31 agosto 2006

TAPS

Taps é um filme de 1981 que descreve a resistência ao seu encerramento por parte dos alunos de um Colégio Militar privado norte-americano. Originalmente, o título, Taps, é a designação da música do toque a defuntos executado em cerimónia por um cornetim. É um toque especificamente norte-americano e teve origem na época da sua guerra civil (1862), razão porque o toque também é associado ao sabor amargo de uma família dividida por causa de um conflito maior - circunstância que se repete no filme entre o comandante do batalhão colegial e o seu pai.

Tudo isto podia ter sido investigado por quem traduziu o filme e lhe escolheu o título. Não foi e saiu uma versão portuguesa intitulada “Taps – O Clarim da Revolta”… Não se trata de um filme excepcional mas, em contrapartida, conta com um elenco que faz a toda a força do filme: George C. Scott e três jovens vedetas em ascensão naquela altura (teriam 20 anos), Timothy Hutton, Sean Penn e Tom Cruise, precisamente por esta ordem de importância no filme, antes do marketing promocional dos artistas a subverter na galeria de estrelas...

O filme nunca poderia ser um sucesso de bilheteira porque a sua história é bem pouco adaptada ao gosto americano, sem bons nem maus, com o problema da defesa dos valores a causar dilemas morais, com a percepção que as coisas não vão acabar bem no fim, enfim, algo que pode causar dores de cabeça a quem segue o filme descontraído enquanto mordisca umas pipocas… Em contrapartida, creio que o filme tem o condão (raro em filmes americanos) de despertar empatia em alunos e ex-alunos de Colégios Militares à volta do mundo…

E a história central do filme, a da adaptação dos Colégios Militares à passagem do tempo e à evolução das sociedades é um tema que continua tão actual hoje com há 25 anos. Entre nós, e a propósito da adopção do regime de externato para o Colégio Militar da Luz, que tenho seguido com a mera curiosidade de ex-aluno, os artigos que a criticam são de uma exaltação e de um arrebatamento que não tem rival nas que a defendem. No campeonato da verve os críticos ao regime de externato ganhariam tanto a nota artística como a nota técnica.

Sabem os que pelo Colégio passaram – apenas se subentendia em Taps… – como é tremendo o peso atribuído às tradições. Mas incitando-se o seu respeito – é uma forma de iniciação – não conheço investigação sobre as suas origens. Exemplos: Quem inventou a moca? Em que ano começaram as cerimónias do 1º de Dezembro? Que curso criou o Speliking? Como começou o dia das pinturas? Quem criou a letra do Zacatrás? Quando? Quem se terá lembrado da do Ramalho…?* (Não sei as respostas que serão muito bem vindas à caixa de comentários...)

Quando entrei para o Colégio, na primeira metade da década dos anos 70, descobri quão surpreendente era – e apercebo-me hoje quão anómalo era – que a experiência dos pais dos meus colegas que também tinham sido alunos parecia ser rigorosamente idêntica à que nós estávamos a atravessar. Engraçado que fosse, a causa residia infelizmente na estagnação da sociedade portuguesa do pós-guerra (segunda metade dos anos 40, e as décadas de 50 e 60) e que permitira que muitas das suas instituições praticamente parassem no tempo.

Exemplos? Apesar de já haver emissões de televisão há 15 anos, não as havia nas salas de leitura, a semana inglesa (i.e., começar o fim-de-semana à hora do almoço de sábado) era uma conquista recente e, por causa dos transportes, ir a casa ao fim de semana era praticamente impossível para quem residisse a mais de 100 km de Lisboa. Curiosamente e a propósito desta questão do externato, constava que na década de 40 ou de 50 ele havia sido experimentado e depois abandonado. Segundo sei, os alunos externos sempre ficaram com uma espécie de estigma: não tinham número...

Felizmente Portugal e a sociedade portuguesa actual já não têm nada a ver com a que existia há uns 35 anos atrás. Evidentemente que o Colégio Militar também se modificou muito para acompanhar essa transformação. E quando se chega a momentos em que é preciso tomar decisões que possam alterar tradições antigas que se julguem nucleares à existência do Colégio Militar há que pensar com lucidez e estabelecer prioridades – foi o que faltou em Taps e causou a tragédia do filme.

É a tradição que define as características do estabelecimento de ensino e que lhe pode dar o seu carácter único, mas a função principal – neste caso, do Colégio Militar - é a de melhor servir a comunidade em que se insere, adaptando-se às evoluções da sociedade. Concretamente, se se considera que o regime de internato se está a tornar um factor negativo para a continuação da instituição, então experimente-se alterar o regime…

Francamente, tenho a convicção que quem tenha receio que a mística colegial possa ficar em causa só por causa do regime, está ver muito curto: está a confundir a sobrevivência da instituição com a das sua próprias memórias. É possível, como disse acima, que as minhas sejam muito iguais às da geração que me antecedeu. Mas, como expliquei, julgo que foi uma aberração que eu não desejo que se repita no nosso país...


* Peço desculpa aos não iniciados por não explicar detalhadamente as questões mas creio que se percebe a intenção genérica sem necessidade do detalhe. Aliás, haveria uma parte nesse detalhe que seria embaraçosamente ordinária…

30 agosto 2006

DETECTOR DE CAPITAIS

Não me lembro que se tenha devidamente evidenciado que os acontecimentos de 11 de Setembro também serviram, colateralmente, para pôr a nu a relativa inutilidade de um enorme e aparatoso dispositivo de segurança que durante 25 anos parece ter servido apenas para atormentar todos os que foram passageiros de avião.

Depois do zénite da época dos desvios de aviões, logo nos inícios dos anos de 1970, tornou-se evidente que seria necessário verificar previamente os pertences dos passageiros antes de entrarem na aeronave: nos grupos palestinianos que se evidenciaram naquela actividade só ninguém chegou a usar bazookas por falta de saco jeitoso para a acomodar…

Como parece ser costume nas burocracias, o bicho da segurança das aeronaves tomou o freio nos dentes e saiu em perseguição do canivete, da lima de unhas, da pistolazita de cow-boy do puto e do desgraçado que usava inserções de metal a mais nas suas calças de ganga e que acabava a via sacra do detector de metais humilhantemente de calças nos tornozelos…

Mas no dia em que verdadeiros profissionais quiseram desviar aviões (a 11 de Setembro de 2001) fizeram-no, e logo a quatro simultaneamente. A desculpa para o fiasco foi, como seria de prever, decalcada da dos Serviços de Contra Espionagem Britânicos (MI5)*: se aconteceu aquilo que aconteceu com o dispositivo instalado imagine-se o que teria acontecido se eles lá não estivessem…

É um absurdo argumentativo invocar e tentar refutar situações hipotéticas como essas. Ninguém poderá saber o que teria acontecido e por isso também ninguém o pode negar, a única certeza é que a segurança dos aparelhos acabou sendo prestada por serviços que se assumiam como profissionais para fazer frente a profissionais do terror, não apenas a desequilibrados que querem levar uma faca de trinchar perus para bordo e ameaçar a hospedeira… E aí, entre iguais, foi um fiasco!

Outra forma de defender esse fiasco das medidas de segurança aérea foi o recurso a outro absurdo, passando-se ao contra ataque, como se a censura fosse sobre todo dispositivo de segurança aérea (então não se faz nada?) e não sobre os seus excessos que, além de morosos e incomodativos, ainda por cima, se vieram a revelar completamente ineficazes. A polícia pode continuar a sua luta contra o crime sem abusos de autoridade de revistar traseuntes à discrição...

De resto, que o tradicional processo de revista exaustiva do passageiro que vai embarcar está bem próximo do ponto de ruptura, a ponto de tornar inviável o transporte aéreo, percebeu-se claramente este verão quando, depois do alerta da posse eventual de explosivos binários, o ritmo de verificação detalhado levou os passageiros em férias à beira do desespero e os aeroportos britânicos à beira do caos.

Como o passageiro ideal para a segurança (que embarcasse de tanguinha e sem bagagem de mão) é difícil de encontrar e mesmo perigoso para a (sua) saúde nos aeroportos escandinavos ou canadianos no pino do Inverno, as actuais medidas extremas de revista dos passageiros deverão vir a ser gradualmente abandonadas, provavelmente com muito menos espavento do que o usado quando foram anunciadas…

Não parece, mas nem era propriamente da segurança de aviões que pretendia falar, mas sim de medidas excessivas e desapropriadas de segurança. Por coincidência, em dois dias seguidos, desloquei-me a duas agências bancárias de entidade distintas onde tenho conta. Nas duas – é preciso azar – aproveitaram a minha presença para preencher uma ficha (enorme!) segundo as normas que o Banco de Portugal (BP) está a impor – informaram-me.

Para além do ligeiro incómodo de quem está contar resolver um problema e acaba a perder tempo a resolver outro que nem sabia que existia, os campos a preencher na tal ficha que fará o regalo do BP descambaram das trivialidades (nome, morada, número de contribuinte), que eu suponho que já lá devem estar há muito tempo, até outras que eu considero de resposta facultativa (profissão, entidade patronal, rendimentos anuais).

Em conversa com o gerente do segundo banco - já trazia balanço da chatice do primeiro... - que, ao princípio e por distracção, até achou imensa piada ao meu pedido recíproco de informações (nome, idade, morada e rendimentos anuais de todos os membros do Conselho de Administração do banco…) fiquei a saber que estas directivas do BP, para além de virem a chatear toda a gente que tem conta bancária, se destinam a combater o chamado branqueamento de capitais.

A ser verdade, pulo de impaciência a imaginar o volume de todos aqueles capitais que emergirão a embranquecer depois de se completar o preenchimento daqueles impressozitos… Mas o meu ar devia ser o mesmo com que costumo depositar as chaves no chaveiro ao lado do detector de metais, rezando para que aquela merda não desate para ali a apitar…

* O MI5 britânico não conseguiu descobrir a existência de diversos agentes infiltrados nos seus serviços secretos e diplomáticos que espiavam para a União Soviética: Kim Philby, Donald Maclean, Guy Burguess, Anthony Blunt e John Cairncross, conhecidos colectivamente como os Cinco de Cambridge.

