28 fevereiro 2006

EU TAMBÉM VOU CÁ ATRÁS…

Certo dia, um amigo meu teve que ir buscar dois estrangeiros da sede da empresa para onde trabalhava (e que não conhecia) ao aeroporto. Desde o contacto inicial ficou com a impressão que havia uma animosidade latente entre os dois recém chegados.

A impressão confirmou-se e deveria estar ligada ao protocolo das suas importâncias relativas lá na sede, quando, no estacionamento, um dos estrangeiros põe a mala rapidamente na bagageira do carro e senta-se no banco de trás, imediatamente imitado pelo seu colega de viagem. Ficou o meu amigo diante da posição ridícula de ter os dois convidados instalados no banco de trás do seu carro.

Ouvindo a história posteriormente e quando a narrativa aqui chegou, estava à espera ou de um triste episódio com o meu amigo a fazer de chofer de táxi ou de um episódio quente, com o meu amigo a fazer o mais polidamente possível ver, aquele par de estrangeiros, que não estaria na disposição de lhes aturar cenas gagas.

A solução dele, diferente, salienta-se pela ligeireza, bom humor e simplicidade: abriu a porta de trás, sorrindo, pediu licença à parelha, que teve de se ajeitar, e sentando-se, anunciou que também preferia ir atrás, embora fosse capaz de demorar um bocadinho mais tempo a chegar ao hotel… O episódio acabou pelo melhor.

O condutor daquele carro faz-me lembrar a forma como é interpretado actualmente o cargo de presidente do PSD e as angústias que o meu amigo sofreu serão muito parecidas com as que padece Marques Mendes. O banco de trás, então, é como se fosse um verdadeiro banco corrido de mais de uma dúzia de personalidades e de ambições no PSD.

Mas, nem que seja pela minha simpatia congénita pelos underdogs e por aqueles que despendem a maioria do esforço, até não me desagradaria que Marques Mendes pudesse dar a volta por cima aos parceiros que vão à boleia, como aconteceu com o meu amigo. Agora se ele consegue é uma outra coisa…

27 fevereiro 2006

EWEA

Convém que comecemos a conhecer o significado deste acrónimo (The European Wind Energy Association), que tem uma página de publicidade idêntica à da gravura que ilustra este post na página 17 da revista The Economist desta semana. Promovendo a ideia que a energia eólica não necessita de combustível: No Fuel.

Embora aqui seja mais difícil de identificar, a ilustração mostra ao fundo, sobre o lado esquerdo, as chaminés do que parece ser uma central térmica ou nuclear, numa identificação do inimigo a abater e numa perfeita ilustração da guerra que parece estar prestes a começar a travar-se na Europa para a apropriação dos investimentos futuros na área da energia.

E, como de costume e como, decerto, nos quererão fazer crer, também esta guerra entre lóbis poderosíssimos não vai ter nada da simplicidade da dos índios (maus, maus, irrecuperavelmente maus) contra os cow-boys (bons, bons, que até chateia…). Pelos vistos, em Portugal foram os nucleares que tomaram a iniciativa… Vamos a ver qual será a resposta dos ventoinhas (para quem não sabe, o Eng.º Pimenta do post abaixo é um ventoinha)…

Mas o mais desejável, sobretudo, é que nos deixemos de ingenuidades... Neste confronto de interesses económicos, apesar das aparências, há muito pouco espaço para idealismos.

26 fevereiro 2006

O ENGENHEIRO PIMENTA

A sabedoria popular, aquela que tem validade pelo que demonstra na prática, sem a necessidade de confirmação através de um mestrado ou de um doutoramento lá fora, possui um ditado, clássico, que afirma que mais vale cair em graça do que ser engraçado.

Aceitando-o por verdadeiro, permanecem para mim insondáveis, para além dos tradicionais desígnios do Senhor, as circunstâncias que levam algumas pessoas a cair em graça. Como insondáveis permanecem muitas vezes as causas que, posteriormente, os levam a cair em desgraça.

Tomemos o exemplo do Eng.º Carlos Pimenta do tempo do cavaquismo que, recentemente, anda a tentar reaparecer à superfície (no jornal Expresso de 25 de Fevereiro) a propósito da problemática do nuclear para Portugal – um tema que até lhe assenta muito bem.

Um dos mistérios associados com o Eng.º Pimenta é que, não sendo dos engraçados nem procurando ser engraçado*, acabou a ser tratado carinhosamente por Pimentinha, num mimo dos tais: insondáveis. Agora, falando mais do seu estilo, acredito que seja daqueles que passa melhor oralmente devido, não só à convicção contida no que é dito, como também à intensa energia posta na transmissão da convicção daquilo que é dito; a contrapartida é que sobra pouca energia residual para afectar à substância daquilo que foi dito.

Esta última característica não assume grande relevância se o assunto a debater forem, por exemplo, umas calças sujas; se o Eng.º Pimenta disser que tem as calças sujas, é indubitável a sujidade das calças e inquestionável a celeridade do Eng.º a identificar o local da nódoa e isso sente-se na forma como o Eng.º Pimenta nos informa do facto.

A porca pode torcer o rabo se o tema a debater subir no patamar das exigibilidades intelectuais. Por exemplo, quando o Eng.º Pimenta foi chamado expressamente de Bruxelas, qual arma secreta do PSD, para debater o delicado tópico da co-incineração do lixo industrial num taco a taco nas TVs com a Ministra do Ambiente da altura, Elisa Ferreira, as coisas não lhe correram de feição…

Logo no primeiro frente-a-frente, depois da Ministra ter deixado o Eng.º Pimenta demonstrar, com o empenhamento que lhe é reconhecido, o quase apocalipse de produtos perigosos (de nomes impronunciáveis) que cairiam sobre as populações das redondezas das instalações que procedessem à co-incineração, confrontou-o com o facto de, residindo Pimenta em Bruxelas com a família, morar a uns meros dez quilómetros de uma dessas instalações… É o que dá quem quer demonstrar assim tanto empenho: todo aquele dinamismo não podia deixar os seus próprios filhos a agonizar daquela forma…

Eu, naquele momento, pensei poder estar a assistir ao requiem político do Eng.º Carlos Pimenta… Ou seja, neste caso até percebi os motivos porque Pimenta iria cair em desgraça. E, até ontem, pensei não estar enganado…

Mas seja bem (re)aparecido! Podemos estar a assistir à renovação de um antigo político que deu em empresário das energias renováveis.

* Por exemplo, um dos seus sucessores, Carlos Borrego, tentou ter piada, não teve - com a anedota dos hemodialisados - e foi despedido.

Actualização de 27/02:
Longe estava eu de sonhar que o assunto da co-incineração iria voltar à ribalta. Quero só deixar um segredo, sussurrado, ao ouvido de Marques Mendes: Se o Eng.º Pimenta se oferecer para ajudar, mesmo que ele o faça com muito empenho (o que, nele, é o estado natural), não aceite...

25 fevereiro 2006

CÓCÓRÓ! CÓCÓRÓ!

Para confirmar que isto da qualidade dos textos começa logo desde pequenino, será interessante comparar as letras de duas canções infantis, Atirei o pau ao gato e O Nosso Galo. A primeira é infantil (claro está) e repetitiva porque se pretende rítmica, a segunda também é infantil e repetitiva mas porque a letra é estúpida. Atente-se nela:

O nosso galo é bom cantor,
É bom cantor, tem boa voz,
Está sempre a cantar, Cócóró! Cócóró!
Está sempre a cantar, Cócóró! Cócóró!
Está sempre a cantar, Cócórócócó!

Mas veio um dia e não cantou
Outro e mais outro e não cantou
Nunca mais se ouviu, Cócóró! Cócóró!
Nunca mais se ouviu, Cócóró! Cócóró!
Nunca mais se ouviu, Cócórócócó...

Como em muitas outras coisas que aparecerão às crianças pela vida fora, há ali um raciocínio compassado e metódico (uma expressão frequentemente empregue como eufemismo para burrice...), porque, objectivamente, não acontece grande coisa: o galo cantor vai para a panela – e estas sete palavras são esticadas para dez versos.

Apesar da história tratar de uma ave não se nota naquela letra qualquer voo de raciocínio, muito pelo contrário, a expressão de aviário mais apropriada à situação é a de que a história anda para ali a pisar ovos, muito embora esse facto seja dissimulado às crianças pela exuberância e repetição dos Cócórós.

Como estas ideias não me surgem do nada – ao contrário desta súbita premência da discussão do nuclear para Portugal – pus-me a cogitar que associação livre havia feito para que esta canção de infância me surgisse no espírito, até que descobri: estava associada a este (até se ouve o Jorge Coelho a dizê-lo, nasalado…) vultuoso conjunto de investimentos que foi recentemente anunciado - Cócóró! Cócóró!

Para a nossa sociedade, onde houve uma apreciável parcela dos seus cidadãos que já foram educados ao som desta velha canção infantil (a canção é mesmo velha como o …!) e doutras aparentadas (que tal Doidas, doidas, doidas, andam as galinhas...?), não lhe é estranho privilegiar a sonoridade ou as aparências das coisas em detrimento da sua substância.

O galo, um genuíno galo de capoeira, é capaz de ser o animal que melhor retrata o nosso Primeiro-Ministro e o governo que dirige. Canta bem, e já o vimos por diversas vezes de crista eriçada!

Vamos lá a ver é se não desaparece subitamente um dia destes na panela (ou em Bruxelas, ou como Alto Refugiado, ou…) …

…E UM JOGADOR

Dia sombrio. Dia soturno. Também o sol não parece estar na disposição de se mostrar para não apanhar chuva…

Um dos incómodos de apontar a superficialidade de apenas se fazer o diagnóstico, como ontem aconteceu com o meu post As Tácticas, é o de não se querer incorrer no mesmo erro grosseiro que se aponta a outrem.

Para ver o exemplo do que um militante partidário (neste caso do PSD, o mesmo partido de José Pacheco Pereira) pode fazer, em termos de intervenção dentro da estrutura do seu partido, há que visitar http://oreformista.blogspot.com/, onde o seu autor, António Alvim, a quem aproveito para saudar e, que, pelos vistos, já foi eleito para ser delegado no próximo congresso, demonstra o que um jogador, calçando as chuteiras, pode fazer dentro de campo.

É compreensível a diferença de António Alvim para o seu companheiro José Pacheco Pereira: o primeiro simplesmente não passa na televisão… Mas ficamos à espera dos resultados da participação de um e de outro no próximo Congresso do PSD.

