30 junho 2006

A NOVA LEI DE TALIÃO

Nos idos anos 80, houve uma ocasião em que, na anarquia reinante no Líbano, onde as facções guerrilheiras se tinham habituado a raptar ocidentais – de preferência anglo-saxónicos – para se financiarem e ganharem notoriedade, houve um desses grupos, possivelmente mais imaginativo e inovador que se lembrou de raptar um diplomata soviético, talvez para experimentar novos mercados.

Reza a história subterrânea da espionagem que, naquelas circunstâncias, onde nunca era difícil saber quem tinha sido o autor da proeza mas onde era quase impossível localizar o paradeiro do refém, os serviços secretos soviéticos adoptaram uma técnica nova, também experimental, enviando diária e consecutivamente ao líder daquele grupo mais inovador as cabeças dos seus adjuntos, até este proceder à libertação do diplomata raptado.

Numa lógica de argumento de filme de acção, daqueles com Steven Seagal ou Jean Claude Van Damme (não totalmente descabida no ambiente que se vivia no Líbano daquela época), o terrorista chefe, teria ficado aterrorizado com a execução dos seus adjuntos e, cobarde, libertou o refém. Não se sabe se chegou a haver aquela cena final de pancadaria, o bom contra o mau com muitos golpes de karate

Mais sobriamente, o que os soviéticos transmitiram ao tal líder era que – porque a União Soviética era uma ditadura – eles eram imunes às pressões da opinião publica doméstica que inibia os seus colegas ocidentais e que seria a cabeça dele que responderia pela do diplomata raptado. Se o mandasse executar, a União Soviética poderia viver com isso, mas o líder terrorista garantidamente não.

Será talvez a recuperação dessa espécie de impermeabilidade à opinião publica (russa, no caso), ou a manutenção da reputação de dureza granjeada no Médio Oriente naquela época, que levou o presidente Putin a anunciar publicamente as suas directivas aos seus serviços de segurança (FSB, herdeiro do famoso KGB), estabelecendo penas de talião (retribuição) aos responsáveis pela execução recente de três funcionários russos no Iraque.

Mas parece que é Israel que se apresta a criar doutrina nova sobre todo este assunto de reféns, e uma lei de talião mais elástica, ao propor-se executar o primeiro-ministro da autoridade palestiniana à troca de um soldado israelita raptado. Mesmo admitindo que Israel, com os conhecimentos da sua excelente contra-espionagem, saiba o que está a fazer, parece que existe uma certa falha de proporcionalidade na retaliação encontrada.

É uma atitude que, mesmo que tenha um acolhimento favorável na opinião publica doméstica, é capaz de não compensar pelos impactos negativos que possa gerar nas opiniões publicas espalhadas pelo resto do mundo. Por exemplo, no Ocidente cristão, que já parece convencido que o mundo muçulmano é algo alienígena, também parece que se forma cada vez mais a opinião que o estado judeu também o é.

LUCKY LUKE – 2


Em cima, poderão ver a versão remodelada e higiénica de Lucky Luke (a comparar com a original - em baixo), onde a beata que atravessou a maioria das suas aventuras esquecida no canto da boca acabou por dar lugar ao pauzinho que não lhe faz tanto mal à saúde.

Eu até posso perceber a bondade da intenção do gesto, mas, não sendo precisamente a mesmo coisa, também vejo ali as bases da argumentação de quem se pode vir a propor, por pudor, a arranjar uns calções ao Pato Donald, ou a censurar as cenas do Tintin em que o Capitão Haddock aparece bêbado, por mau exemplo.

Há algo de revisionismo saloio nestas histórias que divertiram várias gerações em que a última pretende incutir à força às personagens os seus valores mais recentes. Será de censurar a história Billy the Kid onde, na capa e na história, Lucky Luke aparece a açoitar Billy, gesto que, todos sabemos hoje, deixa as crianças traumatizadas?

Nota – Os meus agradecimentos a este blogue, pela imagem e pela ideia.

LUCKY LUKE

Torna-se engraçado quando se descobre que é uma contracapa de álbum de BD que se torna o símbolo da constância e da continuidade de um herói. A contracapa é essa que aí está acima, onde o herói, evidentemente Lucky Luke, é um atirador tão rápido que dispara mais rápido que a própria sombra.

É aquela mesma contracapa, constante em todos os meus álbuns do herói e apesar de um pormenor nela de que falarei mais adiante, que, na minha opinião, faz o verdadeiro traço de ligação entre os mais de 50 anos da história de Lucky Luke (1949-2001), que se veio a tornar uma verdadeira legenda da ideia europeia do Oeste americano.

E ao longo desses 50 anos assistiu-se, no cinema, ao apogeu do género western puro nos anos 50 (Johnny Guitar), à sua reciclagem europeizada (O Bom, o Mau e o Vilão) nos anos 60, à saturação e desaparição do género nos anos 70, a regressos pontuais com algum sucesso nos anos 80 (Silverado) e 90 (Unforgiven) até às versões mais exóticas da actualidade (Brokeback Mountain).

Lucky Luke também foi evoluindo com o tempo e, de uma fase inicial quase infantil – no desenho e nos argumentos – englobando os quatro ou cinco primeiros álbuns (1949-53) passou a uma nova fase, mais elaborada, em que são visíveis os progressos de álbum para álbum (1954-58) nos cinco seguintes. Morris tornou-se um excelente desenhador e um bom contador de histórias.

Depois, esse bom contador de histórias deixou-se de histórias e associou-se a um genial contador delas chamado René Goscinny. E nos vinte anos seguintes, a colaboração entre os dois deu origem à constelação das grandes estrelas que ainda hoje povoam o universo de Lucky Luke: mencione-se apenas Jolly Jumper, Ran Tan Plan e os Dalton, os mais frequentes.

Nesta fase, as histórias de Goscinny já não são propriamente histórias do Oeste. São as histórias imaginadas por Goscinny que decorrem no Oeste por causa de Lucky Luke ser um cow-boy. Simultaneamente, algo de semelhante se estava a passar com Astérix, onde Goscinny passou a aplicar a sua ironia criativa à actualidade através de um cenário da Gália da época da Antiguidade Clássica.

As consequências viram-se – nos dois casos - com a morte prematura, em 1977, aos 51 anos, de René Goscinny. Como aviões em voo, que perderam subitamente os motores, as histórias destes dois grandes heróis da BD franco-belga têm vindo, a partir daí, a perder altitude, planando, procurando manter-se o maior tempo possível no ar, ao mesmo tempo que tentam encontrar o local mais conveniente para aterrar no solo.

Tudo isto aconteceu ao mesmo tempo que a promoção editorial das obras atingiu níveis excelentes de profissionalização, traduzidos em números recordes de vendas. É nesse espírito profissional que o Lucky Luke que atira mais rápido que a própria sombra perde a eterna beata que o enfeitava e para gáudio do correcção política e com as felicitações da Organização Mundial de Saúde a substitui por um foleiro pauzinho.

Recordo-me que, no início da sua aparição em Portugal, um dos argumentos mais fortes para a popularidade deste tipo de BD franco-belga era a qualidade da sua produção artesanal, do próprio desenhador, por contraste com a industrial, de desenhadores profissionais, das produções Disney. E isso era perfeitamente perceptível.

Parece-me que essa diferença já se esbateu completamente, a não ser que nos queiram persuadir que Morris, quando tinha os seus setenta e tal anos, e Uderzo, com os seus actuais setenta e nove, ainda interviessem e intervenham significativamente na produção das obras que saíram e saem assinadas com o seu nome.

Depois de sucessivas desilusões já nem me atrevi a comprar o último álbum de Astérix, assim como já não o fazia com os de Lucky Luke. É pena. Como parece estar para acontecer (bem) com Zinedine Zidane, o jogador francês, o segredo da história de uma grande carreira pode estar na habilidade de se saber acabá-la, com dignidade e a tempo.

Bibliografia
1. La mine d'or de Dick Digger
2. Rodéo
3. Arizona
4. Sous le ciel de l'Ouest
5. Lucky Luke contre Pat Poker
6. Hors-la-loi
7. L'élixir du Dr Doxey
8. Lucky Luke contre Phil Defer
9. Des Rails sur la Prairie
10. Alerte aux Pieds Bleus
Início da colaboração de Goscinny
11. Lucky Luke contre Joss Jamon
12. Les Cousins Dalton
13. Le juge
14. Ruée sur l'Oklahoma
15. L'évasion des Dalton
16. En remontant le Mississippi
17. Sur la piste des Dalton
18. À l'ombre des derricks
19. Les rivaux de Painful Gulch
20. Billy the Kid
21. Les collines noires
22. Les Dalton dans le blizzard
23. Les Dalton courent toujours
24. La Caravane
25. La ville fantôme
26. Les Dalton se rachètent
27. Le vingtième de cavalerie
28. L'escorte
29. Des barbelés sur la prairie
30. Calamity Jane
31. Tortillas pour les Dalton
32. La diligence
33. Le pied-tendre
34. Dalton-City
35. Jesse James
36. Western Circus
37. Canyon Apache
38. Ma Dalton
39. Chasseur de primes
40. Le Grand Duc
41. L'héritage de Ran-Tan-Plan
42. 7 histoires complètes - série 1
43. Le cavalier blanc
44. La guérison des Dalton
45. L'empereur Smith
46. Le fil qui chante
Extra. La ballade des Dalton
Morte de Goscinny
47. Le magot des Dalton
48. Le bandit manchot
49. Sarah Bernhardt
50. La corde du pendu
51. Daisy Town
52. Fingers
53. Le Daily Star
54. La fiancée de Luky Luke
55. La ballade des Dalton et autres histoires
56. Le ranch maudit
57. Nitroglycérine
58. L'alibi
59. Le Pony Express
60. L'amnésie des Dalton
61. Chasse aux fantômes
62. Les Dalton à la noce
63. Le pont sur le Mississipi
64. Belle Star
65. Le Klondike
66. O.K. Corral
67. Marcel Dalton
68. Le prophète
69. L'artiste-peintre
70. La légende de l'ouest

29 junho 2006

SVEN GORAN ERIKSSON

De entre as ficções que considero terem sido mais bem conseguidas, está aquela que costuma atribuir aos ingleses um conjunto de características – como a fleuma ou o fair-play desportivo, por exemplo – que não existem. A revelarem-se representativas, são-no mas apenas nas classes superiores da sua sociedade.

