28 fevereiro 2009

ISTO É QUE VAI UMA CRISE…

A mim, que me orgulho de ter sido considerado pelo próprio mais pessoalmente reles do que ele pensava (veja-se o cabeçalho do blogue) e que raramente me disponho a comentar aqui aqueles acontecimentos políticos do quotidiano, só posso congratular os autores da decisão pela escolha de tão insigne pessoa para cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu:

Este país é um colosso...

Está tudo grosso! Está tudo grosso!

O MISTERIOSO PRESIDENTE WA

Noite dentro, a SIC Notícias transmitiu ontem um dos quatro episódios em que se desdobrou uma longa entrevista que o já então ex-presidente norte-americano Richard Nixon deu ao famoso entrevistador britânico David Frost em 1977. Quanto a Richard Nixon, creio que dispensa apresentação, quanto a David Frost, vale a pena dizer que a sua projecção mediática foi feita à custa de muitas cotoveladas aos colegas de profissão, incluindo mesmo os que faziam parte da sua equipa. Foi azar de Frost que entre os que ele aleijou nessa ascensão se contavam os membros dos Monty Python que lhe dedicaram depois um sketch onde o retratavam de uma forma particularmente maldosa (abaixo*)…
Mas, como se dizia no famoso separador de assuntos inventado precisamente pelos Monty Python (and now for something completely different**), o teor da parte da entrevista de Frost a Nixon que ontem estive a seguir dedicava-se a um assunto completamente diferente, à visita que Nixon havia realizado à China em 1972, às opiniões que ele formara dos contactos pessoais com os dirigentes chineses da época, Mao Zedong e Zhou Enlai, e às perspectivas que Nixon teria então de como seria evolução da China, sabendo-se que, à data da entrevista, se estava no ano imediatamente a seguir ao da morte daqueles dois dirigentes - ambos haviam morrido em 1976, Zhou em Janeiro e Mao em Setembro.
Durante essa parte da entrevista, diversas vezes Nixon fez referência a um misterioso presidente Wa – pelo menos era assim que o seu nome aparecia escrito nas legendas… Quem conheça a história recente da China certamente que não deve conhecer nenhum destacado líder chinês que se tivesse chamado Wa. Uma hipótese mais plausível é que o tradutor daquela entrevista percebesse imenso de fonética inglesa mas fosse completamente ignorante sobre a história moderna da China e tivesse aplicado as regras da primeira especialidade para escrever o primeiro nome daquele que se havia tornado o sucessor de Mao Zedong, de seu nome Hua Guofeng (acima, uma fotografia dos dois)…
A avaliação feita por Nixon sobre a situação chinesa da época serviu para me relembrar a extraordinária importância – que, por acaso, hoje está praticamente esquecida na historiografia oficial chinesa... – da pessoa de Hua Guofeng durante o quinquénio de transição entre a época dos extremismos do período final da vida de Mao (1966-1976), protagonizada sobretudo por aqueles que vieram depois a ser baptizados por Bando dos Quatro (Wang Hongwen, Yao Wenyuan , Zhang Chunqiao e a mulher de Mao, Jiang Quing), até à efectiva consolidação do poder nos princípios da década de 1980 por parte de Deng Xiaoping e dos seus aliados e protegidos, Hu Yaobang e Zhao Ziyang.
Curiosamente, fazendo uma análise do ponto de vista etário, era o reformador Deng Xiaoping (abaixo, nascido em 1904) que aparecia muito mais como uma continuação geracional da geração de Mao Zedong (nascido em 1893) e de Zhou Enlai (em 1898) do que os revolucionários do Bando dos Quatro (nascidos entre 1914 e 1933) ou mesmo do que a solução de continuidade e de compromisso então representada por Hua Guofeng (nascido em 1921). Em termos ideológicos, contudo, Deng viria a representar uma ruptura substancial com as concepções de organização económica que haviam prevalecido até então na China. Mas isso ainda era o futuro na altura em que David Frost entrevistou Nixon.
Mas, porque o auto-convencimento em excesso o pede, não consegui resistir a dar o devido destaque neste poste àquele episódio do misterioso presidente Wa... Para mais quando, conforme estamos habituados a ouvir àquele que tem sido recentemente elevado a um estatuto parecido com o de David Frost, mas à portuguesa (Mário Crespo, abaixo), isso acontece numa estação de televisão que se ufana da excelência dos seus conteúdos
* De notar especialmente o genérico final, onde a autoria é atribuída inteiramente a Timmy Williams com material adicional de dezenas de outras pessoas. David Frost era conhecido (criticado e desprezado) por plagiar descaradamente ideias alheias.
** E agora, para uma coisa completamente diferente.