Ou será que nem os Congressos são já para os pensadores do jaez de José Pacheco Pereira?

24 fevereiro 2006

AS TÁCTICAS

Há normas de conduta da blogosfera a que eu, simplório recém-chegado, ainda não me habituei. Há outras a que não faço tenção de me habituar. Entre as primeiras, há as formas de tratamento, quais cortesias de cenografia teatral de Corte de D. João V: meu caro para aqui, meu caro para acolá – quase não há baratos, nem lojas de chineses na forma de tratamento na blogosfera.

Entra as segundas, conta-se um certo estilo infantil de comentar, argumentar e contra argumentar nas caixas de comentários dos blogs que as têm. Sem querer rivalizar com colegas de blogosfera que estão em curso de produzir doutrina mais substancial sobre esta matéria, o referido estilo pode ser sintetizado em acções de copy, paste dos argumentos de outrem a que se martela depois uma contradição e depois se acha imensa graça…

Por exemplo, se eu escrever numa caixa de comentários que acho o que acho porque defendo A e B, então a resposta de quem de mim discorda poderá aparecer escrito desta forma: “Defendo A e B”. Mas A e B são contraditórios! Contradisse-se! Ahahahah

Depois da experiência de um par de episódios demonstrativos de tanta puerilidade, perante a minha evidente falta de vocação para capacete azul da ONU e no limiar de mandar os dois arguentes ir brincar com a pilinha (tratava-se de dois rapazes), impus-me um regime de grande contenção quanto a comentários e a proibição de qualquer copy, paste e, por maioria de razão, do ahahahah infantil que lhe vem atrelado.

Depois de quatro parágrafos de preâmbulo convém anunciar, pomposamente, que me preparo para quebrar os votos de renúncia ao copy, paste. Por culpa de – e só podia ser por culpa de alguém de vulto – José Pacheco Pereira (JPP), o patriarca da blogosfera portuguesa, a quem devemos os nossos recentes 10 mandamentos.

No princípio deste mês, a 2 de Fevereiro para ser mais preciso, José Pacheco Pereira publicou no Público a primeira parte de um artigo analisando os problemas dos partidos políticos portugueses. Na altura enviei uma mensagem a Pacheco Pereira, felicitando-o pelo artigo e perguntando-lhe o que ele, pessoalmente, havia feito enquanto presidente da distrital de Lisboa do PSD para obstar a tal estado de coisas; a resposta ainda deve estar no correio.

Até hoje, dia 24, quando o Público publicou a segunda parte do mesmo artigo onde, lá para o fim, se consagra 1-extenso parágrafo-1 ao que pode ser feito para reformar a orgânica dos partidos:

Estas dificuldades são reais e só podem ser superadas através de uma requalificação da política, que passa não só por profundas mudanças nos partidos políticos, como também na forma de a fazer. São precisos novos instrumentos e novas formas que permitam esta qualificação das direcções “de cima”, que só podem ser levadas adiante e ganhar credibilidade quando se defronta a dupla resistência da mediocridade e dos interesses instalados, coisas que os partidos deixaram crescer até um nível crítico. Sem isso, nem por baixo, nem por cima, os partidos conseguirão manter a influência cívica na sociedade.

(José Pacheco Pereira in A fragilidade dos partidos nacionais (Público, 24/2/2006:11))

Postos perante este verdadeiro manual prático, este Plano de Acções, ouso mesmo dizer, orientador da futura reforma dos partidos, e compreendida a exequibilidade do mesmo, só nos resta arregaçar as mangas e filiarmo-nos em massa…

Falando sério, quando o José Estebes (Hermann José) dizia Eu "bou" dar as tácticas, percebia-se logo que era na brincadeira…

A LARANJA MECÂNICA

Se for apenas a intemporalidade de uma obra a servir de referência sobre a sua qualidade, então Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – 1971) de Stanley Kubrick é, garantidamente, um dos filmes mais geniais de sempre.

Uma cena da qual a imagem que ilustra este post foi retirada – ou pelo menos, uma cena muitíssimo parecida – serviu de objecto às notícias de abertura de todos os telejornais de ontem e de capa da grande maioria dos jornais de hoje.

Para os que nunca viram o filme, ou já o esqueceram, nomeadamente a cena acima representada, recomendo vivamente que o (re)vejam, porque os outros – e aqui estou parafraseando Octávio Machado – sabem bem do que estou a falar

Intemporalmente inadmissível!

23 fevereiro 2006

TERESA AO PODER

Embora tenha dificuldade em atribuir uma nota global à actuação do governo depois de praticamente um ano de governação, não a tenho em atribuir-lhe uma nota elevada para o premiar pela forma como se apropriou dos canais de conexão com toda a comunicação social. Mas ainda a pode melhorar.

Para o fracasso da oposição, não são apenas de responsabilizar as inanidades que Marques Mendes tem vindo a produzir; estou certo que o ritmo e a intensidade dos tambores governamentais abafariam a sua mensagem, fosse qual fosse o conteúdo.

Ainda ontem, um artigo de Miguel Frasquilho no Público (p. 9), deixa o Governador Vítor Constâncio numa posição um pouco desconfortável quanto à sua isenção em todo o tratamento do assunto do défice. Mas isso agora não interessa nada! - como diria a Teresa Guilherme.

Os tais tambores rufaram mais uma vez esta manhã, quando anunciaram que a Portucel, do empresário Pedro Queirós Pereira (um empresário especializado em cimento – Secil - que passou a empresário especializado em celulose e papel - Portucel*), iria investir uns 900 milhões de euros, dos quais 175 seriam de apoios governamentais. Quando, como, onde, foram, mais uma vez e na notícia da TSF, assuntos para a Teresa Guilherme esclarecer.

Em paralelo, materializando-se do espaço em homenagem ao sistema de transporte da famosa Starship Enterprise, apareceu subitamente o debate sobre o nuclear. Pelos vistos há um empresário que quer investir numa central nuclear em Portugal (Patrick Monteiro de Barros), há um banco interessado em emprestar-lhe dinheiro para ele construir a tal central nuclear (BES), há um governo interessado em que se fale muito do assunto (o nosso) e há uma porção de opinion makers que, subitamente, estão a ser solicitados a ter opinião sobre o nuclear.

Para os mais desatentos, devo esclarecer que as novas tendências da moda para a Primavera 2006 apontam, como se viu na Quadratura do Círculo da SIC Notícias de ontem, para cinturas vincadas, cores claras e para que não se mostrem muitas convicções, antes se apele para um maior esclarecimento sobre a questão nuclear. Ao fazê-lo, contudo, é tolerável deixar perceber em que sentido da decisão é que se pretende o esclarecimento...

Se a premonição conta para alguma coisa em relação à forma como esta história do nuclear vai acabar, parece-me já estar a antever o Francisco Ferreira da Quercus a falar das bichezas do costume, agora com o perigo de ficarem radioactivas, e a Teresa Guilherme a cortar-lhe a palavra com a destreza do costume: Isso agora não interessa nada!

Digam lá se ela não faria uma ministra muito melhor do que o Silva Pereira?!

* Se não percebeu a associação, note que se trata de um empresário especializado não de um generalizado. Mas se a sua pergunta tem a ver com a relação entre o cimento e o papel, então a minha resposta é: nada. Mas é melhor pô-la à Teresa Guilherme que ela explica muito melhor que eu...

22 fevereiro 2006

Ó TEMPO VOLTA P´RA TRÁS

Dizem as más-línguas que houve um programa de televisão, faz já bem uns aninhos, ainda a Internet era uma semi-desconhecida, em que o convidado, Marco Paulo, quando questionado por um fã quando apareceria na Internet, respondeu que teria muito gosto em lá ir mas que isso dependeria da oportunidade da Internet em o convidar...

Não podendo assegurar a veracidade do episódio, foi nessa relação difícil entre novas tecnologias e cantores de raiz verdadeiramente popular que pensei quando me vi em enormes dificuldades para descobrir, mais uma vez na Internet, uma fotografia, que, como vêem, acabei por encontrar, do grande fadista António Mourão, o cantor imortal do “Ó tempo, volta para trás/traz-me tudo o que eu perdi…”

E foi para trás que o tempo pareceu voltar quando dei em ler trechos de um comunicado da direcção do PCP, a propósito dos episódios internacionais mais recentes. Para mim, que sou um nostálgico congénito, dá-me sempre um certo prazer ouvir uma espécie de equivalente em vocabulário político a uma gola alta, umas patilhas compridas, uma calça de ganga à boca-de-sino, uma barba cerrada ou um sapato de tacão grosso.

Há naquele comunicado verdadeiras preciosidades de alfarrabista como acções provocatórias, ofensiva mais geral do grande capital e do imperialismo e estratégia de agressão e guerra imperialista. Só é pena que se perceba que, sob a forte pressão ideológica do ultraliberalismo económico, os comunistas ainda não se tenham apercebido que o mundo para o qual aqueles chavões foram criados já não existe.

Na letra de José Gomes Ferreira da famosa Jornada de Fernando Lopes-Graça (Vozes ao Alto! Vozes ao Alto! Unidos como os dedos da mão…) canta-se, a certa altura, que “... até mortos vão ao nosso lado…” Seria escusado é que continuassem a dominar o pensamento do partido…

UMA ESTÓRIA

Embora, seja costume que esta nota figure no fim e não no princípio, julgou-se conveniente adiantar que esta é uma narrativa ficcionada, qualquer semelhança com a realidade será resultado de uma mera coincidência.

Imaginemos que num qualquer país vizinho ao nosso, há um grupo de interesses, representando sobretudo capitais de origem…, por exemplo catalã, predominantes numa empresa que designaremos por… Gás Natural, resolve lançar uma OPA sobre uma outra empresa do sector da energia, assim com um nome como… Endesa, onde os accionistas de referência poderão estar associados a capitais de origem…, sei lá, castelhana.

Nesse hipotético cenário, conjugar-se-iam factores de cariz político interno desse país vizinho imaginário aos de cariz económico, o que levaria o governo central a um estado de indecisão sobre a forma como conduzir o processo: Autorizá-lo? Proibi-lo? Condicioná-lo de uma forma imaginativamente espanhola (Oops!)?

Entretanto, numa outra cidade europeia qualquer, onde o Tintin teria nascido, poderão aparecer uns outros senhores, mostrando-se preocupados com a posição dominante no sector energético daquele país da empresa resultante da concentração das duas envolvidas, de que resultaria um quase monopólio.