AS VAIAS A KOFI ANNAN

O Hezbollah, que tanto se tem esmerado na forma como tem gerido a imagem de si que passa para o exterior, destas vez cometeu ou deixou cometer o erro de apupar o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annam, quando este estava de visita a Beirute. A contagem de opiniões que nos permite atribuir ao Hezbollah a vitória junto da opinião pública depois do conflito recente não é feita das que são expressas por aqueles que são desesperadamente indefectíveis de um dos lados ou do outro. Esses têm a seriedade de parecerem estar sentados nas bancadas de um estádio de futebol quando já desenvolveram uma espécie de autismo que só os deixa ver os erros do adversário (e do árbitro).

Mas, para os que ficaram no centro, que normalmente concluem o que concluem baseados nos dados escassos a que prestam atenção (imagens, pequenos trechos de discursos), e que haviam sido tocados pelas imagens de sofrimento da parte libanesa, é eloquente a ingratidão expressa pela visão de um pequeno trecho de imagens em que uma multidão é visual e audivelmente hostil e ainda ameaçadora para com um dos maiores responsáveis internacionais que teve a atenção (rara) de os vir visitar. Não sei se os serviços secretos israelitas não colaboraram no evento mas, se não o fizeram, não o desdenhariam ter feito.

O destino do Médio Oriente não está dependente do timbre dos assobios, nem a maior ou menor simpatia das opiniões públicas ocidentais terão um efeito imediato na actuação dos seus governos quanto à resolução do mesmo. Mas, talvez por estarem destreinados por não possuírem um governo (a sério) há muito tempo, estes libaneses parecem ter esquecido uma das lições elementares que um habitante de um bairro de barracas de um país ocidental conhece de ginjeira: convém não vaiar o governante que faz uma visita televisionada ao seu bairro porque diminui exponencialmente a possibilidade de vir a receber uma casinha de habitação social…

28 agosto 2006

A PRÚSSIA SOVIÉTICA

Depois de se ter falado dos países árabes ricos, outra região de elevado potencial de conflito para o futuro, desta vez na Europa, situa-se no canto nordeste da Polónia, junto ao mar Báltico. Consulte-se um Atlas e ali, entalado entre a Polónia, a Lituânia e o mar encontraremos um enclave, designado por Oblast (distrito) de Kaliningrado, que pertence à Rússia mas da qual está separado por um milhar de quilómetros, por terra ou por mar.

Os acontecimentos que levaram ao aparecimento naquele local deste pequeno território russo (um milhão de habitantes, cerca de metade dos quais vive na capital Kaliningrado, numa área de 15.100 Km2) até são muito interessantes, mas a sua condição actual, é tão anacrónica quanto a sobrevivência de um dinossauro da época soviética, com a certeza de se vir a tornar numa permanente fonte de preocupações para o futuro, à qual se prefere não mexer por agora.

O território corresponde a cerca de metade do que fora a antiga Prússia Oriental, terra originalmente eslava, que foi colonizada e evangelizada pelos Ordem dos Cavaleiros Teutónicos a partir do Século XIII. A capital escolhida, recebeu o nome de Konigsberg, e depressa se tornou uma importante cidade comercial do Báltico, onde a maioria da sua população era, por origem ou assimilação, germânica. No campo, onde a sociedade estava muito mais estratificada, só a nobreza era dessa origem.

Fazendo inicialmente parte da Polónia, cujo Rei os cavaleiros reconheciam como seu soberano, os territórios foram-se libertando progressivamente do poder polaco até, no Século XVII, virem a pertencer a um dos príncipes alemães, o do Brandenburgo um estado no leste da Alemanha com a capital em Berlim. Um dos seus sucessores, Frederico, veio a coroar-se em 1701 em Konigsberg Rei da Prússia, dando origem ao nome do estado que estaria no centro da unificação alemã 170 anos depois.

A Prússia Oriental do início do Século XX é uma região profundamente germanizada, onde Konigsberg é a mais destacada cidade da Alemanha de Leste, cidade berço de Kant, com uma Universidade onde Euler ensinou e onde repousam os restos mortais de Bismarck. Na sequência da alteração das fronteiras depois da 1ª Guerra Mundial, quando se procurava dar um acesso ao mar à Polónia, um plebiscito feito na Prússia sobre o seu futuro registou 97,5% de votos favoráveis à continuação na Alemanha.

A alteração das fronteiras depois da 2ª Guerra Mundial já não se fez de forma democrática. As populações de origem alemã dos territórios que fossem destinados a pertencer a outros países foram simplesmente expulsas e substituídas por naturais desses países. Ao contrário do que acontece na Polónia, onde se descobre agora que existe uma população que se reclama de uma ancestralidade mista*, entre a população actual do Oblast de Kaliningrado é residual aquela cujos antepassados já ali habitassem em 1945.

A escolha de tornar o território dependente de Moscovo pode perceber-se na lógica de equilíbrios imperial soviética de pós-guerra. Não o atribuindo à Polónia (antiga soberana), dá-se a satisfação a esta de não o atribuir também à vizinha Lituânia (convertida em República da URSS e também antiga soberana), neutralizando-a por uma dependência da longínqua Moscovo. Naquela altura, a Alemanha não estava em condições de fazer valer os seus direitos.

Hoje, já não é bem assim, e existem três países membros da União Europeia (Alemanha, Polónia e Lituânia) que podem apresentar argumentos consistentes e convincentes quanto à sua recuperação daquele território no momento em que a questão se levantar. De certa forma, a presença russa tem sido conveniente como a válvula de escape de algo sob pressão. Mas a posse do Oblast é, para a Rússia, um activo que possivelmente rentabilizará melhor negociando-o do que mantendo-o. Só lhe falta escolher a altura.

*Encontram-se vários casos desses nas selecções desportivas alemães da actualidade: Miroslav Klose (futebol) ou Dirk Nowitzki (basquetebol).

AS INFORMAÇÕES QUE A SININHO ME DEU

Mesmo sendo um leigo não iniciado no universo encerrado dos jornalistas, já me apercebi que lá dentro existe uma fracção que nutre muito pouca simpatia para com António Costa, o ministro da Administração Interna. E suspeito que exista uma outra fracção junto da qual ele estará muito bem cotado e disposta a sair em sua defesa - mesmo por razões profissionais.

O resultado pode ser percebido no Público de hoje, dia 28 de Agosto, como muito bem alerta num post (3 – notinhas – 3) João Villalobos no blogue Corta-Fitas. A primeira notinha destina-se à coluna das citações do referido jornal que aproveita as citações de 3 – bloggers – 3 e usando mesmo 3 – citações – 3 de um desses bloggers (Paulo Gorjão).

A terceira notinha de Villalobos é para comentar negativamente uma carta ao director, enviada por Duarte Moral que a assina enquanto assessor de António Costa. Entre os epítetos mencionados por Villalobos da referida carta contam-se os de “maoísta arrependido”, “mestre da desfaçatezarrogante e intelectualmente desonesto.

Começando pela carta e por constatar o óbvio, os ânimos estão mesmo ao rubro quando o assessor descompõe o director da forma que o faz. Mas, para além dos insultos, a carta contem um veemente desmentido e uma história antiga, envolvendo Costa e José Manuel Fernandes que, sendo verdadeira, sustenta completamente a acusação de desonestidade intelectual que é feita a Fernandes.

Nem de propósito, quase logo de seguida aparece-nos a coluna de citações do jornal que aproveitando a enorme riqueza temática da blogosfera aproveita logo para inserir três de um só post do Bloguítica de Paulo Gorjão onde, a propósito de uma cunha que Manuel Monteiro pediu num Ministério para desbloquear uma manifestação, Gorjão acaba zurzindo… no gabinete do ministro e pedindo até a sua demissão. Alguém adivinha o nome desse ministro?...

Este parece-me a descrição de um verdadeiro cenário de guerra aberta entre o director do jornal e o ministro da Administração Interna e, ao contrário da João Villalobos, não me choca que neste clima se deitem fora certas cortesias hipócritas que, de completamente desapropriadas, apenas retiram a credibilidade a quem as profere.

Será um exagero de simplificação supor que existirão épocas em que se considera que certos ministros estarão in e outros estarão out? Já foi a época de Freitas do Amaral estar out e depois da sua saída, a julgar pelo que se podia ler em certos locais e hoje se lê, a atribulada política externa portuguesa passou a uma beatitude de jardim de mosteiro em fim de tarde…

Terá essa espécie de sorteio agora calhado a António Costa e, por causa de ele estar bem equipado para a disputa no mundo do jornalismo, a disputa possa passar a ser mais cerrada e a ter mais visibilidade, do que o foi com Freitas? E antes que alguém se lembre de ironizar com a agora popular frase de Cintra Torres, esclareço que as informações de que disponho chegaram-me pela sininho do Peter Pan

O que não me chegou a ser dito foram os critérios que presidem à escolha dos ministros para essa função. Fragilidade política e demonstração de incompetência não deverão ser, senão, como ontem ainda ontem realcei, nem se perceberia o que ainda lá está a fazer aquela senhora ministra que tutela os serviços que ainda estão a reflectir se afinal autorizam ou não a investigação sobre o túmulo de D. Afonso Henriques…

27 agosto 2006

A Palestina: um problema superficial?

É sempre difícil falar de violência com um militar. Para ele, conceptualmente, a expressão da violência é um fenómeno que se manifesta de uma forma colectiva e ritualizada. Ele até pode compreender – e participar… – em expressões individuais de violência, envolvendo-se pessoalmente à pancada com alguém, mas toda a sua formação intelectual e preparação psicológica está dirigida para uma outra realidade que o domina.

Clausewitz, que era um militar, criou uma frase famosa segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios. O que é verdade, mas apenas segundo uma certa lógica, a lógica de um militar. Por isso se torna necessário explicitar na análise dos conflitos quando se trata da intervenção de um agente clausewitziano. Por exemplo, dois miúdos engalfinhados à tareia no recreio da escola não são agentes clausewitzianos

Tenho o mesmo problema, que acima expliquei quanto aos militares, à violência e à guerra quando se fala de sacerdotes, da fé e da religião. Por muito que o negue, também o sacerdote, por causa da sua formação, tem essa mesma tendência a conceber predominantemente a religião como um fenómeno colectivo e ritualizado. Ora, tal como a violência pode ser individual, também considero que a relação com o divino o possa ser.

E é por causa desse hiato conceptual que procuro ser cuidadoso na forma como abordo artigos assinados quer por militares, quer por sacerdotes. Mas aquele que hoje é assinado pelo padre Anselmo Borges, no Diário de Notícias (p.5), intitulado A Palestina: um problema teológico?, além de dele discordar, enferma, quanto a mim, de um grande erro, discreto mas muito importante e que fica muito para além do campo dos conceitos.