27 fevereiro 2009

TSF – EN*

O noticiário das 7H30 da TSF de hoje começou com as declarações de ontem de Manuela Ferreira Leite criticando José Sócrates por preferir comparecer à sessão de encerramento do Congresso do seu Partido no Domingo do que à Cimeira Europeia informal que se irá realizar no mesmo dia. O noticiário das 8H00 repetiu as declarações de Manuela Ferreira Leite, mas já incluiu as de Augusto Santos Silva em reacção às críticas de Manuela Ferreira Leite. O das 8H30 já principiou pelas declarações de Santos Silva, que depois precisaram de ser enquadradas com as que haviam sido proferidas anteriormente por Manuela Ferreira Leite. E no das 9H00, num espaço de abertura ainda mais alargado para as declarações de Santos Silva, já se incluíam as suas apreciações à boutade de Ferreira Leite sobre os seis meses sem democracia, como se isso tivesse alguma coisa a ver com o assunto original…
Ao mesmo tempo, desmentindo na prática tudo o que Santos Silva estava a dizer sobre a importância do Congresso do PS para justificar a comparência de José Sócrates, a própria TSF, em notícia posterior de cada noticiário, elegia como assuntos potencialmente mais interessantes para o Congresso o eventual - ainda não confirmado - anúncio de quem será o cabeça de lista do PS para as eleições europeias e… a presença ou ausência de Manuel Alegre no dito Congresso. O que vale é que a tal Cimeira informal também é capaz de ser uma grande chachada… José Sócrates até pode ter razão e podia mandar que os seus assessores transmitissem isso de uma maneira elegante. Mas assim não... Na sua mais recente cruzada política, nem sempre José Pacheco Pereira tem tido razão quanto à parcialidade dos órgãos de informação. Neste caso concreto, nesta rádio em concreto, dou-lhe a razão. Toda.

* EN era abreviatura da Emissora Nacional, a emissora oficial do Estado Novo, cuja sigla sempre aparecia em lugar de destaque nas ocasiões em que os governantes se dirigiam ao país, conforme se confirma nas fotografias de Américo Thomaz e de Marcello Caetano acima inseridas.

26 fevereiro 2009

DOIS À FRENTE E DOIS ATRÁS

A forma como frequentemente se apresentam teses e se argumenta aqui pela blogosfera faz-me lembrar uma daquelas tradicionais anedotas de elefantes. P: Como é que quatro elefantes cabem dentro de um Mini? R: Vão dois à frente e dois atrás… Mas, mais do que uma simples anedota, suponho que esta até contém um daqueles importantes ensinamentos filosóficos: quanto as discussões são de cariz eminentemente teórico, pode dizer-se o que se quiser, porque é mais importante que os argumentos sejam formalmente escorreitos do que realisticamente práticos.
Os quatro elefantes são um caso obviamente absurdo mas já li imensas outras questões que foram lançadas em bases igualmente absurdas, embora não tão óbvias, e que tiveram auditório disposto a levá-las a sério. Desengane-se quem acreditar que consegue chamar à razão quem profere tais afirmações. A própria anedota filosófica dos 4 elefantes tinha uma continuação, que nos mostra como os disparates de argumentação teórica podem ser infindáveis. P: E se houver dificuldades para que os quatro elefantes caibam no Mini? R: Ajeitam-se, enrolando as trombas para dentro…

25 fevereiro 2009

A DEMOCRACIA E OS DESPORTOS NACIONAIS COREANOS

O tumulto é um verdadeiro desporto nacional da Coreia do Sul. Nos outros países as pessoas manifestam-se de preferência de forma ordeira, embora, por vezes, as coisas degenerem em incidentes. Agora, quando os sul-coreanos se reúnem por uma causa (e eles estão sempre a arranjar causas…), as expectativas são para que haja naturalmente molho. Na Coreia do Sul nem valerá a pena mandar a polícia tradicional acompanhar uma manifestação para a eventualidade de haver desacatos: vai logo a polícia de choque para poupar tempo… Mas, mesmo assim, há sempre quem compareça às manifestações para enrijecer

Na Nova Zelândia, o desporto nacional é o rugby. E diz-se que qualquer neozelandês pratica, já praticou ou praticará a modalidade. Também na Coreia do Sul qualquer sul-coreano anda, já andou ou virá a andar à trolha com a polícia de choque. Nos outros países o exercício da violência pela polícia acaba sempre por prevalecer mas uma manifestação sul-coreana é de interesse desportivo por causa da incerteza do resultado… Observe-se o vídeo abaixo, por exemplo, onde a polícia de choque avança a distribuir mas acaba por ser cercada, começa a enfardar para depois ter que retirar ignominiosamente…

Do outro lado da fronteira, no país irmão da Coreia do Norte, o carácter científico do marxismo-leninismo criou uma versão muito mais avançada daquele mesmo jogo, em que os descontentes que se quiserem manifestar também têm direito a participar num outro tipo de confrontação com a polícia, podendo ser seleccionados como alvos para a prática de tiro ao mesmo (veja-se abaixo*). Noutros casos, garante-se ao jogador uma longa estadia num complexo desportivo. Perante este inequívoco avanço do socialismo, nem se percebe como Bernardino Soares pôde alguma vez ter dúvidas quanto à natureza democrática do regime

* Mais a sério, refira-se que, em rigor, os dois sistemas penais das Coreias incluem a pena de morte, embora, como refere a Amnistia Internacional, a Coreia do Sul tenha adoptado uma moratória oficiosa à sua prática que já dura há mais de uma década (desde 1997). Além disso, são substancialmente diferentes num país e noutro o tipo de delitos que são passíveis de ser sancionados com a execução.