Convém entrementes explicar que monopólio é um palavrão muito feio; quando se procura insultar a PT portuguesa, por exemplo, diz-se que ela tem um monopólio e pratica os preços que quer. O que é moderno, está a dar e contenta os senhores da terra do Tintin, é existir um oligopólio com 3, 4 ou 5 operadores, sempre em animada concorrência entre si, com a vantagem de competir à autoridade reguladora provar que há concertação dos preços – o que é tramado como o caraças!

Regressando à nossa estória original, bastante enovelada estava ela quando, de repente, uma senhora que manda lá numa terra onde não se ri e se bebe muita cerveja, telefona ao chefe do governo do nosso país vizinho imaginário para lhe anunciar que há uma empresa do país dos bebedores de cerveja que vai lançar uma contra OPA (oferecem mais dinheiro) sobre a tal Endesa castelhana.

E porque é que a senhora se lembrou de telefonar? Possivelmente para avisar o tal chefe de governo para não se porem com truques baixos e neutralizarem por vias judiciais a tal proposta dos seus compatriotas. E o tal chefe de governo terá gostado de receber o telefonema? Nem por isso, creio, porque poderá mostrar desconfiança e que existe uma reputação dos nossos vizinhos imaginários como especialistas em golpes baixos jurídicos em situações similares.

Finalmente, porque é que tudo isto pode acontecer? Isto só acontece porque a tal senhora que manda lá na terra dos bebedores de cerveja não segue a SIC Notícias nem a RTP2 onde, nos magazines de economia, tanto o Sérgio como o Martim, directores de jornais económicos, se encarregam de nos explicar a pureza do mercado e as virtudes de o deixar funcionar à vontade…

21 fevereiro 2006

ÓLEO DE PEROBA

Eu não consideraria a tolerância como uma característica portuguesa. Aquilo que gostamos de descrever como tolerância é algo próximo da cobardia. Uma coisa será evitar-se os confrontos em sociedade, uma outra coisa são os extremos de passividade a que costumamos chegar para os procurar evitar.

Quem protesta, quem reclama, tem, frequentemente, que se defrontar não só com o destinatário óbvio da reclamação, mas com a hostilidade calada de quase toda a assistência que, antes da injustiça manifesta, condena sobretudo a fita de quem está a protestar.

Entre os preços que pagamos todos por este comportamento social conta-se a qualidade no atendimento em todos os locais de contacto com o público, onde quaisquer bocas, a maioria das vezes justificadas, se calam numa fracção de segundo com o convite para preencher o livro de reclamações.

Aí ninguém se atravessa e, mesmo quando alguém o faz, aparece subitamente e sempre alguém mais moderado, vindo do outro lado do balcão, a convidar o contestatário à ponderação para não se estragar a vida ao rapaz

Aprendi recentemente de um amigo que, à deliciosa expressão tropical cara de pau, se pode adicionar o requinte de dar-lhe óleo de peroba, para puxar o lustro à madeira, num capricho de desplante.

Estas expressões não se inventam, nem se criam, aparecem, donde concluí que, pelo menos naquele aspecto, já se havia cumprido a profecia da música de Chico Buarque e que aquela terra tinha cumprido seu ideal, tinha se tornado um imenso Portugal… Pudera, com o que se lá vai passando a propósito do mensalão...

Um bom cara de pau só prospera nas nossas sociedades porque elas são cobardes como são. Ainda hoje e só hoje, 21 de Fevereiro, a Fátima Felgueiras aparece como convidada num programa da SIC e Isaltino, respondendo ao Público, desvaloriza moção que pede suspensão do (seu) mandato.

Nem falta dizerem como o outro, que prometeu andar por aí, fazem-no. Parafraseando o meu amigo: é dar-lhe óleo de peroba!!!

A VITALIDADE DOS NÚMEROS

Entre as maiores virtudes criadas por esta blogosfera conta-se a possibilidade de poder aproximar de nós pessoas de notoriedade que, de outra forma, permaneceriam lá, do outro lado, no pedestal da sua verdadeira ou imaginada categoria.

Pode ser um desafio ousado, aterrar na blogosfera e escrever num blogue, sujeito às apreciações ou aos comentários muito peculiares da fauna que por aqui anda. Há quem tenha capitalizado imenso com isso (Pacheco Pereira), quem tenha perdido quase tudo com isso (Medeiros Ferreira) e há os que, como em muitas outras coisas na vida, adoptaram uma atitude flutuante, fingindo que cá andam, vêm de quando em vez, não se expondo, mas reclamando-se do aspecto chique da coisa – há sempre a falta de tempo que justifica tudo (Bettencourt Resendes).

Mas, falando agora dos regulares, forja-se entre eles – anónimos – e os outros – famosos – uma espécie de elo de intimidade que parece distinto de tudo aquilo que é produzido nos meios de comunicação tradicionais.

Deve ser essa espécie de elo que me leva a arriscar a aposta que Vital Moreira nem se deve ter dado conta do ridículo intrínseco do seu artigo de opinião titulado A questão financeira do SNS, publicado no Público de hoje dia 21 de Fevereiro. Chega-se ao fim do mesmo e a questão financeira fica esclarecida (na óptica do autor) sem recurso a um único número. Melhor que ele só Michel Rostovtseff, que conseguiu escrever uma História Económica e Social do Império Romano com 400 páginas e também dela não constava nem um único número…

Eu defendo que as questões financeiras não se resolvem apenas com os números mas suspeito convictamente que a sua resolução se torne muito mais complicada sem o recurso a eles. Ou então, anda a abusar-se do termo financeiro… como era o caso do abuso de Rostovtseff do termo económico.

Só por uma pequena maldade e por contraste, muito gostaria de saber qual seria a reacção de Vital Moreira a um artigo de Medina Carreira ou de Miguel Beleza com o título: A questão constitucional do SNS… (mas cheio de números!)

20 fevereiro 2006

THE TRUTH IS OUT THERE?

Mais do que a própria série X-Files, gostaria de evocar o slogan da série (the truth is out there) e a utilização perversa que, por vezes, é feito dele, procurando arquitectar um enredo de conspiração sinistro a algo que se pode afigurar linearmente simples. É o que recordo que seria o maior calcanhar de Aquiles daquela série: um argumento que fazia que andava, se adensava, se enevoava, mas que depois não chegava a lado nenhum.

Vem isto a propósito das vicissitudes que o desmantelamento do antigo porta-aviões francês Clemenceau que, ido de França para ser desmantelado nas Índias, de greenpeacers protestantes atrelados aos costados, regressa agora para trás, por causa dos materiais poluentes (amianto, entre outros) que contém, lembrei-me de as comparar com as outras (poucas) marinhas de guerra do Mundo que têm possibilidades de possuir navios daquela dimensão.

Excluindo à priori os russos, que devem deixar que o óxido de ferro proceda ao desmantelamento natural das embarcações (será este o verdadeiro processo ecológico?), quero crer que só os britânicos (na mesma escala dos franceses) e os americanos (numa proporção muitas dezenas de vezes superior) compartilham com os franceses as angústias do que fazer com um porta-aviões usado.

E, curiosamente, embora a memória possa sempre ser traiçoeira, não me recordo de nenhum grande episódio controverso relacionado com o desmantelamento de grandes unidades navais norte-americanas (e a proporção deve ser, pelo menos, de 10:1 em relação às francesas).

Comece-se agora a compreender agora todo o encanto que, na América, os assuntos de ambiente parecem constituir, um país recheado de ambientalistas, mas onde não parecem existir incidentes significativos nessa matéria, pelo menos a fazer fé na cobertura mediática. Segundo ela (a tal cobertura mediática) os problemas ambientais são como a verdade no mencionado slogan dos X-Files: the truth is out there.

Os problemas out there são no Japão que caça baleias e não devia, no Brasil que abate árvores e não devia, no Canadá que caça focas e não devia, na Alemanha que transporta resíduos nucleares por comboio e não devia ou na França que quer agora desmantelar um porta-aviões e não deve.

Depois há os relatórios menos mediatizados, como os da ONU, que atribuem aos Estados Unidos 20 a 25% da poluição global do planeta, ou, mais pormenorizadamente, os planos para o afundamento de um dos seus porta-aviões antigos no mar alto para que sirva de recife artificial sem que o acontecimento pareça provocar sequer um franzir de sobrolho do hipervigilante Greenpeace… Não se arranja um produtozinho qualquer que possa inquinar as águas?

The truth também is here, só que os tais ambientalistas norte americanos, selectivamente, parecem ter uma reacção muito parecida com uma nossa apresentadora da televisão: Isso agora não interessa nada!!

PS - Por falta de oportunidade não fiz a distinção no poste entre o que designo por ambientalista, indivíduo exuberantemente empenhado na defesa do planeta e e um responsável pelo ambiente que se encarrega de propor medidas alternativas, exequíveis e economicamente comportáveis para a solução dos mesmos problemas ambientais.

19 fevereiro 2006

YES, PRIME MINISTER

Quando, em determinada ocasião e a propósito de escolher um livro sobre política, me pediram que desse a minha opinião sobre dois, recomendei a escolha do Triunfo dos Porcos (Animal Farm) de George Orwell em detrimento da versão em livro deste Yes, Prime Minister de Jonathan Lynn e Antony Jay.

Hoje, reconheço que, embora continue a poder bem fundamentar a decisão daquela altura, bem posso ter estado enganado. O tempo tem-se encarregado de me explicar que o livro de Orwell contem ensinamentos intemporais, mas que nos levam a apreciar os problemas lá de cima, por cima das nuvens. Mas é o de Lynn e Jay, que me tem servido como um verdadeiro manual para as pequenas manobras da política guerrilheira do dia a dia.

Engane-se quem pensar que a sua leitura poderá ajudar-nos a decifrar o significado de muitas movimentações a que assistimos – tanto mais que o livro (e a série televisiva), com mais de 20 anos, estão datado quantos às técnicas utilizadas – mas a humanidade e o ridículo dos seus personagens centrais, com as suas mesquinhices ou os seus calos nos pés, são um verdadeiro antídoto para os esforços de quaisquer agências de promoção de candidatos ou de quaisquer gabinetes de imprensa de ministros.

Os protagonistas, imortalizados pelos desempenhos de Paul Eddington (o 1º Ministro), Nigel Hawthorne e Derek Fowlds (os dois primeiros já faleceram), travam uma luta surda e rijamente disputada pelo poder efectivo que, conforme se vai vendo ou lendo, só na teoria reside nas mãos do primeiro.