No seu artigo, o autor data a chegada dos árabes à Palestina fazendo-a coincidir com o início do domínio muçulmano (636 d.C.). Ora os povos árabes sempre coexistiram com os judeus na região e vieram até a ocupar o espaço vago deixado por eles por altura da sua expulsão no reinado do imperador romano Adriano (135 d.C.). A população árabe do Império, além de lhe ter dado um imperador, Filipe (244-49), nos séculos IV, V e VI contava-se entre as populações mais evangelizadas do império.

É um erro grosseiro, involuntário decerto, mas significativo, o de confundir a chegada das populações com a das religiões, e datar pela instalação do domínio muçulmano na Palestina em 636 a presença do povo árabe. Ora o povo árabe da Palestina já foi predominantemente cristão e ainda hoje uma minoria (estimada entre os 10 a 15%) ainda o é. É verdade que o predomínio político daquela região nunca mais foi recuperada para outra religião – salvo durante o breve período das Cruzadas (1099-1187) – até à instalação da administração britânica em 1919, seguida da fundação do Estado de Israel em 1948.

Em Israel, como no Líbano vizinho, mesmo na actualidade, quase todas as clivagens políticas podem ser interpretadas segundo fracturas étnicas e religiosas. E o padre Borges disso saberá com certeza, quando se esteve a documentar sobre a história recente da região para a redacção do seu artigo, nomeadamente para aquele período que antecedeu a independência de Israel em 1948. Se preferiu não o mencionar e se, em vez disso, escolheu mensagens bíblicas e corânicas de conteúdo pacífico, terá sido por opção sua…

Também mostro muito respeito pelas duas volumosas obras fundamentaisO Judaísmo e O Islão – referidas, da autoria do teólogo Hans Kung (que confesso não ter lido), mas desconfio que não as vou ler, se a mensagem essencial que delas se extrai for a seleccionada pelo padre Anselmo Borges para o seu artigo: Não haverá paz enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem activos politicamente, impedindo o fanatismo religioso.

Não questionando a bondade (e a evidente ingenuidade) da sua redacção, tudo aquilo pode ser muito bem intencionado, mas é perfeitamente superficial. Ao longo de toda a sua história, qualquer daquelas três religiões têm sido usadas para facilitar a actividade política dos seus fanáticos – quando são do nosso lado designam-se por pessoas com muito fervor religioso… – que querem dominar naquela que designaram por Terra Santa.

Não haverá melhor sítio no Mundo onde se possa parafrasear a famosa frase de Clausewitz: a religião é a continuação da política por outros meios…

A RESPONSABILIDADE DE TER AUTORIDADE

Por vezes é a propósito de incidentes triviais que se percebe o quão complexo é o novelo burocrático absurdo (trata-se de uma redundância…) em que este nosso país está enredado. Segundo li, Manuel Monteiro esteve em vias de não poder realizar ontem um comício do seu partido em Caminha por falta de todas as autorizações necessárias.

Se bem percebi a notícia do Público de hoje (p.11), Monteiro dispunha das autorizações necessárias do Governo-Civil de Viana do Castelo e da Câmara Municipal de Caminha mas não dispunha das da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDRN) e da Capitania do Porto de Caminha (CPC), devido ao facto de, no primeiro caso, a zona escolhida para a reunião estar abrangida pelo Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) e, no segundo, ela se desenrolar numa zona costeira, sob a alçada da Polícia Marítima (PM)...

Toda esta parafrenália de autorizações para uma reunião de amigos - mesmo Manuel Monteiro reconhecerá que a Nova Democracia ainda não é uma organização que arraste multidões... - em pleno Agosto numa estação balnear. Haverá piqueniques com mais afluência de gente e apetece ironizar e felicitar a organização por não ter escolhido o Monte de Santa Luzia para local da concentração, senão haveria necessidade de uma autorização suplementar do Estado Maior da Força Aérea por causa da altitude a que mesma se realizava...

Fui ensinado que, quando aparecem assim tantas soberanias, autoridades e autorizações a esmo, se deve proceder ao método contraditório e pedir as correspondentes responsabilidades: na eventualidade de ter acontecido no referido comício um qualquer incidente que tivesse provocado mortos e feridos, quantas das respectivas autoridades estariam na disposição de assumir as suas responsabilidades por terem concedido a respectiva autorização?

Quem se chegaria com a barriga à frente? O senhor Governador Civil? O senhor Presidente da Câmara? O senhor Presidente da CCDRN? O senhor Comandante? Todos? Algum deles? Nenhum? Uma coisa posso assegurar, todos os que se evadissem às suas responsabilidades – mesmo que o fizessem de uma forma rebuscada… – seriam dispensáveis para quaisquer processos de autorização para o futuro. Em qualquer organização que se pretenda útil, a autoridade tem de andar a par com a responsabilidade.

Quando isso não acontece, como foi o caso recente da autorização/desautorização da investigação do túmulo de D. Afonso Henriques em Coimbra, envolvendo o IPPAR e o Ministério da Cultura, que se resolveu estando ainda por resolver (…), as consequências acabam por não ser brilhantes para o responsável máximo de todo o processo – neste caso a senhora ministra Pires de Lima. Depois das desautorizações do episódio Berardo, depois deste caso do IPPAR, a senhora devia ter tirado as devidas conclusões e deixar de fazer uma concorrência sóbria à Tété…

Uma palavra final para Manuel Monteiro, que está a ser censurado por ter puxado os cordelinhos junto do Governador Civil para contornar o absurdo burocrático. Têm razão os que afirmam que será por poderem contornar as regras que aqueles que se encontram próximo do poder as deixam estar como estão – absurdas. Mas reconheço que, em consciência me falta moral para o criticar, porque provavelmente naquelas mesmas circunstâncias teria feito o mesmo.

Mais! Nem percebo o empolamento que se está a procurar conferir ao acontecimento… Só se for fenómeno da época!...

26 agosto 2006

A SOMA DE TODOS OS NOSSOS MEDOS

No enredo de The Sum of All Fears (1991), de Tom Clancy, os terroristas árabes fazem detonar um engenho nuclear num estádio dos Estados Unidos, cujo combustível (plutónio) havia pertencido a um outro engenho nuclear, esse israelita. A bomba havia sido perdida por aqueles durante a guerra do Yom Kippur de 1973, numa missão em que o vector nuclear fora activado para o caso da situação militar vir a piorar no terreno convencional. E, suprema ironia, o plutónio havia sido originalmente roubado de uma fábrica de enriquecimento de combustível nuclear norte-americana…

Para além de reconhecer o mérito da prodigiosa imaginação de Clancy – em Debt of Honor (1994), ele antecipa-se 7 anos e faz despenhar um Jumbo suicida sobre o edifício do Capitólio em Washington, matando o presidente e a maioria dos congressistas – as circunstâncias em que decorre a sua história também retiram qualquer hipótese que o conflito do Médio Oriente possa ser visto numa perspectiva maniqueísta pró-israelita como normalmente as obras de ficção norte-americanas contêm. Aqui, Israel tem a bomba (verdadeiro), roubou os próprios aliados para obter o material para a construir (muito possível) e estava disposto a usá-la se as coisas lhe tivessem mal (muito provável).

Da mesma forma desapaixonada que inspirou a redacção do livro, também nos podemos perguntar porque é que, tendo Israel capacidade nuclear, o Egipto, a Síria, o Irão, a Turquia ou a Arábia Saudita – seus potenciais oponentes – não poderão ter aspirações a tê-la também? E essa deve ser a pergunta essencial a colocar quando se discute a questão do programa nuclear iraniano. Porque a verdade é que toda esta questão é de cariz geoestratégico e não tem nada a ver com o problema dos regimes, como o vemos repetidamente abordado. Numa perspectiva ocidental, há muitos regimes antipáticos que têm a bomba e há que viver com eles – Rússia, China, Paquistão…

E há outros regimes que deveriam ser simpáticos mas o são menos por causa da bomba – a Índia. É impossível simulá-lo, mas é muito provável que, tivesse o regime imperial perdurado até hoje no Irão, os pretextos invocados para as objecções ao desenvolvimento do programa nuclear iraniano, tanto pelos Estados Unidos (ainda que aliados do regime…) como pelos outros países apenas seriam apenas diferentes. As objecções continuariam. Assim como se manteria a determinação iraniana em continuar o programa, apresentando mesmo as razões mais estapafúrdias para o fazer (aquela ideia de evocar razões energéticas é absolutamente risível…).

A recente resposta de Teerão às propostas para que interrompa as suas pesquisas estão no limiar do equilíbrio entre o que se pode considerar cordato do ponto de vista diplomático mas sem fazer nenhuma inflexão significativa quando ao abandono do processo de enriquecimento do urânio. É desconfortável, mas realista, habituarmo-nos à ideia que o Irão virá, a prazo, a possuir a capacidade de produzir armamento nuclear. Como parece acontecer também com a Coreia do Norte. Como possivelmente virá a acontecer com a Turquia e a Arábia Saudita (os dois candidatos mais prováveis a reagir ao Irão).

Tudo aponta para que a nova gramática das demonstrações de poder nas relações internacionais entre as potências nesta ordem multipolar dos princípios do século XXI utilize a capacidade nuclear da mesma forma como há 100 anos atrás elas usavam os grandes couraçados (dreadnought): potência que se prezasse tinha que ter alguns e a lógica da sua posse também seguia linhas regionais (exemplo: o Brasil adquiriu, a Argentina também quis ter o que forçou o Chile a arranjar…). E termino com um desejo: o de que a analogia não se fique só por aqui. Fora das demonstrações, os couraçados nunca foram muito usados em combate…

Curiosidade:

Países dispondo ou com programas para adquirir couraçados em 1914: Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, Itália, Rússia, Áustria-Hungria, Turquia, Brasil, Argentina, Chile, Espanha e Suécia.

Países dispondo ou com programas para aquisição de capacidade nuclear em 2006: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Israel, Paquistão, Coreia do Norte, Irão...

A MULHER DE CÉSAR E A SUA CONCUBINA

Em tribunal não se inverte o ónus da prova. Mas junto da opinião pública o que parece, é. E como a RTP é um órgão de informação, para mais de serviço público, não lhe basta ser séria, tem de parecer séria. Por isso sublinhei a importância de esclarecer quais os critérios seguidos no Telejornal de dia 12 de Agosto.