24 fevereiro 2009

MAO ZEDONG NA PROPAGANDA E NA INTIMIDADE

No seguimento do poste anterior, nunca é demais recordar como era esmagador na China o culto de personalidade à volta de Mao Zedong nos seus anos de poder (acima, o hino O Oriente é Vermelho). Vale a pena recordar aqui um dos episódios propagandísticos mais caricatos dos anos da Revolução Cultural, quando se noticiou que a 16 de Julho de 1966 Mao Zedong havia atravessado o Rio Yangtze a nado. O recado político associado àquele feito, usando aquela subtileza bem oriental, era que o presidente Mao, então com 73 anos, estava bem de saúde e recomendava-se... O efeito pode ser visto no vídeo abaixo:
Claro que alguns dos pormenores que acompanhavam a notícia não sobreviviam a um escrutínio independente. Segundo a notícia, Mao nadara rio abaixo por cerca de 15 km, tendo demorado 65 minutos a fazê-lo. Mesmo contando com a corrente do rio, houve quem tivesse feito contas e o feito teria transformado Mao Zedong (aos 73 anos…) num recordista mundial de natação de longa distância! Mas isso não interessava nada na aparente histeria colectiva que se terá formado à volta da proeza do presidente Mao. Aparentemente, toda uma nação de centenas de milhões se virou para os benefícios da prática da natação…

Apesar do frenesim pela natação por toda a China, não se seguiu qualquer chuva de recordes por parte dos nadadores chineses… Que isto nos fique de alerta quanto aos efeitos reais das acções de propaganda, no que diz respeito à alfabetização informática que será desencadeada em Portugal por causa do Magalhães… Do evento, ficou-nos uma bela fotografia de Mao (acima) em que ele usa, à laia de fato de banho, uma gigantesca fralda de bebé e onde ele bóia feito uma morsa, fazendo-nos lembrar fotografias parecidas do nosso estimado presidente Mário Soares por ocasião da sua Visita de Estado às Seychelles Despojados do seu pedestal político, olhar algumas fotografias dos ícones de outrora pode até tornar-se um passatempo divertido, como a fotografia acima de Mao com Lin Biao, onde impressiona ver a cor dos dentes de Mao cuja higiene pessoal, sabe-se agora, deixava bastante a desejar… Melhor que essa, será a fotografia abaixo, do encontro histórico de Mao com Nixon em Pequim em 1972, onde se podem observar uma espécie de penicos brancos junto às bases dos sofás (Nixon parece já ter mudado o seu para junto do sofá de Kissinger…) que não passam afinal de… escarradores. Para o que desse e viesse…

23 fevereiro 2009

O QUE É QUE ACONTECEU A LIN PIAO(*)?