Para o espectador ou leitor que assiste a tais peripécias e se assombra com a inépcia e a estupidez do político profissional pende a espada de Damôcles de ser o responsável por acção e omissão da existência de um tal espécime em tal lugar. Afinal o voto é universal e livre, assim como livre é de o fazer quem se quiser dedicar à política – ao contrário da exigibilidade dos exames de acesso à Função Pública, de que Hawthorne é o vértice da hierarquia.

Outro aspecto que esta obra evidencia é a capacidade incomparável que a sociedade britânica tem de rir de si própria – elites incluídas. Dificilmente se veria uma série montada naqueles modos a ter sucesso em outro país e confirme-se isso quando uma pretensa adaptação da mesma, feita entre nós (A Mulher do Sr. Ministro), descambou num encadeamento de clichés revisteiros em que se troçava das classes marginais, mas não das elites – dos arrivistas, das queques, das sopeiras, etc.

Mas o mais valioso que ela ensina é que, havendo uma espécie de gramática da política contemporânea, devemos apostar primeiro nas explicações mais primárias e pueris para as causas dos acontecimentos políticos correntes; só depois podemos elaborar, mas pouco, porque a política e o poder são disputados e exercidos por pessoas sensaboronamente simples.

Um exemplo? Se a afirmação recente do Ministro da Saúde, Correia de Campos, sobre a sustentabilidade futura do SNS, fosse proferida depois de um jantar, numa roda de amigos, estou apostado a arriscar, porque evidente, que nove em cada dez presentes assentariam com a cabeça. Assim como foi feita, é uma inconstitucionalidade… O verdadeiro problema de Correia de Campos? Abrir a boca quando não deve…

18 fevereiro 2006

DIRIA MESMO MAIS…

Será impressão minha ou os posts do Vasco Pulido Valente e da Constança Cunha e Sá no blogue O Espectro se têm vindo progressivamente a imbricar até ao ponto de se estarem a tornar cada vez mais miméticos na sua acidez?

Depois de Hergé ter criado os irmãos Dupondt para as histórias do Tintin da BD franco-belga, estaremos em vias de ter agora na blogosfera portuguesa o Dupond e a Dupona?

A (DES)PROTECÇÃO CIVIL DOS TOMATES

Só hoje parecem estar a acabar as peças e artigos de reportagem que justificam o mais absoluto desajustamento para o desempenho da função por parte do General Bargão dos Santos, o demissionário dirigente máximo do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC).

Como de costume, a coincidência na concentração e profusão de artigos de teor semelhante – o homem, decididamente, não prestava para o lugar (DN 18/02/06:20): Ex-presidente criou “clima de terror” - espalhados por tudo o que é órgão de comunicação social, parecem fazer esquecer a quem as anda, provavelmente, a mandar publicar, que, se fossem verdadeiramente verdadeiras as referidas estórias, a responsabilidade política do grave erro cometido recairia em pleno na figura do dirigente máximo do próprio ministério, António Costa.

O que António Costa fez, por muito que o aprecie e aprecie o seu gesto, foi minorar os estragos, ao apresentar automaticamente um sucessor já empossado. A isso chama-se malabarismo político a que, como a qualquer acto de variedades, se bate palmas, mas não me parece que seja caso para merecer elogios.

Agora, se me fosse possível fazer apostas e não conhecendo pessoalmente o referido General demitido nem ouvido referências a seu respeito por outras vias, queria deixar, como dica de apostador, que não me parece muito verosímil que o homem, o tal do terror, tivesse aterrorizado, anos a fio, o Hospital Militar Principal, de que havia sido dirigente, antes de aceitar este último convite.

A minha aposta vai para que o referido General pertença a uma daquelas espécies raras em Portugal, das que deviam ser protegidas (mas não pela Quercus), mas que normalmente não o são: alguém com tomates, com frontalidade de mostrar que não precisa daquilo para coisa nenhuma e que, provavelmente, por não estar a ser cumprido aquilo que havia sido combinado, por não estar para aturar uma porção de coisas, etc., se foi embora ao fim de nove dias…

E por ter humilhado quem humilhou, como humilhou, está agora a receber a paga…

MISS COIMBRA

Um dos insondáveis mistérios do universo é que permanecem as razões para que os programas envolvendo crianças serem normalmente tão maus. Então, quando se atinge o clímax daqueles feitos pelos amadores, deliciados pais das referidas crianças - Já viste o Joãozinho na última festa de natal? E a Catarina a tocar piano na última récita? – as coisas podem tornar-se mesmo dramaticamente perigosas.

Já pensei apelar à Amnistia Internacional para que promova uma campanha para uma adenda à Convenção de Genebra para o tratamento dos prisioneiros de guerra – que outra coisa são os convidados na sala de estar, diante da TV? – proibindo tais práticas.

Já os programas realizados por profissionais, não tendo o grau de perigosidade específica dos anteriores, multiplicam-no pelo facto de serem emitidos e entrarem pelos lares incautos sem pré-aviso. Um figurino clássico é o de uma parelha de apresentadores juvenis, com uma atitude forçadamente jovial, tratando tudo por tu, complementados por uma turba de putos que grita às ordens de o fazer, mas sem saber porquê.

A minha cena síntese de um programa desses é a de um puto, participante num desses programas da Disney, que, diante de um microfone, entre o intimidado e o aparvalhado, ao perguntar-se-lhe se gostava mais do Mickey ou do Pateta, responde: Sim

Foi nos traumas infantis causados por programas do género que pensei quando li, no Público de ontem, 17 de Fevereiro (p. 17), a resposta síntese de um senhor que é Coordenador-do-Observatório-dos-Poderes-Locais-do-Centro-de-Estudos-Sociais-de-Coimbra às perguntas relacionadas com o processo de reordenamento das freguesias, que irá passar, certamente, pela extinção de muitas.

O senhor, Fernando Ruivo de seu nome, quando inquirido sobre se concordaria ou não com a extinção ou a fusão de freguesias, teve uma resposta que a jornalista sintetizou assim: Preferia o repovoamento em vez de acabar com as freguesias. Embora não tenha adiantado uma palavra concreta sobre a forma de conseguir o tal repovoamento.

Ora, deve ter sido mesmo para isso que o jornal foi escutar os aparentes especialistas da matéria, para que eles digam quais são as suas preferências, numa espécie de recuperação do saudoso programa Quando o telefone toca, mas mais reservado a especialistas…

Agora a sério, já, de há muito, se tornaram famosas as vacuidades proferidas pelas candidatas nos concursos de Misses. Então a opinião de que deveria haver paz no mundo era um must do discurso, até se tornar um gag num filme de Hollywwod (com a Sandra Bullock). O Dr. Fernando Ruivo, o tal Coordenador-do-título-comprido-de-Coimbra, não está a pensar candidatar-se a Miss, pois não?

16 fevereiro 2006

COZINHA INDIANA

É atribuível a Bismarck – o chanceler de ferro tem a reputação de ser uma mina de citações famosas – uma frase famosa, sobre a vantagem de quanto menos se souber como a política e as salsichas são feitas, tanto melhor.

O meu pai acrescentou àquele par, antes da época do política e culturalmente correcto, a cozinha indiana tradicional. Dizia ele, que a tinha experimentado em primeira-mão nos idos anos 50, que qualquer visita ao mercado local, seguida de uma ida às cozinhas com a constatação das condições de higiene em que tudo aquilo era confeccionado constituía um severíssimo desafio à capacidade de almoçar.

E, no entanto, a comida era saborosíssima, bastante condimentada, embora pouco variada, por causa do dilema religioso-gastronómico omnipresente na cozinha indiana: não se pode confeccionar carne de vaca, porque é um animal sagrado para os hindus, nem a de porco, porque é um animal impuro para os muçulmanos.

A excelente condimentação dos textos de José Pacheco Pereira, quer aqui no seu blogue, quer no jornal onde escreve, conjugada com a regular ausência de respostas quando me lembro de lhe colocar questões que até julgo pertinentes conferem ao todo um certo ar de cozinha indiana: pratos excelentes mas a sensação de que corro o risco de ficar muito desiludido se visitar a cozinha…

São pequenos episódios a roçar o bizarro, de que a cooptação do inefável Jorge Coelho para a Quadratura do Círculo é só um exemplo. Mas respeita-se a figura barbada e patriarcal de José Pacheco Pereira e o seu estilo, de quem não dá confiança à plebe. E é acima da plebe de blogues que o Abrupto paira.

É por isso estranho que se leia no Abrupto um post submetido ao tema Dez Leis do Abrupto Sobre os Debates na Blogosfera, escrito num estilo onde se mistura o irónico e o doutrinário mas onde parece querer ser-se cómico, duma forma ligeira. Ora José Pacheco Pereira até pode ter muitas virtudes, e eu até acho que as tem, mas aparenta ter um senso de humor de polícia de trânsito em vias de passar uma multa.

Terá esta sua recente inflexão no irónico/sarcástico alguma coisa a ver com a chegada à blogosfera do campeão do sarcasmo Vasco Pulido Valente? Se fosse só pelo Pacheco Pereira do serviço de mesas juraria que não, mas sabe-se lá o que se passa na cozinha

15 fevereiro 2006

ESTRATÉGIAS COMUNICACIONAIS

Antes de 1989 e da queda do muro havia uma patrulha militante, composta esmagadoramente por simpatizantes comunistas, que eram (são) militantes por inerência, e que não nos deixavam chamar Rússia à União Soviética. Sempre que alguém se descaía e tentava simplificar, havia algum vigilante do rigor geográfico que fazia a correcção visto que a Rússia representava apenas 55% da população e 75% do território da União Soviética.

Sem essa equipa vigilante e atenta para os proteger, tanto o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte como o Reino dos Países Baixos deixavam-se (e deixam-se) tratar displicentemente pelas designações simples de Inglaterra e Holanda, designações correspondentes às suas províncias principais. Nem sei que designação alternativa à de holandês existe para um habitante dos Países Baixos: será país-baixista?

Serve-nos esta pequena história de exemplo para que nem estas estratégias de comunicação muito bem montadas podem servir de alternativa à substância dos acontecimentos. O que chamávamos à União Soviética no exterior foi irrelevante para a sobrevivência do Império Russo que se desmoronou em 1989, independentemente do nome que se lhe quisesse dar.

Ora bem, a estratégia comunicacional de anunciar que o défice de 2005 ficará ligeiramente abaixo dos 6% do PIB, o que é excelente porque supera o que se estava à espera, não pode transformar esta notícia numa óptima notícia porque, na realidade, o défice continua a assumir um valor colossal!