Este é um trecho de um artigo de opinião* assinado pelo director do Público (impresso em destaque pelo próprio jornal) e saído no jornal de 26 de Agosto (p. 39) com o qual manifesto a minha concordância. Não que concorde em absoluto com essas regras do jogo, mas vergo-me à sua existência.

A peculiaridade do seu uso resulta da circunstância de que esse mesmo argumento foi refutado faz bem pouco tempo pelo mesmo director do Público quando ele foi invocado a propósito das suas viagens pagas a Israel. Ou então fui eu que não percebi a sua desenvolvida explicação para as crónicas de uma guerra que eram descaradamente favoráveis ao contendor que estava a pagar as contas da viagem…

Ou será caso para dizer que, conforme as circunstâncias, para o Público haverá uma mulher de César, que precisa de ser séria e se aplica a terceiros, e uma concubina de César, que nem por isso, quando os casos envolvem o próprio jornal – e o seu director?

* Ver o post seguinte.

A TOALHA DO TREINADOR

A resposta de António Luís Marinho (ALM) (Director de Informação da RTP) às conclusões de um artigo prévio de José Manuel Fernandes (JMF) em que elaborava sobre os indícios de interferência governamental a partir das escolhas do alinhamento do Telejornal de 12 de Agosto publicada hoje (26/08) no Público (p.39) é, só por aquele trecho, arrasadora.

ALM dedica-se a analisar, por sua vez, a paginação do Público do dia seguinte (13/08) e conclui que o alinhamento feito pelo jornal pouco diverge com o do criticado Telejornal da RTP do dia anterior… A resposta de JMF a essa contundente análise – donde retirei a declaração de princípios citada no post acima – é uma extensa coluna repleta de imensos princípios… mas muito seca de factos concretos.

Atente-se que o que se pode apenas concluir do texto de Marinho é que, usando a lógica de Fernandes, o Público também poderia estar sob a suspeita de sofrer interferências governamentais. O que ALM escreveu tem piada e impacto, mas contorna o cerne da questão levantada pela crónica original de Eduardo Cintra Torres (ECT). E competiria a JMF, querendo dizer ainda mais qualquer coisa, recentrar aí a discussão em vez de escrever inanidades.

Com esta sua disposição de dizer sempre mais qualquer coisa, ainda que seja completamente irrelevante para a matéria em causa, que parece ser seu costume quando se envolve em controvérsias, JMF faz lembrar um pouco aqueles treinadores de boxe a quem falta o sentido de tempo correcto para atirar a toalha ao ringue* enquanto o seu atleta (neste caso o próprio...) ali está a ser massacrado…
* Sinal de desistência.

A SANÇÃO DO CHÁ-DANÇANTE

Este é um daqueles postes cuja primeira parte poderá evocar algumas recordações mais sentimentais naqueles que foram alunos do Colégio Militar que o venham a ler. Para todos os outros, fiquem a saber que os chás-dançantes eram festas de convívio organizadas ao sábado à tarde no Colégio Militar.

Aproximava-se vertiginosamente mais um sábado e o 425, irritado com a ausência de quaisquer inscrições para o chá dançante nos papéis afixados há uma semana atrás no geral da companhia, aproveita a formatura do almoço para desancar no pessoal:

- Eh pá! No sábado há chá (dançante)! E se calhar a segunda (companhia) não vai ao chá…

É uma frase que, tal qual a recordo, perde muito por não ser ouvida em vez de lida porque, pronunciada pelo 425, soava tal qual um verso de um poema em mandarim, com uma entoação distinta para todos aqueles sons em ah (pá-sábado-há-chá-calhar-vai), dando ao conjunto uma harmonia muito oriental…

Mas não foi por causa da sonoridade da frase que aqui a evoquei mas sim por causa da sua lógica. Ou antes da sua falta de lógica. Se ninguém se tinha inscrito e por isso ninguém da segunda companhia manifestava intenções de ir ao chá dançante porque raio é que ele ameaçava com a proibição de que alguém fosse? Assim escutado parece absurdo!

É o mesmo ambiente que rodeia as tentativas para conseguir compreender a lógica por detrás das declarações do ministro da saúde Correia de Campos quando ele ameaça fazer regredir algumas unidades hospitalares do estatuto de Entidade Pública Empresarial (EPE) para o Sector Público Administrativo (SPA).
Falta perceber (entre outras coisas) porque é que não se sancionam as administrações das EPEs hospitalares cujos resultados o ministério não considera satisfatórios com o afastamento e como é que a sanção do reingresso dessas unidades no SPA parece ser a melhor resposta do ministério à incapacidade das administrações anteriores. Assim escutado parece absurdo!

Muito mais tarde vim a perceber as razões do 425 para aquele discurso melodioso mas canhestro. Vinha fazer aquele discurso para picar o pessoal que só se inscrevia à última da hora e que se podia estar a esquecer! O discurso não era, talvez, o mais eficaz, mas o 425 tinha na altura 16 ou 17 anos e estava-se cagando para essas subtilezas.

O ministro Correia de Campos tem bastantes mais anos e, apesar de poder ser canhestro nas coisas que diz e como as diz, não pode ter aquela abordagem mais escatológica para as subtilezas e por isso tem uma porradaria de assessores para o aconselhar… Convém que, quando queira sancionar publicamente alguma administração de um qualquer hospital, não fiquem as populações por ele servidos ou aqueles que lá trabalham com uma indefinível sensação de serem culpados mas não sabem bem de quê…

25 agosto 2006

O FILHO DA MONTANHA

Suponho que será sempre um esforço baldado que se preconize modéstia e contenção aos dirigentes franceses. Estar-lhes-á na massa do sangue, mas, apesar de me considerar um latino, tenho tendência a compartilhar com anglo-saxónicos e germânicos o desdém para com as atitudes grandiloquentes mas inconsequentes que volta e meia caracterizam a política francesa.

São os primeiros que costumam usar uma expressão idiomática – adicionar o insulto à injúria – que pode muito bem ser adaptada para comentar a prestação protagonizada ontem por Jacques Chirac na televisão. Não bastando passar por toda aquela vergonha, o governo francês ainda pretendeu insultar a opinião pública mundial, tentando dar um cunho de grandioso a um episódio em que se devia estar a desculpar.

Afinal, a França não impediu que se falasse de uma força de interposição rápida e robusta sob o seu comando no Líbano, para a qual contribuiria com 5.000 efectivos... Depois, escutando o discurso do presidente francês ontem, conclui-se que os 5.000 se reduziram a 2.000 e que a rapidez aplicar-se-á a… 200 deles. E pelos vistos, a questão do comando da força, falta de qualquer vergonha na cara e da falha de alternativas à excepção da italiana, fica em aberto…

A França republicana na sua história recente já ouviu os seus dirigentes proferir discursos penosos e de mau presságio (É com o coração despedaçado que informo que se deve pôr termo ao combate…*) e mesmo grandes aldrabices (Compreendi-vos!**). Não será, por isso, pela falta de qualidade e sinceridade dos seus discursos que Chirac terá caído no descrédito em que caiu.

Mas, quem quer que manifeste o seu desconforto pelo actual inquilino da Casa Branca, tem, em consciência, que manifestar um desconforto parecido com este ocupante do Eliseu…

* Discurso proferido por Pétain em Junho de 1940, antecipando a necessidade de assinar um armistício com a Alemanha. Depois da sua assinatura, Pétain viria a encabeçar o chamado Regime de Vichy, colaborante com a Alemanha.

** Discurso proferido por de Gaulle em 1958 em Argel, diante da multidão que se manifestava pela manutenção da Argélia francesa. A partir de 1960, de Gaulle deu início às negociações que culminariam com a independência da Argélia em 1962.

AS SIGLAS DO 25 DE ABRIL

Uma das causas porque o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) me deixa tantas saudades é por causa das siglas. Os documentos militares, provavelmente por serem feitos por militares que são homens de acção e não estão para perder tempo a escrever palavras completas, estão cheios de siglas* em que normalmente as NT (nossas tropas) se confrontam com o IN (inimigo). Depois do 25 de Abril e por causa do MFA (Movimento das Forças Armadas) a sociedade em geral começou a importar alguns desses aspectos da terminologia castrense e as siglas foram um deles.

No frenesim que se seguiu ao 25 de Abril o português médio foi submetido a uma doutrinação acelerada sobre siglas, a começar pelas dos partidos existentes, o PCP (Partido Comunista Português), o MDP/CDE (Ena! Logo seis letras! Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral), o PS (Partido Socialista, muitas vezes designado ao princípio por PSP, engano que devia irritar sobremaneira os socialistas) ou o MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado).

A aprendizagem também teve de se estender às colónias, porque os movimentos de libertação dos territórios africanos, até aí designados genericamente por terroristas ou turras, também tinham as suas siglas próprias: na Guiné, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), em Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e em Angola, que estava servida logo por três movimentos diferentes, FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

Depois, a partir de Maio de 74 com a Primavera, foi uma espécie do desabrochar das siglas, de organizações que se fundavam a sério e viriam a vingar como o PPD (Partido Popular Democrático) ou o CDS (Centro Democrático Social), outras que também pareciam também sérias mas não destinadas a vingar como o PCSD (Partido Cristão Social Democrata), outras que só se davam a conhecer pelas paredes, em cartazes como o PSDI (Partido Social Democrático Independente) ou só em pinturas como o PTDP (Partido Trabalhista Democrático Português).

Mas aquelas eram siglas que, apesar do uso do termo Social Democrático, se dirigiam à direita sociológica, coisa que continuava a existir mas que andava acanhada. Siglas modernas como deve ser eram as da esquerda como o MES (Movimento da Esquerda Socialista), a FSP (Frente Socialista Popular), o PUP (Partido de Unidade Popular), a LCI (Liga Comunista Internacionalista), o PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias) ou a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária).

Mas o que era mesmo o último grito eram siglas com ML (Marxista-Leninista). Ele era o PCP-ML (Partido Comunista de Portugal – Marxista Leninista), o CARP-ML (Comité de Apoio à Reconstrução do Partido – Marxista Leninista), o CMLP (Comité Marxista Leninista Português), a OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa) ou a ORPC-ML (Organização Revolucionária Portuguesa Comunista – Marxista Leninista). Enfim, não será um exagero total considerar que cada grupo de amigos deu em politizar-se e arranjar uma sigla para o seu grupo…

E partido que quisesse mostrar que tinha organização (seguindo os comunistas…) tinha que ter também uma organização para a juventude e outra para as mulheres, com as siglas respectivas: UJC, UEC, MDJ, MDM, JS, JSD, JC, FEML, etc. A multiplicação de siglas nas mensagens a que os portugueses estavam sujeitos atingiu tais proporções que lhes era impossível compreender o significado político de tantas siglas.