Esta era a grande pergunta que se colocava a respeito da China no último trimestre de 1971. Não que a pergunta fosse para se interpretar literalmente, visto que se sabia que Lin Biao morrera quando o avião onde viajava se despenhara sobre a Mongólia, mas o que intrigava os sinólogos eram as circunstâncias que haviam conduzido a que a segunda personalidade da hierarquia chinesa, o herdeiro designado de Mao, tivesse tido aquele fim. De concreto havia apenas a propaganda oficial que, com a desfaçatez do costume, fizera uma inflexão de 180º quantos aos atributos do defunto.
Ao longo da sua longa carreira política Mao Zedong teve vários homens de confiança entre os militares como Zhu De (acima, com Mao) ou Peng Dehuai. Foram usados e descartados quando Mao considerou que o seu prestígio os podia tornar ameaçadores para si, mas as bases em que assentava a estrutura do poder supremo da República Popular da China não dispensava que houvesse sempre alguém da sua confiança a tutelar o Exército de Libertação Popular. Na década de 60 esse alguém era Lin Biao que, apesar da sua juventude (1907-71), também era um veterano respeitado da Longa Marcha.
Costuma atribuir-se a Lin Biao e ao Exército de Libertação Popular (acima) a ideia da criação do Livro Vermelho com as citações do presidente Mao Zedong que, quando brandidos pelos Guardas Vermelhos (abaixo), se tornaram no ex-libris da Revolução Cultural que abalou a China durante a segunda metade da década de 60. É uma fase da história da China repleta tanto de tragédias como de episódios cómicos pelos excessos: os revolucionários até propuseram que as cores dos semáforos fossem alteradas; o vermelho, como cor revolucionária, devia passar a ser a cor com que se avançava…
Num plano mais concreto da disputa pelo poder, no IX Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) que se realizou em Abril de 1969 assistiu-se à consagração de Lin Biao, que saiu do evento como Vice-Presidente do Partido, num destacado segundo lugar imediatamente a seguir a Mao Zedong e como seu herdeiro designado. Para mais, a importância do Exército de Libertação Popular reafirmara-se havia bem pouco (em Março de 1969), a pretexto de um incidente fronteiriço em que unidades suas se haviam envolvido em combates sérios com as unidades soviéticas do Exército Vermelho.
Mas o afastamento em Agosto de 1970 de Chen Boda, que havia sido até então um dos cinco membros do exclusivíssimo Comité Permanente do Politburo do PCC que havia sido eleito no Congresso do ano anterior (**), também mostrou quem detinha realmente o poder na China (Mao Zedong) e como a segurança de ocupar cargos do topo da hierarquia podia ser muito fluida… Mesmo assim, porque a luta política no seio do topo da hierarquia chinesa é sempre travada em surdina, foi com surpresa que se veio a saber em Setembro de 1971 que Lin Biao morrera num desastre de avião.
O local do desastre, Öndörkhaan na Mongólia, não deixa dúvidas quanto às intenções de Lin Biao: a de fugir da China (veja-se abaixo, a trajectória provável do voo). Provavelmente escolheu fazê-lo para a União Soviética. Agora quais as circunstâncias que o levaram a tomar tal decisão ainda hoje, passados 37 anos, se encontram enredadas na falta de sustentação da versão que foi posta a correr a esse respeito. A priori, Lin Biao parecia temer pela vida, o que pressupõe que o poderiam acusar de faltas graves: muitos outros altos responsáveis chineses haviam sido afastados sem serem executados…
Faz assim algum sentido a acusação que a propaganda chinesa pôs de imediato a correr: que Lin Biao ensaiara realizar um golpe de estado contra Mao – e fracassara… Mas, se acreditarmos nessa versão, isso também nos diria muito sobre a temeridade de Lin Biao: a ousadia de afastar Mao através de um pronunciamento militar depois dos anos consecutivos de uma propaganda descomunal a endeusá-lo junto das massas chinesas dá que pensar… Sobre a questão das causas para o avião da fuga ter caído (um Hawker Siddeley Trident, igual ao da fotografia abaixo), também existe uma versão conveniente…
Nessa versão, na precipitação da fuga o avião fora deficientemente abastecido de combustível e acabara por se despenhar em pleno deserto da Mongólia por falta de carburante. É possível, é pouco provável, mas é sobretudo uma versão muito conveniente, que afastaria de uma penada as suspeitas que o avião tivesse sido abatido quer pela Força Aérea chinesa (em pleno espaço aéreo da Mongólia…) quer por interceptores da Mongólia ou da União Soviética, que estivessem a reagir a um intruso que penetrara ou se preparava para penetrar no seu espaço aéreo, algo que depois veio mesmo a acontecer...
Mas, mais provavelmente, mongóis e soviéticos (que foram quem encontraram os destroços e recolheram os cadáveres) devem estar inocentes: este foi um daqueles casos em que o fim da Guerra-Fria mostrou que eles nada havia a esconder. Em contrapartida, o segredo permanece do lado chinês e a versão de Zhou Enlai, que Mao, quando perguntado durante a fuga de Lin sobre o que queria que se fizesse, terá respondido com um provérbio recomendando que nada (O Céu quer chover, a viúva quer tornar-se a casar, não os incomodemos), combina muito mal com a personalidade de Mao que as suas biografias têm revelado…
O episódio já foi incorporado entre os mitos da China moderna. Uma visita guiada à interessante cidade de Hangzhou pode incluir a visita à antiga residência de Lin Biao, descrita como o centro da enorme conspiração desmantelada em Setembro de 1971. Mas ainda restam três perguntas por responder: Como é que um político experiente como Lin Biao pôde imaginar que um simples golpe militar conseguiria derrubar Mao? Porque terá escolhido a União Soviética para se exilar quando haveria outras opções melhores como a Formosa? Em que circunstâncias precisas é que se despenhou o avião onde viajava?

(*) Excepcionalmente, para respeitar a prática da época (1971) utilizou-se o sistema de transliteração de nomes chineses que era então mais utilizado, o Wade-Giles. Daí o emprego do nome Lin Piao que, com o sistema pinyin actualmente mais corrente, agora se escreve Lin Biao. Também Mao Tsé-Tung se transformou em Mao Zedong, Teng Hsiao-Ping em Deng Xiaoping ou Kung Fu em Gong Fu.
(**) Além de Mao, Lin e Chen, os outros dois membros eram o primeiro-ministro Zhou Enlai e Kang Sheng.

22 fevereiro 2009

A MANDATÁRIA

Nem sei como apareceu a celebrada figura de mandatário numa campanha. Suponho que nem vale a pena investigar. Porque também percebi a sua importância irrelevante para o sucesso da campanha que mandatam. Apesar disso, tem-se caminhado para uma multiplicação dos mandatos nas campanhas. Ou seja, são mais os que mandatam, mas mandatam apenas em áreas específicas, sejam elas regionais, funcionais ou etárias.
Hoje costuma haver um mandatário nacional que teoricamente devia ter, mas raramente terá, ascendente sobre mandatários, distritais, concelhios, financeiros, da juventude ou da terceira idade. Noticia-se que existem, mas ninguém sabe o que eles fazem. Sendo inócuos, podem ser cómicos. Nas últimas eleições presidenciais havia vários, alguns mandatados para uma juventude que nunca me pareceu entusiasmada com a campanha.
Da parte de Cavaco Silva havia a mandatária Kátia Guerreiro que apenas aparecia e não devia, porque depois parecia estar interdita de abrir a boca. Da parte de Manuel Alegre, havia o PacMan, que abria a boca e não devia, porque não conseguia articular três frases encadeadas coerentes. Da parte de Mário Soares, havia a Joana Amaral Dias que articulava as três frases, mas não devia, porque nunca dizia algo de importante nelas.
Que agora se evidencie a superficialidade desta última é coisa que não deve surpreender. Afinal, Joana Amaral Dias terá sido sempre uma criatura do Bloco de Esquerda promovida no meio daquela benevolência que a organização parece gozar no meio da comunicação social – e que agora lhe foi retirada… O meu apoio à campanha para a salvar não se deve ao preconceito que as bonitas são tontas, mas à preferência por tontas que sejam bonitas…