Se bem entendi, o verdadeiro objectivo e o programa que o governo firmou passa por uma redução progressiva do défice ao longo dos anos até atingir os valores consentâneos com o PEC europeu (2 a 3%). Até agora, o que aconteceu é que, não se tendo reduzido ainda défice nenhum, os números que se apuraram bateram certo com as estimativas e até as superaram. Posto de outra maneira: o governo não se despistou logo na primeira curva. Ainda bem! Mas deve saber que só agora começa a parte mas difícil.

E quem começa a festejar assim à segunda-feira um trabalho que só estará terminado lá para o fim de semana...

O CÃO QUE NÃO LADROU

Não sou um grande apreciador das aventuras de Sherlock Holmes mas gosto, por vezes, da argúcia de raciocínio que Conan Doyle confere ao seu personagem.

Um desses casos que mais aprecio, é o de uma situação em que Holmes chama a atenção para o estranho comportamento do cão perante a surpresa de Watson, dado o cão nem ter reagido, e quando este lhe chama a atenção para esse facto, Holmes confirma-o: é que o cão devia ter reagido e o estranho foi não o ter feito.

No caso do caso Eurominas, que não vai chegar a ser caso nenhum porque o PS, prestimosamente, deu por findas as investigações da comissão parlamentar de inquérito, também se esperaria que o cão ladrasse e produzisse um documento esclarecedor de uma situação inequivocamente confusa de onde a única certeza que parece se poder extrair é que o Estado foi lesado em benefício da referida empresa Eurominas.

Mas, nas estratégias comunicacionais dos tempos que correm, cada vez estamos mais habituados à figura dos silêncios ensurdecedores. Este é um deles. Da parte de alguém, como eu, que não tinha nenhuma opinião formada sobre o assunto mas procurou fazê-lo, ficou um novelo e um nevoeiro de suspeitas a pairar sobre figuras gradas do PS nele envolvidas: António Vitorino, José Lamego e Narciso Miranda.

Em que deve haver culpas sérias, porque não se adivinha outra razão para o cão não ter ladrado…

14 fevereiro 2006

THE PRESIDENT AND THE VICE PRESIDENT OF THE UNITED STATES OF AMERICA


Eu bem sei não ser muito pertinente, nem muito respeitador, nem, provavelmente, lá muito original. Isto para nem falar da possibilidade séria de nem ter graça. Mas, mesmo sendo do mais primário possível, não resisto, na senda do post anterior, em fazer uma evocação à equipa dirigente da Administração norte-americana, nas pessoas do seu Presidente e do seu Vice-Presidente.

Espero que os desenhos ainda caibam no âmbito do humor que, apesar de uma eventual apreciação negativa oriunda do Palácio das Necessidades, não fira as directivas sobre o assunto recentemente emanadas por Sua Excelência o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Prof. Dr. Diogo Freitas do Amaral: não há qualquer evocação religiosa…

WATERGATE

Os Homens do Presidente (All the president´s men) deste filme que descreve as investigações de dois jornalistas do jornal Washington Post na sequência do assalto à sede de candidatura do Partido Democrático situado no edifício Watergate, não são Redford ou Hoffman, nem Bob Woodward ou Carl Bernstein (os verdadeiros jornalistas originais) mas antes a equipa de mão ao serviço do presidente Nixon destinada a promover as operações sórdidas que o presidente e os seus assessores próximos julgassem necessárias.

Na ressaca dos acontecimentos dos inícios da década de 70, que culminaram com a demissão de Nixon (em Agosto de 74) para evitar que fosse demitido pelo Congresso, ficou, entre outras coisas, o valor da perseverança no jornalismo de investigação, uma imagem transmitida pela América para o Mundo de que, no seu sistema político, ninguém podia ficar acima da lei e o sufixo gate como sinónimo de bronca da grossa, usada depois a propósito e a despropósito pela imprensa.

Mas, nem mesmo nessa altura, com a cadeira presidencial a ser ocupada por alguém que se pode considerar muito económico com os escrúpulos, nem anos depois, quando a mesma cadeira foi ocupada por alguém que não percebia grande coisa do que estava a ser discutido e aproveitava para passar pelas brasas (Reagan), se assistiu a um grau de insegurança e imprevisibilidade quanto ao conteúdo das decisões oriundas da Casa Branca, como acontece actualmente.

É que, mais do que a pessoa do presidente, parece ser todo um clã que o rodeia que está sob suspeita. Deve haver quem tenha saudades do tempo em que o maior problema da presidência eram os gostos do seu titular para perfumar charutos. Mau grado as correcções visíveis durante este segundo mandato, o capital de confiança disponível pela Casa Branca por parte de muita opinião pública mundial permanece no negativo: não só nem acreditam no que eles dizem mas até suspeitam que estejam a mentir.

Assim sendo, a capacidade de mobilizar vontades, de propor e liderar soluções para os grandes problemas com que o Mundo se defronta mostra-se estranhamente vazia. E nem mesmo a solução do impeachment de Bush – tão do agrado de um amigo meu – resolveria a questão: legalmente, o sucessor teria de ser Cheney, o caçador…
O Mundo anda perigoso e a percepção geral é que um dos maiores perigos vem justamente da Casa Branca…

13 fevereiro 2006

OS AMIGOS DA ONÇA!!!...

Há ocasiões que parece terem sido criadas para que possamos desabafar: “É bem feito!” Pode ser o que muita gente pode estar a pensar a propósito do problema entre israelitas e palestinianos.

O Hamas, vencedor das eleições, agora tem de deixar de ser só amigo da onça, e de insultar os judeus, cascar nos membros da autoridade palestiniana, prometer mais mártires para passar a contribuir para soluções responsáveis que se mostrem benéficas para o eleitorado que os elegeu.

Na mesma onda e cá no burgo, gostaria de propor que o Vasco Pulido Valente passe a empenhar a sua reconhecida argúcia, capacidade de análise e de expressão na redacção de legislação que viesse a erradicar todos aqueles vícios que aponta na nossa sociedade.

O quê? Então os vícios não se curariam só por haver legislação escrita contra eles? Então de que serve passar o tempo a escrever (só) a criticá-los?...

«GLI NOSTRI FRATELLI ITALIANI»

(Os nossos irmãos italianos)


Hoje, confesso, uma parte do meu poste é feita à custa do trabalho de outrem. Mas, para alguns de nós, o filme acima pode-nos servir de consolo para o facto de não serem só os portugueses a terem complexos de inferioridade por frequentaram um clube selecto chamado União Europeia.

Esta nossa tara colectiva de nos considerarmos os eternos penetras de uma festa sofisticada que nem nos era destinada, deve ser compartilhada, em maior ou menor grau, por italianos, gregos, talvez pelos espanhóis e provavelmente por outros ainda mais fleumáticos e hábeis na arte da dissimulação.

Mas o bom humor de que os italianos dão aqui mostras mais do que justifica a sua inclusão. Mais do que isso, a sua indispensabilidade, porque não há festa sem boa disposição e se estivéssemos a contar com os alemães, os franceses, os holandeses, os austríacos ou os nórdicos para isso…

Com os meus agradecimentos e a minha homenagem a Bruno Bozzetto.

12 fevereiro 2006

OS PEQUENOS VAGABUNDOS

Esta série dos Pequenos Vagabundos (Les Galapiats, no original), para aqueles que se lembram dela, é um verdadeiro hino à nostalgia em mais do que um aspecto.

Um verdadeiro sucesso televisivo, oriundo de um pequeno país europeu (Bélgica francófona), e por isso, dificilmente repetível (como aconteceu, naquela época, com a Pippi das Meias Altas, da Suécia, depois com o Verão Azul espanhol, ou, mais recentemente, com o Comissário Rex austríaco), os Pequenos Vagabundos servem também para marcar o ocaso do preto e branco nas séries juvenis de sucesso. Não deve ter sido coincidência que fosse Portugal (dos poucos países europeus onde a TV ainda transmitia a preto e branco) um dos países onde a série se tornou mais popular.

Produzida e realizada por belgas francófonos, naquela época em vias de perder a proeminência no poder político belga para os seus compatriotas de cultura flamenga, a série é também um derradeiro esforço de dar uma dimensão global à francofonia (os protagonistas são quase todos de nacionalidades diferentes, embora exprimindo-se todos em francês) que tinha vindo a ser definitivamente suplantada pelo inglês.

Mas também havia coisas novas na série, pelo menos para a quem ela assistia neste pequeno jardim à beira-mar plantado. Era uma história de aventuras onde, ao contrário das impolutas Aventuras dos Cinco de Enid Blyton, havia uma sugestão de romance, com dois protagonistas bonitinhos a arrancar suspiros da audiência e a trocar dois beijinhos (na carinha, pois claro) no último episódio.

Finalmente, a nostalgia da idade dos espectadores, que ainda permitia levar a sério um argumento em que se ia à procura de um tesouro medieval dos templários, se encontravam os lingotes de ouro que afinal eram de um assalto feito por maus, muito maus, irrecuperavelmente maus, que eram castigados no fim...

Para aqueles que se tenham entusiasmado mais sugerimos a visita a um site dos nostálgicos (em francês) Mas não nos responsabilizamos por eventuais desilusões com a Marion...

QUE BOM QUE TENHA HAVIDO O TAL MILHÃO DE VOTOS

Se o tal de milhão de votos das presidenciais puder transmitir a Manuel Alegre um maior à vontade para poder intervir no Parlamento de acordo com as suas opiniões e não em sintonia com a ortodoxia do partido e se o mesmo milhão de votos servir de catalisador para a comunicação social concentrar as suas atenções nas intervenções do deputado, então abençoado (uma bênção republicana e laica, bem entendido) seja o tal milhão de votos.

A existência de uma voz discordante dentro da maioria governamental que, acessoriamente, até parece servir de porta-voz a uma fracção significativa do eleitorado que o elegeu (ao governo), torna-se tão refrescante, que até poderá servir para a melhoria do funcionamento e da imagem das instituições, neste caso dos deputados da Assembleia.

É que essas são preocupações recorrentes, que, normalmente, tem a duração aproximada da do programa televisivo onde o assunto é debatido. Onde se dizem umas coisa para ficar tudo na mesma. Se assim não fosse, era impossível o destaque conferido a figuras descartáveis (tipo Gillette) do gabarito de Vitalino Canas.