A concretização desta ideia pode ser vista, por exemplo, num sítio tão remoto como um dos últimos livros que li, Crete, de Antony Beevor*, que trata da invasão de Creta pelos alemães em 1941.O autor lembrou-se de destacar individualmente a história de uma dezena de indivíduos participantes. Curiosamente, quase todos eles tinham andado em Oxford ou em Cambridge. Curiosamente, havia lá mais uns 30.000 soldados aliados – que não tinham andado nem em Oxford, nem em Cambridge.

Existe mesmo no idioma inglês uma expressão apropriada, notional, da mesma raiz e muito mais usada que o nosso nocional (de noção, conceptual, abstracto) e que aqui se aplicaria com toda a propriedade, invocando a imagem nocional que os ingleses gostam de transmitir de si próprios aos estrangeiros.

Quanto a isso, não poderei dizer que somos bafejados pela sorte, mas há a oportunidade de, em Portugal, contactarmos com os exemplares que todos os anos nos enviam para o Algarve para podermos fazer uma apreciação independente. E não se pode dizer que se encontre entre aqueles espécimes muita fleuma ou muito fair-play desportivo.

O nocional chá-das-cinco é substituído por um efectivo cerveja-a-toda-a-hora, emborcado por um bebedor que entretanto adquiriu uma cor nova, de paleta, designada por red-lobster (vermelho lagosta) cuja técnica de aquisição exige uma certa habilidade para a exposição solar que permanece um segredo bem guardado pelos súbditos de sua majestade britânica.

Este preâmbulo, a roçar a xenofobia, não foi despoletado pela mais recente guerra de palavras em antecipação ao próximo jogo de futebol Portugal-Inglaterra do Mundial 2006, mas em solidariedade a alguém que continuo a considerar um grande senhor daquele desporto, chamado Sven Goran Eriksson, actualmente treinador da equipa inglesa.

As sacanices que os tablóides britânicos já lhe montaram e que depois denunciaram, procurando forçar a sua saída do lugar de seleccionador nacional da equipa inglesa, foram de uma tal ordem, que, dada a sua continuação no cargo, só me resta inclinar-me perante tal demonstração de profissionalismo diante da baixeza dos golpes.

O que ele afirmou, em recente conferência de imprensa, merece ser realçado, apesar de ser uma evidência: as equipas que jogavam um futebol vistoso já regressaram todas a casa – Costa do Marfim, Gana, Holanda ou Espanha. O que está em disputa no Mundial são os resultados. É por eles que os treinadores - todos - são avaliados.

Dado que já está adquirido que Eriksson não irá renovar a sua ligação à selecção inglesa, e por isso não será fortemente penalizado pela sua eliminação, confesso a minha particular satisfação se Portugal os vencer no próximo Sábado. Nem é só por patriotismo, é pela satisfação de ver calados aqueles broncos arrogantes que nem sabem apreciar devidamente o treinador que têm.

* É um livro que, embora mais fraco do que outros do mesmo autor, se recomenda a quem aprecia o género (a 2ª Guerra Mundial em detalhe) apesar daquele pormenor very british.

28 junho 2006

L de BANAL

O que eu talvez mais admire em Michael Moore não serão as causas pelas quais se bate e pelas quais ganhou tanta notoriedade, mas o facto de, pela sua compleição, vestuário, atitude e boné de beisebol, ser um dos norte-americanos que me parece melhor representar a essência de se ser… norte-americano.

As imagens que eles transmitem ao vivo, seja como turistas no estrangeiro, seja no seu próprio país, são as de um povo que, no geral, têm uma tradição de uma alimentação exageradamente hiper calórica, sem grandes preocupações com a sua apresentação nem com a etiqueta. É essa a população tipo num qualquer documentário, cobrindo, por exemplo, as famílias dos soldados destacados no Iraque.

Intriga-me saber onde escondem a tal população quando passam séries na televisão como os vários CSI, O Sexo e a Cidade, 24, ou Donas de Casa Desesperadas, onde tanto a esmagadora maioria dos actores, como a dos figurantes, são de esbelteza a toda prova e de uma apresentação cuidada.

Suspeito até que essa selecção também exista nas audiências dos programas gravados ao vivo com audiências, como os da Oprah, Dr. Phil ou Jay Leno. Preste-se bem atenção e ver-se-á a dificuldade em encontrar um daqueles americanos tradicionais como nós os gostamos de imaginar, gordos, casuais, de t-shirt.

Toda esta América televisiva, em que se ficciona a imagem que ela transmite de ela mesma, recebeu recentemente um reforço com a transmissão no canal 2: de uma nova série chamada A Letra L, muito propagandeada pelo sucesso que já obteve, e que gira à volta de um grupo alargado de amigas lésbicas de Los Angeles.

Sem pretender ferir susceptibilidades, poder-se-á dizer que o perfil físico de todas as protagonistas estará um pouco distante do que a maioria das pessoas imaginará que se pode encontrar em locais tradicionais de encontro da comunidade lésbica. Ou, posto doutra forma, naquele grupo de 9 actrizes, há tipos físicos femininos que se repetem, e outros que estão especificamente ausentes.

Falando da minhas opinião sobre a série propriamente dita, depois do primeiro impacto do exotismo das relações ou das complicações decorrentes das relações serem exóticas, creio que o interesse pela série começa a esmorecer, sendo o ritmo desse decréscimo definido pelo voyeurismo do espectador. No fim, antecipo que se venha a tornar uma série banal com a curiosidade de haver uma notória ausência de pilas no elenco.

Entre os franceses empregava-se, a propósito de produções como esta, a expressão épater les bourgeois – espantar os burgueses. Agora, que os americanos estão zangados com os franceses, nacionalizaram as batatas fritas e devem ter desistido de ter burgueses, quem é que eles pretendem espantar?

À PORTA DO JUMBO

Sinto, às vezes, que este blogue padece do problema de, abordando tanto assunto distinto, acabar por não o fazer em caso nenhum de uma forma suficientemente aprofundada, mesmo nos casos em que isso seria merecido.

O tópico que hoje aqui me traz seria provavelmente muito melhor tratado por Pedro Magalhães no seu Margens de Erro, mas achei-o suficientemente curioso, pelo menos para leigos, para aqui lhe dar destaque.

A questão é que, nos Estados Unidos (onde então?), deram em adicionar aos métodos tradicionais como sondagens telefónicas, presenciais, painéis, simulações de voto ou freguesias tipo, um método diferente, envolvendo sondagens específicas a consumidores de certos tipos de estabelecimentos – o Wal Mart, neste caso.

Segundo leio, usando esse novo método, é possível antecipar que a vida não se afigura serena para os congressistas republicanos nas eleições marcadas para o final deste ano e que Bush, também aqui, não se encontra lá muito bem cotado nas opiniões de quem costuma comprar nos Wal-Mart.

A pergunta seguinte, seria para saber se existiria algum grupo sociológico onde Bush conseguisse ainda recolher uma maioria de opiniões favoráveis, mas parece que existe um, de facto, mas quem quiser saber mais detalhes pode obtê-los lendo o artigo (em inglês).

Regressando à sociologia dos consumidores dos Wal-Mart, valha a verdade que, empiricamente, já Esteves Cardoso, Lobo Antunes ou, mais modestamente, eu, já de há muito havíamos descoberto uma sociologia específica nos consumidores dos supermercados Continente. Que é distinta da dos do Pingo Doce, mas aparentada com a dos do Jumbo.

Como traços identificativos, um falou dos fatos de treino que vestiam, o outro dos nomes de baptismo das filhas, eu preferi dar relevo à escolha de um artigo que transborde do carrinho (uma vassoura serve perfeitamente) e que, deitadinha, se usa para espetar no traseiro de quem o precede na fila da caixa registadora, incentivando à diminuição do tempo de espera.

Haja financiamento e interesse nisso e já estou a imaginar as equipas dirigidas por Pedro Magalhães, à saída dos supermercados Continente, com uma banca ao lado da do Banco Alimentar contra a Fome a procurar saber as opiniões políticas dos consumidores típicos do local. Poderá ser ali que primeiro se venha a saber uma previsível queda em desgraça de Cavaco ou de Sócrates.

Vão-me desculpar a presunção de tentar adivinhar o teor das respostas obtidas, mas tenho a intuição que, se estiverem aquelas duas bancas juntas, a das sondagens e a do Banco Alimentar, os clientes típicos, com a sua típica generosidade e má-língua, aos pobrezinhos vão dar o arroz e aos políticos "vão-lhes dar o arroz". Mas, não haja dúvida, que deve constituir o tipo de grupo sociológico que os últimos não devem descurar ao aproximarem-se actos eleitorais.

27 junho 2006

MISSING IN ACTION

Uma das facetas menos salientadas dos norte-americanos – pelo menos, de alguns norte-americanos – é a sua ânsia pelos revisionismos históricos, como se houvesse neles um desejo quase infantil, que alguns episódios da história que lhes correram menos bem pudessem ser repetidos com um argumento melhorado.

A escolha da palavra argumento é propositada pois não encontro melhor sítio do que o cinema para descobrir obras de ficção concebidas inteiramente dentro desse objectivo. Havia um filme, cujo nome esqueci*, em que um porta-aviões moderno (dos anos 80) atravessava uma nuvem e regressava à época da 2ª Guerra Mundial, onde a sua aviação se dedicou a zupar alegremente na aviação das forças aeronavais japonesas – considerem-se as diferenças tecnológicas existentes – até finalmente regressarem ao presente.

Com mais sucesso de bilheteira e maior notoriedade, houve também vários filmes de Sylvester Stallone e Chuck Norris, que regressaram ao Vietname para ir buscar os míticos desaparecidos em combate (missing in action - MIA), que os vietnamitas, pérfidos, haviam lá deixado escondidos, só para se vingarem. Trouxeram-nos, coitados, abateram uma pancadaria de sujeitos baixinhos, de ar oriental, pijamas pretos e AK-47, e o espectador ficava com a sensação que assim já não se ficavam tanto a rir da vitória de 1975.