21 fevereiro 2009

A AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS

Já é possível fazer um balanço distanciado da Era da Descolonizações (1945-1984) (*) e pode-se fazer uma avaliação do que restou dos antigos impérios coloniais. Do dos britânicos ficou aquilo que era impossível política ou economicamente que eles se desfizessem (como Gibraltar) enquanto, em contraste, os franceses ficaram com tudo aquilo que era possível com que ficassem (abaixo). No caso dos portugueses, esses ficaram sem nada, embora haja algumas opiniões maliciosas que acham que se devia ter aproveitado a dinâmica de 1975 para se ter acabado com os encargos com a Madeira e os Açores…
Por falar em reivindicações, as características das populares que trouxeram recentemente os territórios franceses de Guadalupe e da Martinica nas Antilhas para as primeiras páginas dos noticiários são significativas de como a geopolítica deste Século XXI mudou em relação à da segunda metade dos da segunda metade do Século XX. É que os protestos de quem vive nesses Departamentos do Ultramar (**) refere-se sobretudo à forma discriminatória como são tratados em relação à metrópole, sendo acompanhados nas suas queixas, pelos vistos, pelos intelectuais locais que se mostram solidários com os grevistas
Ora, se os intelectuais de antanho eram extremamente lestos a brandir a bandeira da autodeterminação por sinónimo de independência (ainda recentemente me referi a uma música de Sérgio Godinho de 1974 a esse propósito: A África é dos africanos, já chega 500 anos…), os da actualidade tornaram-se porta vozes das novas reivindicações das populações locais, que já descobriram que os orçamentos da metrópole são muito mais robustos do que os de uma eventual nação independente: podem obter-se 200 euros de aumento para o salário mínimo entre um pacote de ajudas que totalizam 580 milhões
Se há inúmeros pontos do globo onde ainda se fazem sentir a acção de movimentos separatistas nacionalistas, passou a haver muitos outros onde eles têm condições para se exprimirem com toda a liberdade democrática, como serão estes dois casos de Guadalupe e da Martinica, mas onde eles simplesmente não se impõem, apesar do descontentamento popular e de taxas de desemprego de 25%… O nacionalismo já não é o que era e os tempos continuaram a mudar muito desde o tempo em que intelectuais como Bob Dylan cantavam que The Times They Are A-Changin´ (Os Tempos estão a Mudar)…

Para que eles continuem a mudar ainda mais, pode ser que passemos para uma nova fase na geopolítica: a das desindependências… E estou a pensar em meia dúzia de casos em que isso poderia acontecer, alguns envolvendo Portugal...

(*) Vejam-se alguns postes que aqui publiquei, no quadro de uma série mais alargada, intitulada As Independências ao Longo do Século XX: períodos de 1944-1956, 1957-1975 e 1976-1984.
(**) Départements d´Outre-Mer, abreviado DOM, no original. Recorde-se que a palavra Ultramar (tradução directa do francês Outre-Mer) era uma expressão incontornável da política colonial do Estado Novo.

20 fevereiro 2009

OS INTELECTUAIS DA CANETA

Não sei se a moda se deverá a Jon Stewart, mas foi no seu Daily Show que comecei a reparar como era hábito do entrevistador usar uma caneta na sua mão esquerda e dispor de um bloco de folhas de papel também do seu lado esquerdo durante o programa (acima), a que recorria em qualquer momento que fosse visualmente mais morto. Também se percebia, pelo percurso da sua mão, que aquilo que Jon Stewart escrevia nas tais folhas de papel não eram mais do que de simples garatujas.
É um hábito que parece ter-se pegado, como se pode observar pelo exemplo de Talk Sex with Sue Johanson, um programa transmitido actualmente por um dos canais por cabo (acima). O sistema é o mesmo, e as garatujas também, o que me levou a suspeitar que aquela disposição fosse uma espécie de franchise e não tivesse nada a ver com o facto do anfitrião do programa ser canhoto. Aliás, seria talvez por ele ser direito e ter que escrever com a esquerda que só conseguia fazer garatujas…
Enfim, será sinal dos tempos que a demonstração subliminar de intelectualidade parece ter deixado de ser usar óculos para passar a ser escrevinhar coisas numa folha de papel… Eis senão quando, para desforra de todos esses apresentadores de Shows de televisão, os Estados Unidos resolvem eleger um Presidente genuinamente canhoto, que se caracteriza por pegar na caneta da mesma forma desajeitada com que eles o fazem (acima), mas neste caso, indiscutivelmente, para rubricar documentos oficiais…

19 fevereiro 2009

A GUERRA DA SAVANA RODESIANA (RHODESIAN BUSH WAR)