Vitalino, que deve estar em comissão de serviço para dizer as coisas inacreditáveis de que o encarregam, quando chegar ao fim da mesma vai deixar de estar potável (como aconteceu a outros antes dele – Jorge Lacão e Guilherme Silva são dois exemplos) e será provavelmente recompensado pela militância.

Não se censure de antemão Vitalino. Ele até pode merecer a recompensa. Alegre até pode fazer-nos o obséquio de tornar algumas sessões parlamentares deveras interessantes. É o que eu desejo.

LUMINOSIDADES

Ainda bem que, como demonstrou uma sondagem publicada esta semana, não ficaram ressentimentos populares contra Mário Soares depois das eleições presidenciais. Nela, Soares continua a ser considerado o político do após 25 de Abril a quem Portugal mais deve.

Como numa boa história trágica à maneira lusitana, tudo começou com Soares a liderar o povo na manifestação da Fonte Luminosa e acabou com o povo a liderar Soares para fora do palco luminoso… Estou desconfiado que ainda haverá um Fado do Bochechas

11 fevereiro 2006

A BANDEIRA

Já é habitual ver a bandeira americana a ser queimada. É de uma banalidade tal, que se pode mesmo dizer que se comem bandeiras americanas ardidas ao pequeno-almoço. Ás vezes, como suplemento vitamínico, serve-se a Union Jack britânica. São países com ambições globais e com caparro para aguentarem a cena.

Agora a da Dinamarca? Além de ser chocante até se podem notar traços de despotismo da parte dos manifestantes. Que capacidade de intimidação poderão ter os dinamarqueses? Quem se segue? Poderá ser o Liechtenstein ou San Marino?

Aquela bandeira vermelha e branca está a ter para nós, habitantes de países europeus de média dimensão sem grandes pretensões estratégicas mundiais, uma capacidade inédita de nos fazer identificar com os valores simbólicos que estão a ser pisados por aquela turba que passa na televisão.

10 fevereiro 2006

RTP MEMÓRIA

Se há alguma coisa que falta à RTP Memória para que ela tenha todo o cunho nostálgico dos anos 60 é a falta daquele slide que irrompia após uns minutos inesperados de escuridão total do ecrã: Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos.

Uma RTP Memória que quisesse recuperar mesmo o espírito daquela época para satisfação dos nostálgicos teria que passar um em cada cinco programas dos mais antigos com um intervalito de dez ou quinze minutos com o famoso slide, mudo nos primeiros cinco, depois com uma musiquinha ambiente porque os técnicos já tinham resolvido o problema de som - agora só faltava a imagem...

ALLAH-O-AKBAR!

Na guerra de informação (ou de propaganda) que anda a ser travada por causa dos cartoons do jornal dinamarquês e das reacções nos países muçulmanos aos cartoons do jornal dinamarquês, tem-se assistido a um lançar de pedras alternado dos dois lados, com o intuito de chamuscar a reputação da parte adversa.

Anteontem, descobriu-se que a publicação das famosas caricaturas ocorrera há quatro meses e meio, em Setembro, o que tornava questionável a oportunidade da manifestação de tanta indignação depois de tanto tempo decorrido após os acontecimentos.

Ontem, descobriu-se que o jornal dinamarquês já recusara anteriormente publicar caricaturas de conteúdo anticristão, o que provava que a sua direcção estava perfeitamente ciente da contestação que poderia causar a publicação de cartoons de carácter anti-religioso.

Hoje, descobre-se que algumas das controversas caricaturas haviam sido publicadas num jornal egípcio, tendo passado desapercebidas. Mas apareceu uma outra novidade, substancialmente muito mais importante do que a pequena troca de galhardetes que, no fundo, as outras notícias constituíram.

Assim, as manifestações de repulsa nos países islâmicos teriam vindo a ser organizadas desde Dezembro, depois da realização de uma Conferência Islâmica realizada na Arábia Saudita, que até teria contado com a presença do presidente iraniano, e onde o assunto teria sido abordado a pedido de clérigos oriundos da Europa, nomeadamente da Dinamarca.

A primeira diferença substantiva que esta notícia trás é que o patrocínio das manifestações, até agora, havia sido atribuído às correntes radicais do islamismo. Ora é muito razoável admitir que uma Conferência Islâmica não seja nenhum fórum de radicais, antes uma Assembleia formada por ponderados membros do clero – à semelhança do que será uma Conferência Episcopal da Igreja Católica. Conservadores, sim, reaccionários, provavelmente, mas não radicais.

A outra diferença substantiva vem do comportamento dos clérigos islâmicos europeus que, descontentes com a condução do problema segundo as normas vigentes na Europa, vêm colocá-lo num outro fórum, que esteja mais de acordo com as suas convicções. Até pode ser defensável que o faça mas não será surpreendente que esse comportamento possa facilmente vir a ser considerado como o equivalente a uma espécie de uma quinta coluna islâmica na Europa.

Passado todos estes dias de manifestações, parece também tornar-se evidente que o controlo do povo das ruas, os soldados que se manifestam e atacam as embaixadas e os interesses ocidentais, é fraquíssimo. Os acontecimentos tendem a descontrolar-se facilmente, como se viu, aliás, recentemente, com os confrontos recentes entre sunitas e xiitas, a propósito das celebrações religiosas destes últimos.

Mas, para além das manobras de geopolítica pura e dura, onde há países islâmicos que talvez necessitem de passar ao contra-ataque para sacudir a pressão que possa estar a ser exercida sobre eles por parte de países ocidentais – a Síria ou o Irão são candidatos evidentes -, retenha-se que, a fazer fé nestas últimas notícias, não são radicais fundamentalistas os que estão por detrás deste movimento de contestação aos cartoons dinamarqueses, assim como não são os radicais fundamentalistas da defesa dos direitos humanos* aqueles que defendem o direito de os publicar.

E é isso que confere muito mais seriedade e preocupação à disputa em curso.

* Sabia que há uma Declaração Islâmica Universal dos Direitos do Homem?

09 fevereiro 2006

ESCUTAS

Para que não fiquemos com a impressão que só nos acontece a nós, também a Grécia anda a conviver com um escândalo de escutas, quando se soube, no princípio deste mês, que os telemóveis de muitos altos responsáveis gregos estiveram sob escuta, durante um período de cerca de nove meses, desde Junho de 2004 até Março de 2005.

A lista dos escutados incluía o próprio primeiro-ministro grego, os ministros dos negócios estrangeiros, defesa, administração interna, justiça e da marinha mercante, vários membros do topo da hierarquia das forças armadas, o presidente da câmara de Atenas, para além de inúmeras outras pessoas sem cargos relevantes na administração grega. Já esta semana, foram adicionados à lista o nome dos chefes da polícia, da segurança dos Jogos – as escutas abrangeram o período em que decorreram os Jogos Olímpicos de 2004 – da luta antiterrorista e dos serviços secretos.

Este menu de personalidades escutadas, conjugado com o facto das escutas terem decorrido debaixo do apoio logístico e através de uma operadora multinacional – a Vodafone – faz apontar para tenha havido mãos americanas por detrás das escutas, muito embora isso agora se mostre difícil de provar, dado que o equipamento de escuta já foi desactivado.

As razões para esta intervenção prender-se-iam com uma certificação redobrada sobre o sistema de segurança instalado para a realização dos Jogos Olímpicos de 2004, mas o assunto afigura-se controverso, para mais quando a culpabilidade americana também se torna conveniente para uma das facções políticas gregas – o PASOK e outras organizações de esquerda, na oposição.

Mas o facto das escutas terem decorrido ao abrigo da operadora multinacional Vodafone pode-nos servir de exemplo tangível da distinção entre os centros de decisão e os centros de competência que o Administrador em Portugal da mesma Vodafone – António Carrapatoso – tem mostrado propensão para confundir.

É que os serviços técnicos gregos da Vodafone foram competentes a instalar os aparelhos de escuta; agora, onde estarão, e que nacionalidade terão, aqueles que decidiram instalá-los?

DAR A MÃO À PALMATÓRIA

Esta é daquelas expressões que empregamos no português coloquial corrente sem nos apercebermos das razões da preferência do seu emprego em relação às alternativas. Assim a expressão ir a Canossa é demasiado erudita, o verbo penitenciar tem um cunho religioso que pode ser excessivo e pôr o baraço ao pescoço, como fez Egas Moniz, confere uma solenidade ao gesto que pode ser despropositada.

Assim, em vez de confessar o nosso engano, contornamos a confissão dando a mão à palmatória, como se a mão, esticada, pudesse ser um pouco distinta de nós, e assim minorasse em parte a nossa responsabilidade (ou a nossa ingenuidade) pelo engano. A mão é que apanha, não somos nós.

E em que é que há que dar a mão a palmatória? Uma das consequências deste episódio das manifestações dos muçulmanos radicais a propósito dos cartoons publicados no jornal dinamarquês foi o de enterrar uma certa ideia de que havia uma terceira via, europeia, mais compreensiva e cosmopolita, de lidar com a conflituosidade entre os Estados Unidos e o Islão radical.

Entre um Bush abrolho e desastrado e o radicalismo islâmico que, entre nós, evitava ter uma cara – teria de ser Ossama e não é muito curial ter como símbolo alguém que organiza operações suicidas – a nossa concepção do posicionamento correcto face ao conflito é a de alguém que compreende por igual o extremismo das duas posições.

É evidente que o que agora percebemos como equívoco só se manteve por causa da estrondosa falta de jeito da Administração Bush em cativar opiniões públicas fora dos Estados Unidos. A sua máquina de propaganda, tendo sido um sucesso dentro de casa – Bush foi reeleito – passou a um grande fiasco logo a um metro depois da vedação das fronteiras americanas.

Nas batalhas do softpower, onde se procura ganhar a simpatia da assistência, o radicalismo islâmico só precisou de andar calado e de beneficiar da simpatia natural que se ganha por ser o pequeno que defronta o grande.

Até se chegar aos episódios dos atentados de Madrid, de Londres, do desenvolvimento do armamento nuclear iraniano ou da reacção aos cartoons do jornal dinamarquês. A propósito do penúltimo, ligeiramente menos mediatizado, assistiu-se há dois meses ao anúncio por parte do, até então, cosmopolita e compreensivo presidente francês, da possibilidade do recurso ao armamento nuclear como forma de dissuasão.

Mas foram as manifestações em reacção aos cartoons que, como uma pedra largada de grande altura, fizeram a água transbordar do copo. O islamismo, tal qual é interpretado pelos radicais, não é simpático e tem opiniões sobre tudo e em todo o Mundo; agradece a nossa bonomia, mas não a retribui. Quanto aos radicais, eles bem sabem onde podemos meter as nossas declarações universais e documentação correlacionada.