Mais erudita e, pelo menos para mim, inédita, é uma iniciativa do jornal Washington Post de abrir à discussão da opinião pública a revisão de episódios relevantes da Guerra-Fria, como o caso da Revolta em Budapeste em 1956. A pergunta que o jornal coloca aos leitores, por ocasião dos 50 anos da Revolta, é se os Estados Unidos deviam ter intervido em apoio dos revoltosos húngaros. É uma pergunta interessante que suscita comentários muito interessantes que podem ser lidos aqui (em inglês).

Embora não tenha lido sistematicamente todas as respostas, recolhi do conjunto uma imagem que a maioria delas e, especialmente, as mais bem fundamentadas, se inclinavam para o apoio à decisão tomada na altura pela administração Eisenhower de não intervir. Não podendo dizer que aquele é um indicador da opinião da população norte-americana em geral poderá sê-lo dos leitores do Washington Post – uma amostra que julgo ser atípica da população porque enviesada politicamente para a esquerda.

Mas o que me continua a deixar intrigado é que numa sociedade como esta, que, como vemos, dá tanta importância – das formas mais diversas - ao estudo e à revisão dos acontecimentos associados aos conflitos passados, as suas forças armadas se tenham envolvido num conflito típico de contra-subversão como o do Iraque, esquecendo todas as experiências que haviam acumulado no Vietname.

Até apetece ironizar, dizendo que os tais desaparecidos em combate da Guerra do Vietname não foram pessoas, mas sim os inúmeros dossiers que devem ter sido produzidos ao longo de todos aqueles anos, alertando para que, numa guerra de contra-subversão, mais importante do que o poder de fogo, trata-se da capacidade de cativar as populações civis para o nosso lado. E, no Iraque, infelizmente para elas, a popularidade das tropas americanas deve estar no mesmo nível que a do seu comandante-chefe à escala mundial...

* The Final Countdown (1980). O Porta Aviões é o USS Nimitz e a data do passado onde ele vai aterrar é (surpreendentemente...) 6 de Dezembro de 1941.

26 junho 2006

UMA RESPOSTA A PAULO GORJÃO

Caro Paulo Gorjão:

O “mal” de que é acusado – e a expressão com as aspas é sua – é o de tentar mostrar um comportamento sempre demasiado benigno da parte australiana nas análises (excelentemente documentadas, deixe-me cumprimentá-lo) que tem vindo a produzir sobre o problema timorense.

Entendamo-nos e deixemo-lo claro para quem esteja eventualmente a seguir esta troca de impressões: há muitos aspectos em que compartilhamos opiniões, nomeadamente no desenlace a longo prazo da presença e dos interesses portugueses naquela região, que se irão desvanecer.

Também suspeito que estaremos em sintonia quando considero que não haja intervenientes inocentes nos problemas de Timor: Austrália e Indonésia em lugar de destaque, depois aparecem os outros, Japão, China, vizinhos próximos como as Filipinas, a Malásia e a Nova Zelândia, Portugal, como antiga potência colonial, e os Estados Unidos, como potência global.

Considero, aliás, a visita do Primeiro-Ministro australiano à Indonésia que menciona no quadro dessas relações que se pretendem manter boas entre vizinhos próximos. Movimentações de tropas deste género não se fazem sem uma visita de cortesia, sem se dar uma palavrinha por quem nos merece respeito.

Essa sintonia consigo continuará a existir quando à convicção de que a actual crise deve ter sido produzida a partir de elementos endógenos da política timorense. Já lá estavam as rivalidades e as animosidades pessoais, que se extremaram ao ponto de poderem ter descambado numa guerra civil, como escreve.

A discordância consigo começará talvez na opinião sobre a forma como as forças australianas se têm comportado. Ambos conhecemos este estilo de modus operandi australiano de outras intervenções suas noutros países da região como as ilhas Salomão ou Vanuatu. As histórias de uma descarada parcialidade australiana, que ouviu (e ouvi) no Expresso da Meia-Noite da SIC, terão tido ali vários antecedentes.

Não me parece que lhe esteja a dar nenhuma novidade contando-lhe como, a propósito de um incidente semi-recente com independentistas da Papua Ocidental, a Austrália tratou do assunto directamente com a Indonésia, cilindrando no processo o governo da Papua Nova Guiné, o país com quem a Indonésia tem de facto as suas fronteiras terrestres.

O facto dos australianos tratarem assim, muito no seu estilo sem cerimónias, todas as antigas colónias britânicas da Oceânia, não os devia ter eximido de terem tido, neste caso, o cuidado de terem tido um tratamento distinto para Timor-Leste, um país ainda em disputa e em fase de cicatrização.

Ironizando só mais um pouquinho, o país ainda não é propriamente território australiano como se poderia depreender da paginação do diário The Australian, que tem publicado os assuntos sobre Timor na sua página de assuntos nacionais… É aliás, desse mesmo jornal, que vale a pena ler um editorial recente (27/06) que ainda sedimenta mais as minhas convicções que a Austrália não faz - nem fez - tenção de sair de Timor durante os próximos tempos.

Quanto ao desempenho da política externa portuguesa, tenho a convicção de que discordamos nos pressupostos sobre a causa das divergências da parte portuguesa com a australiana. Para mim, elas estavam marcadas desde o começo, com a recusa da parte australiana em atribuir à parte portuguesa a importância a que ela se julga com direito.

Por isso, não me parece que maior parte das causas das divergências tenham a ver com o estilo ou com o “megafone” (para usar a sua expressão), mas teremos uma boa oportunidade de esclarecer isso – e espero estar enganado no meu cepticismo – ao verificar qual será a reacção australiana às declarações – correctas no seu e no meu entender - do secretário de estado Cravinho.

Esteja eu enganado neste último aspecto e acredite que será com imenso gosto que reconhecerei o meu engano… Mas note que me estou a referir às reacções australianas, não a declarações - mais ou menos polidas - da parte portuguesa tentando tornar normal no discurso, aquilo que no terreno e na prática continua na mesma.

O ESPECIALISTA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS, ESPECIALIZADO NUMA CERTA REGIÃO DO GLOBO

Há coisa de uma quinzena de anos, começou a ganhar notoriedade radiofónica e também televisiva, um especialista em assuntos internacionais, especializado no Médio Oriente chamado José Goulão.

As suas apreciações sobre as notícias oriundas daquela região, que eram então, e ainda são hoje, muito frequentes, davam-lhe oportunidade de mostrar alguém que estava muito documentado e muito bem informado, sobretudo nos aspectos do conflito entre israelitas e palestinianos.

Ou talvez devesse ter apresentado os contendores pela ordem inversa – palestinianos e israelitas – porque com a sucessão das intervenções de José Goulão começou-se a perceber que havia um favoritismo óbvio de José Goulão por uma das partes intervenientes.

É notório que o auditório que costuma seguir estes assuntos de política internacional não costuma manifestar, nem aprecia, parcialidades idênticas à daqueles benfiquistas que seguem e aplaudem as intervenções de Fernando Seara às Segundas-Feiras no programa de futebol O Dia Seguinte da SIC Notícias.

E a expressão desse distanciamento tomou a forma de piadas, uma das quais era acerca dos mandamentos associados a qualquer intervenção de José Goulão comentando um qualquer acontecimento que tivesse ocorrido no Médio Oriente:

Artigo 1º – Os palestinianos têm sempre razão.
Artigo 2º – Os palestinianos têm toda a razão.
Artigo 3º – Em situações nebulosas aplicam-se os artigos anteriores.

A óbvia parcialidade de Goulão fez a sua cotação mediática baixar, substituída progressivamente pelas reportagens televisivas dos irmãos Cymermann (Carlos e Henrique) que, apesar de israelitas, mostravam ser muito mais equilibrados na exposição dos diversos problemas do Médio Oriente.

Mas foi uma pena que a repetição de análises eivadas de uma parcialidade visivelmente engajada a uma das partes intervenientes acabasse por vir a retirar interesse jornalístico às intervenções de um analista que mostrava tal conhecimento sobre a matéria em que se especializara…

São atitudes desse mesmo tipo, previsivelmente tendenciosas, que acabam por retirar a credibilidade a algumas análises que se vão emitindo e escrevendo sobre os recentes acontecimentos de Timor. Algumas expectáveis, outras nem tanto.

Nem parece razoável que Ana Gomes se gabe de ter incentivado Xanana Gusmão a agir de uma forma que sabemos ser ilegal, nem parece razoável que Paulo Gorjão acredite num descarado bluff australiano (a retirada das suas tropas de Timor) e o use para pretexto para mais um punhado de críticas à condução do processo pelo governo português.

LANÇOU-SE NUMA CARREIRA A SOLO

Confesso a minha dificuldade em discutir apenas em abstracto os problemas associados à Procriação Medicamente Assistida (PMA), como, aliás, se tem vindo a fazer, e bem, no Defender o Quadrado.

Tenho reparado como a imprensa, como acontece com o Diário de Notícias de ontem (dia 25), gosta de se concentrar na cobertura dos casos especiais, como o das lésbicas, excluídas da lei actual, a quem o jornal deu uma cobertura alargada.

A minha confessada dificuldade no tema em abstracto não quer dizer que isso também aconteça quando confrontado com situações concretas. Veja-se o seguinte exemplo extraído de um dos vários artigos sobre o tema do Diário de Notícias:

Fabíola Neto Cardoso (…) já deu várias entrevistas como militante da causa LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), mas esta é a primeira vez que fala como mãe. Fabíola tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Ele tem três anos e meio e ela quase dois. O primeiro filho nasceu de um projecto a duas. A relação entretanto terminou mas o Luna continuou a ter duas mães, que partilham a vida e a educação do filho como qualquer casal civilizado que decide separar-se. A Maira já nasceu da livre iniciativa de Fabíola, que estava sozinha quando tomou a iniciativa de engravidar de novo. Tem por isso uma só mãe, se bem que a ex-companheira tenha uma relação de grande proximidade e afecto com a Maira.(…)

Isto parece-me um caso esforçado para fazer passar por absolutamente normal algo que, pelo contrário, se revela até bastante bizarro. Na actualidade, o que separa, objectivamente, a relação da ex-companheira da Fabíola com os dois filhos dela? Um foi um projecto compartilhado consigo e a outra foi um outro projecto diferente?

