disputa: Rafsanjani venceu-as com 63,2% dos votos versus um candidato conservador (Ahmad Tavakkoli) que atingiu os 24%!
A necessidade da apresentação de maiorias quase unânimes parece ter-se perdido depois das eleições de 1993 e nas de 1997 (a 3 de Julho), apesar de se tratar da eleição de um novo Presidente (a Constituição iraniana limita o número de mandatos consecutivos a dois) Mohammad Khatami (acima, n. 1943) foi eleito para o cargo apenas com 69,1% dos votos. Em contrapartida, a sua reeleição, que teve lugar em 8 de Junho de 2001, teve um resultado mais substantivo, vencendo com 78,3% dos votos.
As eleições presidenciais iranianas de Junho de 2005 foram as primeiras – e, até agora, as únicas – a mostrar alguma animação. Foi necessária uma segunda volta, porque os resultados da primeira, que teve lugar a 17 de Junho de 2005, produziram resultados muito cerrados, com cinco candidatos a pulverizarem a votação entre si: o vencedor, o ex-Presidente (1989-97) Rafsanjani recebeu 21,1% dos votos, enquanto os seus rivais receberam, respectivamente, 19,4%, 17,2%. 13,9% e 13,9% da votação.
De acordo com a Constituição, os dois candidatos mais votados passaram à segunda volta e nela, a 24 de Junho, foi o segundo candidato, Mahmoud Ahmadinejad (penúltima fotografia, n. 1956) a vencer, recebendo 61,7% da votação versus os 35,9% recebidos por Rafsanjani. Visto desta forma encadeada, percebe-se como as eleições de 2005 foram uma anomalia e como as expectativas que já se pudesse dar por adquirido que as eleições presidenciais iranianas de Junho de 2009 pudessem ser transparentes, foram claramente prematuras…

O PROFETA: LOUÇÃ 1956 –

Nem de propósito, pouco tempo depois de uma ambiciosa (e muito publicitada…) entrevista de Francisco Louçã ao Correio da Manhã em que ele assume a ambição de vir a ser primeiro-ministro de Portugal deu-se a coincidência da Amazon ter tido a delicadeza de me alertar que se preparava uma reedição, em versão condensada, da biografia de Trotsky de Isaac Deutscher que se intitula: O Profeta: Trotsky 1887 – 1940. Recorde-se que Lev Trotsky é uma fonte inspiradora e nunca renegada do pensamento do recém-assumido potencial primeiro-ministro de Portugal, facto que aconselhará uma leitura cuidadosa e interessada pelos seus eleitores das 1500 páginas que compõem a trilogia (abaixo).
Na trilogia de Deutscher, há uma primeira fase intitulada O Profeta Armado (1879-1921), que incluí os primeiros anos depois da Revolução Soviética, uma segunda que Deustsher baptizou por O Profeta Desarmado (1921-1929), quando em perda de poder dentro do partido para Estaline, e a final, a que deu o nome de O Profeta Banido (1929-1940), já da fase dos exílios de Trotsky. Quanto ao nosso profeta doméstico, apesar dos seus 52 anos, também já podemos desdobrar a sua vida nas mesmas três fases: a de O Profeta Radical (1973-1979), dos tempos da LCI, d`O Profeta Moderado (1979-1999), dos tempos do PSR e ultimamente d´O Profeta Dissimulado (1999- ) no Bloco de Esquerda...

23 junho 2009

QUE É QUE TEM O BARNABÉ QUE É DIFERENTE DOS OUTROS?...

Vieram profetas
Vieram Doutores
santos milagreiros, poetas, cantores
cada qual com um discurso diferente
p'ra curar a vida da gente
e a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente arribou [bis]
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

Vieram peritos
em habilidades
dizer que a fortuna cresce nas cidades
e que só ganha quem concorrer
e quem vai ser, quem vai ser
que vai ganhar, vai vencer?
E a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente ganhou [bis]
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

Vieram comerciantes
vender sabonetes
danças regionais, televisões, rabanetes
em suaves prestações mensais
e quem dá mais, quem dá mais? [bis]
E a gente parada
fez orelhas moucas
que com falas dessas
as esperanças são poucas
mas quando o Barnabé cá chegou
quem tinha ouvidos ouviu
quem tinha pernas dançou
Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?
A música da letra acima pode ser ouvida aqui no título nº1. Mas, como diria o próprio: - Não é essa a questão!... Como muito bem se assinala aqui, ali, e ainda acolá, amuou com um jornal, critica todos os outros que não escrevem e dizem aquilo que ele gosta e como ele gosta e quanto à coerência nem é bom falar... e contudo, como agente político objecto de notícia manipula a informação de uma maneira que exaspera a classe. Mas, fingindo não o ser, é, dos políticos, o que parece ter mais sucesso a pôr todos a falar de si... Que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?...