O PCP foi o primeiro a aperceber-se disso e, logo no Verão de 74, quaisquer dos seus cartazes apelando à participação em manifestações apareciam assinados por mais de uma meia dúzia de siglas. Evidentemente que mais não eram do que extensões do próprio partido. Mas o que lhes interessava era dar a impressão que, por detrás de um extenso elenco de siglas, estava um enorme movimento popular.

Citando de memória uma convocatória para um comício nessa época teria uma meia dúzia de siglas: PCP, MDP/CDE, UJC (União da Juventude Comunista), UEC (União dos Estudantes Comunistas), MJT (Movimento da Juventude Trabalhadora), MDM (Movimento Democrático das Mulheres), MDJ (Movimento Democrático da Juventude) e CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses).

O PS, ainda incipiente e ingénuo, volta e meio era enrolado e lá emprestava o nome para a convocatória porque concordava com as razões expressas no cartaz para a realização do comício. O PCP ainda se podia permitir sonhar com a unidade da esquerda. Estava-se em Agosto de 1974. Spínola ainda era Presidente da República. Ainda faltavam oito meses para que a contabilidade dos votos (e dos deputados eleitos) substituísse a contabilidade das siglas…

* Na verdade, uma boa parte dessas siglas foram importadas da nomenclatura NATO (norte-americana).

24 agosto 2006

A GNR EM TIMOR

Aparentemente, em Timor tem existido no terreno a cooperação entre forças policiais que tem faltado nas chancelarias a propósito da condução do seu destino. Numa notícia de um jornal australiano, apesar do título, relata-se como as forças da GNR foram chamadas a evacuar um destacamento policial australiano que se viu envolvido num confronto com 200 manifestantes timorenses que lhes atiravam pedras, tendo ferido, ainda que ligeiramente, alguns polícias.

Poderá ter algum significado o aparecimento duma notícia deste tipo num jornal australiano – dado o pequeno brilharete da prestação das cores nacionais seria uma notícia típica para um jornal português – mas se se confirma que o tipo de conflito existente em Timor é o descrito pela notícia, então percebe-se mais claramente o absurdo constituído pela teimosia australiana na manutenção do enorme dispositivo militar australiano, ao arrepio das opções da ONU*.

Estando excluído o interesse de lidar com os jovens contestatários timorenses à maneira chilena ou argentina (i.e. os jovens desaparecem…), resta ao exército australiano empregar o estilo israelita – do tipo intifada – que, como pudemos observar repetidas pela televisão, não é muito abonatória para a imagem do exército que responde às pedras com balas. Assim, como afirma a ONU, o dispositivo de segurança está saturado de militares inúteis e carente de elementos policiais.

O assunto (Timor) continua embrulhado em Nova Iorque e passou agora para segunda prioridade após o aparecimento da questão do Líbano. Mas todo ele poderia ser muito simplificado se a diplomacia australiana não o tratasse da mesma forma que o faz com os seus outros protectorados da região. Parece não ser apenas Portugal que reage negativamente aquele estilo: a China e a França (que ainda possui interesses na região por causa da Nova Caledónia) mostraram-no no Conselho de Segurança.

Em condições normais, Portugal, antiga potência colonizadora, nunca se poderia medir naquela região com a Austrália. Esta pela sua conduta, que se permite ter por causa dos apoios que recolhe do seu lado, também colheu as suas antipatias e alguns países preferem esconder-se (Indonésia? China?) por detrás de quem estará melhor colocado para fazer face à Austrália: Portugal. É esta circunstância excepcional que nos torna algo importantes do outro lado do mundo.

Mas isso há-de passar. Mas, por agora, somos um pouco como aquele puto franzino do liceu que é respeitado por causa dos matulões com quem se dá…

* Segundo as opções da ONU, o dispositivo de segurança em Timor-Leste assentaria na redução da componente militar para um pequeno batalhão (350 efectivos) e pelo reforço da componente policial para 1.600 efectivos. A proporção entre militares e policias no contingente australiano ali destacado é a inversa a esta.

23 agosto 2006

QUEM SEMEIA VENTOS…

Não tenho condições para duvidar da seriedade das causas evocadas pelo movimento Greenpeace. Contudo, tenho pouca simpatia pelas formas espectaculares – devidamente apropriadas para a cobertura mediática – como a organização lhes dá relevo.

Escolhem-se acções que são de um pacifismo aparente, mas que acabam por se vir a revelar extremamente violentas quando se procura neutralizá-las, e tudo isso acontece para benefício das imagens televisivas – os activistas amarram-se a comboios que transportam material radioactivo, abordam baleeiros em alto mar ou perturbam as suas actividades de caça, etc.

Também se afigura muita incómoda a geografia das várias causas que a organização pretende defender, onde é patente uma cobertura verdadeiramente mundial (França, Japão, Brasil, Canadá, Alemanha, etc.), apenas com a única ressalva de não haver qualquer causa de vulto que esteja relacionada com interesses dos Estados Unidos… E custa-me a acreditar que não exista nenhuma causa relevante no país responsável (dados da ONU) por 20 a 25% da poluição mundial.

Em suma, já se percebeu que a organização não me é simpática. E é com um certo sorriso de troça irónica que os vejo incomodados pelos pescadores de atum franceses, recorrendo precisamente aos mesmos métodos que o Greenpeace ajudou a difundir:

Em vez de ser o Rainbow-Warrior II (um dos barcos da organização) a perturbar os atuneiros na pesca do atum, calhou a vez de passar na televisão os atuneiros a bloquearem o Rainbow-Warrior II para o impedir de acostar a Marselha…

Se for pelos métodos empregues, nada os distingue e estão muito bem uns para os outros!

DEMOCRACIA AFRICANA

É patente que, ao contrário do que as grandes potências ocidentais às vezes nos pretendem fazer crer (os Estados Unidos no Iraque, por exemplo), a existência da democracia não se cinge à realização de um acto eleitoral, mais ou menos livre, mais ou menos honesto, certificado pelo avalista mundial mais prestigiado para essas funções: o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. Um acto eleitoral é um primeiro passo necessário para o estabelecimento de uma democracia mas não é, só por si, condição suficiente para se verificar a sua existência.

Para a existência de uma verdadeira democracia, a alternância democrática será o processo que se segue: começa com o partido A no poder e o B na oposição, depois B vence eleições e A passa para a oposição até este ter oportunidade de ganhar as eleições e regressar ao poder relegando B novamente para a oposição. Só quando este ciclo está completo é que se pode assegurar que tanto A como B estão dispostos a conquistar e a ceder o poder através de processos eleitorais democráticos.

O equilíbrio descrito é muito complexo de alcançar. Há sociedades que temos por muito avançadas que parecem demorar a incorporá-lo: o Japão, já tem eleições há mais de cinquenta anos mas sempre teve o mesmo partido no poder (PLD*) e no México, foi o PRI* que venceu as eleições durante mais de 70 anos a fio. A maioria dos países da América Latina sempre teve uma relação difícil com a eleição dos dirigentes pelo voto livre e mesmo a Europa meridional (ver post anterior) padece (ainda que muito menos) do mesmo problema.

Mas África é que é o continente onde os casos de sucesso se contam pelos dedos de uma mão (sendo um dos dedos para nomear Cabo Verde) e por isso é preciso considerar como uma enorme demonstração de boa vontade todos os meios que foram mobilizados pelos países que compõem a MONUC, a EUFOR e a EUPOL** (entre os quais se conta Portugal) para o apoio da realização de eleições presidenciais na República Democrática do Congo.

Depois de uma contagem dos votos que se arrastou por mais de 15 dias, o anúncio dos resultados fez desencadear o desagrado das partes e uma onda de violência, a fazer lembrar os acontecimentos ocorridos em 1992 na vizinha Angola. Também aqui, os partidários do presidente Kabila (que foi o candidato mais bem colocado com 44,81% dos votos) defendem a dispensa da realização da segunda volta, tal como fazia o MPLA em 1992 em Angola, brandindo os 49,57% de José Eduardo dos Santos***.

Muitas vezes, figurativamente, faz-se recair a responsabilidade do sucesso ou insucesso de um acto eleitoral no povo. Ora, do ponto de vista do povo, os actos eleitorais são de uma simplicidade infantil; ele até pode votar segundo critérios étnicos ou religiosos, subvertendo, aparentemente, as concepções ocidentais que acham que só os critérios políticos são válidos para eleições. Mas os resultados aparecem e o desinteresse popular tem sempre uma forma linear de se exprimir: a abstenção.

Os fracassos, como parece estar a tornar-se o caso da República Democrática do Congo e como foram os casos de Angola e de muitos mais sítios, não foram provocados pela maturidade ou falta dela por parte dos povos envolvidos, mas sim por uma falta de disponibilidade das respectivas elites em aceitar as regras da alternância democrática. Para elas, a eleição inicial, livre e supervisionada, confere-lhes o mandato para o exercício discricionário do poder a partir daí.

É defensável que se argumente que é sempre melhor apoiar estes esforços em prol da democracia, mesmo que eles depois não venham a ter seguimento. Para mim, que não partilho dessa visão evangelizadora, tudo depende dos recursos a eles afectos, que parecem não ter sido poucos no caso do Congo, e dos benefícios que esperamos colher. É que todos sabemos que os resultados destas acções dependem muito mais da disposição de quem as recebe do que da boa vontade de quem as pratica.

Os povos africanos já demonstraram repetidas vezes que convivem lindamente (com alegria, mesmo) com eleições democráticas. As elites que os dirigem é que nem por isso... e só muito retorcidamente é que a culpa disso ainda poderá ser dos colonizadores europeus...


* Partido Liberal Democrático e Partido Revolucionário Institucional, respectivamente.