Vão-me desculpar o eventual conservadorismo e a ironia, mas projectos em grupo ou a solo são expressões que se empregam e tem cabimento quando nos estamos a referir à edição de discos. Mas crianças e discos são coisas completamente diferentes. Começando por que as crianças não são coisas…

25 junho 2006

O MENINO DA SUA MÃE - 1



No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Uma das características mais impressionantes deste poema de Fernando Pessoa é a sua intemporalidade. Escrita provavelmente com referência à 1ª Guerra Mundial, poderia ser lido e declamado assentando na actualidade de então como uma luva, mais de 50 anos passados, pensando na Guerra Colonial. E traduzido para inglês, ainda hoje muitas mães de soldados norte-americanos caídos no Iraque poder-se-ão reconhecer nele.

Outra das facetas mais marcantes do poema é a crueldade inusitada, muito estranha e fora do normal no estilo de Pessoa, do trecho composto pelos últimos três versos da antepenúltima estrofe: Está inteira e boa a cigarreira. Ele é que já não serve. Mas terá sido precisamente por causa dessa invulgaridade que dele me lembrei ao ler hoje uma notícia do Diário de Notícias (p.15), em que Dick Cheney se mostra irritado com notícias que revelaram programa secreto.

O programa secreto em questão é o de seguir os fluxos financeiros interbancários de forma a conseguir identificar as redes do terrorismo internacional. Sem discutir a pertinência e a premência do programa, com a qual concordo, é preciso que Cheney não se esqueça que ele e os seus amigos já hipotecaram a sua credibilidade ao anunciarem armas de destruição maciça onde não as havia, entre muitas outras peripécias.

Ou, parafraseando aqueles três versos de Pessoa: Estamos de acordo que é bom o programa. Ele – que o dirige – é que já não inspira confiança nenhuma.

WHAT´S NEW, PUSSYCAT?

É o título de uma comédia de 1965, realizada por Clive Donner, de uma qualidade muito assim, assim, onde, como parece estar a acontecer com a selecção do Brasil neste Mundial, o problema principal parece ser, não tanto a qualidade dos participantes, mas uma coordenação efectiva das vedetas.

No caso do filme, onde Woody Allen – que também actua - se estreou como argumentista, os problemas decorrem principalmente do excesso de cómicos de serviço e das suas diferentes concepções de humor (Allen vs. Peter Sellers), do excesso de beldades (Romy Schneider, Capucine, Úrsula Andress, Paula Prentiss) e de uma actuação muito desconsolante de Peter O´Toole, que desempenha um dos papéis principais.

É um dos casos em que se pode empregar com propriedade um adjectivo de que gosto muito: pletórico. De pletora, qualquer excesso que produz efeito nocivo. Fica apenas por referenciar o tema do filme, com o mesmo nome, cantado pelo eterno Tom Jones, numa época em que, no nosso provincianismo, nos inibíamos de considerar saloias as coisas saloias que eram cantadas em inglês.

24 junho 2006

A DESCOLONIZAÇÃO DO IÉMEN DO SUL

Foi com algum prazer que, sendo o nostálgico que sou, tive oportunidade de ler outro dia um artigo de Maria José Nogueira Pinto no Diário de Notícias a propósito de Timor, onde, para além das suas considerações directamente relacionadas com aquele país (*), aproveitava para, como num velho LP riscado, voltar à evocação da tradicional descolonização falhada.

Agora a sério, e a propósito desse mesmo assunto, e porque o exemplo português está sempre a voltar saturadamente à baila, deixem-me apresentar um episódio não muito brilhante e não muito conhecido de uma descolonização por parte do Reino Unido que é bem capaz de disputar o pódio com os casos nacionais que a área política onde Maria José Nogueira Pinto se situa, gosta de relevar.

O processo de descolonização em questão deu origem a um país que hoje não existe, o Iémen do Sul, tendo-se fundido com o Iémen, muito mais populoso, em 1990. Ficava situado no extremo sul da Península Arábica, onde o porto de Aden representava um entreposto fundamental do trânsito marítimo entre o Reino Unido, a Índia, a Austrália e o Extremo Oriente, via canal do Suez.

A colónia britânica fora fundada em 1839, pela conquista do porto de Aden pelos britânicos e ampliada durante a 1ª Guerra Mundial, quando eles expulsaram os turcos e estabeleceram uma rede de protectorados sobre as tribos nómadas iemenitas dos territórios adjacentes. Mas a colónia nunca mais perdeu as suas características de território compósito, apesar disso.

Em 1962, os britânicos deram ao conjunto a designação de federação da Arábia do Sul. O processo de condução do território à independência foi perturbado pela disparidade entre Aden e o resto do país, pelas ambições que o Iémen nutria sobre o país (havia um relatório da ONU concluindo que a maioria da população preferiria a fusão) e pela salvaguarda que o Reino Unido procurou fazer dos seus interesses.

A tensão acumulada acabou por explodir a partir de 1966 numa onda de greves, de violência e de actos terroristas protagonizado por duas organizações nacionalistas rivais - FLN e FLOSY – a obrigar o reforço do dispositivo militar britânico, envolvido muito contra sua vontade num conflito triangular envolvendo não só a luta contra a potência colonial mas a luta interna entre as duas organizações nacionalistas.

Num cenário de progressivo desgaste da autoridade britânica, em dificuldades para a exercer mesmo na capital, a data da independência, originalmente marcada para 9 de Janeiro de 1968, é antecipada para 28 de Novembro de 1967. Os comentários cínicos, tentando minorar a fraqueza demonstrada em todo o episódio, alegam que Aden tinha perdido a sua importância depois do encerramento do Canal do Suez, por Nasser, no seguimento da Guerra dos Seis Dias, de Junho de 1967.

O que é mais controverso, e muito menos digno para a Grã-Bretanha, é a alegação que, na impossibilidade das tropas assegurarem um perímetro seguro, a cerimónia do arrear da bandeira por parte das autoridades britânicas, teve que decorrer num dos navios ao largo de Aden, pertencentes à frota que fora enviada para as recolher. Ainda hoje, há uma certa dificuldade na obtenção de fotografias que confirmem ou desmintam tal relato.

Se alguma lei geral se consegue extrair das dezenas de processos de descolonização decorridos depois da 2ª Guerra Mundial, é a de que, perante duas facções rivais na disputa do poder para a fase pós independência, a potência colonial perde rapidamente a iniciativa do ritmo dos acontecimentos e fica sem meios para intervir no terreno. Foi o aconteceu em 1947 na Índia, em 1960 em Chipre e em 1967 no Iémen do Sul, com os britânicos e em 1975, em Angola e Timor, com os portugueses.

E se no Reino Unido, estes fracassos nunca serviram de arma de arremesso político na política interna britânica, também já vai sendo tempo de nos deixarmos destes vetustos lamentos da parte de uma certa direita política, piscando o olho populista a um certo estrato em regressão demográfica, invocando uma quimera descolonizadora, que não acontecendo com Portugal, também não aconteceu com mais nenhum país do Mundo.

(*) Tendo ouvido o Presidente Cavaco Silva na televisão falar recentemente de Timor, convinha que os seus conselheiros o alertassem para se referir a Timor como país e não território, como tem vindo a fazer. É um lapso que pode dar mau aspecto.

23 junho 2006

A BANDEIRA AZUL

É para seguir com curiosidade o episódio desencadeado entre a Associação Portuguesa Bandeira Azul e a Câmara Municipal de Vila do Bispo, a propósito da não atribuição da bandeira azul à praia da Salema, uma das oito daquele concelho, no seguimento de análises efectuadas à água, que registaram resultados não aceitáveis.

A reacção da autarquia, que afirma estar a realizar análises próprias recorrendo a outro organismo, é a de se recusar a aceitar o veredicto da Associação, e sair de jogo, preferindo passar a hastear a bandeira municipal na referida praia e nas restantes sete, a que havia sido conferida o galardão.

Mesmo sabendo das idiossincrasias dos representantes do poder local em Portugal, que costumam sentir-se o potentado local a quem ninguém pode contrariar, este parece ser um dos casos em que tem que ser a Associação a mostrar bom senso e rigor, procedendo a uma contra-análise que esclareça definitivamente os factos.

O seu ascendente só poderá resultar através do prestígio da sua intervenção, aceite livremente pelas autarquias. Se for para recorrer à coacção sobre as autarquias, estas já se devem ter apercebido, no que lhes interessa, que a atribuição ou não das bandeiras azuis tem tido um efeito bastante residual no movimento dos frequentadores das praias.

E de organismos que mandam palpites a quem ninguém liga nenhuma já estamos muito bem servidos em Portugal!

XANANA

Quando se trata de problemas internacionais os extremos situam-se normalmente entre os (maus) especialistas, para quem os problemas se revestem de uma complexidade de nó que nunca se acaba de desfazer, e o grande público, que os órgãos de comunicação social cativam com uma boa história que acaba sempre por ter os maus e os bons.

Como, na realidade, costuma haver maus e bons em todo o lado, se se der relevo aos maus de um lado, fica-se com a sensação que os bons devem estar do outro. Foi assim, por exemplo, que, enquanto a Jugoslávia se desfez, as culpas pertenceram quase exclusivamente aos sérvios. Mas as investigações feitas aos massacres identificaram muitos responsáveis sérvios, mas também de outros grupos, nomeadamente croatas.

Misture-se esta simplicidade de análise com algum sentimentalismo lusitano, quando o problema internacional se passa numa antiga colónia portuguesa sobre a qual se pense haver um sentimento de remorso pela forma como decorreu a descolonização e obtém-se um combinado único de sentimentos da opinião pública de um país sobre o que se passa noutro país. Deve ser tão único que julgo que deveríamos registar a patente.

Há uns 20 anos e em plena guerra-fria, só entre nós aconteceria envolvermo-nos nas vicissitudes da guerra civil angolana da forma como o fazíamos. Como Eduardo dos Santos e o MPLA era o outro lado, o dos russos e dos cubanos, então o nosso, o bom, era o de Savimbi e da Unita, que, mais fraquinho, era o que lutava na mata.

Foi preciso que a guerra-fria acabasse para que a diplomacia portuguesa mostrasse que não tinha um tratamento especialmente preferencial com nenhum dos lados do conflito angolano. E foi preciso um acordo, eleições e a renovação da guerra para ficar claramente percebido de que massa – idêntica - eram feitos os líderes dos dois lados daquele conflito. E este só acabou com a morte de um deles - Savimbi.