Os britânicos tiveram a sua Malásia e os norte-americanos o seu Vietname, ambas em regiões tropicais, os franceses a sua Argélia e os soviéticos o seu Afeganistão, ambas em regiões áridas, houve ainda outras, mas a guerra subversiva que mais se terá assemelhado em todos os aspectos a qualquer das três que foram travadas pelos portugueses em África terá sido a Guerra da Savana Rodesiana (Rhodesian Bush War).
Há muitas mais coisas a torná-las semelhantes do que apenas uma questão de todas elas se terem travado no mesmo continente, em regiões de proximidade (no caso de Angola) ou mesmo de contiguidade geográfica (no caso de Moçambique). Também é mais do que a circunstância de haver uma quase sobreposição temporal entre os três casos envolvendo os portugueses (Angola, Guiné e Moçambique, 1961-74) e o rodesiano (1965-80).
É o caso das fotografias de propaganda do regime se assemelharem, como a de cima, com mulheres e crianças de fazendeiros brancos assassinados pelos guerrilheiros da ZAPU em 1975, a lembrar as que haviam sido tiradas em 1961 no Norte de Angola, na sequência das acções da UPA. Como os portugueses haviam conseguido em Angola, também na Rodésia conseguiram dividir a oposição armada em mais do que um movimento: ZAPU e ZANU.
Assim como o Zaire protegia as acções da FNLA no conflito angolano, no rodesiano era a Zâmbia que protegia a ZAPU (pró-soviética, assinalada acima em escuro com a foice e martelo) enquanto era Moçambique (depois de 1975) a proteger a ZANU (pró-chinesa, assinalada a claro com uma estrela). Como se pode observar, cada um dos movimentos tinha os seus santuários e os seus corredores de infiltração distintos.
As patrulhas que levavam a cabo as acções de contra-subversão podem ser confundidas à primeira vista com as suas homólogas do exército português, com o mesmo tipo de camuflado, o mesmo tipo de arma individual (a FN FAL), até o próprio barrete (com abas protegendo a nuca) era semelhante ao volkswagen usado pelos portugueses!… Os problemas com que se defrontavam eram idênticos e as soluções frequentemente semelhantes…
É o caso das operações helitransportadas, recorrendo precisamente ao mesmo tipo de aeronaves, os Allouette III de concepção francesa, por causa do boicote anglo-saxónico à aquisição de novo material de guerra. Mas note-se como este Alouette III já é posterior a 1974 e já está equipado com um dispersor nos exaustores da traseira do motor para dificultar a fixação por parte de mísseis SA-7 Strela que viessem a ser disparados do solo…
O equivalente aos Fiat G.91 (a superioridade aérea) era o Hawker Hunter (acima). Mas como eram considerados como um estado pária pela comunidade internacional, os rodesianos possuíam uma outra liberdade de acção (que esteve interdita a Portugal, com lugar na ONU e membro da NATO) para atacarem abertamente os santuários da guerrilha localizados nos países limítrofes. É isso que explica o Raid Green Leader, realizado a 18 de Outubro de 1978.

Por um período de cerca de meia hora, uma esquadrilha de 6 Hunters, acompanhada de outra de 4 bombardeiros Canberra, tomou conta do espaço aéreo zambiano, enquanto bombardeavam a principla base da ZAPU, que se situava perto da capital da Zâmbia, Lusaka. O vídeo acima reproduz parte das instruções então dadas pelo líder da esquadrilha atacante à torre de controlo do aeroporto de Lusaka…
Que contraste com a (tentativa de) discricionariedade da Operação Mar Verde em Conacri em 22 de Novembro de 1970! Nestes momentos, que o tempo transcorrido acabava por tornar propenso ao revisionismo histórico, vale a pena perguntar qual terá sido a contribuição destas operações especiais, tão ousadas quanto ilegais, para o desfecho das guerras… Muito pouca! Afinal, tanto os rodesianos como os portugueses perderam as suas Guerras…

18 fevereiro 2009

OUTRA NOTÍCIA DISCRETA

Tão entretido andava eu em dar relevo à notícia discreta da colisão de dois submarinos nucleares em pleno Atlântico que ia perdendo outra notícia discreta da colisão de dois satélites, um russo e um norte-americano (*), em plena exosfera, por cima da Sibéria. Excedendo em bizarria o incidente dos submarinos, mais do que um caso raro, tratou-se da primeira vez que dois satélites, vindos de direcções divergentes (ver o esquema acima) se cruzaram no espaço à mesma altitude (789 km), acabando por se destruírem mutuamente em consequência da colisão. O destino dos destroços no longo prazo será a incineração quando da reentrada nas camadas mais densas da atmosfera (abaixo). Mas, para já, torna-se necessário seguir as novas órbitas dos destroços para estimar quanto tempo demorará para que isso aconteça e verificar se entretanto os destroços não podem danificar outros satélites em órbita…
(*) Contudo, ambos foram colocados em órbita (um em 1993, o outro em 1996) por lançadores russos e a partir de bases de lançamento russas.