** Acrónimos de missões sob a égide da ONU e da União Europeia para a segurança da realização das eleições presidenciais no Congo.
***Valha a verdade que também ouvi esse mesmo argumento, em benefício de Freitas do Amaral, apresentado por Daniel Proença de Carvalho na televisão no seguimento da apresentação dos resultados primeira volta das eleições presidências de 1986. Os acontecimentos subsequentes demonstraram até que ponto ele estava errado! Será de atribuir as declarações de Proença de Carvalho, inaceitavelmente não democráticas, a uma espécie de embriaguez momentânea, provocada pela vitória eleitoral do seu candidato…

22 agosto 2006

AS ELEIÇÕES Á PORTUGUESA

Sendo o povo português tão avesso a confrontos, não podemos ser uns grandes adeptos de eleições (democráticas ou não) que sejam muito disputadas. A prática do Estado Novo (vem mesmo a calhar este exemplo, depois das efemérides dos 100 anos de Marcello Caetano) de eleições vencidas de antemão, de forma esmagadora e sem quaisquer surpresas, são métodos que parecem enraizar-se na nossa maneira de ser.

Ainda a propósito de Marcello Caetano, da primavera marcelista e das eleições legislativas de 1969, ninguém na altura se pareceu surpreender – com excepção dos próprios – pelo facto da oposição – autorizada a concorrer – não ter conseguido obter um único lugar na nova Assembleia Nacional. Suponho que uma esmagadora maioria de deputados, em vez da unanimidade, não retiraria à Acção Nacional Popular (ANP) a legitimidade para governar…

Una anos mais tarde, em Julho de 1972, lembro-me de ter seguido em directo pela RTP da Assembleia, a reeleição de Américo Thomaz pelo Colégio Eleitoral, numa cerimónia que tinha tanto de pomposa como de falha de interesse, havendo apenas um candidato a concurso. As eleições legislativas de 1973, com a ANP concorrendo sozinha, também carregavam a mesma emoção. Quando ouvi na TV que, na comunidade goesa exilada em Timor, a ANP tinha tido 100% dos votos (...25 em 25), fiquei... surpreendido.

Por causa disso, depois do 25 de Abril ficou-se em Portugal com o trauma de evitar a lista única e disputa eleitoral bocejante. Mesmo os comunistas, que eram normalmente tão amigos das amplas frentes unitárias, fomentavam frequentemente o aparecimento de listas alternativas às suas (fossem do MDP ou de Os Verdes…) nas organizações onde eram hegemónicos, para evitar o aspecto unanimista das eleições do fascismo.

Mas, fora da política, e mais de trinta anos passados sobre o 25 de Abril já voltámos à prática de sempre. Seja para dirigir o condomínio, para a direcção da cooperativa ou do clube de futebol são raríssimas as verdadeiras disputas eleitorais. O futebol é um caso a que vale a pena dar destaque porque também tem sido devidamente destacado pela comunicação social os vários actos eleitorais que têm decorrido a ele respeitantes.

Dentro das disputas dentro dos clubes, a última grande disputa séria ocorreu dentro do Benfica, quando se formou uma ampla coligação para afastar da presidência Vale e Azevedo (2000). Entretanto, Pinto da Costa, presidente do FC Porto desde 1982 e sucessivamente reeleito, já bateu o recorde de Américo Thomaz (16 anos) e mesmo de Óscar Carmona (25 anos). E Valentim Loureiro, no Boavista, transferiu, à coreana, o cargo para o seu filho...

Entretanto, quando Artur Jorge tentou disputar a direcção da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) a Gilberto Madaíl nem o número de assinaturas necessárias para se poder candidatar conseguiu reunir... Quanto à Liga de Futebol, recentemente Hermínio Loureiro foi eleito* numa das cada vez mais tradicionais listas únicas. É desagradável olharmo-nos, e concluirmos que em Portugal a disputa política (ou qualquer outra) muito raramente se trava em e tem a ver com o resultado de eleições.

Não serve de consolo, mas reconheça-se que é um hábito antigo. Já no período da monarquia constitucional (1826-1910), as substituições dos governos normalmente começavam com a queda do governo anterior (normalmente por causas extra-parlamentares), depois um novo governo era formado e era este que convocava e organizava as eleições por forma a que lhe dessem a maioria na Câmara de Deputados. Sem surpresas, portanto, genuínas da nossa maneira de ser…

* Como me lembrou um amigo, as reticências de Luís Filipe Vieira, do Benfica, em votar a lista única, por ela não assegurar a mudança que ele julga necessária ao futebol português, não se transmitiram à lista para a Assembleia, votada favoravelmente por ele, e encabeçada por aquele modelo da renovação do futebol português chamado… Valentim Loureiro.

21 agosto 2006

LUVA BRANCA

Nestes momentos penosos para o estatuto da França no Mundo, é de realçar a tremenda bofetada de luva branca que o presidente Jacques Chirac e o seu executivo estão a receber do seu homólogo norte-americano que os tem defendido dos ataques de políticos e dos comentários menos agradáveis da maioria da imprensa de referência norte-americana. É o próprio jornal Le Monde, uma espécie de porta-voz gaulês em tempos de crise de imagem, que acaba por fazer o reconhecimento embatucado deste gesto aparente de cavalheirismo protagonizado pelo rancheiro labrego do Texas…
Chapeau, Monsieur Bush!!...

BOTAS NO TERRENO

Agora que, quanto ao Líbano e às botas no terreno, já se percebeu que os intelectuais da nossa e de outras praças afinal só usam sapatos e que os militares que efectivamente as usam, querem que lhes expliquem muito bem explicadinho em que condições é que irão desempenhar a sua missão, conclui-se que o problema entre Israel e o Líbano voltou praticamente ao ponto zero.

A diplomacia francesa, com uma verdadeira habilidade de comerciante levantino, aldrabando um dos lados e dando a volta ao outro, excedeu-se numa arte que é atribuída originalmente aos fenícios, longínquos antepassados dos libaneses: a arte de vigarizar os parceiros. E a proeza foi de vulto, porque tanto libaneses como israelitas são reconhecidos especialistas na matéria!

Decididamente o Conselho de Segurança da ONU anda a ficar muito mal frequentado… E agora? Continuando tudo como está – o exército libanês fingindo que ocupa, o israelita fingindo que recua, o da ONU fingindo que desembarca e o Hezbollah nem fingindo que desarma – Israel está na contigência de ter de ir a jogo para que não se fique sob a impressão acabrunhante de que sofreu uma derrota devastadora.

Israel tem-se deixado enredar por discursos que depois condicionam a sua liberdade de acção. Fê-lo quando invocou o rapto de dois soldados para atacar o Líbano. A razão era tão inverosímil que conspurcou a credibilidade israelita a partir daí. Desta vez, Israel está preso à imagem que promoveu de quem teve de ser quase manietado (Segurem-me! Senão…) para aceitar as condições de cessar-fogo assinadas em Nova Iorque.

Por aquela lógica, o incumprimento das condições de cessar-fogo acordadas seria a razão próxima para que Israel retomasse a iniciativa no Líbano para fazer o que originalmente pretendia ali fazer. Ir a jogo, neste caso, só poderá ser o reacender o conflito a partir de um pretexto (mais plausível desta vez) para adquirir alguma vantagem militar no terreno e justificar ainda o seu estatuto de potência militar indisputada na região.

Mas aquela seria a reacção racional, se o governo e a sociedade israelitas não estivessem divididos por um intenso debate interno. Mas, não haja dúvidas que, se se mantiver na sua essência esta situação actual, sustido militarmente pelo Hezbollah e aldrabado diplomaticamente pela França, Israel corre o risco de receber uma verdadeira humilhação internacional.

BONNIE & CLYDE

Há que reconhecer ao blogue Causa Nossa a característica única na blogosfera portuguesa dos seus dois autores mais prolixos se parecerem de certa maneira com a dupla Bonnie & Clyde. A analogia com o famoso casal de gangsters consiste em que aquela dupla principal (Bonnie Gomes e Clyde Moreira) também parecem andar sempre com o dedo ligeiro no gatilho da metralhadora para a produção de posts semelhantes entre si, o par evidenciando um raciocínio desesperadamente faccioso.

A última proeza de Bonnie Gomes consiste num rebuscado poste a respeito de Timor em que consegue alcançar a proeza de, saltando por cima do interveniente (e culpado) central da sua história, a Austrália, e, como que em estilo de praticante ágil de triplo salto, as culpas vão aterrar nos países a que lhe interessa dar destaque: os Estados Unidos e o Reino Unido.

Os culpados são culpados por apoiarem a Austrália e da leitura do poste quase se extrai que a Austrália parece ser a menos culpada do incidente, porque, mesmo sendo ela a proceder mal (na opinião da Ana Gomes) apenas se deixa apoiar pelos efectivos culpados (os Estados Unidos e o Reino Unido). E a sua culpa, pasme-se, é que apesar de serem nosso aliados, parecem gostar mais da Austrália do que de Portugal…

Este raciocínio, que beira o domínio da psicologia juvenil sobre os ciúmes, é capaz de nos levar a especulações sobre o passado da própria Ana Gomes, que possivelmente foi uma adolescente conflituosa na procura de afectos… Mais a sério e em retrospectiva, pensando nos cargos já ocupados por Ana Gomes, é completamente arrepiante que alguém com responsabilidades na diplomacia portuguesa possa ter analisado problemas de relações internacionais sob essa perspectiva mais... afectiva.

Perante um post destes, há ainda quem, indignando-se, o tente rebater seriamente. Reconheço-lhe o mérito.

OS ÁRABES RICOS

As histórias das arábias referiam-se, nos tempos antigos, à prosperidade das grandes metrópoles do Islão como são os casos de Damasco, de Bagdade ou do Cairo. A partir do século XX essas histórias das arábias mudaram de local e de protagonistas, quer para os árabes nómadas da península Arábica, quer para os pescadores do litoral norte da península, que antes retiravam a sua subsistência da pesca no golfo Pérsico.

Ao contrário de outros países onde houve lugar à descoberta de importantes jazidas de petróleo, mas onde a população era (e é) numerosa (como o Irão ou o Iraque), os países da península eram todos escassamente povoados (ainda hoje a densidade populacional média é sete vezes inferior à portuguesa) e os benefícios dos rendimentos do petróleo tiveram um impacto profundo na população local.

Há o aspecto anedótico das esposas do Emir do Koweit que, tendo alugado um Boeing 747 para ir fazer compras a Paris, regressaram em dois, pois precisaram de um avião suplementar para trazer as compras… Mas há também o aspecto (único no mundo) da cidade do Dubai nos Emiratos Árabes, com uma população de 850.000 pessoas, ter como fonte exclusiva de água potável, a água do mar dessalinizada.