Foi no mesmo espírito simplificado e carregado de sentimentalismo, que se foi montando entre nós uma imagem da galeria de personagens de Timor. Com a particularidade dos maus serem de fora: os indonésios. E assim apareceram Ximenes Belo, o bispo, e Ramos Horta, os dois prémios Nobel, e Xanana Gusmão, o guerrilheiro aprisionado que espiava na prisão as penas do seu povo.

É evidente concluir que a imagem de qualquer deles junto da opinião pública portuguesa nunca mais será a mesma depois dos acontecimentos que se desenrolaram e continuam a desenrolar actualmente em Timor. E uma boa parte da responsabilidade disso não é dos protagonistas, mas nossa, que deles fizemos uma imagem idealizada.

Sendo Xanana um político numa disputa pelo poder, é natural que tenha montado a sua manobra (ou contra-manobra) contando com os apoios que lhe parecem mais válidos – aparentemente os australianos. Mas, para o fazer, houve um capital de simpatia indulgente que ele possuía aqui em Portugal que se desvaneceu e, atendendo ao precedente de Savimbi, sem se ter transferido para mais ninguém da cena política timorense.

Ou, comentando o assunto de uma forma mais corriqueira e correndo sempre o risco de me poder enganar redondamente, é muito improvável que tornemos a ver o boneco de Chalana Gusmão nos tempos mais próximos, no Contra-informação da RTP, a discursar: Poooovuuu de timoooor lorossaaaae…

22 junho 2006

AS ÂNCORAS

Numa daquelas histórias curtas que se pretendem cómicas mas com moral, um veterano resolve praxar um cadete de marinha:

- Imagine o senhor que pretende manter o seu navio estável e imobilizado e que começa a surgir-lhe ondulação forte pela proa. Que faz?
- Lanço uma âncora.
- Muito bem. Suponha agora que começa também a sentir ondulação forte da popa. Como reage?
- Lanço outra âncora.
- Admita agora que também se começa a sentir ondulação forte de estibordo. Que fará então?
- Lanço mais uma âncora.
- Espere aí! Isso já são âncoras a mais! Onde é que o senhor está à espera de arranjar tanta âncora?
- No mesmo sítio onde o senhor arranjou todas essas ondulações fortes…


Discutir os assuntos politicamente pode, às vezes, permitir criar problemas e soluções teóricas, como a desta história, o que é preciso é que haja imaginação. Só que, outras vezes, os problemas são bem concretos e as soluções teóricas, por muito bem que soem ou que apareçam redigidas, não têm qualquer aplicabilidade.

Acumulam-se as indicações que a Coreia do Norte se prepara para realizar ensaios com um modelo novo dos seus mísseis que, segundo os especialistas, poderá eventualmente atingir território norte-americano.

É evidente que não são notícias que agradem aos norte-americanos. Entre eles há até quem preconize que os Estados Unidos devem atacar e destruir os locais onde se está a desenvolver o programa norte-coreano de investigação, como se escreve aqui no jornal Washington Post. É um artigo muito interessante não fora a afectação de recursos militares para acautelar as eventuais retaliações da Coreia do Norte.

Concretizar este tipo de ameaças e ao contrário das âncoras infinitas do cadete da nossa história, afigura-se muito difícil, senão impossível, quando a capacidade dos Estados Unidos se engajarem em potenciais conflitos noutras partes do globo se encontra actualmente hipotecada pelos envolvimentos presentes no Iraque e no Afeganistão.

Há quem atribua à retórica dos neo-conservadores norte-americanos uma boa parte das responsabilidades pela fragilidade da actual posição estratégica global do seu país. Mas também parece terem-se atingido os limites materiais para qualquer outro tipo de retórica* porque as capacidades americanas parecem estar no limite. E todos os intervenientes mais directos na questão norte-coreana parecem saber isso.

Ou, inserindo-nos no moral da história daquele cadete, não vale a pena anunciar que se lança mais uma âncora, quando toda a gente sabe que já não há mais âncoras para lançar...

* Os autores do artigo do Washington Post pertenceram à administração Clinton.

21 junho 2006

AFEGANISTÃO

Longe da exposição mediática a que os acontecimentos no Iraque têm estado a ser expostos, os do Afeganistão vão-se desenrolando em paralelo para uma conclusão que se afigura previsível: mais um estado esfrangalhado, uma manta de retalhos que bem poderá ser idêntica à do mapa que ornamenta este post.

Para justificar as disputas por um determinado país, os comentadores costumam agrupar os países em três grupos: os países ricos em recursos (é fácil explicar as causas pela disputa do Koweit e do seu petróleo), os países potencialmente ricos em recursos (no caso do Chade, por exemplo, não tendo petróleo, pode ter umas jazidas inexploradas de níquel ou molibdénio – minerais estratégicos!) ou – argumento fatal para justificar o interesse das potências pelo país quando a terra é pobre e os habitantes paupérrimos – é porque ocupa uma posição estratégica.

Todos os países pelas leis da física ocupam uma posição, compete à imaginação dos comentadores especializados nestes assuntos arranjar as razões para que ela se torne estratégica. E normalmente, com jeito, arranjam-se. Até a Mongólia Exterior ocupa uma posição estratégica: basta descobrir um oleoduto que a atravesse que ligue a Rússia e a China.

E o Afeganistão pertence ao grupo destes países que só se tornam importantes pensando na sua posição estratégica. E é por não terem interesse nenhum que se tornam num frete, quando se ocupam militarmente, como aconteceu com os britânicos no século XIX, os soviéticos na década de 1980 e agora com os Estados Unidos que, depois de derrubarem os taliban, chamaram a NATO para ver se se conseguiam despegar do assunto para dedicar mais atenção ao Iraque.

No Afeganistão, para além da infinidade de milícias com os seus santuários geográficos, e as consequentes combinações infinitas de alianças que se podem fazer entre elas, há a curiosidade do contingente NATO ser também ele muito variado, associando cerca de 30 países, alguns deles (como a Austrália) não pertencendo mesmo à organização.

Pese embora toda a boa vontade das nações envolvidas (entre as quais se conta Portugal), pensando na eficácia do conjunto na eventualidade de a situação se agravar, sinto-me tentado a concordar com o comentário de um antigo chefe militar que, quando lhe perguntaram o que pensava da extensa variedade de exércitos nacionais que estavam sob o seu comando, respondeu que faziam uns desfiles de um colorido ímpar!

20 junho 2006

A PALA DAS RECEITAS

Convém explicar que o senhor que aqui aparece nesta fotografia se chama Moshe Dayan, era Ministro da Defesa de Israel em 1967, por altura da Guerra dos Seis Dias, quando, no Ocidente, era muito mais popular ser israelita do que árabe e só uns eruditos é que percebiam essa subtileza de ser palestiniano.

A figura de Dayan tinha muita saída (tanta quanto a de Che Guevara noutras paragens) porque um capacete não era ornamento que se costumasse ver na cabeça de ministros, nem mesmo da defesa, a que se juntava aquela pala no olho esquerdo* que lhe trazia um charme inconfundível, num homem a quem até não se podia acusar de, militarmente, ter vistas curtas.

Lembrei-me de alguém assim como Dayan, muito arguto mas que só vê de um olho, quando me deliciei a ouvir as explicações preparatórias do Ministro Teixeira dos Santos a propósito das razões pelas quais não se poderão vir a cumprir os objectivos para o défice orçamental para 2006 de 4,6%.

Passando adiante os encómios que, na cerimónia da sua recondução, Vítor Constâncio se excedeu em dirigir ao governo, deve ter sido por causa disso que o ambiente se afigurava propício às explicações mais ousadas, como a de que a execução orçamental do lado da despesa está a ser cumprida. Deve ser o olho bom de Teixeira dos Santos.

O que fiquei por ouvir foi como estava a correr a execução orçamental do lado das receitas. Possivelmente este é o olho de Teixeira dos Santos que tem a pala. Tenho a certeza que o Ministro está consciente que há por aí quem saiba que ele tanto é responsável pelo orçamento das despesas como pelo das receitas e que o valor do défice se calculará no fim subtraindo as primeiras às segundas.

É que nem toda a gente parece estar tão embevecida com a prestação governamental como este Governador do Banco de Portugal, hoje reconduzido. Constâncio bem pode afirmar que se indicia um processo de verdadeira consolidação orçamental. Também suspeito que haja indícios que o Governador já ande a exorbitar as suas funções.

* Segundo a versão oficial, o incidente que causara a Dayan a perda do olho também danificara de tal forma a sua órbita que impedia o uso de uma prótese ocular – um olho de vidro.

O REPÓRTER MESMO AO LADO DO ACONTECIMENTO

Já não tenho a certeza se era mesmo a TSF que gostava de publicitar um seu slogan intitulado o repórter em cima do acontecimento. Se não era a sério, então seria a brincar, com Hermann José a parodiar o estilo de repórter arfante, em cima do acontecimento e sem qualquer discernimento. Actualmente parece que o estilo se transmitiu a toda a comunicação social e hoje, dia 20, pareceu andar mesmo por aí à solta.

Basta ler os postes que por aqui tenho publicado para compreender que considero que este governo está tão bem municiado de assessores de imprensa que bem dispensa a inserção de mais um post em que saia em sua defesa. Mas, como acontece frequentemente em certas notícias, e contrariamente aos velhos filmes de índios e cow-boys, há algumas em que os maus estão dos dois lados.

Por exemplo, irrita a forma como está a ser publicitada uma notícia, veiculada pela Lusa e extraída de um relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), segundo a qual os medicamentos sem receitas são mais caros fora das farmácias. De alguns trechos do relatório, inseridos numa notícia de jornal, temos:

"A informação disponível aponta para o aumento generalizado dos preços dos Medicamentos Não Sujeitos a Receita Médica (MNSRM) face ao período prévio à liberalização", salientando-se ainda que "os preços de venda ao público nestes novos estabelecimentos são, na generalidade, superiores aos preços praticados nas farmácias".

Eu aprecio redacções visivelmente redondas, especialmente quando insinuam aquilo que não afirmam. Afinal, conclui-se do que se escreveu, não se fez qualquer levantamento nem verificação de preços, havia era uma informação disponível (disponibilizada?) que apontava (também se poderia dizer indiciava) para um aumento generalizado dos mesmos.