É sempre triste ter feito figura de otário. Será pior para aqueles que se destacaram por ser das esquerdas plurais, multiculturais, diferentes, que já perderam imenso espaço de manobra, com os discursos do passado, para poderem inflectir sem confessar terem feito uma grande figura de otários.

Entretanto, como fez Fernando Rosas do Bloco de Esquerda num artigo do Público de 8 de Fevereiro, a propósito do Irão, assobiam e fingem que nada se passa, nem nada mudou, em elaboradas estruturas argumentativas. Exemplifica-se usando as vogais em ordem inversa, o designado UOIEA: um otário invocando estúpidos argumentos *.

Mas o mais aborrecido de tudo, para além de se sentir otário, é ser tratado por otário, com aconteceu com a famosa nota a propósito deste assunto, emitida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros…

* “Até agora não foi apresentada qualquer prova que o Irão esteja a mentir” – como o que está em causa é uma intenção (a do Irão possuir armamento nuclear), a mentira só pode efectivamente ser comprovada com a existência de uma arma atómica iraniana – o que é precisamente aquilo que se pretende impedir…

08 fevereiro 2006

A MÊLÉE

Para a esmagadora maioria da muito menos esmagadora quantidade de leitores deste blog que não devem perceber grande coisa de râguebi, quero esclarecer que a gravura anexa ilustra uma formação ordenada, embora seja mais chique e corrente designá-la no termo inglês original – scrum – ou usando a expressão francesa – mêlée.

E em que consiste a tal de mêlée? Os oito jogadores mais possantes e entroncados da equipa de râguebi (os avançados) dispõem-se de uma determinada forma (3 + 4 + 1) e encaixam-se no dispositivo idêntico da equipa adversária, procurando, com a coordenação dos esforços, empurrá-la, avançar e ganhar terreno enquanto controlam a bola, que entretanto foi introduzida junto ao chão no corredor existente na fronteira entre as duas equipas.

Visto de fora, com as rotações que o conjunto faz, deliberadamente provocadas por uma das equipas (a mais fraca) ou devidas ao equilíbrio precário em que permanente se encontra, a mêlée parece comportar-se como uma espécie de caranguejo bêbado, ora para cá, ora para lá, até se desfazer nas suas entidades constituintes: os dezasseis jogadores.

Na sua simplicidade, a constituição da mêlée pode ser um excelente exemplo, e visível, ainda por cima, de uma metáfora do funcionamento dos mecanismos de mercado, com a conflituosidade dos interesses das duas partes, a sua organização e a obtenção de um ponto de equilíbrio, sempre precário.

Usando esta simples analogia, torna-se muito mais evidente compreender o absurdo que se anda a praticar, por parte de defensores de correntes de pensamento económico liberal ou ultraliberal, quando, no discurso escrito ou falado, personalizam, para além do bom gosto razoável, o mercado, atribuindo-lhe virtudes de clarividência – o mercado sabe, o mercado reage – e de presciência – o mercado antecipa – que parecem estar vedadas aos comuns mortais.

O mercado, como a mêlée, é composto pelos intervenientes, que se organizam segundo regras estabelecidas de antemão, mas cuja evolução, depois disso, é fruto das circunstâncias. Imaginando que algum dos intervenientes na mêlée se descuida durante a mesma, é previsível que o comportamento do conjunto seja diferente àquele que aconteceria se ele se tivesse sabido conter.

Agora, o que pareceria uma cereja no bolo da estupidez ideológica seria escutar um elogio sobre a hipersensibilidade odorífera da mêlée e/ou uma elaboração sobre a sua capacidade de reacção a ambientes desfavoráveis.
Embora possa parecer absurdo, foi algo de semelhante ao que ainda ontem, a propósito da OPA da SONAE, se ouviu em antena a um director de um jornal económico, quando usava a expressão mercado criativo… a juntar a todas as outras virtudes que já lhe ouvi atribuir ao mercado.

Parece haver gerações que necessitam desesperadamente de criar ícones, de deificar algo, de lhes atribuir virtudes e poderes sobrenaturais. A do Dr. Salazar tinha A Nação. Escrevia-se e discursava-se Tudo pela Nação, nada contra A Nação. A actual parece venerar O Mercado.

Como a História parece repetir-se, e as gerações, às vezes, parecem nada querer aprender com Ela, poderia ser salutar se a geração do Dr. Salazar pudesse mostrar à actual, através da Grande Depressão dos anos 30, o lado menos entusiasmante de O Mercado

07 fevereiro 2006

EFEITOS DE ESCALA

Na Física, existe uma Teoria para explicar a forma como se rege o infinitamente grande, a Teoria da Relatividade de Einstein e uma outra Teoria, distinta, a dos Quanta, de Max Planck, que explica o comportamento do infinitamente pequeno, à escala atómica.

Como o infinitamente grande é composto de uma quantidade infinita de infinitamente pequeno e aquelas duas teorias são profunda e estruturalmente distintas, uma delas, senão mesmo as duas, deve estar incorrecta.

Mas já John Maynard Keynes havia transposto o mesmo problema de escala para a área económica, quando formulou a famosa máxima: “Se devemos dez mil euros a um banco, temos um problema mas se devermos dez milhões de euros ao banco, o problema passa a ser do banco.”

Esta comprida introdução serve como justificativo para o facto da minha admiração ser muito mitigada quando se fala dos grandes empresários, ou entrepreneurs, como se diz em estrangeiro, e usou hoje o Martim na TSF referindo-se a Belmiro de Azevedo.

Quando, há umas semanas, gabei aqui os méritos do novel Grã-Cruz da Ordem do Infante, Sr. William Gates, fi-lo por outros méritos que lhe reconheço para além do facto de ser o homem mais rico do mundo, ponto final parágrafo.

Reconheço que há muito mérito deles quando se procede à descolagem e ao arranque das actividades iniciais com sucesso. É como a fase mais angustiante das viagens de avião. Agora quando já se é colossalmente rico e se vai em velocidade de cruzeiro os riscos que se correm são substancialmente menores.

Admitamos, para efeitos de exercício, que conhecemos um desses entrepreneurs com uma fortuna pessoal avaliada 100 milhões de euros. Fez uma série de operações que lhe correram mal e perdeu 20 milhões. Como o consideraremos depois disso, com uma fortuna pessoal de apenas 80 milhões? Alguém que vive na mais abjecta miséria? O que teria acontecido a qualquer outro desgraçado que tivesse perdido o mesmo montante?

Em sentido oposto, pelo mesmo efeito de escala, há muito menos concorrência entre as oportunidades de negócio que se colocam. São poucos os que dispõem dos montantes a investir ou da capacidade de mobilizar capitais que os grandes investimentos arrastam. A máxima de que o dinheiro atrai mais dinheiro é já muito antiga.

Enfim, eu na minha e eles na deles. Agora confesso não gostar que me venham acenar a bandeira portuguesa à frente do meu nariz, como me está a parecer que Belmiro anda a tentar fazer a propósito da OPA que a SONAE vai lançar sobre a PT.

Eu gosto de torcer pela selecção mas esta OPA não me parece nenhum jogo de futebol, nem um filme de cowboys e índios, com bons e maus, nem, já agora, uma espécie de Aljubarrota revisitada, com Belmiro contra os espanhóis, tanto mais quanto parece que há espanhois dos dois lados.

Eu bem sei que Belmiro é português, mas invocá-lo para tentar conquistar a opinião pública na sua pretensão de que o estado abdique da sua golden share de controle da PT (o estado cederia, mas seria para um entrepreneur português…) parece-me excessivo. Tanto mais porque o estado (se a reacção de Sócrates for genuína) parece também ter sido apanhado de surpresa com a intenção manifestada pela SONAE.

É normal que Belmiro de Azevedo tente forçar a decisão governamental. Mas foi para isso que eu votei num governo, num processo onde o meu voto e o voto de cada um conta tanto como o dele. Mas, se o governo decidir abdicar do seu controle sobre a PT, que o faça por razões políticas suas, não porque Belmiro de Azevedo acha que sim e que era agora. Ao governo, eu depois terei condições de julgar posteriormente.

Eu não tenho confiança em Belmiro de Azevedo, nem ele tem que me prestar contas. O facto de partilharmos a mesma nacionalidade não me leva, nem a ter de gostar, nem de desgostar dele. Há é uma estrutura eleita encarregue de promover o que pensa ser melhor para a sociedade. Que bem pode não ser o que Belmiro de Azevedo pensa.

É que, quanto a atitudes beneméritas de entrepreneurs portugueses, obras marcantes para o bem da nossa sociedade, quero lembrar que o nome que mais associamos à filantropia em Portugal é o portuguesíssimo nome de… Calouste Gulbenkian.

POSTE PRIMÁRIO SINTETIZANDO UMA REACÇÃO PRIMÁRIA

Se bem compreendi na sua globalidade a nota emitida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português a propósito dos problemas surgidos no seguimento das reacções em diversos países muçulmanos à publicação de cartoons num jornal dinamarquês, a minha opinião sobre a reacção oficial do governo português pode sintetizar-se na fotografia anexa.

Assim mesmo, a baixar as calças e a mostrar o rabinho, o que não me deixa particularmente orgulhoso.

06 fevereiro 2006

QUEM NÃO PRECISA DE TERAPIA OCUPACIONAL

É dos cânones alertar quem ocupa os lugares de decisão cimeiros para que não caiam na designada “armadilha da actividade” – activity trap, quando queremos falar em estrangeiro para passar por consultores de renome.

É o tipo de situação que ocorre quando não se consegue fazer a distinção de entre os problemas que ocorrem para resolver, entre aqueles que são importantes e aqueles que são apenas urgentes

Acresce que, na actividade política, os últimos são normalmente os que são ampliados pela comunicação social, pela necessidade das suas próprias necessidades e agendas, o que leva a que se tornem urgências muito badaladas.

Mas a grande verdade é que os problemas importantes raramente são urgentes e os urgentes só muito esporadicamente são importantes. E quem gasta tempo a dedicar-se a uns pode ficar sem tempo para dedicar aos outros.

Ou, dito de uma forma ainda mais prosaica, urgente é ir à casa de banho e importante é preencher e entregar a declaração dos impostos. Não há importância naquilo que fazemos na casa de banho, nem urgência na entrega da declaração dos impostos – a não ser que estejamos no último dia…

Agora a grande chatice é que, como ouvi de um alentejano sábio, todas as coisas levam o seu tempo e há de certeza muitas coisas urgentes que, ao contrário do exemplo anedótico da ida à casa de banho do parágrafo anterior, se podem delegar noutras pessoas.