O conjunto dos países da península (com excepção do Yemen, que tem muita gente, não tem petróleo e é uma republica…) agrupou-se em 1981 numa espécie de clube selecto de seis países monárquicos chamado Conselho de Cooperação para os Países Árabes do Golfo. Compõem-no a Arábia Saudita, Omã, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos, uma federação de 7 emiratos. A bandeira da organização ornamenta este post.

Em conjunto, o PIB dos seis países da organização equivalerá sensivelmente ao do Irão, para cerca de metade da população, e tanto a produção petrolífera como o nível de reservas actuais do conjunto corresponderá ao quádruplo dos do seu grande vizinho do norte. Mas o clube – cujo membro dominante é evidentemente a Arábia Saudita (75% da população total) – também tem as suas ameaças.

Há membros que já estão a esgotar as suas reservas de petróleo. É o caso do Bahrain. Embora ainda continue por mais algum tempo (cerca de 10 anos) a extracção de gás natural e tenha havido uma diversificação da economia antevendo o esgotamento dessas fontes de rendimento é sempre arriscado prever as consequências económicas e sociais do fim destes ciclos de prosperidade.
Seguir-se-á Oman, dentro de 20 a 25 anos. E depois será a vez do Qatar. Mas aquele problema que consideramos principal, e que poderá constituir uma verdadeira ameaça para o bem-estar dos árabes ricos está no presente das sociedades dos vários países da organização: cerca de 40% de toda população (36,7 milhões em Julho de 2006, segundo os dados da CIA) é composta por imigrantes.

Os imigrantes são um conjunto bastante heterogéneo. Há uma apreciável quantidade composta por imigrantes sazonais sozinhos (nos Emiratos Árabes há três homens para cada mulher adulta) que são fortemente dissuadidos de ali procurarem estabelecer residência definitiva (as políticas poderão variar de país para país e conforme a naturalidade do imigrante mas estamos a falar do padrão dominante).

Quanto à origem dos imigrantes, há que considerar em primeiro lugar, o conjunto de quadros norte-americanos, europeus e japoneses (certamente virá a haver chineses no futuro…) que estão encarregues de supervisionar na origem os processos de extracção do petróleo que os seus países precisam. São poucos e a esmagadora maioria não faz tenção de ficar, por isso não inquietam as autoridades.

Depois, há que considerar a imigração árabe qualificada (nomeadamente egípcia, libanesa e também palestiniana) que, aparentemente é fácil de integrar, mas pode ser potencialmente perigosa, por estar habituada a níveis superiores de intervenção política, estranhos às sociedades locais. Uma boa fracção dos intervenientes nos atentados de 11 de Setembro, discípulos de bin Laden, pertencia a este grupo.

A ocupação dos postos de quadros médios e inferiores e de trabalho não qualificado tem sido disputada entre oriundos dos países árabes e de países asiáticos. A vantagem sociológica da contratação dos primeiros parece ser compensada com a vantagem económica de recorrer aos segundos. Mesmo assim é nítido que a preferência vai para imigrantes oriundos de países muçulmanos da Ásia como o Paquistão, a Indonésia ou o Bangladesh.

Mesmo assim, estas sociedades prósperas do petróleo devem-se contar entre as mais cosmopolitas da actualidade, onde aos países já mencionados, há que adicionar ainda naturais da Índia, das Filipinas, do Sri Lanka ou do Irão, para não falar dos países árabes adjacentes como o Iraque, Yemen, Síria ou Jordânia, a fazer lembrar a diversidade tradicional dos Estados Unidos e a menos tradicional da Europa.

Por não terem a atenção mediática e por não existirem as liberdades políticas do Ocidente, nomeadamente a de expressão, não se pense que tudo esteja bem nos países árabes ricos. A técnica de impedir os imigrantes indesejados de se fixarem já teve os fracassos suficientes – na Alemanha, com os Gastarbeiter*, ou na África do Sul, com os bantustões** – para se perceber que não tem sucesso a longo prazo.

Outro dia, penso que terá Vasco Pulido Valente a perguntar porque razão no Ocidente não se leva a sério a ameaça do terrorismo islâmico com a mesma seriedade com que outrora se levou a do comunismo, durante a guerra-fria. Arrisco a resposta que talvez a sociedade ideal de bin Laden, não sendo deste mundo, não seja suficientemente tangível para que as pessoas a levem a sério, como acontecia com a União Soviética.

Mas o Islão teve e está a ter, com o exemplo destes países, uma oportunidade de mostrar as sociedades que a sua civilização pode criar, quando provida (!) de recursos. Suspeito que essa sociedade, quando vista da perspectiva de – por exemplo – um paquistanês emigrado em Riade, é capaz de não lhe deve parecer assim tão mais atractiva – ideologias à parte – do que parecerá a um seu compatriota a sociedade de Londres.

É questão de nos perguntarmos se os países árabes ricos também não correm o risco de vir a ter, à sua maneira, o seu choque de civilizações

* Traduzida literalmente, a expressão quer dizer trabalhador convidado. Convidado porque não se destinava a ficar na Alemanha para sempre, bem entendido...
** Os bantustões eram países artificiais criados pelo regime sul-africano de supremacia branca. A maioria dos trabalhadores eram nacionais desses países hipotéticos e podiam ser expulsos da África do Sul para o seu país em caso de conveniência...

NOTA: Os dados numéricos foram retirados do CIA Factbook.

20 agosto 2006

PONTO DE VISTA

Dizem os ditados antigos que mais vale cair em graça do que ser engraçado. Mas, porque o ditado é antigo, precisa da actualização das novas tecnologias, onde o cair em graça é substituído pelo aparecer na televisão. Ontem dediquei um post a um texto deplorável da autoria de alguém com muita notoriedade e que costuma aparecer na televisão.

Hoje quero dedicar este post a um texto formidável da autoria de alguém com pouca notoriedade e que não me recordo de aparecer na televisão: Jorge Almeida Fernandes, jornalista do Público, que assina hoje (dia 20) uma excelente análise sobre o debate que se está a travar actualmente em Israel (p. 23) (link não disponível) na sequência das tréguas e do impasse alcançado no Líbano.

Julgo ser perceptível uma certa inclinação do autor por Israel, mas isso até parece ser utilizado em benefício da análise que é feita, uma vez que se consegue encontrar um certo grau de empatia sua com os dilemas com que os israelitas se defrontam (tenho as mais sérias dúvidas que o autor pudesse escrever uma análise assim tão íntima em relação às perspectivas da parte contrária...).

É também um exemplo concreto de como a eventual simpatia por uma das partes não se revela prejudicial para a objectividade com que é analisada a situação, antes é usada em benefício da qualidade do artigo. Para mais, a análise é feita em redor de protagonistas e analistas do conflito, o que lhe confere um lado humano, que tem estado normalmente ausente de outras análises mais radicais - nos dois sentidos.

Um dos melhores elogios que se pode fazer aos artigos da imprensa nos dias que correm é considerá-los merecedores de tradução para inglês. Para que a sua leitura seja mais vasta. Este é indiscutivelmente um desses casos. Mesmo neste mundo globalizado, por muito poliglotas que sejamos, por muito tempo disponível, só podemos especular sobre a quantidade dos textos de qualidade que diariamente nos escapam.

19 agosto 2006

UM FILÓSOFO DE QUATRO ESTRELAS


Lembro-me de ter lido, num daqueles antigos almanaques mundiais, que descreviam o Mundo e as relações internacionais sobre o mais estrito ponto de vista comunista (apesar de eufemisticamente designado por Almanaque do Terceiro Mundo), numa entrada que pretendia resumir a história da Coreia, a descrição da invasão militar que a Coreia do Norte fez à Coreia do Sul começando assim: Em 1950, veio a Guerra… Era como se a guerra tivesse chegado tipo chuva ou qualquer outro fenómeno meteorológico e a Coreia do Norte não tivesse tido nada a haver com o assunto…

Terá sido talvez por ler almanaques daqueles a mais quando era pequenino que Bernardino Soares ainda hoje anda com aquelas dúvidas (que nunca nos esclareceu) sobre a natureza democrática do regime norte-coreano. Parece ser do socialismo científico que os parentes próximos sejam os mais habilitados a ocupar os cargos deixados vagos por grandes líderes, como aconteceu na Coreia do Norte, está a acontecer em Cuba e será talvez um inaceitável desvio de direita do PCP a justificação para que Ana Cunhal não tenha ocupado o lugar que é hoje de Jerónimo de Sousa.

Falando de alguém que diz não gostar deles, mas que adora estudá-los (aos comunistas), atente-se agora, para comparar, a esta preciosidade composta por dois trechos de um mesmo texto, separados apenas por um parágrafo:

(…) ou essa força impede os ataques contra o território de Israel e favorece um diálogo para a paz, enfraquecendo a actuação dos grupos que pretendem exterminar Israel, ou constituirá um falhanço da ONU e da “comunidade internacional”. Tudo indica que poderá verificar-se a segunda hipótese, o que levará Israel à guerra de novo (…)

Mas convém não ter ilusões, o mandato das tropas da ONU só será eficaz se estas estiverem dispostas a actuar militarmente contra quem tomar a iniciativa de violar o cessar-fogo, e isso vai significar agir contra o Hezbollah. Em bom rigor, também significaria agir contra Israel, mas parece-me pouco provável que o problema seja essa, pelo menos em teoria. Na prática, situações complexas podem surgir, em particular porque Israel aceita a resolução com ressalva do direito de resposta, (…)

Percebe-se que José Pacheco Pereira (é ele o autor do texto que pode ser aqui lido na totalidade) tenha as suas simpatias no conflito. Não é nenhuma novidade o seu alinhamento. Qualquer opinião favorecendo Israel na disputa sobre quem ganhou esta Guerra entre Israel e o Hezbollah é defensável ainda que suspeite que tenha de ser um pouco rebuscada. A sua, apesar de ter sido objecto de troça, facto que parece tê-lo aborrecido, até pode ser ainda mais rebuscada, o que não pode é ser feita daquela forma excessivamente distorcida – a fazer lembrar exactamente o estilo da propaganda comunista que acima descrevi - com que o faz:

Porque as forças da ONU não poderão ser uma versão suave do exército israelita, enviadas para o Líbano com o encargo de proteger e ajudar Israel a fazer aquilo que ele próprio não conseguiu fazer – nomeadamente desarmar o Hezbollah. Porque existem hipóteses sérias de qualquer das duas partes vir a romper o cessar-fogo – Israel já o fez hoje - e não adianta disfarçar as violações do lado israelita por detrás do eufemismo situações complexas. Ou porque a Realpolitik, que José Pacheco Pereira reconhece nortear os dois contendores, também é o fio condutor das decisões dos tais países da União Europeia dispostos (?) a enviar tropas para o terreno, que por isso duvidosamente se arriscarão a ter baixas militares por causa da causa do Médio Oriente.