Assim redigido, se houver reacções demasiado violentas por parte do ministério – como de facto veio a haver – refutando com tabelas de preços e números índices, ainda há folga para se poder compor o ramalhete, desdizer o que se não disse, e – porque não? – ainda culpar os jornalistas de – como é costume – terem percebido tudo ao contrário.

Mas, sobretudo, o que aborrece mais é a descoberta de (mais) um mau trabalho noticioso. Tem toda a relevância jornalística informar o público, ao mesmo tempo que se dá relevo ao seu relatório, que quem preside ao tão referenciado OPSS* se chama Constantino Sakellarides, uma veneranda figura do PS para a área da saúde, rival do ministro, Correia de Campos, que aliás, aproveitou este mesmo dia para lhe apresentar a demissão…

* Informação imediatamente disponível no site do OPSS.

DIREI MESMO MAIS… NÃO HÁ MESMO NADA PARA DIZER

Há situações mesmo propícias à demonstração que a existência de concorrência não é, só por si, condição suficiente para a melhoria da qualidade do serviço que se presta. O exemplo que tenho em mente é o do posto de correspondente de canal de TV colocado em Bruxelas. Nesse particular, a SIC e a RTP vivem num ambiente saudável de coexistência pacífica.

António Esteves Martins, pela RTP, e Fernando de Sousa, pela SIC, acabam por funcionar como uma espécie de irmãos Dupondt (não estivéssemos nós na Bélgica, terra de origem do Tintin) na forma como se prestam a servir de transmissores acríticos do que os órgãos comunitários entendem por relevante que a comunicação social transmita.

A semelhança de estilo dos dois é tal que até já cheguei a pensar que esse fosse o perfil requerido pelos Serviços de Imprensa comunitários em Bruxelas para fornecer creditações a correspondentes, até ter visto em televisões estrangeiras repórteres atirarem perguntas aos seus ministros à entrada ou à saída de conselhos nada conformes ao espírito concordante que domina nas televisões portuguesas.

Desnecessário dizer que não sou um fã particularmente interessado e atento dos despachos enviados de Bruxelas por aqueles dois correspondentes. Se deles me lembrei foi a propósito do artigo de Teresa de Sousa no Público de terça-feira, dia 20 (p.6), com o título: “A Europa dos projectos? Quais projectos?

Para além da desilusão contida no artigo (que se depreende logo do título), lembrei-me de não me recordar de ter visto, como seria costume, os nossos dois correspondentes a transmitirem-nos canonicamente aquilo que os serviços de imprensa queriam que nós acreditássemos sobre o que se havia passado durante a recente Cimeira Europeia.

À priori, poderia ter sido o Mundial de futebol a abafar os interessantes comunicados da praxe. Ao ler o texto de Teresa de Sousa mudei de opinião: a Cimeira deve ter sido tão chocha e tão sem falta de assunto, que nem sobrou assunto para que, mesmo com o correspondente mais conformista e cordato, se conseguisse produzir uma reportagem de jeito...

19 junho 2006

SUAVE E GRADUALMENTE…

Há uma história muito engraçada associada ao retorno de Napoleão ao poder, durante o que se veio a chamar os 100 dias. Abandonando a ilha de Elba para onde fora desterrado, Napoleão regressou a França nos finais de Fevereiro de 1815. As forças enviadas pela monarquia restaurada para o defrontar juntavam-se a ele.

Os títulos das notícias das edições consecutivas do jornal oficial, o Monitor, dão uma imagem fiel do ritmo do desmoronamento da autoridade do reino de Luís XVIII:

O ogro da Córsega acaba de desembarcar no golfo Juan.

O tigre chegou a Gap.

O monstro dormiu em Grenoble.

O tirano atravessou Lyon.

O usurpador está a quarenta léguas da capital.

Bonaparte avança a grandes passos, mas nunca entrará em Paris.

Napoleão estará amanhã em frente das nossas muralhas.

O imperador chegou a Fontainebleau.

Sua Majestade Imperial entrou ontem no Castelo das Tulherias, no meio dos seus fiéis súbditos.

Esta sucessão de títulos parecem ser anedota, mas aconteceram de facto. Mas, não fosse a celeridade do avanço de Napoleão e a inversão de 180º ter-se-ia produzido a um ritmo que fosse mais digno e mais fácil de disfarçar. É assim que costuma e continua a acontecer, 191 anos passados sobre os 100 dias de Napoleão.

Vejamos esta notícia do Diário Económico do passado dia 2 de Junho, respeitante a um relatório que a Comissão Europeia irá divulgar sobre o cumprimento das metas de contenção do défice orçamental a que Portugal se propôs:

A Comissão Europeia (CE) revelou hoje ter dúvidas sobre a capacidade de Portugal em reduzir o seu défice orçamental em 1,5 pontos percentuais este ano, bem como quanto à capacidade do país de conseguir ter um défice orçamental inferior a 3% até 2008, estando por isso sujeito a acção disciplinar por défice excessivo.

Vejamos como o mesmo assunto volta a ser noticiado no mesmo Diário Económico, agora no dia 19 de Junho:

A Comissão Europeia acredita que o prazo fixado para o governo português baixar o défice público até 2008 para um valor inferior ao limite de 3% corre riscos de não vir a ser concretizado, mas não irá recomendar a aplicação de mais medidas de disciplina orçamental ao país por agora.

Segundo se lê num dos desenvolvimentos da notícia, será no próximo dia 22 de Junho que o famigerado Relatório será finalmente tornado público.

Será esse o dia que o Diário Económico escolherá para anunciar que Sua Majestade Imperial chegou finalmente às Tulherias e que o cumprimento do défice orçamental para 2006 por parte do governo português afinal até nem tem tanta importância quanto isso?
PS - É para isto e por isto que os assessores de imprensa têm que ser bem pagos, com os ordenados que ontem noticiava o jornal Público.

OS ENCLAVES DA DISCÓRDIA

No seguimento do recente referendo na Catalunha sobre o seu estatuto autonómico, aceite por uma clara maioria (quase 74%) dos que votaram, os que o fizeram é que foram uma minoria (49%) dos que o podiam fazer, vale a pena recordar as disputas de soberania que existem por resolver nesta nossa península ibérica e na suas redondezas.

No centro de três disputas está a Espanha que, a par da enorme publicidade que tem dado ao seu desejo de recuperar Gibraltar ao Reino Unido, também tem que resolver, só que agora colocada na situação oposta (a de ocupante), os problemas de Ceuta e Melilha com Marrocos e o de Olivença com Portugal.

Nessa posição central, a Espanha tem-se visto regularmente confrontada com os paradoxos provocados pela argumentação que é invocada por si para defender um dos casos poder vir a ser empregue contra si num outro caso em que se encontra na posição oposta.

Assim, a continuidade geográfica que lhe parece motivo ponderoso e evidente para justificar a absorção de Gibraltar pela Espanha pode também ser invocada por Marrocos para justificar a cedência a este pela Espanha das cidades africanas de Ceuta e Melilha.

Noutro lado, a vontade das populações afectadas, que parece aos espanhóis um motivo suficiente para procurarem encerrar de vez o problema de Olivença com Portugal, tem a sua contrapartida em Gibraltar, onde a população já se manifestou de forma plebiscitária, por repetidas vezes, que não quer ser espanhola.

Nem mesmo as formas mais imaginativas de soberania que a diplomacia espanhola se lembrou de desencantar para tentar atrair os gilbratinos para a sua causa parecem imunes a problemas. Quando o assunto dessas novas formas de soberania foi ventilado, arrebitaram-se imediatamente umas orelhas interessadas, mas na Catalunha e no País Basco…

Usando um velho ditado popular português, a posição da diplomacia espanhola no que diz respeito a estes três assuntos é a de alguém que quer simultaneamente sol na eira e chuva no nabal ou, exagerando um outro ditado, a de quem nem está disposto a dar um chouriço para receber um porco

Mas o que mais importante me aparece em todo o problema é a lição evidente de como em diplomacia não parece haver uma linha de conduta óptima que dê mais possibilidades de sucesso à resolução de disputas fronteiriças ou, já agora, a quaisquer outro problemas diplomáticos.

A exuberância diplomática que a Espanha tem demonstrado ao longo dos últimos 70 anos em recuperar Gibraltar e a displicência que a diplomacia portuguesa tem demonstrado a propósito de Olivença, deixou os dois países rigorosamente no mesmo ponto onde estavam inicialmente.

Qual será a lição que poderemos transportar daqui (se o pudermos fazer) para a conduta da diplomacia portuguesa a propósito dos recentes episódios em Timor? Que não há manual de instruções para cada situação; ninguém garante o sucesso de resultados preconizando a assunção duma atitude mais cordata ou mais exuberante…

18 junho 2006

«I HAVE A DREAM»

Apesar de se tratar de um problema interno dos Estados Unidos, deve haver milhões que reconhecem a imagem televisionada de Martin Luther King enquanto proferia um dos seus mais famosos discursos, em Washington em 28 de Agosto de 1963. Ele tinha um sonho…

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal." I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slaveowners will be able to sit down together at a table of brotherhood. I have a dream that one day even the state of Mississippi, a desert state, sweltering with the heat of injustice and oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice. I have a dream that my four children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today.*
É possível reconhecer que o sonho de Martin Luther King, quase 33 anos depois, ainda está a meio caminho da realização. Mas o discurso, algumas frases mais emblemáticas do mesmo, e o autor, com a sua morte prematura por assassinato, ficaram para a iconografia da luta dos direitos civis nos Estados Unidos.

Manuel dos Santos, actualmente eurodeputado do PS e um crítico a exigir ao secretário-geral do partido e primeiro-ministro um debate ideológico** também teve o seu sonho. Mas não sobre direitos civis. Mais prosaicamente, Manuel dos Santos queria defender os pequenos proprietários contra as cadeias que se costumam designar por grandes superfícies.

Por isso, tentando equilibrar essa luta de Davides contra Golias, Manuel dos Santos aproveitou o seu cargo governamental para promulgar legislação que forçava os supermercados a encerrarem aos Domingos e dias feriados, proporcionando mais oportunidades de negócio aos pequenos comerciantes. Valeu a pena?

Eu bem gostaria de empregar a resposta de Pessoa (tudo vale a pena se a alma não é pequena) mas a verdade nua e crua é que a medida foi um fiasco puro e simples; não houve reacções significativas do pequeno comércio a aproveitar a oportunidade que lhe foi oferecida administrativamente. E os clientes habituaram-se a fazer as suas compras a outros dias que não Domingo.