A CAPACIDADE DE ANTECIPAÇÃO NA POLÍTICA

O vídeo abaixo, captado durante uma emissão televisiva na África do Sul, poderia figurar como um pequeno anexo num qualquer manual de Ciência Política, demonstrando as vantagens de, em política, se possuir uma boa capacidade de antecipação dos eventos. Quando da sua entrevista, o enorme estalo que se escuta no início da sua intervenção, faz com que Nhlanhla Nene (*) ainda chegue a hesitar, para depois acabar por adoptar aquela atitude mais comum num político naquelas circunstâncias: se não aconteceu nada, então é porque não vai acontecer nada…
O desmentido que isso nem sempre é a atitude mais saudável na prática política aparece de uma forma fragorosa doze segundos depois do estalo inicial: o deputado sul-africano desaparece subitamente de cena, quiçá por causa do peso da sua argumentação… O vídeo poderia constituir também um pretexto de reflexão para a actual direcção parlamentar do PS que pretende adiar as votações marcadas para a próxima Sexta-feira por receio de as perder. A sublevação dos deputados não poderá ser o equivalente daquele crepitoso estalo da cadeira prestes a desabar?

(*) Nhlanhla Nene preside à Comissão de Finanças do Parlamento Sul-Africano. Em inglês literal diz-se que ele ocupa a cadeira dessa Comissão. Depois deste incidente, isso permitiu a criação de inúmeros trocadilhos cuja tradução é difícil para português.

17 fevereiro 2009

ENTRANDO POR UM MERCADO PERSA EM VELOCIDADE EXCESSIVA…


O britânico Albert Ketèlbey (1875-1959) é um compositor mais popular do que importante no panorama da música clássica, o que não impede que se deva respeitar o que compôs. No vídeo acima pode-se ouvir No Jardim de um Mosteiro e pode-se escutar um outro grande sucesso seu no vídeo abaixo - Sinos Através dos Prados. Em ambos pode perceber-se como as composições de Ketèlbey, numa definição que certa vez ouvi a um alentejano, levam todas o seu tempo… a serem interpretadas.
É por isso que considero que aquela sua composição que será, provavelmente, a mais conhecida de todas, intitulada Num Mercado Persa, raramente a ouço a ser interpretada no ritmo e na forma que seria conveniente. Nas interpretações clássicas (por acaso, não encontrei nenhuma disponível no You Tube) a primeira melodia começava em surdina e era tocada a um ritmo que procurava reproduzir o trote dos camelos de uma caravana que se aproximava da cidade do mercado, o que justificava o aumento progressivo do som dos instrumentos.
 
Nas melodias, segue-se a do coro dos mendigos, depois o tema doce da princesa, os saltimbancos, os militares, enfim, trata-se de uma música pictórica, que acaba com a caravana a afastar-se com a respectiva melodia a ser tocada de forma cada vez mais discreta até ser quase um sussurro, acabando numa nota final forte. O argumento não é complexo mas convém conhecê-lo para que não haja interpretações como a do vídeo acima (ou nesta versão), que mostram que os maestros resolveram substituir os camelos da caravana por camiões…

A NOTÍCIA DISCRETA

Tratar-se-á de uma notícia importante mas não interessante, de primeira página, segundo os critérios que hoje se pensa que interessam ao grande público: dois submarinos nucleares, um francês e outro britânico, colidiram em pleno Oceano Atlântico quando se encontravam ambos submersos na sua missão tradicional, a postos para uma eventualidade… É que os dois submarinos (trata-se de dois colossos para o tipo de navio, com um deslocamento de cerca de 15.000 toneladas quando se encontram submersos), carregavam com eles, cada um, 16 mísseis balísticos, com cada míssil equipado com múltiplas ogivas nucleares…
A sua missão, herdada dos tempos da Guerra-Fria, é a de circularem desapercebidos pelo Oceano, conferindo aos respectivos países uma capacidade última de retaliação em caso de um ataque nuclear de surpresa por parte de um inimigo – no caso daqueles dois países, previsivelmente a Rússia ou a China nos tempos que correm. Aparentemente, o que este incidente veio revelar (do pouco que as autoridades dos dois países deixaram…) é que, considerando a enorme extensão do Oceano, tanto franceses quanto britânicos utilizam áreas de circulação semelhantes para os seus submarinos quando nessas missões secretas…
O embate, que já se registou há duas semanas, não pode ter sido muito violento: os dois navios regressaram às respectivas bases pelos próprios meios ou com uma assistência mínima, mas não há fotografias de qualquer deles depois do acidente para que se possa fazer uma análise independente dos danos. A notícia, discreta, comprova que, apesar do fim da Guerra-Fria, os dispositivos de dissuasão nuclear continuam a funcionar. E deduz-se que, se algum dos submarinos se tivesse afundado, a história se arriscava a tornar muito mais interessante, com o proprietário a querer recuperar a todo o custo o material secreto do fundo do mar…