Ninguém pediu a José Pacheco Pereira que presidisse a um julgamento imparcial da disputa mas esperaria ver dele um posicionamento que fosse melhor fundamentado e, talvez por causa disso, menos desequilibrado. Já foi tempo em que era típica a caricatura do general belicista, do falcão sedento de glória, à custa do sacrifício dos seus subordinados. Hoje, que os generais parecem ser mais civilizados, parece ser entre os civis (entre os neoconservadores, por exemplo) que se descobrem os falcões mais assanhados. E convém frisar que, ridículo por ridículo, uma imagem ainda mais ridícula do que a dos generais à volta dos mapas e longe das realidades da guerra, será esta de filósofos e historiadores em especulações abstractas sobre a necessidade do emprego da força militar e do recurso à violência.

Quem preconiza, como José Pacheco Pereira, um envolvimento dos europeus nos conflitos do Médio Oriente nem que seja para ter uma prova de vida e receber um banho de realidade precisa, definitivamente e na minha opinião, de apresentar outras razões que sejam mais substantivas, além de que o comentário parece conter uma indicação forte que foi feito por alguém que nem sequer suspeita o que será receber um banho de guerra na realidade...

DA ORIGEM DOS OVNIS À RECONSTRUÇÃO DO LÍBANO

Em toda a polémica que rodeia o fenómeno dos famosos Objectos Voadores Não Identificados (OVNIS), sempre me deixou surpreso pelos terrenos onde se disputava a polémica: se existiriam ou não e, à falta de provas materiais para sustentar esse fogo sagrado, a descomunal teoria da conspiração com que os defensores da sua existência têm mantido a sua causa.

O que me surpreende nem é a própria questão nuclear em si (se existem ou não), é a falta de imaginação dos grupos que argumentam pela existência de OVNIS têm demonstrado na defesa da causa. Parece que entre as características assentes dos tripulantes dos tais ovnis se contam uma origem extraterrestre, um aspecto humanóide, uma tecnologia avançada, uma enorme discrição e uma bondade imensa para com a nossa espécie.

Não me parece um prodígio de imaginação especular que os referidos tripulantes poderão ser viajantes terrestres do futuro que, depois de dominaram a tecnologia das viagens temporais, nos visitassem. Com essa hipótese, tudo se explicaria: o aspecto humanóide, a tecnologia avançada, a discrição das suas visitas – não querem alterar o seu passado – e a sua bondade – é a sua espécie.

Estivesse esse debate lançado com algumas bases científicas e esta hipótese (embora nunca a tenha visto, não tenho qualquer pretensão de ter sido o primeiro a pensar nela…) seria discutida com toda a seriedade. Mas presumo que a esmagadora maioria dos que se interessam pelo fenómeno encaram-no pelo lado religioso, para quem a questão da origem extraterrestre do mesmo é fundamental.

Em suma, para efeitos de propaganda mediática, se não fossem extraterrestres, se não fossem seres superiores com poderes (tecnológicos) sobrenaturais e se não houver a vitimação de uma enorme conspiração governamental para os esconder do público, o fenómeno dos OVNIS nunca gerará a religiosidade necessária para provocar as adesões à sua causa.

Ontem, também em termos de propaganda mediática, assistimos a algo de muito parecido a isso, quando o Hezbollah organizou uma reportagem televisiva devidamente filmada da tradicional forma acrítica pela equipa de reportagem, mostrando a forma eficiente como já está a prestar o seu apoio aos desalojados pelo conflito, concedendo-lhes subsídios à sua reinstalação.

O subsidiado (um espontâneo que acabou o discurso a agradecer e a encomendar Nasrallah…), depois de nos informar que se tinha inscrito há dois dias, aparece a receber um maço de notas verdes (dólares norte-americanos…) que a locução nos informa corresponder a cerca de 10.000 euros e que se destinam ao aluguer de um apartamento em Beirute, cujo valor mensal médio ronda os 230 dólares*.

Um dos responsáveis (presumivelmente pelo sector financeiro) do Hezbollah, depois entrevistado, afirmava confiante para a câmara, que o dinheiro não era problema (seria por isso que pagariam o subsídio todo logo ao princípio e em notas americanas?), enquanto a reportagem continua a mostrar um apartamento onde se distribuía dinheiro com a mesma sofisticação tecnológica da nossa saudosa Dona Branca…

Reconheço que é muito difícil para o Hezbollah dar relevância televisiva à concessão de subsídios. Normalmente, trata-se de um processo chato, burocrático, discreto, vagaroso, com muito papel e pouco que valha a pena filmar – a não ser quando algum agricultor mais atrevido converte o seu subsídio num jeep mais vistoso! Ali, fez-se o que se pôde, usando os maços de notas americanas – claro que as notas libanesas ninguém conhece…

Mas, tal como o problema dos OVNIS sem origem extraterrestre, sem a cobertura televisiva para o Ocidente da magnanimidade do Hezbollah, esta não terá servido para nada. E aqui acaba a analogia: o assunto dos OVNIS é uma daquelas trivialidades típicas das notícias da época de verão; o do Hezbollah não, e, ao assistir à transmissão da reportagem de ontem, parece que quem lida com as notícias não sabe dar pela diferença…

* Se fosse para levar a reportagem a sério, então, como consequência, o preço médio do aluguer de um apartamento em Beirute iria disparar, tanto por escassez da oferta como por pressão da procura de casas para alugar, havendo tanta gente com os bolsos cheios de dólares à sua procura.

ADENDA: Uma boa prova do equilíbrio (de saudar) do Público em relação à questão libanesa, apesar do engajamento ardente do seu director pelo lado israelita, comprova-se na página 14 de hoje (dia 19) do jornal. Lá aparece a versão para jornal (não assinada) da reportagem televisiva comentada neste poste.

18 agosto 2006

O PONTIFICADO DE MARCELLO CAETANO

Ontem, por causa de um programa de televisão, lembrei-me de um outro episódio, também ali passado, mas já há 24 anos, quando da primeira visita de João Paulo II a Portugal em 1982. Durante um dos enormes períodos que a RTP dedicou ao evento, houve oportunidade para o padre convidado para comentar as cerimónias – cujo nome já não recordo – produzir apreciações sobre os papas antecessores de João Paulo II.

Recuando para trás no tempo, desde as trivialidades - o papa do sorriso - a respeito do imediato antecessor, João Paulo I, que foi papa apenas por 33 dias, todos os outros antecessores seguintes, Paulo VI (1963-78), João XXIII (1958-63), Pio XII (1939-58) haviam sido, na opinião do comentador, indiscutíveis casos de tremendo sucesso, numa linha de continuidade, mesmo quando o seu pontificado havia sido uma inflexão notória na direcção da Igreja em relação à do seu predecessor (caso de João XXIII em relação a Pio XII).

Eu estava perplexo com as distorções que a narrativa continha, até me aperceber daquilo que era óbvio: o comentador estava comprado! Nunca se poderia esperar que um padre, sujeito às regras disciplinares, produzisse em público uma análise objectiva sua do desempenho dos antecessores do actual pontífice. Não tinha liberdade de o fazer. Nesses tempos de guerra-fria, não eram só os comunistas que ficavam desconfortáveis na cadeira quando tinham de fazer em público apreciações sobre os tempos de Staline…

Terá sido esse o episódio que me levou a associar sempre a religião católica quando leio certo tipo de histórias em que se encadeiam e sucedem protagonistas que são sempre de grande qualidade, mesmo quando as políticas prosseguidas são quase completamente antagónicas (em Portugal, é o caso de D. Afonso V e de D. João II, por exemplo). É o estilo que encontramos entre nós em Joaquim Veríssimo Serrão, na sua História de Portugal, ou em Ricardo de la Cierva, na sua Historia Total de España, por exemplo.

Mas foi defronte de um televisor que ontem me lembrei do padre que se esforçava por arranjar apenas aspectos positivos ao pontificado de Pio XII, ao associá-lo aos responsáveis pela elaboração dos textos do programa transmitido ontem pela RTP por ocasião do 100º aniversário do nascimento de Marcello Caetano. Ao longo do documentário a dulcificação do mesmo foi tal, que as palavras mais agrestes que se ouviram vieram do próprio Marcello e em discurso directo, por ocasião das suas Conversas em Família, desmentido a pessoa bondosa e benigna que a locução off pretendia descrever.

Como qualquer perdedor na arena política, ainda para mais tendo perdido o poder de forma violenta, a pessoa e a obra de Marcello acabaram por ser muito maltratadas no período que imediatamente se seguiu. Já sendo tempo de olhar para aquele período com distanciamento histórico, também não vale a pena tentar fazer agora uma análise em forma de antítese de tudo o que foi dito até agora sobre ele. O contraste com o seu antecessor torna a sua figura mais simpática, mas é com o Mundo de então que o rodeia (o final dos anos 60) que Marcello deve ser comparado.

E aí, o veredicto é severo: as suas Conversas em Família, por exemplo, uma novidade do Portugal de então, copiam as Conversas à Lareira do Presidente Roosevelt, na rádio americana, criadas 30 anos antes… E, sobretudo, é preciso não esquecer que Marcello ficou para a História como um derrotado, porque não conseguiu realizar aquilo a que se tinha proposto. Falhou na realização de uma transição do regime. Como, por exemplo e em circunstâncias diferentes, veio a acontecer em Espanha com Carlos Arias Navarro, mas não veio a acontecer com Adolfo Suarez.

Marcello Caetano tem, indiscutivelmente, o seu lugar na História de Portugal. Nem tão sombrio como as narrativas das comissões anti-fascistas, nem tão suave quanto a do documentário de ontem da RTP. Na minha opinião, este deveria ter sido muito mais equilibrado. Com aquele equilíbrio e distanciamento que censura D. João V e os seus conselheiros por terem sido uma espécie de Guterres e equipa na sua época: malbarataram uma conjuntura muito favorável por falta de coragem política para proceder às reformas que D. José e o Marquês de Pombal vieram a fazer…

Nesta última comparação reconheço que há um desejo incorporado: que Guterres já faça parte da História de Portugal e não se lembre de reaparecer...