E se o Engenheiro Sócrates (é nele que estou a pensar) estiver, como deve estar previsivelmente, assoberbado de trabalho, não se deve esquecer que nos assuntos urgentes sempre há quem os possa ir resolvendo, mas que nos importantes, a responsabilidade pela sua resolução, decorrente dos resultados eleitorais, é exclusivamente sua.

Por tudo isso é que ocorre perguntar: que raio de ideia foi aquela de herdar o cargo do Jorge Coelho no PS?

PS - Embora não queira postar sobre o assunto por visível saturação blogosférica, nem quero deixar dúvidas sobre qual a minha postura a propósito da controvérsia das caricaturas do jornal dinamarquês. Se aqui defendi a legitimidade e liberdade do Hamas para formar governo na Palestina, foi no pressuposto de exigir reciprocidade no respeito por parte do mesmo Hamas sobre aquilo que se publicou na Dinamarca.

PORQUE É QUE AS PERSONAGENS DAS TELENOVELAS NÃO TÊM NOMES REPETIDOS E OUTRAS COINCIDÊNCIAS ENGRAÇADAS

Foi por acaso que comecei a registar que o nome das personagens das telenovelas raramente ou nunca se repetia, contrariamente à nossa experiência de vida, em que os Joões, as Catarinas, os Pedros e as Isabéis precisam de ser identificados frequentemente com o apelido ou um outro atributo que os distinga dos seus homónimos.

Numa telenovela que se preze não há nada disso. Do elenco poderá constar um Amílcar e uma Deolinda (normalmente o pessoal menor da casa senhorial), esgotar o alfabeto até um Zeferino ou a uma Zulmira, mas dois Zés ou duas Marias são ousadias que poderão conduzir à confusão do telespectador.

Onde o telespectador da TVI não ficou confuso foi ontem, Domingo, à hora de almoço, quando escutava Valentim Loureiro, a explicar a sua perspectiva do processo em que é arguido. E em que, surpreendentemente, se considerava inocente. Tal como Carlos Cruz, quando fez o périplo das três televisões e conseguiu ficar com os olhos húmidos rigorosamente na mesma altura do seu depoimento em cada uma delas.

Promovesse a TVI oportunidade idêntica a todos os arguidos que o sistema judicial vai produzindo e chegaríamos ao corolário que talvez haja uma certa falta de justificação para tantas cadeias em Portugal, uma vez que elas estão, possivelmente, cheias de gente inocente como o major que, a última vez que deve ter apreciado um presídio por dentro, vai para uns longínquos 40 anos, a propósito de umas míseras batatas.

Houvesse televisão e TVI nos anos 20 e perderíamos o direito à nossa coroa de glória portuguesa do livro Guiness de recordes: Alves dos Reis era um escroque, decerto, mas era muito inteligente, bem-educado, e não era mau rapaz. Como, por exemplo, era menos arrogante e vestia melhor do que Vale e Azevedo e só tinha tentado aldrabar o Estado português, que somos todos nós, mas não podemos sê-lo todos ao mesmo tempo, talvez até se safasse com uma pena suspensa.

Mas o que se torna mais surpreendente em todos estes processos envolvendo a justiça é a forma como, numa hipotética orquestra, nunca tocam em conjunto, ou seja, nunca evoluem simultaneamente em termos mediáticos.

Só para falar nos instrumentos de sopro da tal orquestra, se já se ouviu o som do fagote do Isaltino & Sobrinho, calou-se agora para o oboé do Apito Dourado, as trompas que o Sr. Presidente mandou tocar sonora e urgentemente para o esclarecimento das Listagens de Excel devem ter entupido e o Dr. Moura, encarregado de as arranjar, ainda não voltou, e, para não deixar cair em esquecimento, ainda existe a flauta da história do Lixo de Felgueiras, que as más línguas sussurram por aí já estar rachada.

Ao contrário da repetição dos nomes das telenovelas, que se consegue atribuir inequivocamente ao argumentista, não se percebe muito bem se neste último caso se existe um maestro (ou maestros) que dirigem o ritmo da entrada dos instrumentos em cena.

Mas o cepticismo cínico de Sancho Pança não é de todo descabido: Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay (Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há).

04 fevereiro 2006

O YING E O YANG DO PSD

Será talvez o karma que faz ressurgir um novo poste, também dedicado ao jogo dos contrastes, diferente do de ontem, mas também significativo. Agora, para se falar de militância política dentro dos partidos portugueses, na sequência de um interessante artigo escrito por José Pacheco Pereira (JPP) no Público no passado dia 2 de Fevereiro.

O artigo em questão, cuja continuação está prometida para a próxima semana, faz uma descrição cruel de todos os vícios de forma que subvertem o funcionamento interno de um partido, desde a arregimentação de militantes, passando pelo pagamento das suas quotas, a viciação dos seus dados pessoais, ou uma constante permuta venal de favores.

No entanto, quando, aproveitando o e-mail que enviei a JPP, felicitando-o pelo referido artigo, lhe perguntei o que é que ele, pessoalmente, tinha feito para contrariar tal estado de coisas quando presidiu à distrital de Lisboa do PSD, aproveitei para me sentar, porque tinha a intuição que conviria esperar sentado pela resposta, para não me cansar. E não estava enganado, pelo menos até à altura que escrevo.

Nos antípodas da excelência analítica de JPP estará, por exemplo, um seu companheiro do PSD, o demissionário presidente da distrital do Porto, Marco António Costa (MAC). A sua prestação televisiva no início da semana, sustentando as causas da sua demissão numa pequena alteração dos estatutos que passa a impedir um militante do PSD de pagar as quotas de companheiros seus, tornou-se patética de tão ridícula.

As razões invocadas passaram pela dificuldade que um militante teria em pagar a impressionante quantia da quota de 1 euro mensal até chegarem ao facto preocupante do militante poder não ter cartão Multibanco para efectuar o pagamento. Uma argumentação desoladora…

O PSD pode assim ser descrito pelo contraste entre este Ying, que sabe argumentar e analisar mas que encaixa como uma luva no estereótipo do boneco de Ricardo Araújo Pereira – eles falam, falam, falam, mas não os vejo a fazer nada… – e o outro Yang, que organiza as eleições, elege os delegados, trata dos financiamentos, resolve enfim os problemas concretos mas que não consegue articular três seguidas de jeito – talvez seja por cauda disso que Luís Filipe Meneses faça figura de intelectual lá no meio…

Extrapolando do PSD para o país, há um Portugal que adora a obra feita. Mas já percebeu que só por aí não se vai lá. Há outro Portugal que só compreende a argumentação devidamente estruturada. Mas também já tomou consciência que isso não pode ser um fim em si mesmo. Terá que ser qualquer coisa a um meio caminho: um JPP que saiba fazer coisas e um MAC que tenha ética nas coisas que faz.

E, ás vezes, em circunstâncias como as que atravessamos, já é muito importante sabermos o que queremos.

03 fevereiro 2006

DESCUBRA AS 7 DIFERENÇAS

Está a cair em desuso esta rubrica na página dos passatempos dos jornais. Nunca foi do meu particular agrado, embora ainda me lembro de que em casa dos meus avós não se perdia a oportunidade de concorrer a um Concurso baseado nesse passatempo que era promovido pelo Diário Popular.

Mas o passatempo desta vez é mais (ou talvez menos) subtil e decorre da comparação das intervenções de dois distintos gestores em programas de economia para os quais foram convidados recentemente: António Carrapatoso, na SIC Notícias, ontem, e Henrique Neto, na TSF, hoje.

Não está escrito em lado algum que os gestores de mérito (como de resto, acontece em muitas outras profissões) se distingam pelo domínio da palavra, embora seja de esperar que, por detrás da fachada da forma, melhor ou pior formulada, se consiga distinguir a sustentabilidade do conteúdo do que afirmam e defendem.

E aqui parece-me inequívoco que parecem existir anos-luz de distância entre aqueles dois gestores de nomeada. Não estando de nenhuma forma em causa a capacidade de “saber fazer” de António Carrapatoso, seria de esperar que produzisse um discurso que fosse para além dos lugares comuns de pendor ideológico ultraliberal.

Descodificando o calão de Carrapatoso (da mesma forma que, num sentido distinto, se descodifica o calão de um porta-voz do Partido Comunista), o seu mais recente “rentabilizar os activos”, por exemplo, parece apenas uma forma “refrescada” de mencionar a optimização dos lucros, tão do agrado dos marxistas.

Tentar misturar a questão dos “centros de decisão” com um neologismo como “centros de competência” no debate à volta da sua localização parece esquecer, ou tentar iludir a audiência, que o seu patrão (a Vodafone) pode mandar a sua “competência” para o outro lado do mundo, enquanto procede à fusão da operadora no mercado ibérico ou no mercado mediterrânico ou no mercado latino.

Há outros tópicos cuja veemência de Carrapatoso poderia ser mais moderada sob pena de se poder expor a um certo ridículo. O uso e abuso da palavra “inovação” pode soar um pouco desajustado quando a empresa que dirige opera num mercado maduro e saturado (há 10 milhões de telemóveis) e onde as inovações têm visivelmente vindo a perder importância relativa. O mesmo vale para as considerações sobre a dinâmica das exportações quando a Vodafone é uma (grande) empresa de serviços e não propriamente conhecida pela sua vocação exportadora.

Em contraste, Henrique Neto, beneficiando talvez do facto do entrevistador ser Perez Metelo, falou mais como cidadão que é acessoriamente gestor de uma empresa e também militante do PS. Alertou para uma maior contenção no anúncio dos diversos investimentos que têm vindo a ser sucessivamente anunciados e cuja repercussão económica só se fará sentir a vários anos de distância. E que gastá-los politicamente já no curto prazo pode ser depois contraproducente.

Alertou também para uma maior sobriedade no seu anúncio, publicitando também as contrapartidas de que os investidores beneficiaram. Para que os acordos se tornem mais transparentes.

Finalmente, pronunciando-se sobre a evolução do funcionamento orgânico do governo e do partido, estranhou o recurso por parte de José Sócrates à concentração na sua pessoa de responsabilidades anteriormente atribuídas a outros, perguntando-se se a razão para isso será a falta de confiança ou a ausência de colaboradores com mérito.

Deu para ver as 7 diferenças?