Por isso, de Manuel dos Santos, mesmo desterrado em Estrasburgo, e antes de ele querer enveredar por grandes intervenções ideológicas, o que eu espero mesmo é o acto de contrição de quem se bateu por uma medida política que se veio a revelar um verdadeiro fiasco. É que, na eventualidade remota disso vir a acontecer, até seria uma saudável novidade.

É que eu também tenho um sonho. Que as manobras políticas do estilo da que me parece estar a ser praticada por Manuel dos Santos (ladeado por Narciso Miranda, esse verdadeiro emblema do debate ideológico em Matosinhos...) venham a ser efectivamente sancionadas pelos eleitores e os seus autores venham a desaparecer da actividade política portuguesa…

*Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá segundo o verdadeiro significado do seu credo: "Achamos que estas verdades são evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais". Eu tenho um sonho de que, um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos senhores de escravos poderão sentar-se juntos numa mesa de fraternidade. Eu tenho um sonho de que, um dia, até mesmo o estado de Mississipi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, será transformado num oásis de liberdade e justiça. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos, um dia, viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele mas sim pelo seu carácter. Eu tenho este sonho.

** Eurodeputado do PS chama “comissão liquidatária” ao Governo. Críticos contra “critérios liberais” de Sócrates exigem debate ideológico. (Título e subtítulo de notícia de primeira página do Público de Domingo, dia 18).

AS VÁRIAS MANEIRAS DE DIZER ¡ARRIBA ESPAÑA!

Uma prova comprovada que existe uma certa franja da Espanha conservadora para a qual lhe escapa completamente a delicadeza com que se está a negociar actualmente os equilíbrios para a Espanha da próxima geração, encontra-se num episódio em que um general, o ex-chefe de estado maior do exército espanhol, Alfonso Pardo, numa cerimónia trivial, fez um brinde ao Rei, como garante da unidade de Espanha.

A poucos dias de um referendo na Catalunha (que decorre hoje, domingo, dia 18) sobre o seu estatuto autonómico, só um cidadão espanhol desesperadamente obtuso (deixo de parte a questão sobre quais terão sido os critérios que levaram este general ao posto de chefe de estado maior do exército…) se poria a invocar o Rei e uma certa concepção de unidade espanhola numa cerimónia que se desenrolava numa unidade militar.

Adorando sentir-se prestáveis, parece que as velhas e altas patentes militares do estado vizinho ainda não compreenderam em que tabuleiros políticos se estão a disputar as distribuições de poderes entre o centro castelhano e Madrid, por um lado, e as periferias industrializadas de Espanha e as suas capitais respectivas, por outro, para o futuro próximo.

Certamente que as imagens de um punhado de tanques passeando-se pelas ruas de um desses centros urbanos periféricos de Espanha não trariam, consideradas todos os intervenientes afectados, substanciais vantagens para as posições do poder madrileno, qualquer que ele fosse, por muito que os altos comandos militares queiram pensar o contrário.

Regressando ao velho lema franquista, que eu gosto muito de citar – España, una, grande y libre – e esquecendo a grandeza que fica lá bem, mas já desapareceu desde o século XVII, qualquer espanhol que pense acaba por interiorizar que no seu país tem que existir um equilíbrio entre a unidade e a liberdade. A Espanha franquista era muito una, mas de liberdade estávamos conversados; esta Espanha moderna, se se quiser livre, tem que abrir mão de tanta unidade, por muito que isso aborreça o general Pardo e Mariano Rajoy*.

Perante esta descrição, se ainda consideramos existir o perigo de Portugal ser atraído para este edifício em equilíbrio precário que se chama Espanha, a culpa terá de ser atribuída maioritariamente a uma deficiência nossa…

* Dirigente do Partido Popular, principal partido da oposição.

17 junho 2006

O PRÍNCIPE NO XELINDRÓ

Este poste é dedicado aos inúmeros adeptos portugueses do Isto só neste país!, que muitas vezes é pronunciado com a maior indignação possível, mas quase sempre associada à cultura de paróquia, derivada da ignorância do que se vai passando pelo Mundo.

Imagine-se que, por acaso, estourava entre nós um escândalo em que Duarte Pio de Bragança havia sido preso por envolvimento num esquema de corrupção e proxenetismo. Não seria um caso exemplar para recorrer aquela famosa frase?

Pois foi exactamente isso o que aconteceu em Itália a Vitorio Emanuel de Sabóia, de 69 anos, o único filho do último monarca italiano e herdeiro dos direitos ao trono de Itália. O príncipe, evidentemente, alega estar inocente.

Embora esta pareça ser uma daquelas barracadas como só os italianos seriam capazes de inventar, não deixam de ter razão os mais patriotas que ainda quiserem rebater-nos com o argumento que as galinhas poedeiras italianas parecem ser mais asseadas que as nossas

COM UMA POSTURA MUITO… APRECIATIVA

Devo a Gabriel Alves a percepção de quão pouco a sério levo o futebol. Depois de anos consecutivos a ouvi-lo falar das equipas que dispunham as suas pedras no terreno ou que assumiam uma postura muito competitiva, com aquela indiferença de quem está a ouvir balelas, surpreendi-me certa vez a ouvi-lo falar de vinhos e, dessa vez para variar, conseguiu ganhar a minha atenção porque parecia saber do que estava a falar.

Nestas coisas do futebol parece, pela comunicação social, que as posições se extremaram para Pacheco Pereira e os restantes adeptos, os da bandeira e do cachecol. Ora considero haver um universo bastante extenso de permeio entre eles. Pacheco Pereira bem tenta fazer crer que gosta de futebol, mas tem o aspecto de, quando era menino e já era esquisito, nunca ter iniciado uma colecção de cromos da bola.

Os outros extremos, anónimos, são os exemplares que até conseguem estragar um directo da TVI, porque diante das perguntas argutas do entrevistador, enervam-se e não conseguem articular uma frase com sujeito, predicado e complemento. Mas há que reconhecer que eles estão em desvantagem: o entrevistador ou a entrevistadora da TVI tiveram oportunidade de ensaiar repetidamente a pergunta…

Não me identificando com este último grupo, desdenhando a hipótese de iniciar um qualquer clube com Pacheco Pereira – estou mesmo desconfiado que ele nunca faria parte de um clube cujo número de sócios fosse superior a um – resta-me descrever a minha posição em relação ao futebol e a este Mundial. Que aprecio como se aprecia um espectáculo; ontem, livre de pressões, gostei muito do futebol de ataque e do espectáculo proporcionado pela Argentina.

Quanto à selecção, já aqui demonstrei que não gosto de patriotismos forçados (como o do Eng. Belmiro), e considero todo esta história da selecção um outro patriotismo forçado. Longe vão os tempos em que as selecções, recrutadas maioritariamente entre os jogadores que actuavam nos respectivos campeonatos nacionais, representavam simultaneamente a habilidade e o entrosamento do grupo e o estilo do futebol praticado no seu país.

Actualmente, as principais selecções de futebol parecem uma redistribuição, só que feita de outra maneira, dos mesmos jogadores que actuam nas principais equipas europeias. Ou seja uma confusão que o saudoso Nuno Brás já há 24 anos fazia, presciente, quando apresentando Dalglish trocava a ordem dos factores da apresentação consagrada: do canónico o jogador escocês ao serviço do Liverpool para o jogador do Liverpool ao serviço da selecção escocesa, na apresentação inovadora do comentador nortenho.

Ao fim e ao cabo, parece que Nuno Brás nem se apercebia da distinção entre o atributo do jogador que era definitivo – a sua nacionalidade escocesa – com aquele que era transitório – ser jogador do Liverpool. Mas, terminando como comecei, o futebol nunca foi para ser levado muito a sério… Desde que seja um bom espectáculo… e, já agora, que seja a equipa portuguesa a proporcioná-lo.

16 junho 2006

TUDO ISTO EXISTE, TUDO ISTO É TRISTE, TUDO ISTO É FADO

Estes três versos lamechas com que termina um dos mais famosos fados portugueses, é uma síntese feliz do discurso tristonho e bisonho com que a comunicação social gosta de acenar, cúmplice, ao seu leitor, ouvinte ou espectador.

Há-de haver quem me censure eu estar sempre a implicar com o caramelo que escolhe os títulos para as capas do Público, mas há que reconhecer que, então à Sexta-Feira, com a concorrência do Inimigo Público, aquela rapaziada parece mesmo que descarrila.

Talvez por sermos um país que está na cauda da Europa, parece existir no nosso jornalismo uma propensão para valorizar mais as questões que se lhes apresentam de cu, o que levou ao destaque do tema das poedeiras e a este título:

Aterrador! Já não basta sabermos que os nossos parlamentares, professores, farmacêuticos, magistrados, bombeiros, jornalistas (estes não aparecem nas notícias, é apenas uma suspeita minha…) são da pior qualidade que há na Europa, agora sabe-se que até as nossas galinhas poedeiras são umas badalhocas? E atenção, não são galinhas quaisquer, mas o seu corpo de elite, o das poedeiras?

Dá vontade de especular sobre qual seria o outro país europeu onde um jornal de grande circulação daria assim um destaque de primeira notícia à (falta de) higiene da elite das suas galinhas… Talvez a Bielorrússia, onde, por causa da radioactividade de Tchernobyl, os ovos talvez brilhem no escuro e substituam as lâmpadas em emergências …

Lido o desenvolvimento da notícia, ficamos mais descansados quando o director da ASAE (Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica) nos informa que “não existe um problema de saúde pública ou de segurança alimentar”. A notícia deixar-me-ia muito mais descansado se o jornalista tivesse acrescentado: foram as suas palavras enquanto comia uma omelete mista.

É curioso que nos países inspeccionados haja simultaneamente países porquíssimos (Rep. Checa, Portugal, Polónia, Espanha, Lituânia) todos com taxas de infecção acima dos 50% e países limpíssimos (Chipre, Irlanda, Letónia, Luxemburgo e Suécia) onde a taxa é de 0%.