A SETE MESES DE DISTÂNCIA COM TRÊS MESES DE DIFERENÇA

Ao contrário dos profissionais que pululam pela blogosfera eu confesso não perceber nada de jornalismo. Mas lá que me intrigam certas hierarquias de importância que são atribuídas às notícias, ai isso intriga-me. Vejamos: em Novembro de 2008 concluiu-se o julgamento de Fátima Felgueiras, presidente da Câmara da autarquia homónima, com a condenação da autarca a três anos e três meses de pena suspensa. Foi uma notícia de arromba, de primeiras páginas de jornal.
Em Junho de 2009 concluiu-se o julgamento de Nuno Cardoso enquanto presidente da Câmara do Porto (que é a segunda autarquia mais importante do país…) com a sua condenação a três anos de pena suspensa. Alguém me explica porque é que um jornal de referência como o Público despacha hoje este assunto lá para a página 20? E no site da RTP até se arranja graciosamente um advogado de defesa para o condenado? Serão os três meses de diferença das duas penas (suspensas) que farão toda a diferença?...

OS VISIONÁRIOS ESTARÃO FORA DE MODA?

Nas histórias de Lucky Luke, embora haja um álbum da série propositadamente dedicado à conquista do Oeste pelo comboio (Carris na Pradaria de 1957), aquele que melhor representará, em minha opinião, a história da epopeia daquela conquista usando o pretexto de um gigantesco investimento público será o álbum Fio que Canta (acima, de 1977(*)), usando para esse efeito a construção do telégrafo que em Outubro de 1861 passou a ligar as duas costas dos Estados Unidos.
É para este último álbum que Goscinny criou a personagem de James Gamble, o engenheiro encarregado da obra, um optimista visionário (acima e abaixo). A propósito dele e mais deste recente manifesto dos 28 economistas, há que reconhecer que, ou os tempos andam muito mudados, ou as visões andam distorcidas, ou ainda pior, há falta delas, se a pessoa mais capaz de rebater o manifesto e mais parecida com James Gamble na actual realidade portuguesa for o Ministro Mário Jamé Lino
(*) – Dá-se também a coincidência destas duas histórias, separadas por vinte anos, serem precisamente a primeira e última colaboração como argumentista de René Goscinny para as histórias de Lucky Luke.

22 junho 2009

A ITÁLIA DE MUSSOLINI (1915-1945)

Se, da última vez que aqui tratei de um livro, tratava-se de um tema muito batido mas abordado de uma forma fascinante (o Mediterrâneo de 1935 a 1949), desta vez o tema do livro de que quero tratar é fascinante (a Itália fascista de 1915 a 1945) e a informação até lá está disponível, mas é o autor que transforma o livro num verdadeiro fiasco. Não se pode dizer que tenha sido iludido: o preço de venda de saldo (€ 9,80!) na FNAC e a ausência de qualquer apreciação à obra na Amazon britânica eram indícios de que não se estava perante uma obra-prima em potencial… De qualquer modo, através desta fonte ou doutra qualquer, convém que se conheça com um mínimo de substância a história do regime fascista antes de se mandarem bitaites acerca da Itália de Berlusconi mais os seus abusos de poder e a irrelevância política dos comportamentos imorais… Neste exemplo, a notícia que dá origem ao poste, o próprio poste e os comentários que se lhe seguem são um primor disso.

AS VÁRIAS MANEIRAS DE “COZINHAR” O MESMO PREGADO

Na prática existirão centenas, e de reputação um milhar, de maneiras de confeccionar bacalhau. Descobri que no Portugal moderno do engenheiro Sócrates (- deixem-me que vos diga com toda a sinceridade…), a matéria-prima piscícola por excelência se arrisca a deixar de ser o bacalhau para passar a ser o pregado. Uma fábrica de aquacultura desse peixe consegue ser-nos apresentada de bandeja, como se de duas se tratasse, quer no arranque do projecto em Outubro de 2007, quer na sua inauguração em Junho de 2009… Parece uma daquelas apresentações em cru (acima) e depois de confeccionado (abaixo). E normalmente quando me fazem disso num restaurante é sintoma que a conta vai ser a doer...

21 junho 2009

DIREITOS DE AUTOR

A questão dos direitos de autor na internet parece ser coisa dinâmica e controversa que até já foi causa para a eleição de um eurodeputado pela Suécia nestas últimas eleições europeias. Na parte que me afecta, por exemplo, já desisti de constituir arquivos compostos por clips do You Tube que apreciasse, sejam musicais ou outros. A verdade é que, passado um par de semanas, venho a descubrir que alguns dos clips já foram removidos por uma ou outra causa associada aos direitos de autor.
Agora, o meu entretenimento, em vez de tentar substituir constantemente os clips que haviam sido removidos, passou a ser apostar em quais serão os sobreviventes às purgas sucessivas, enquanto simultaneamente tento adivinhar o QI de alguns executivos responsáveis pela remoção dos outros do You Tube… É um jogo interessante: que interesses pretenderão eles defender quando decidem apagar os genéricos de velhas séries da televisão como Viver no Campo (Green Acres) ou Uma Mãe para Eddie (Courtship Of Eddie's Father)?!...