16 fevereiro 2009

A ASSIMILAÇÃO DE FORASTEIROS ENTRE A ARISTOCRACIA BRITÂNICA

Chariots of Fire é o título de um filme de 1981, com uma inesquecível música de Vangelis, que conta de forma romanceada a história de dois antigos campeões olímpicos britânicos de 1924, o escocês Eric Lidell e o inglês Harold Abrahams (abaixo, o original). Porque se trata de um filme bem intencionado, a questão dos preconceitos quanto à origem judaica de Abrahams – o pai imigrara da Lituânia – é apenas aflorada numa pequena cena de um diálogo entre os professores do colégio de Cambridge que ele frequentava, enquanto a discriminação que ele pudesse sentir por causa das suas origens é explicada em parte por uma questão de susceptibilidade excessiva de Abrahams.
Harold Abrahams (1898-1978), ainda que pertencente ao círculo restrito dos que podiam aceder a estudar em Oxbridge (*), era ainda um exemplar muito cru das famílias de imigrantes bem sucedidas, antes do início dos processos de assimilação. A forma preferencial pela qual a assimilação funcionava naquela época era o casamento. Isso pode observar-se no caso de Edwina Ashley (abaixo), muito mais conhecida pelo seu nome de casada de Edwina Mountbatten (1901-1960). Apesar da ascendência de inúmeros baronetes ingleses do lado paterno, que a tornavam socialmente aceitável, o que fazia dela uma herdeira diferente era a sua ascendência do lado materno…
Edwina era uma das duas netas herdeiras de Ernest Cassel, um banqueiro judeu de origem alemã de sucesso que, quando faleceu em 1921, lhe legou uma fortuna de 2,9 milhões de libras e uma renda anual de 60.000 libras. Edwina veio a casar com Louis Mountbatten (1900-1979) no ano seguinte. Para comparação, o ordenado anual deste último, como oficial subalterno da Royal Navy, era então de 610 libras… Mas talvez a melhor explicação para a receptividade com que a aristocracia britânica acolhia os forasteiros, mesmo ricos, esteja contida numa história contada por Nubar Gulbenkian (1896-1972), o excêntrico filho do multimilionário arménio Calouste Gulbenkian.
Nubar Gulbenkian (acima) fizera a maior parte dos seus estudos em Inglaterra (Harrow e Cambridge) e considerava-se em tudo, menos na nacionalidade, um britânico. Contudo, certo dia, escreveu ele nas suas Memórias, um político inglês (Edward Keeling) sugeriu-lhe que seguisse uma carreira política e se naturalizasse:
– Gulbenkian, você devia entrar para a política.
– Mas eu não sou inglês.
– Não faz mal. Nós tratamos da naturalização. Mas terá de mudar de nome. O melhor é primeiro chamar-se Gullybanks e depois Gumbley.
– Mas por que é que seria preciso mudar o nome duas vezes? Por que não mudar logo directamente para Gumbley?
– Porque, como há-de descobrir, as pessoas irão querer saber qual era o seu nome antes de adoptar o Gumbley. Se disser que era Gullybanks, aí as pessoas compreenderão. Mas se disser que era Gulbenkian, então perceber-se-á que é estrangeiro…

Nubar Gulbenkian possuía a nacionalidade iraniana e mais tarde, solicitou e readquiriu também a nacionalidade turca (que era a sua de origem). Mas nunca tomou qualquer iniciativa para obter a nacionalidade britânica…

(*) – Expressão frequentemente empregue para referir em conjunto as selectas universidades rivais de Oxford e de Cambridge.

15 fevereiro 2009

MAIS RÁPIDO… A SEIS RODAS

Daqueles meus tempos em que era um adepto interessado da Fórmula 1 e em que o George Harrison cantava o seu hit Faster, dedicado a Ronnie Peterson, fui recordar o impacto que causou a apresentação pela escuderia Tyrrell em 1976 de um novo carro com seis rodas… Baptizado com a designação P-34, em vez da disposição tradicional, o novo Tyrrell possuía 4 rodas dianteiras mais pequenas do que era habitual (abaixo), o que lhe dava uma configuração única, facilmente distinguível da dos restantes carros das outras escuderias (um deles é facilmente identificável nas imagens iniciais do vídeo acima).
Porém, tão ou mais importante do que atrair a atenção da informação, em termos de competição na Fórmula 1, aquela nova concepção mostrava possuir um bom potencial de desenvolvimento para concorrer com os carros de concepção tradicional. Apresentados em Maio de 1976, logo em Junho desse ano, os dois Tyrrell alcançaram o primeiro e o segundo lugares no Grande Prémio da Suécia. Mas foi a primeira e única vitória obtida pelos P-34. Era uma ideia a explorar mas os custos do seu desenvolvimento tornavam-se muito superiores aos da concorrência – era o caso dos ensaios para os pneus frontais, únicos, por exemplo…
O P-34 foi redesenhado para a época seguinte (1977), como se pode ver na fotografia acima. Contudo, o efeito que mais cobiça terá despertado entre as escuderias rivais foi o efeito mediático. Ainda em 1976, uma delas, a March, anunciou pomposamente o seu protótipo de 6 rodas. Denominado March 2-4-0 (abaixo), ao contrário do Tyrrell, o da March possuía 4 rodas motrizes traseiras. Como se veio mais tarde a descobrir, os problemas técnicos que se colocavam à adopção daquela solução eram tão grandes que o carro nunca chegou a competir e tudo não passava de uma gigantesca operação de promoção…
Sem chegar a ser visto a participar num Grande Prémio ao longo do campeonato de 1977, o March 2-4-0 veio a revelar-se assim ser um enorme embuste (de 6 rodas!!) unicamente destinado a atrair a atenção mediática e, através dela, eventuais patrocinadores para a escuderia. Quanto à Tyrrell, na temporada seguinte, de 1978, com o Modelo 008, acabou por regressar às configurações convencionais de monolugares de Fórmula 1 com as tradicionais 4 rodas. Actualmente, e de acordo com os regulamentos, não é autorizada a participação na Fórmula 1 de viaturas que possuam mais do que essas 4 rodas...