Faz recordar o episódio da incidência da doença das vacas loucas que, surgido em Portugal continental, nunca apareceu na Espanha nem na Alemanha, até que uma vaca oriunda deste último país apareceu com a doença nos Açores, onde não a podia ter apanhado… Depois demitiu-se o ministro alemão da agricultura para que se mantivesse a ficção…

Mas o pior de tudo foi descobrir que as verificações da presença das salmonelas se faziam através da caca da galinha. É triste, sendo nós, pelos vistos e como os jornais gostam de nos transmitir, um país de caca, até na caca não conseguimos cumprir as regras mínimas de higiene…

15 junho 2006

DE UMA EUROPA A OUTRA EUROPA


A propósito do poste anterior, onde se fala de uma Europa que pretende caminhar para a unificação, mas que ainda está dividida, vale a pena regressar ao Império Romano dos séculos IV e V, onde existia um Império a caminho da divisão, mas que estava ainda unificado.

As cronologias mais sintéticas dão o ano de 395 da nossa era como a data da separação definitiva entre os Impérios Romanos de Ocidente e de Oriente. É simples, fica bem para o professor José Hermano Saraiva explicar na televisão, mas a verdade é mais complexa.

A separação foi-se fazendo gradualmente, desde 286, data em que o Império teve os seus dois primeiros imperadores que se reconheciam reciprocamente, num sistema que veio a ser designado por tetrarquia: dois imperadores seniores e dois imperadores juniores, cada qual com a sua área de responsabilidade.

Depois disso a normalidade foi a coexistência de vários imperadores com uma área regional a seu cargo, umas vezes aceitando-se, outras combatendo-se. Quis o acaso que entre 394 e 395 fosse o ano em que, pela última vez, houvesse um só imperador para todo o conjunto imperial: Teodósio.

Só muito depois a data da sua morte assumiu o valor simbólico que os contemporâneos do acontecimento nunca pensaram que tivesse. Assumiram que, naturalmente, algures no futuro, um outro acidente dinástico tornaria a reunir as duas metades do Império Romano mais uma vez.

Por isso, a fronteira que separou Ocidente e Oriente, Roma e Constantinopla, nunca esteve hermeticamente fechada. Flávio Aécio, de quem este blogue se reclama herdeiro, foi um grande general do Império do Ocidente e, contudo, havia nascido cidadão romano, mas em terras do Império do Oriente, na Mésia (a actual Bulgária), já depois de 395.

Visto de uma certa perspectiva, esta União Europeia recomeça de onde o antigo Império Romano terminou: numa tetrarquia de titulares do poder executivo (Alemanha, Reino Unido, França e Itália), complementados com mais alguns potentados regionais de menor expressão, ameaçada pela invasão dos bárbaros que, desta vez, se apresentam pelo Sul, mas felizmente desarmados.

Como alguém escreveu: são tempos interessantes.

OS FANTASMAS DA CORTINA

From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the Continent.

Assim começava o discurso original de Churchill, proferido nos Estados Unidos em Março de 1946. Uma tradução do primeiro parágrafo completo desse discurso será:

De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia; todas essas cidades famosas e as populações em torno delas estão no que devo designar por esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou outra, não somente à influência soviética mas também ao forte, e em certos casos crescente, controle de Moscovo.

Sessenta anos depois, em vésperas de mais uma Cimeira Europeia o jornal Financial Times antecipa, no título de um artigo seu: Divisão entre Leste Oeste pronta a irromper na Cimeira Europeia.
E especifica depois, no corpo do artigo: os países do antigo bloco soviético estão a ficar gradualmente mais frustrados com os obstáculos postos no seu caminho em direcção aos principais projectos europeus como sejam os do euro, o espaço Schengen de livre circulação e a liberdade de direito ao trabalho em todos os países membros.

O nome de baptismo é de Churchill, a autoria da dita sempre foi atribuída a Estaline, mas hoje em dia, quem é que continua a manter a cortina de pé?

14 junho 2006

SOBERANIA LIMITADA

A 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC* proclamou unilateralmente a independência da Guiné-Bissau, num gesto político ousado de desafio ao poder político e militar português presente então na que considerava a sua província da Guiné, com um contingente rondando entre 25 a 30.000 homens.

Ainda hoje há alguma controvérsia quanto à localização da cerimónia que assinalou aquela proclamação, cerimónia para a qual foi convidada – era indispensável que isso acontecesse – a imprensa estrangeira que lhe desse a devida cobertura.

Do lado português comenta-se que a povoação de Madina do Boé havia sido evacuada e que o PAIGC deve ter preferido, por segurança, escolher uma localização próxima da fronteira mas ainda em território da Guiné-Conakry, com a conivência das autoridades deste país.

Hoje, à distância e a frio, é preciso reconhecer que teria sido essa a decisão mais acertada, porque mais cautelosa. Houvesse uma fuga de informação e compensaria à força aérea portuguesa fazer uma participação no desfile com tudo o que pudesse voar e flagelar o inimigo com as consequências que se adivinham. Em território estrangeiro ainda hesitariam, mas agora em território que era considerado nacional?

De qualquer forma, a questão tornou-se hoje irrelevante porque o que perdurou do gesto foi o seu significado político: o aparecimento de uma soberania que podia contestar a colonial portuguesa na Guiné, embora na prática tivesse imensas dificuldades em afirmar-se claramente no terreno.

Foi dessa soberania semi-clandestina do PAIGC nessa época que me lembrei, mas agora numa fase descendente, ao ler no Público de hoje (p. 15) numa notícia onde se lê que “o parlamento de Timor-Leste aprovou ontem uma resolução da Fretilin a determinar que as forças militares da Austrália, da Malásia e da Nova Zelândia se retirem para um perímetro de segurança à volta de Dili, deixando que a GNR (…) actue(m) em toda a cidade de forma eficiente e sem impedimentos ”.

Questionando-me quais serão os meios que o parlamento terá à sua disposição para implementar a sua resolução – se calhar bastante menos do que os guerrilheiros do PAIGC de outrora – não deixa de ser irónico nesta minha comparação ver quem faz agora o papel de aliado dos nacionalistas e quem faz o de potência colonial…

* Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde

RELATÓRIO E CONTAS

Há coisa de quase uns trinta anos, lembro-me de ter lido em A Bola (pois, então!) o relato de uma animada assembleia-geral do Benfica em que se discutia, para além da aprovação do relatório e das contas do exercício, o abandono da regra que impunha que a sua equipa de futebol fosse composta apenas por portugueses.

Esclarecendo de antemão que não sou benfiquista, recordo-me ainda que a narrativa (já não me lembro quem a assinava) era fascinante, horas a fio com argumentos a favor e contra a inclusão de estrangeiros, a tradição contra o progresso, fez-se uma votação passadas mais de cinco horas de discussões, o Benfica podia passar a jogar com estrangeiros.

Nos cinco ou dez minutos posteriores, à pressa e às três pancadas, aprovou-se o relatório e contas do exercício transacto, nem eu me lembro se com lucro ou com prejuízo. Este é um exemplo tipicamente português (não se ufanassem os benfiquistas do seu clube ser o mais português que há…) de discutirem os seus problemas conforme lhes apetece e gostam, esquecendo a sua premência, a sua pertinência e a sua importância.

Naquele caso daquela reunião, uma das consequências – a do assunto que demorou mais tempo - foi a contratação de César, avançado do América, para fazer parelha com Nené. Lembram-se do César? Outras das possíveis consequências foi a que João Vale e Azevedo se apercebeu que quase ninguém prestava atenção às contas nas assembleias-gerais do clube e deu em aldrabá-las completamente. Lembram-se do Vale e Azevedo?

Esta propensão, muito nossa, de nos desnortearmos quanto aos assuntos, torno a encontrá-la em artigos e posts recentes questionando-se sobre as razões da presença do contingente da GNR e de Portugal em Timor-Leste. Não que não ache a pergunta extremamente pertinente, que o é, de facto, mas não é uma pergunta actual, porque o que havia para ser decidido, já foi.

E foi-o, se bem se recordam, logo nos dois dias seguintes às notícias da eclosão dos problemas em Timor, com o primeiro-ministro de acordo o presidente, e os dois de acordo com todos os partidos políticos com assento parlamentar, com excepção do Bloco, o que até nem foi surpresa. Um verdadeiro consenso nacional, portanto.

Eu, naquela altura, até achava que não se perdia nada em esperar até tomar uma decisão, e bem posso desconfiar que não foi inocente a celeridade com que ele foi tomada, numa espécie de jogo da vermelhinha de salão, em que a resposta iria ser sempre a que o governo queria ouvir. Tanto mais que se lhe sucedeu uma semana e meia a aboborar pelo envio efectivo do contingente da GNR, para não falar do envio, por mar, do equipamento complementar.

Mas agora, tal como 8.327 (só numa estimativa...) artigos que já se pronunciaram contra a intervenção norte-americana no Iraque, os substancialmente menos que se interrogam sobre o propósito da presença portuguesa em Timor gozam também da mesma fraqueza prática: uns e outros já lá estão e trata-se agora, para os que consideram isso um erro, de saber como sair dignamente de onde estão.

Ora se posso fazer uma síntese daquilo que considero que pode ter acontecido recentemente em Timor, só que contado de uma maneira mais imaginativa, digamos que a Austrália estava na disposição de montar em Timor Leste uma espécie de peça teatral, de que era a autora, fazia a cenografia e encarregava-se também da direcção de actores.

Aconteceu que um país-actor (Portugal), convidado para o elenco, deu em reclamar, segundo alguns, de uma forma exuberante demais, sobre o papel que lhe queriam atribuir, o que aborreceu sobremaneira a Austrália. Transferida a produção do evento para a ONU, aguarda-se qual será a nova forma do guião.

Vista a questão neste enquadramento, questionar o nosso envolvimento em problemas que ocorrem do outro lado do Mundo, por muito que julgue a questão pertinente, tenho que a considerar apenas inoportuna, porque o que está a acontecer está a envolver Portugal, independentemente do que se escreve em jornais ou blogues.

Cinicamente e já que chegámos aqui, pode perguntar-se: o que está a Austrália disposta a ceder para nos deixarmos de lhe apoquentar a vida? Porque, convém não esquecer, num certo aspecto também é conveniente para a Austrália que as forças militares/policiais em Timor contem com a colaboração de mais países, se possível mesmo do outro lado do mundo, para conferir ao conjunto um carácter o mais desinteressadamente multinacional possível...