20 junho 2009

PSYCO CHICKEN

A galinha tende a ser considerada o animal mais estúpido da Criação. Equacionar a hipótese que um frango possa apresentar problemas mentais, como se sugere com o título desta música dos The Fools, parece um absurdo. Mas, por se tratar de um absurdo assumido, é que os autores devem ter decidido juntar à banda sonora a certa altura da canção o canto de um frango. Infelizmente, muito dos absurdos da vida real não dispõem de um aviso sonoro equivalente. Em face de exemplos recentes, em que tanto se cacareja de uma maneira, quanto doutra ou ainda doutra, como diria Baptista Bastos, também reputado por não bater muito bem da bola: - Achei que devia dizer isto

Can't seem to face up to the facts,
I'm tense and nervous and I can't relax,
This cruel insane man's job is getting me down,
A crazy chicken chasing me all over town

A psycho chicken
Better run run run run run run run away
Oooh oh oh oh aye aye ayee

I don't know just what to do,
He's got a crudge against Frank Berdo,
He's clucking a lot, but he's not saying anything,
I plucked him once! Why pluck him again?

A psycho chicken
Better run run run run run run run away
Oooh oh oh oh aye aye ayee

Cernel Sanders wants to judge his goose,
But psycho chicken still on the loose,

They caught him down in old hiyo,
They tied up his head and they put him in the oven,
They put him in a box right next to a road,
Put some plaster round his legs and someone took him home,
Ate him for lunch and it tasted real fine,
But the guy who ate him, he just lost his mind!

Psycho chicken
Better run run run run run run run away
Oooh oh oh oh
A psycho chicken

Better run run run run run run run away
Oooh oh oh aye aye aye aye aye aye ayeee.

19 junho 2009

TV NOSTALGIA – 40

A propósito de uma excelente apresentação que foi feita pelo Pedro Correia do quadro As Meninas de Velázquez, creio que o melhor cumprimento que lhe posso fazer é de o considerar uma espécie de discípulo na blogosfera de Edwin Mullins que foi o criador de uma excepcional série de televisão de divulgação da pintura que se intitulava Cem Grandes Quadros (One Hundred Great Paintings). Num período nunca superior a uns 15 minutos (para não aborrecer), uma obra semi-desconhecida de um autor secundário ou, se da autoria de um grande mestre, uma das suas obras menos conhecidas, era apresentada em toda a sua riqueza.
No único vídeo que consegui encontrar no You Tube sobre a série (mais acima), o quadro é Terraço do Café à Noite (acima) de Vincent Van Gogh a ser apresentado pelo pintor David Hockney e aparece legendado num idioma que desconfio ser hebreu… Para os que entenderem o inglês (ou para os que souberem hebreu…) é um excelente exemplo de um episódio daquela série. Devido à sua curta duração, a RTP usou a série durante anos a fio para preencher os buracos que surgissem inesperadamente na emissão: uma transmissão do exterior que terminasse mais cedo, por exemplo. Muitas vezes, ainda bem...
Mas se houve episódio de entre os 100 que ainda hoje me lembro por me ter deixado verdadeiramente impressionado foi o que tratou de uma pintura datada da época da China dos Song. Confesso que precisei de uma cábula para me lembrar que o rolo se chamava Tempo Límpido no Vale (Clear Weather in the Valley*), obra que aparece acima, mas aquele estilo monocromático e detalhado, onde o tema eram invariavelmente as paisagens e onde os pormenores confluíam para a formação de um ambiente, foi o início da minha relação de interesse com a China da Dinastia Song.
* Trata-se de um daqueles casos em que até faz sentido considerar o título original em inglês de um quadro que foi pintado na China, porque está há muito exposto num Museu norte-americano (Boston).

OS OVOS DA OMELETA COMUNICACIONAL

Hoje acordei com a TSF, o órgão de comunicação encarregue de marcar cada manhã a agenda informativa do governo para o dia, a emitir diversos trechos com as mais variadas declarações de Fernando Teixeira dos Santos que haviam sido extraídas do depoimento que ele ontem prestou à Comissão parlamentar sobre o BPN, na qualidade de antigo presidente da CMVM. Até alguns órgãos de informação que se situam do outro lado da barricada das simpatias por este governo, como é o caso do Público, aproveitaram algumas das frases de Teixeira dos Santos para títulos grandiosos.
Dificilmente podia haver um contraste maior no aproveitamento informativo posterior que foi feito a esta prestação de Teixeira dos Santos e à de Vítor Constâncio, que teve lugar na semana passada… O que parece confirmar que, também nestas coisas da comunicação política, é sempre preciso que haja pelo menos alguns ovos, para que se possam fazer as omeletas… E que, por mais excessivas que tenham sido algumas proclamações feitas a respeito da categoria de Vítor Constâncio, parece ser muito difícil descobrir os ovos que possam estar associados à sua conduta a respeito do assunto supracitado…